E se Eu Tivesse Morrido em 2002?

No dia 29 de agosto deste ano (2017) morreu um amigo meu, de 37 anos, em circunstâncias inesperadas e chocantes. Hoje de madrugada (25 de setembro de 2017), menos de um mês depois, morreu minha prima de segundo grau, de 69 anos, também de forma totalmente inesperada. Há cerca de dez dias ela foi internada para fazer uma operação na coluna, nada extremamente complicado, mas contraiu uma infecção, que se generalizou, e a matou em poucos dias.

Em 2002, no dia 1o de março, eu tive um infarto agudo do miocárdio, que podia ter me matado, e quase o fez, mas eu escapei. Eu tinha, na ocasião, 58 anos e meio.

Hoje, enquanto ia para o velório e o enterro da minha prima, e, depois, voltava, dirigindo meu velho mas confiável Corollinha 2001, que tem um ano a mais do que o meu infarto, pus-me a pensar. Se eu tivesse morrido, quinze anos e meio atrás, o que eu teria perdido na minha vida?

Concluí que muita coisa. E tudo coisa muito importante.

Primeiro e mais importante, eu teria morrido sem conhecer a Paloma, sem ter vivido esse amor bonito e gostoso que nós vivemos. Só viemos a nos conhecer no dia 26 de agosto de 2004, quase dois anos e meio depois do meu infarto, por obra e graça da Mary Grace Andrioli. E só começamos a realmente conversar um com o outro, primeiro face-a-face, depois pelo Messenger, a partir de Maio do ano seguinte (2005), mercê da nossa amiga Ana Ralston, da Microsoft. Tivemos vários anjos da guarda exercendo, meio sem saber, a função de Cupido.

Já me passou pela cabeça que, talvez, a Providência (ou o Destino) me tenha preservado em 2002 para que eu pudesse, finalmente, conhecer a Paloma em 2004, ficar amigo dela em 2005, trabalhar com ela a partir de Janeiro de 2008 e passar a viver com ela a partir de 6 de Setembro de 2008, um dia antes de meu sexagésimo quinto aniversário. Parecia um relacionamento fadado a não dar certo. Ela tinha um pouquinho mais do que a metade de minha idade. No ano seguinte, em 2009, completamos juntos, numa festa bonita, no nosso sítio, cem anos: 66 meus e 34 dela. Mas, contra os prognósticos de muitos, o relacionamento tem dado certo, muito mais do que eu imaginei. Este ano já completamos, juntos, 116 anos, e o relacionamento, agora multiplamente oficializado (contrato particular de união estável, escritura pública de união estável, conversão em casamento da união estável, celebração religiosa do casamento oficializado no plano civil…). Se a gente começou a viver junto sem nenhum papel, hoje temos papel até demais…

Nada disso eu teria vivido se tivesse sucumbido no dia 1o de Março de 2002.

Antes de passar ao segundo item, deixem-me acrescentar alguma evidência para minha suspeita de que a Providência (ou o Destino) tenha mexido alguns pauzinhos para fazer com que a Paloma e eu nos encontrássemos.

Nos idos dos anos 50 e 60, quando a Paloma estava ainda muito longe de nascer, eu conheci o lado paterno da família da Paloma, que frequentava a Igreja Presbiteriana do Parque das Nações, em Santo André, da qual meu pai era pastor. A avó paterna dela, Dona Adair, era organista e regente do coral da igreja, e o pai e os tios (três tias e um tio) da Paloma frequentavam a igreja. A tia mais velha dela, Albernice, é um mês mais velha do que eu: nasceu em 9 de agosto, e eu em 7 de setembro, em 1943. Sou cinco anos e meio mais velho do que o pai dela, que eu certamente conheci naquela época, mas não me lembro (ele era muito criança para ser meu amigo…). Meu pai fez o casamento da Albernice com o meu amigo Gideão, membro da igreja. Fez também o casamento do tio da Paloma, Abelardo (conhecido como Júnior), com a Miriam filha de outro amigo meu, o Rubens, irmão do Gideão… Houve outros casamentos de gente da família da Paloma que foram feitos pelo meu pai – além de batismos e profissões de fé. Ele foi, por boa parte do tempo, o pastor da família dela (avó paterna, pai e tios, irmãos do pai).

