Uma Educação Liberal

Estou escrevendo um livro sobre Liberalismo e Educação. Vou, pouco a pouco, revelando, em pequenas janelas, o que estará contido no livro. O último artigo que publiquei aqui neste blog, sobre Convencer e Persuadir, Convencimento e Persuasão, é uma nota de rodapé (na verdade, de fim de texto) do livro.

Aqui vou apresentar uma janela com um resumo da minha visão do que é uma Educação Liberal. O assunto ocupará toda uma Parte ou Divisão do livro.

Nessa Parte ou Divisão vou discutir a questão do Liberalismo e da Educação, como vista, não pelos críticos do Liberalismo, mas por seus defensores, pois falta, aqui no Brasil, uma visão clara do que seja uma Educação Liberal. Mesmo aqueles que são chamados muitas vezes de liberais pela esquerda estão longe de ser liberais no sentido que vai ser aqui proposto. Tal é o caso dos “escolanovistas”, por exemplo, os proponentes e defensores da chamada Educação Nova, que ficaram conhecidos, aqui no Brasil, por dois Manifestos dos Pioneiros, assinados pela fina flor da intelectualidade brasileira da época, um manifesto de 1932 e o outro de 1959. Embora eles falem em EDUCAÇÃO Nova, o que queriam era uma ESCOLA Nova (tanto que o movimento ficou conhecido por essa expressão), e, não só isso, o que queriam era uma Escola Nova pública, estatal, única, laica, e obrigatória. Tudo o que um liberal NÃO QUER. Essa escola só seria “gratuita”, entre aspas, porque, sendo estatal, seria custeada pelos impostos dos cidadãos — mesmo por aqueles que não fizessem uso dela, nem para si, nem para seus filhos.

Faço aqui um breve resumo, que é radical e ousado. E que mostrará, em dois tempos, que a Educação Liberal está longe de ser conservadora e também distante de ser “apenasmente” progressista, porque, na verdade, é radical e revolucionária.

Em um primeiro tempo, teríamos de lutar por uma Educação Escolar Desestatizada, mas com uma Escola Inovadora, sua inovação começando pelo fato de que ela seria não estatal, não única, não obrigatória, não gratuita, mas sendo, em contraposição, plural e regionalizada, podendo, quando fosse o caso, funcionar em centros comunitários ou na casa dos alunos, de forma quase personalizada. Dependendo do grupo de pessoas envolvido, poderia até mesmo ser não laica. A melhor educação escolar que eu já tive, no nível da Educação Básica, foi numa escola não-laica, o Instituto José Manuel da Conceição (JMC), em Jandira, SP.

Em um segundo tempo, teríamos uma Educação Desescolarizada, totalmente Sem Escolas, operando de forma aberta e livre, plural e diversificada, numa sociedade educativa, que se desdobraria em cidades educativas, bairros educativos, vizinhanças educativas, comunidades educativas, lares educativos, quartos educativos, se for o caso (para não falar em associações, igrejas, clubes, parques, meios de comunicação de massa, redes sociais, etc. educativos), tudo isso movido e gerido, sempre que preciso ou desejado, através da tecnologia.

A moral da história é que a verdadeira Educação Liberal, nos dias de hoje, prescinde do estado e prescinde da escola — e prescinde até mesmo de professores especializados em transmitir, repassar  ou empurrar (push) conteúdos — MAS não prescinde da tecnologia. A tecnologia nos põe em contato com outras pessoas e nos dá acesso às informações de que precisamos para definir e construir nossos projetos de vida. Essa Educação Liberal teria como essencial uma estrutura aberta e flexível, em rede, viabilizada e operacionalizada pela mais moderna tecnologia digital móvel, de modo a permitir que cada um e todo mundo, independente de sua idade (isto é do tempo de sua vida) e do lugar em que se encontra, possa se educar da forma que lhe parecer mais adequada, cômoda e conveniente, aprendendo o que quiser, interagindo com quem desejar, e buscando ou puxando (pulling) materiais que considera interessantes ou desejáveis para seu projeto de vida, onde quer que estejam esses materiais, e encontrando, na própria rede, quem o ajude, quando for necessário (quase sempre é).

Esta seria a Sociedade Sem Escolas — mas Educativa de Ivan Illich e de John Holt, mas com um salto de qualidade inacreditável, tornado possível pela ubiquidade e onipresença da tecnologia em nossa sociedade, em nosso mundo. Nessa sociedade, como um dia sugeriu Paulo Freire, antes de ser engaiolado pela esquerda, ninguém educa ninguém, mas tampouco alguém se educa sozinho: todos se educam uns aos outros, em interação, dialogação, cooperação, colaboração, dando significaçãosignificado-em-ação — às suas vidas e ao seu mundo, tudo viabilizado, sempre que necessário ou possível, com a mediação da tecnologia.

Mas avancei demais e rápido demais… Ando devagar porque já tive pressa (como já disseram Almir Sater e Renato Teixeira em Tocando em Frente). Não há problema em andar devagar quando é preciso ou recomendável, desde que se saiba aonde se quer chegar e para onde se está indo. A imbecilidade está em sair correndo feito um doido sem saber aonde se quer chegar ou mesmo para onde leva o caminho.

Em Salto, 11.1.21



Categories: Liberalism

2 replies

  1. Paulo Freire engaiolado pela esquerda? Não era ele um legítimo esquerdista?

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    • Em que momento? Paulo Freire, mais no início de sua vida profissional, era o que poderíamos chamar de um democrata cristão — como Franco Montoro também foi. Mesmo em Pedagogia do Oprimido, malgrado o título, era ainda um humanista cristão, preocupado, como muitos cristãos são, com a injustiça e a opressão — e crítico severo da educação que predominava. Em vários dos seus anos no exílio foi apadrinhado pelo Concílio Mundial de Igrejas, com sede em Genebra. Quando veio para o Brasil, depois da anistia, à convite da Faculdade de Educação da UNICAMP, da qual eu era diretor (primeiro associado, depois titular) à época, começou a ser engaiolado pela esquerda, como eu gosto de descrever o processo. Meu colega da UNICAMP, então, depois da USP, Moacir Gadotti, que havia sido seu aluno em Genebra, e que na época se deixou seduzir pelo PT, e que se achava meio dono de Paulo Freire, por ter sido aluno dele, por ter intermediado o processo de trazê-lo para o Brasil, por ter criado o Instituto Paulo Freire, e, depois, por tê-lo apadrinhado nos meandros da política partidária brasileira, fez dele Secretário da Educação da Erundina — era só uma figura como a rainha da Inglaterra, o Primeiro Ministro era o Gadotti. Tentaram endeusar o homem, fazê-lo patrono da educação brasileira. Deu tudo errado. Ele não tinha perfil de secretário da educação, tentaram tutelá-lo, levaram-no para a PUC-SP, e o resto é história. Não devia ter sido endeusado, e não deve agora ser demonificado pela direita. Mais do que um esquerdista, o Paulo era um grande contador de causos nordestino — apesar de ter uma fala empolada demais. Mas se tornou um símbolo e um ícone da esquerda brasileira. Para o azar dele, de certo modo, para a sorte dele, de outro lado, porque a esquerda é global e ele se tornou famoso globalmente. Mas com um conteúdo pedagógico bem mais ralo e pobre do que aquele que ele tinha inicialmente e que prometia desenvolver ainda mais. Ficou na promessa. Mas era um homem bom. Eu gostava dele, como pessoa.

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