O Papel dos Sonhos e da Invenção: Uma Discussão da Realidade e da Ficção, da Verdade e da Mentira

[Em duas semanas fará um ano que escrevi este post. Ele se encaixa bem na temática com que iniciei este novo blog.]

Manoel de Barros morreu esta semana (13/11/14), aos 97 anos. Pipocaram na imprensa diversas frases lindas e inspiradoras dele, embora à primeira vista meio enigmáticas, das quais pinço duas:

“Só 10% do que falo é mentira, o resto eu invento.”

“Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.”

A primeira frase me faz lembrar de uma frase do grande Voltaire:

“Nunca contei nenhuma mentira. Mas já inventei muitas verdades”.

A segunda me faz lembrar de uma frase da grande Ayn Rand:

“Há na natureza coisas tão lindas que parecem ser artificiais”.

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Frases como essas são tão geniais que parece impossível analisa-las sem que elas percam sua beleza e a análise pareça trivial e sem sentido. Mas, sendo filósofo, não consigo resistir. E vou me guiar, em parte, pelo mestre Mario Vargas Llosa, em seu livro La Verdad de las Mentiras (primeira edição: 1990; edição expandida: 2002). Ele, por sua vez, foi, como eu também, parcialmente inspirado pela obra Ayn Rand (passim).

Mas tenho tido experiências que me mostraram, ao longo dos últimos quase 50 anos, que é preciso procurar a verdade nas mentiras.

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Nos meses de Março e Abril de 1966 escrevi, quanto tinha meros 22 anos, uma série de artigos provocada por um sermão sobre o livro de Jonas do Velho Testamento, que acabou provocando uma crise no seminário que eu então frequentava e a expulsão de cinco professores (inclusive o Reitor) e 39 alunos.

O sermão foi um sermão de prova pregado por meu colega Floramonte Gonçalves. Ele interpretou o livro de Jonas como se fosse, não literatura, mas história. . . Para ele, o protagonista era de fato Jonas, um profeta israelita, que nasceu, fez (entre outras coisas) aquilo que o livro descreve, e morreu. Uma pessoa real, em outras palavras. E as ações e acontecimentos que o livro de Jonas descreve devem ser interpretados literalmente, sem tirar nem pôr, nos menores detalhes. Jonas recebeu uma ordem de Deus, tentou não executa-la fugindo para um lugar diferente daquele para o qual Deus o havia enviado, o navio em que estava naufragou, Jonas foi engolido inteiro por uma baleia (ou um peixe grande, não faz grande diferença), passou três dias na barriga do peixe, e, ao final do terceiro dia, foi vomitado na praia de Nínive, local para onde havia sido enviado por Deus.

Quando o livro de Jonas é interpretado literalmente, como história, não como literatura, o que sobressaem são os milagres, em especial os alegados fatos de que ele foi engolido inteiro por um peixe, passou três dias vivos na barriga do peixe, e foi vomitado pelo peixe exatamente na praia da localidade para a qual deveria ter ido mas da qual tentara (em vão fugir).

Interpretado livro literalmente, a lição teológica que sobressai é que não adianta tentar fugir de Deus e tentar não cumprir as suas ordens. Essas tentativas humanas de enfrentar a Deus são todas vãs e Deus, com sua vontade soberana, sempre prevalece.

Minhas tese, nos meus artigos, era de que o livro deveria ser interpretado como literatura, como poema — na verdade, como uma parábola. Eis o que disse no primeiro artigo, de 17/3/1966, em O CAOS em Revista:

“O livro de Jonas é um poema didático, podemos mesmo dizer que um poema parabólico, escrito para mostrar que Deus se compadece mesmo dos ímpios quando eles se arrependem (3:10; 4:10). Este poema foi escrito com uma moral dirigida contra a intolerância dos Judeus e sua arrogância para com as nações pagãs, resultantes da doutrina da eleição mal interpretada em um sentido particularista.”

Interpretado o livro de Jonas como literatura, não sobressaem nele nem os milagres nem a doutrina de que a vontade soberana de Deus inevitavelmente se impõe à nossa vontade, de modo que, quer queiramos, quer não, é a vontade de Deus que é feita, tanto na Terra como nos Céus. Se fosse assim, nem precisaríamos orar, no “Pai Nosso”, “seja feita a tua vontade, assim na Terra como nos Céus”. Ela seria sempre feita, quer orássemos, quer não… Interpretado o livro como literatura, sobressaem, de um lado, o amor, a misericórdia, o compadecimento de Deus, mesmo para com os supostamente não-escolhidos, e, de outro lado, a condenação divina à estreiteza da visão dos judeus que, considerando-se nação eleita, desprezavam os gentios e a eles dirigiam sua intolerância…

Interpretado literalmente (i.e., como história), o livro de Jonas pende para o calvinismo mais radical; interpretado literariamente (i.e., como parábola), o livro de Jonas pende para o tipo de arminianismo que enfatiza o caráter de Deus como amor inclusivo…

Em suma (e aqui revelo algumas preferencias hermenêuticas e teológicas minhas): interpretado como parábola, isto é, como ficção, como invenção, como “mentira”, o livro contém mais verdades, e verdades mais importantes, do que quando interpretado como verdade histórica literal…

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A realidade raramente é exatamente como a desejamos.

