Epistemologia

1. Introdução: Questões Conceituais e Linguísticas

Lá no início, no milênio anterior à chamada Era Cristã, não havia distinção nítida entre a Filosofia e outras formas de conhecimento teórico ou prático, como as diversas modalidades de Ciência hoje reconhecidas. O termo “filosofia”, em geral, prevalecia, englobando todos os diversos tipos de indagação e inquirição, teóricos ou práticos [1].

Na época da chamada Filosofia Clássica, representada principalmente por Sócrates (ca. 469-399 a.C.), Platão (428/427-348/347 a.C.), o fundador da Academia, e que teria sido discípulo de Sócrates, e Aristóteles (384-322 a.C.), o fundador do Liceu, e que teria sido discípulo de Platão, afirmava-se que o objeto da Filosofia era buscar respostas para algumas questões básicas do ser humano, como, por exemplo, quem sou eu, de onde vim, para onde vou, o que faço aqui, o que mais existe além de mim, e — na minha opinião, a mais importante das perguntas — como é que eu sei qual é a resposta apropriada, correta, verdadeira, etc. para estas, e para outras indagações?

À área da Filosofia que buscava responder essa última pergunta — como é que eu sei? — se deu o nome de Epistemologia, ou Teoria do Conhecimento. A função essencial da Epistemologia não era tanto buscar, ela própria, respostas para as perguntas que surgiam, mas, sim, encontrar maneiras de validar as respostas encontradas, inventadas, ou, simplesmente, propostas: Como é que eu sei qual é a resposta apropriada, como é que eu identifico a resposta correta, como é que eu discrimino a verdade da falsidade, do erro, da mentira — ou da mera opinião, do “achismo”?

Uma pergunta pode ser de natureza intelectual, envolvendo o pensamento (no que devo acreditar? o que devo concluir?), de natureza emocional, envolvendo as paixões (o que é devo sentir? como devo me deixar afetar?), ou de natureza prática, envolvendo a conduta (o que devo fazer? como devo reagir?) [2].

2. Critérios Básicos de Validação

A Epistemologia, para poder validar as respostas às indagações, sempre procurou definir critérios básicos, como, por exemplo, os seguintes (que têm sido os principais):

  • a observação (através dos sentidos);
  • a razão (através do raciocínio);
  • a intuição (através de convicções imediatas);
  • a experiência (através de sensações interiores totalmente privadas) [3].

Talvez haja outros critérios. Esses bastam aqui.

3. Critérios para Determinar o Grau de Persuasão

Além desses critérios, que têm que ver com a natureza da evidência, há outros critérios que nos permitem aquilatar o grau de persuasão que a evidência disponível nos permite:

  • conhecimento indubitável (por exemplo: a evidência é totalmente favorável, sem registro algum de exceções);
  • opinião razoável (por exemplo: ela baseada em evidência favorável, mas também é contraditada por alguma evidência contrária, fato que faz com que a opinião seja acompanhada de dúvidas);
  • mera opinião (por exemplo: opinião que não procura sustentação de evidência, e que também não se preocupa que haja alguma evidência contrária; aquilo que se denomina “achismo”;
  • Etc.

Os critérios aqui delineados são adotados por pessoas que adotam, dentro da Epistemologia, um paradigma justificacionista. Segundo esse paradigma, temos a responsabilidade de JUSTIFICAR (ou comprovar) nossas opiniões e crenças com base na evidência. A partir de 1934, quando o filósofo Karl R. Popper publicou seu primeiro livro sobre Filosofia da Ciência e Epistemologia, esse paradigma vem sendo gradualmente substituído por um paradigma falsificacionista. Segundo esse paradigma, justificar (comprovar) nossas opiniões e crenças através a um apelo de alguma evidência é algo relativamente fácil: sempre é possível encontrar evidência que dê alguma sustentação a qualquer opinião e crença, mesmo as mais absurdas. O nosso desafio é criticar (tentar achar erros em), e incentivar os outros a criticar, as nossas opiniões e crenças, tentar falsificá-las, porque, se elas sobreviverem à crítica (às tentativas de falsificação), podem ser aceitas, mas apenas de forma tentativa e provisória (porque a bateria seguinte de críticas pode falsificá-las). Esse paradigma falsificacionista não nega que a verdade exista (correspondência entre um enunciado e a realidade), nem que possamos, por sorte, encontrá-la, mas questiona que jamais possamos ter certeza de havê-la encontrado e de estar de posse dela. Assim, para quem adota esse paradigma, não há conhecimento verdadeiro, absolutamente certo. O conhecimento é sempre conjetural, hipotético, falível, e, por isso, provisório. Dura apenas enquanto alguém não consegue falsificá-lo [4].