Hoje, no enterro, encontrei as três tias da Paloma, irmãs do pai dela: a Albernice, a Josira e a Abelair – oficial e legalmente, minhas tias, também, mas é difícil trata-las assim. A Iara d’Ávila Le Du, que faleceu, era filha do Rev. Jacques d’Ávila, que era pastor da Igreja Metodista de Santo André enquanto meu pai era pastor da Igreja Presbiteriana. Meu pai e o pai da Iara foram amigos, trocavam púlpito com frequência.

Há outras “coincidências”… Uma amiga nossa (dela e minha,  sem que o soubéssemos), Luciana Allan, deu um curso na Escola do Futuro da USP, que a Paloma fez, e distribuiu aos alunos, e, portanto, a ela um texto sobre a administração do tempo que eu havia escrito em 1990 bem como cinco textos do Rubem Alves que eu havia repassado à Luciana em um treinamento que dei, e do qual ela participou, no Instituto Ayrton Senna, com o qual ambos colaborávamos. Esses textos eram sobre a Escola da Ponte e haviam sido publicados no Correio Popular de Campinas. Depois eles vieram a se tornar o livro A Escola com que Sempre Sonhei Sem Imaginar que Pudesse Existir [1].  A Paloma se apaixonou primeiro pela Escola da Ponte – mas, indiretamente, fui eu quem disponibilizou os textos que lhe revelaram a escola que se tornou a escola também dos sonhos dela.

O Rubem Alves teve outra participação importante no nosso relacionamento (o relacionamento entre a Paloma e mim). Em Julho de 2008, enquanto conversávamos pelo Messenger, a conversa se encaminhou para outro livro do Rubem Alves, A Menina e o Pássaro Encantado. É um lindo e profundo livro (embora escrito para crianças) – que, coincidentemente, eu havia traduzido para o Inglês algum tempo antes, para que minha filha mais velha, que lia mal o Português, pudesse entender o livro cuja cópia o Rubem lhe deu de presente. Dei à tradução o título de The Little Girl and the Enchanted Bird. O Rubem a distribuiu amplamente nos Estados Unidos. Foi na discussão desse livro que descobrimos, ou que admitimos um para o outro, não tanto com palavras, mas mais com entrelinhas, que estávamos apaixonados um pelo outro. Por isso, o livro tem um significado especial para nós.

Tudo isso parece ter sido cuidadosamente “costurado” para que a gente se aproximasse, se interessasse um pelo outro, se apaixonasse e tomasse a decisão difícil de ficar um com o outro. Os dois estávamos ainda casados com outras pessoas: ela por quase 14 anos, eu por quase 34 anos… Para alguns pode parecer blasfêmia sugerir, numa situação assim, que a Providência tivesse alguma coisa que ver com isso, mas que tem coincidência demais nessa história, isso tem…

Em segundo lugar e também importante, eu não teria conhecido meus netos se tivesse morrido no dia do infarto (1/3/2002) ou logo depois. Fiquei uma semana na UTI do hospital e quatro dias adicionais em quarto normal. No dia em que tive alta do hospital (11/3/2002) nasceu a minha primeira neta, Olivia, filha de minha filha mais velha, Andrea. Depois, em 9/9/2003, veio o Guilherme, filho de minha outra filha, Patrícia. Ele, entretanto, morreu uma semana depois de nascer prematuro de seis meses. Depois veio o irmão dele, Marcelo, em 6/4/2005, cuja linda foto eu postei hoje no Facebook, e, dois meses e meio depois, a Madeline, em 24/6/2005, segunda filha da Andrea. Eu teria morrido muito mais pobre, afetivamente, do que hoje sou, se minha vida tivesse sido ceifada no início de março de 2002…

Em terceiro lugar e também importante, eu não teria voltado para a igreja, da qual havia me afastado em 1970, se o meu infarto houvesse me levado embora… A Paloma foi essencial no processo, e meu amigo de 56 anos, e colega no Instituto JMC, (rev.) Elizeu Rodrigues Cremm, tornou viável o meu retorno, facilitando o processo. Sou extremamente grato a ambos.

