Lutero: O Pai da Reforma Protestante

Em comemoração aos 503 anos da Reforma Protestante.

Com todo o respeito aos seguidores dos demais reformadores, MARTINHO LUTERO é o nome mais importante das REFORMAS RELIGIOSAS, que, no século 16, produziram o Protestantismo, como uma terceira grande corrente dentro da IGREJA CRISTÃ. O Protestantismo surge ao lado do Catolicismo Ocidental, de vertente originalmente latina, com sede em Roma, e da Ortodoxia Oriental, de vertente originalmente grega, com várias sedes no mundo oriental: Bizâncio (depois nomeada Constantinopla, hoje Istambul), Alexandria, Antioquia e, naturalmente, Jerusalém, como sede hors concours. A Reforma Protestante tem também suas línguas e sedes: o alemão (com Lutero, na alemã Wittenberg), o francês (com Calvino, na suíça Genebra) e o inglês (com os reformadores ingleses e escoceses, nas britânicas Londres, Oxford, Cambridge, e Edinburgo).

Martinho Lutero, que é o foco deste artiguete, teve antecessores, no século 14 e começo do 15, principalmente John Wycliffe (ca.1320-1384), na Inglaterra, e Jan Huss (ca.1369-1415), na Morávia (hoje na República Tcheca), por exemplo. Mas embora eles tenham produzido os chamados Lolardismo e Hussismo, os movimentos originados por Wycliffe e Hus não incendiaram o coração da Europa como o fez o movimento de Lutero — até porque a Inglaterra e a Morávia não ficavam no coração da Europa. . .

Lutero (1483-1546), que operou a partir de Wittenberg, na Saxônia, na Alemanha (ainda não unificada, a não ser pelos limites do Sacro Império Romano no Ocidente, que a essas alturas era germânico, embora tenha começado como franco), teve alguns concorrentes, na Europa Central, mais ou menos na mesma época, como Martinho Bucer (1491-1551), em Estrasburgo, na divisa entre a França e a Alemanha, Ulrico Zwinglio (1484-1531), em Zurique, na Suíça Alemã (ao Norte), e João Calvino (1509-1564), em Genebra, na Suíça Francesa (ao Sudoeste).

Com antecessores e concorrentes desse nível, por que eu, mesmo não sendo luterano, considero Lutero o Pai da Reforma Protestante — e não apenas o Pai do Luteranismo? E por que considero que 31.10.1517, data em que, supostamente, Lutero pregou as suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo, em Wittenberg, marca o início da Reforma Protestante, e não apenas da Reforma Luterana?

Darei quatro razões:

Em primeiro lugar, Lutero foi o primeiro reformador a enfrentar a Igreja Católica com decisão e coragem (e até, vez ou outra, um pouco de insensatez), pregando sermões inflamados e escrevendo tratados subversivos que minavam a autoridade da liderança e da hierarquia da Igreja Católica. Enfrentou as ameaças do Papado, até com certo estardalhaço, foi excomungado pelo Papa, e rasgou e queimou a Bula de Excomunhão em praça pública. Além disso, corajosamente se apresentou perante Carlos V, que, embora fosse um menino espanhol, então, com dezenove anos, era também o poderoso Imperador do Sacro Império Romano no Ocidente, e o braço político e militar do Papado, na Dieta de Worms, em 1521, negando-se a voltar atrás nas críticas feitas (com seu famoso “Hier stehe ich, ich kann nichts anders“), tendo, por causa disso, recebido também uma condenação política de Carlos V, o Banimento das Terras do Império. Lutero só não foi executado porque o Príncipe Eleitor da Saxônia, Frederick III, conhecido como o Sábio, resolveu protegê-lo, salvando não só a ele, Lutero, mas ao movimento protestatório e reformador que ele havia iniciado. Embora tenham sido perseguidos, e Zwinglio tenha até morrido batalhando militarmente contra forças católicas no Norte da Suíça, os três concorrentes mencionados nunca alcançaram a repercussão que Lutero atingiu — sem mencionar que Calvino tinha apenas cerca de dez anos de idade quando Lutero começou a comprar essa briga com o Papa e o Imperador.

Em segundo lugar, porque Lutero, que não foi o maior e melhor teólogo da Reforma (posição que reconhecidamente cabe a Calvino), foi o grande pregador e o grande agitador das massas, com os sermões de seu púlpito, e com os seus artigos, panfletos e livretos — todos eles prontamente impressos e distribuídos em grande quantidade, na cidade, na região e no Império. A Revolta dos Camponeses foi, em parte, resultado da voz alta e forte, e da retórica, de Lutero — e o Príncipe cobrou isso dele, meio que lhe dizendo algo parecido com: O filho é seu, você que o embale… E o pior é que Lutero o embalou, em mais de um sentido. Assim, Lutero foi a primeira pessoa no mundo a fazer uso generalizado e eficiente do sistema de impressão gráfica inventado por Johannes Gutenberg, cerca de setenta anos antes. Lutero era uma máquina de produzir textos. E fez uso eficaz e eficiente da língua do povo, no caso o Alemão, dando-lhe estrutura e beleza — não o Latim, que lhe permitiria falar apenas para teólogos e outros intelectuais. Sabedor disso, Lutero traduziu a Bíblia para o Alemão, numa tradução usada até hoje, e que o consagrou, posteriormente, como o Shakespeare do Alemão (embora Lutero tenha precedido o escritor inglês em quase cem anos). E Lutero fez mais: criou escolas ao lado das Igrejas Luteranas, para que todo adepto da reforma proposta pudesse ler a Bíblia e os seus escritos e conferir quem estava certo, se o Papa, os cardeais, os bispos, os padres, ou se ele, Lutero. Como a Igreja Luterana acabou sendo adotada pelo estado saxão, essas escolas, que pertenciam às igrejas locais, acabaram sendo a semente inicial da escola pública do mundo inteiro. Por isso se diz que a Prússia, da qual surgiu a moderna Alemanha, é, antes dos Estados Unidos, o berço da escola pública mundial.

