50 Anos de Carreira – 55, em 2016

[Publiquei este post em 13/7/2011 no meu blog Liberal Space (Liberal Space). Transcrevo-o aqui por ser de certo modo relevante ao meu primeiro post neste “Gateway”: “Por que Escrever? Por que Blogar?”].

Todo mundo anda fazendo 50 anos de carreira ultimamente… O Erasmo Carlos, o Tremendão, foi o último, no fim de Junho deste ano. Mas o Roberto Carlos fez antes dele, em 2009. O Renato Aragão, por sua vez, emplacou 50 de palhaçadas em 2010. O Chico Buarque também andou fazendo, se bem me lembro. E assim vai. Eu já era gente bem crescidinha quando eles todos começaram.

É um exercício interessante tentar definir o início da carreira da gente. Será que a gente tem consciência, na hora que está fazendo algo, que aquilo que a gente está fazendo vai ser o primeiro passo de uma longa carreira? Ou será que a gente só define o início da carreira em retrospectiva, depois que descobriu o que a gente realmente fez na vida?

Ao ver tanta gente mais ou menos da minha idade comemorando 50 anos de carreira, resolvi pensar sobre a minha carreira. E de pronto me envolvi em grandes dificuldades.

O grande problema que tive de enfrentar foi: qual é (foi, tem sido) a minha carreira? É possível dizer que seja a de Professor Universitário. Mas se é isso, quando a comecei? No dia em que dei minha primeira aula de Lógica na California State University at Hayward (hoje at East Bay), em Hayward, CA, EUA, no Outono americano de Setembro de 1972? Ou será que foi quando recebi a carta me oferecendo o emprego? Além disso, não gostei da ideia porque, se fosse isso, eu só iria comemorar 50 anos de carreira, querendo Deus, em 2022, daqui a onze longos anos. E se eu chegar a 2022, será que chegarei no exercício dessa carreira, para que possa comemorar 50 anos dela?

Pensei um pouco mais e resolvi resolver o problema de vez. Determinei que a minha carreira é a de Escritor – e decretei que ela começou em 1961, quando produzi meu primeiro trabalho escrito, enquanto cursava o primeiro ano do Curso Clássico do Instituto “José Manuel da Conceição” (JMC), em Jandira, SP. O trabalho teve o título “Pobre Muda de Dono mas não Muda de Sorte: Inspirado nas Fábulas de Esopo e de Fedro”, e foi escrito para a disciplina Língua Portuguesa, ministrada por meu caro mestre, Rev. Joaquim Machado. Eu ainda tenho esse trabalho, manuscrito, passado a limpo e em rascunho (este a lápis), redigido em folhas de caderno, com data de 9 de Abril de 1961.

Antes desse trabalho creio que só escrevi cartas para a minha avó Angelina, para a minha Tia Alice e para os meus primos Anello e Márcia. Lembro-me também de ter escrito umas bobagenzinhas adolescentes nos Livros de Recordação de minhas primas Irene e Idília. Creio que elas me pediram para escrever um pouco por condescendência, pois eu era pouca coisa mais do que um pirralho na época e não merecia a honra… Além disso era primo, e o tal livro era destinado a avaliar os méritos literários (e a caligrafia, coisa importante então) dos diversos pretendentes… Principalmente a Irene tinha uma fila deles. Esnobou a todos e quase ficou solteirona…

Assim, fica para todo sempre decidido que o meu primeiro trabalho para o curso do “Machadinho” (era assim que nos referíamos ao professor, quando a uma distância confortável) foi o início da minha carreira de escritor, em 9 de Abril de 1961. Eu tinha dezessete anos e meio.

Assim, também estou comemorando este ano 50 (55 em 2016) anos de carreira. Foi nesse abençoado ano de 1961 que eu fui estudar no JMC e comecei minha vida de adulto – e minha vida profissional, pois carreira é um negócio pelo menos em parte profissional. Foi nesse ano que também preguei meu primeiro sermão – mas essa foi uma outra carreira que abandonei há muito tempo. Meus sermões, agora, são todos por escrito, aqui neste blog… E foi nesse ano que, no auge dos meus 17 anos, , e mais ou menos na mesma data, eu me apaixonei seriamente pela primeira vez, pela Reaci Camargo, de Fartura. (O Rev. Elizeu Cremm, hoje meu pastor, então apenas meu amigo e colega, também se apaixonou, ele pela Marly, que hoje é esposa dele. No caso deles, a coisa durou. No meu caso, não passou do primeiro ano na escola).