Nossa vida, como ela de fato é, por melhor que seja, raramente é a vida que, no nosso mais profundo, gostaríamos de ter. Sempre falta — ou sobra — alguma coisa. Falta dinheiro, falta tempo, sobram obrigações, sobram doenças. . . Por isso, o ser humano recria a realidade no plano virtual, no plano da ficção, para que a realidade, agora inventada, incorpore seus sonhos, seus desejos, seus quereres, seus valores, seus ideais. . . Na realidade, nossos planos muitas vezes não são executados, nossos amores são frustrados e não dão certo, não convivemos bem com alguns membros de nossa família, no todo o mal parece prevalecer sobre o bem, os injustos sobre os justos. Na ficção podemos recriar a realidade de acordo com nossos sonhos, desejos, quereres, valores e ideais. Nela os planos ao final são executados como havia sido planejado, os amores, mesmo que tenham um momento inicial difícil, dão certo e os amantes vivem seus amores para sempre, nem a morte tendo o poder de totalmente os separar. . . Nela, se a morte sobrevier a um dos amantes, o espírito dele sobrevive e se comunica com o que sobreviveu. Haja vista Ghost. Como diz Mario Vargas Llosa (Jorge Mario Pedro Vargas Llosa):

“Los hombres no están contentos con su suerte, y casi todos — ricos o pobres, geniales o mediocres, célebres u oscuros – quisieran una vida distinta de la que viven. Para aplacar – tramposamente – ese apetite nacieron las ficciones. Ellas se escriben y se leen para que los seres humanos tengan las vidas que no se resignan a no tener. En el embrión de toda novela bulle una inconformidad, late un deseo insatisfecho.” [p. 16; ênfase acrescentada]

“A ficção existe para que os seres humanos tenham as vidas que não se resignam a não ter.” Frase fantástica.

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A arte existe porque a vida não basta“, complementou e generalizou nosso grande poeta Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira), ao completar seus 80 anos.

(Vide a entrevista: http://g1.globo.com/pop-arte/flip/noticia/2010/08/arte-existe-porque-vida-nao-basta-diz-ferreira-gullar.html; ênfase acrescentada.)

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Eis o que Ayn Rand (Alyssa Zinovievna Rosenbaum) disse e que influenciou Vargas Llosa:

“The most important principle of the esthetics of literature was formulated by Aristotle, who said that fiction is of greater philosophical importance than history, because ‘history represents things as they are, while fiction represents them as they might be and ought to be.’

This applies to all forms of literature and most particularly to a form that did not come into existence until twenty-three centuries later: the novel.

A novel is a long, fictional story about human beings and the events of their lives. The four essential attributes of a novel are: Theme—Plot—Characterization—Style.

These are attributes, not separable parts. They can be isolated conceptually for purposes of study, but one must always remember that they are interrelated and that a novel is their sum. (If it is a good novel, it is an indivisible sum.)

These four attributes pertain to all forms of literature, i.e., of fiction, with one exception. They pertain to novels, plays, scenarios, librettos, short stories. The single exception is poems. A poem does not have to tell a story; its basic attributes are theme and style.

A novel is the major literary form—in respect to its scope, its inexhaustible potentiality, its almost unlimited freedom (including the freedom from physical limitations of the kind that restrict a stage play) and, most importantly, in respect to the fact that a novel is a purely literary form of art which does not require the intermediary of the performing arts to achieve its ultimate effect.” (“Basic Principles of Literature”, in The Romantic Manifesto, p. 80; ênfase acrescentada).

“A história representa as coisas como elas são, enquanto a ficção as representam como elas poderiam e deveriam ser”.

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A verdade é, em geral, entendida como correspondência entre o que pensamos e a realidade. O que dizemos acerca da realidade, como a descrevemos, como explicamos a sua operação, tudo isso é verdade se a realidade for como dizemos, como a descrevemos, como a explicamos.

Os cientistas (entre eles os historiadores de hoje) descrevem e explicam a realidade, aquilo que existe e acontece.

Os criativos imaginam coisas e estados de coisas que não existem e acontecem e se perguntam: por que não? E inventam novas realidades, que não são menos realidades porque foram criadas pela mente humana e satisfazem uma necessidade imperiosa de mostrar que um outro mundo é possível.

Aquilo que é inventado não é necessariamente mentira (embora seja possível inventar mentiras — na realidade, mentiras são sempre invenções). Mas muito daquilo que se inventa é verdade – algumas vezes mais verdadeiro do que as verdades não inventadas.

Por que não?

Foi por isso que Manoel de Souza disse que 10% do que ele falava era mentira, mas que o resto não era mentira: era invenção sua — era literatura, era poesia!

Foi por isso que Voltaire, antes dele, disse que não tinha o hábito de mentir, mas tinha, isto sim, o hábito de inventar verdades (muitas vezes inconvenientes).

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As verdades contidas nas “mentiras” da ficção muitas vezes incomodam. A escola em que Mario Vargas Llosa estudou o processou por causa de um de seus romances. Sua primeira mulher tentou se vingar dele pelo que havia num de seus romances escrevendo outro romance…

Graham Greene, um dos maiores romancistas ingleses, chegou a ser processado quando o marido de uma mulher de uma das histórias que ele escreveu (End of the Affair) leu o livro…

A ficção é sempre mentira, não é nunca verdade? O inventado e o virtual estão fora realidade? Pobre de quem pensa isso.

Em São Paulo, 15 de Novembro de 2014.

Transcrito aqui em Salto, 31 de Outubro de 2015.

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Categories: Blogging, History, Lies, Literature, Media, Truth

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