Trindades

Cada um deveria ter uma Trindade – uma Trindade que fosse só sua, de mais ninguém. Não precisaria ser uma Trindade de Deuses, do tipo Pai, Filho e Espírito, certamente a mais famosa e conhecida de todas elas, mencionada pelo menos todo domingo na bênção — o Pai distribuindo o amor, o Filho aspergindo a graça e o Espírito derramando suas consolações.

Não precisa ser desse naipe. Pode ser uma Trindade mais mixuruca, mais chinfrim, mais … mais o quê? Preciso de um terceiro membro nessa Trindade de coisas mixurucas e chinfrins. Bagatela? Vai bagatela.

Minha primeira Trindade (nem de longe bagatela, au contraire!) foi a partir de 1943, ano em que nasci. Consistia de minha mãe, meu pai e, por falta de algo melhor, eu: dad, mom & me. Três anos depois, no final de 1946, chegou o meu irmão Flávio, e eu acabei mudando minha Trindade. Modestamente, saí dela, comme il faudrait. Não fica bem a gente ser, por mais tempo do que é certo, parte da própria Trindade. Em 1952, quando eu tinha oito anos, a gente se mudou de Maringá para Santo André, e minha Trindade se recompôs e passou a ser  meu pai, minha mãe e meu irmão (até hoje, o único): dad, mom & fla.

Na verdade, por um bom tempo, tive duas Trindades: a primeira, revelada, meu pai, minha mãe e meu irmão; a segunda, meio que in pectore, para que eu não fosse considerado politeísta, Poy, De Sordi e Mauro, o grande trio que era o último reduto do grande SPFC, campeão paulista de 1953 e de 1957, o time do coração, que, mesmo nos piores momentos, como agora, está sempre lá, num cantinho do coração… mesmo quando eu o chamo dos piores nomes!

Logo, em 1957, a primeira Trindade dessas duas deixou de ser Trindade e passou a ser Quaternidade e, depois, Quinquenidade (?), com a chegada de minhas irmãs Priscila e Eliane, pri e ane, em 1957 e 1959, respectivamente. Mas por mais rica que ela houvesse se tornado, ninguém adora uma Quinquenidade, não é verdade?

Quando eu fico sozinho aqui no sítio — sozinho, sozinho, na verdade, nunca fico, porque tenho aqui comigo meus livros, meus melhores amigos, desde sempre — eu acabo recebendo a visita de uma ou outra Trindade: esta, de hoje, uma Trindade frequente, composta de conceitos, todos eles meio nostálgicos: macambúzio, sorumbático e ensimesmado.

A Trindade de hoje, porém, é mais sofisticada: é uma Trindade de Trindades — todas do mesmo tipo. Uma nonidade ou, quem sabe, novidade, tem nove elementos.

Além da já mencionada, a mais caprichada, macambúzio, sorumbático e ensimesmado, há duas outras: melancólico, tristonho e taciturno, e casmurro, carrancudo e mal-humorado.

Talvez seja por não ter com quem falar, ou, pelo menos, a quem ouvir (quando estou sozinho aqui em casa nem uso meu aparelhinho de audição – pra quê?), eu começo a ouvir a mim mesmo e a falar com mim mesmo. Fico praticando algo como o triálogo eterno, que, desde antes da criação do mundo, segundo os calvinistas clássicos mais conservadores, a Santíssima Trindade mantém com, ou em si, mesma (ensimesmada). Se me perdoam a vulgaridade, algo como uma triangulação, nos bons tempos, entre Pelé (o pai), Coutinho (o filho) e Pagão (o espírito — pagão, sendo pagão, deveria ter ficado de fora: dentro, deveria ter ficado contente em ser a terceira pessoa dessa Trindade, pois deu sorte). Mesmo sendo torcedor fanático do SPFC, confesso ter cometido certa heresia e prestado meus respeitos a essa Trindade alvinegra. Vai que… 

Já escrevi três vezes no Facebook sobre isso. Em 11 de Setembro de 2014, dia do Nine Eleven daquele ano sombrio em que a Dilma levou a eleição com mentiras criminosas que acabaram por derruba-la; em 15 de Agosto de 2017; e, logo depois, em 20 de Setembro de 2017.

Fiquem tranquilos, que passa. Namoro meus livros um pouco, ouço umas músicas caipiras de raiz, como a que acabei de compartilhar, e, quando percebo, voltei ao normal. É verdade que meu normal é meio abaixo da média, não muito esfuziante e jubiloso — rara vez arrebatador. Taí mais uma Trindade, essa um pouco mais nobre: esfuziante, jubiloso e arrebatador. Tem gente que gosta.

Para facilitar a vida do leitor, consultei o Houaiss sobre minha principal Trindade de hoje. Aqui vai:

Sorumbático: que é sombrio, que nunca é muito alegre

Macambúzio: que está entristecido, que prefere guardar silêncio

Ensimesmado: que fica recolhido, voltado para dentro de si mesmo

Em Tempo: 

Lembrei-me de uma outra Trindade, esta tornada famosa por Billie Holiday: me, myself, and I. Ayn Rand iria curtir essa Trindade…

Em Salto, 5 de Junho de 2019



Categories: Autobio, Autobiography

2 replies

  1. Amo você… ❤️

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