E, agora no plano profissional, se eu não tivesse voltado para a igreja, não teria me tornado, em agosto de 2014, Professor de Teologia Histórica (História da Igreja e História do Pensamento Cristão) na Faculdade de Teologia de São Paulo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (FATIPI). Para que o significado disso para mim fique evidente, basta dizer que os oito anos de curso superior e pós-graduação em que eu cursei Teologia, História das Ideias e Filosofia, tinham o objetivo de me preparar para lecionar exatamente o que eu, finalmente, exatos quarenta e dois anos depois de concluir meu doutorado, vim a lecionar… Fiquei no cargo apenas três anos, tendo me desligado no final de Junho deste ano de 2017, mas esses três anos foram suficientes para que eu encerrasse minha carreira de 38 anos como professor universitário fazendo exatamente aquilo para o qual havia me preparado. Não planejei isso – mas aconteceu. E eu não teria a voltado a lidar com Teologia Histórica, e escrito as coisas que já escrevi e ainda continuo a escrever, se tivesse morrido em março de 2002.

Há mais uma coisa, a quarta – como as demais, também importante, mas, agora, no plano intelectual.

Hoje faz quase dezoito anos que conheci Antonio Carlos Gomes da Costa, um dos maiores educadores não acadêmicos que o Brasil já teve. Foi em 2000, no Instituto Ayrton Senna. Antonio Carlos foi a presença oculta por detrás da definição da natureza do Instituto Ayrton Senna e de tantos outros programas sociais na área da educação. Foi Diretor da FEBEM-MG e foi o espírito condutor do Estatuto da Criança e do Adolescente. Foi ele que trouxe para o Brasil a noção de Educação como Desenvolvimento Humano, desenvolvida no seio da Organização das Nações Unidas, em especial do UNDP (United Nations Development Program), pelos economistas Mahbub ul Haq e Amartya Sem, o primeiro paquistanês e segundo indiano – e Prêmio Nobel de Economia! Em conversa com ele assimilei a essência do conceito, que se encaixou como uma luva em um material que vinha elaborando, e que aprimorei posteriormente lendo os livros dos dois autores. Infelizmente, o Antonio Carlos morreu, prematuramente, de uma morte tão besta! Caiu no banheiro e bateu a cabeça. Como é frágil a nossa vida e imprevisível o seu fim!

Mas esse conceito de educação como equivalente ao processo de desenvolvimento humano me levou, no devido tempo, a considerar a definição e implementação de um projeto de vida como elemento central e essencial da educação.

Em 2002 eu estava no início desse processo. Estava quase terminando um livro que, em agosto, entreguei à Editora SENAC, como se pronto estivesse (eu acreditava que estava) – apenas para, no final do ano, retira-lo de lá para modifica-lo, em função da evolução do meu entendimento da educação como processo de desenvolvimento humano – e de outros elementos que tomei emprestado do Rubem Alves (que foi meu amigo desde 1961 até sua morte). Se eu tivesse morrido no início de 2002, nada disso teria acontecido. O livro ainda está comigo, inacabado. Preciso tomar cuidado para não ser pego de surpresa, como certamente foi o caso de minha prima hoje, sem terminar algo que considero extremamente importante.

O leitor entende por que todas essas mortes me fazem pensar e me deixam preocupado? Ganhei uma extensão no meu prazo de validade em 2002. Mas não fiquei sabendo a duração envolvida nessa extensão. Minha prima tinha 69 anos e sei foi. Cinco a menos do que eu.

Em Salto, 25 de Setembro de 2017.

[1] Texto em .pdf em:  http://servicos.educacao.rs.gov.br/dados/edcampo_texto_rubem_alves_a_escola_com_que_—_existir.pdf.

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Categories: Autobio

1 reply

  1. Talvez (talvez) tenha faltado alguma menção às famosas listas de discussão (por exemplo a LivreMente) que penso, tenham tido algum peso nas decisões que tomou.

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