Em terceiro lugar, e aqui o mérito não é tanto dele, mas, sim, do destino, ou da providência divina, e, naturalmente, dela própria, Lutero arranjou uma mulher (ou foi ela que o arranjou) que era um verdadeiro dínamo, que o ajudou na área logística, administrativa, produtiva, financeira, e empreendedora, transformando o ímpeto reformador de Lutero em um movimento organizado de âmbito que foi muito além da Saxônia e da Alemanha, alcançando toda a Europa — e isso bem antes do tempo em que o jovem Calvino, em 1536, então com 27 anos, produziu sua primeira versão das Institutas — lamentavelmente, EM LATIM, não seguindo, inicialmente, o exemplo de Lutero de escrever na língua do povo (as edições posteriores sendo em francês). Registre-se que a primeira versão da obra maior de Calvino foi publicada dez anos antes da morte de Lutero, quando Lutero já tinha vivido a maior parte de sua vida e realizado tudo que realmente importava no âmbito da Reforma Luterana.

Em quarto lugar, Lutero foi capaz de centrar suas energias em algumas teses bíblico-teológicas que vieram a formar o alicerce da Teologia Reformada. Elas são, em minha opinião, três:

1. A tese de que apenas a Bíblia tem autoridade para os cristãos: Sola Scriptura. A Igreja Católica, com seus padres, bispos, cardeais e o seu Papa, e com seu apego à Tradição dos Concílios e dos Pais da Igreja (e às vezes inventada), erra, segundo Lutero, quando se aventura a ir contra, ou mesmo só além, das Escrituras Sagradas.

2. A tese de que cada cristão tem a capacidade, o direito e o dever de interpretar a Bíblia por si próprio, e de resolver suas pendências com Deus de forma desintermediada, não dependendo de padres, pastores, ou mesmo teólogos — tese que, talvez, tenha sido a ideia mais subversiva daquela época (cujas consequências nem ele próprio conseguiu suportar mais tarde). Essa é uma tese que continua sendo subversiva até hoje. (Na minha opinião, em vez de essa tese ter sido rotulada como “Sacerdócio Universal de Todos os Crentes”, deveria ter sido designada como “Laicato Universal de Todos os Crentes” (inclusive dos pretensos sacerdotes, os pastores — die Pfarrer — que substituíram os padres).

3. A tese de que a justificação, e, por conseguinte, a salvação, é um dom de Deus, sem que o ser humano precise fazer nada, além de aceitar — e até para aceitar o seu presente, Deus ajuda o pecador (embora sem determinar a aceitação dele)… Essa tese, a da justificação pela graça, mediante a aceitação dessa graça pela fé, sem necessidade de jejuns, penitências, flagelações, peregrinações, relíquias, etc., talvez represente a matriz teológica mais significativa da Reforma Protestante — e foi Lutero que a fixou (embora tenham sido os Calvinistas Ortodoxos que a tenham exagerado como a sua TULIP).

Na sequência da Reforma Protestante, algumas dessas teses foram abusadas um pouco — às vezes até mesmo pelo próprio Lutero, que uma vez sugeriu que a gente, quem sabe, devesse pecar um pouco mais para que a graça divina pudesse ser ainda mais abundante em seu perdão!. O Sola Scriptura ensejou uma bibliolatria, centrada numa interpretação literal e supostamente a única possível da Bíblia, que acabou por ser o pai do Fundamentalismo Protestante. O Sacerdócio Universal dos Crentes ensejou uma solução fácil demais para as divergências: a separação, quando não o expurgo, daqueles que divergem de quem tem mais poder ou força ou simplesmente maior número: não havia quem adjudicasse as divergências. E a Justificação pela Graça Mediante a Fé ensejou uma doutrina rígida da Predestinação, segundo a qual até mesmo a aceitação do dom divino pela fé é divinamente determinada (desde antes da criação do mundo), exagero que (quase?) torna Deus responsável pelo pecado. Mas esses abusos não tiram o mérito e o direito de Lutero ser considerado o Pai da Reforma Protestante — e, por conseguinte, o Pai do Protestantismo.

Eduardo Chaves, em Salto, 31 de Outubro de 2020 (escrito originalmente em 10.10.2020 e transmitido em vídeo, em versão mais resumida, na Escola Dominical Especial da Catedral Evangélica de São Paulo, no domingo, 25.10.2020. A versão em vídeo está disponível em https://youtu.be/fAcqVXq0ybU, nos minutos/segundos de de 6:25 a 14:30.



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