Depois desse primeiro trabalho, escrevi vários outros, em especial para o Rev. Renato Fiuza Telles (que chamávamos de “Renatinho”), meu professor de Literatura Portuguesa e Brasileira. Um deles, “As Cartas de Amor de Soror Mariana Alcoforado para o Cavaleiro de Chamilly”, me deu muito trabalho, pois precisei ir três vezes até a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo, para conseguir ler o livrinho inteiro com as cartas apaixonadas da freirinha portuguesa que se perdeu de amor por um oficial francês. O trabalho me marcou tanto que hoje tenho duas cópias do livrinho, uma antiga, igual à que havia na biblioteca, a outra editada recentemente e vendida, por incrível que pareça, numa banca de jornal da Av. Paulista, em frente ao Conjunto Nacional. Outros trabalhos: A Carta de Achamento de Pero Vaz de Caminha (em que ele pede ao Rei um emprego para o genro), e miniensaios sobre Damião de Góis e sobre Oliveira Martins.

No curso de Literatura Brasileira – que também era ministrado pelo Renatinho – escrevi sobre Casemiro de Abreu (“O Poeta do Exílio”) e sobre Machado de Assis, e elaborei um sofisticado trabalho (para alguém de 18 anos) sobre Dom Casmurro de Machado de Assis: “Capitu, Culpada ou Inocente?” O título parecia original naquela época. Hoje é batido.

No curso de Redação em Língua Portuguesa, ministrado, nos dois semestres, em 1963, pelo Rev. Joaquim Machado, que era pai da minha amiga Dorotéa Machado Kerr, organista e maestrina de fama internacional (já tocou até para o Papa!), escrevi um trabalho sobre “Brasília, Capital da Esperança” (hoje reconheço aí um chavão), a propósito da inauguração da (então) nova capital… Esse trabalho foi submetido a um concurso de melhor redação (que, infelizmente, não ganhei – não me lembro quem venceu). Para avaliação pela banca, assinei-o com um pseudônimo: Dias de Caxuque.

Meus dotes literários e oratórios foram, quero crer, apreciados pelos meus pares, pois fui escolhido por eles para ser o Orador da Turma, quando de nossa formatura, em Novembro de 1963 – mês da morte de John Fitzgerald Kennedy. (No dia em que ele morreu, 22 de Novembro, nós, os formandos do Clássico e do Ginásio, estávamos em nossa Viagem de Formatura, naquele dia em uma praia em Florianópolis. Fomos levados por um ônibus da Viação São João da Boa Vista – São Paulo, dirigido por um motorista que era meu xará).

Em homenagem aos meus 50 anos de carreira, resolvi compilar uma lista de tudo o que já escrevi e, de alguma forma, divulguei. Incluí na lista trabalhos de escola, como os que acabei de mencionar (e outros) e os escritos na Graduação, no Mestrado e no Doutorado. Tenho-os todos. Incluí, naturalmente, os trabalhos publicados e os de tradução, bem como os divulgados apenas pela Internet – inclusos aí os artigos do meu blog principal, Liberal Space, onde escrevo agora, que já chegam, com este aqui, a 735. Ao todo, chegaram a 973 unidades. Se eu me cuidar bem, chego à marca do Pelé: mil gols literários…

Concluí, ao analisar os números, que, apesar de minha idade quase vetusta, a Internet liberou os meus dotes de escritor e me deixou soltinho, livre para escrever e até mesmo criar um certo estilo…

Como ninguém mais, além de mim, iria se lembrar de tudo isso, resolvi me prestar essa merecida homenagem e comemorar, em 2011, o meu laborioso e produtivo ano de 1961 e os meus 50 (55) anos de carreira como escritor.

Em São Paulo, 13 de Julho de 2011

Transcrito aqui em Salto, 31 de Outubro de 2015

Editado aqui em Salto, 1 de Janeiro de 2016



Categories: Autobio, History, Writing

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