Com base no tipo de resposta predominantemente dado às perguntas ou indagações, as pessoas são, em geral, classificadas como:

  • Empiristas (perceptualistas);
  • Racionalistas;
  • Intuicionistas;
  • Experiencialistas;
  • Etc.

Com base na intensidade das convicções geradas por esses processos, as pessoas são, em geral, classificadas como:

  • Dogmáticas (tendentes mais a crer do que a duvidar);
  • Razoáveis (tendentes a proporcionar suas crenças à evidência disponível);
  • Céticas (tendentes mais a duvidar do que a crer);
  • Etc.

Mas o dogmatismo, o ceticismo e a razoabilidade raramente são (ou devem ser) totais e absolutos. Eles, em regra, aparecem com gradações, dependendo da situação. Um dogmático na maior parte das situações ou áreas pode não ser dogmático em algumas outras situações ou áreas, e de igual forma um cético e uma pessoa razoável. Até uma pessoa razoabilíssima, pode derrapar, por assim dizer. E é possível ser razoável na ciência, cético na religião e dogmático na política. Ou qualquer outra combinação.

4. Critério para Informações de Segunda Mão

Talvez a maior parte das informações que temos não é validável através dos quatro critérios mencionados no item anterior: observação, lógica e razão, intuição experiência pessoal. Essas informações foram obtidas através de depoimentos e testemunhos de terceiros — prestados diretamente, de maneira oral, ou indiretamente, de forma escrita, oral e audiovisual, através de livros, revistas, jornais, panfletos, do rádio, da televisão, da Internet, etc.

Todas as informações que temos acerca do passado anterior ao nosso nascimento, e que aconteceram, ainda que no presente, em locais em que não estávamos presentes, são obtidas através de depoimentos e testemunhos.

Sabemos, especialmente nesta época de fake news, que depoimentos e testemunhos são muito pouco confiáveis. As pessoas que nos dão esses depoimentos e testemunhos o mais das vezes também não obtiveram as informações que nos transmitem de primeira mão: as informações já chegaram a elas de segunda mão, o que reduz a sua confiabilidade.

Sabemos, de primeira mão, por observação e por outros meios, que as pessoas, mesmo que tenham presenciado algum acontecimento de primeira mão, se enganam ao nos transmitir as informações acerca do que aconteceu. Quando não se enganam, elas mesmas, não raro tentam, por alguma razão, nos enganar. Assim sendo, ao receber uma informação através de depoimento ou testemunho, precisamos inquirir (investigar) a possibilidade de que quem nos transmitiu a informação tenha se enganado ou esteja tentando nos enganar.

David Hume, que já mencionei, em um famoso artigo sobre milagres (acontecimentos que se chocam com o registro uniforme daquilo que já observamos na vida sobre aquele tipo de acontecimento), nos sugere um critério:

Ao receber depoimento ou testemunho acerca de algo que se choca com o registro uniforme daquilo que já observamos na vida, devemos considerar as probabilidades e só aceitar o depoimento ou testemunho se a probabilidade de que o evento de fato aconteceu for MAIOR do que a probabilidade de que a pessoa que nos relata esteja enganada e/ou tentando nos enganar. (Resumo feito por mim, EC, e de memória).

Para citar o evento clássico com que Hume ilustra sua discussão. Ninguém nunca observou uma pessoa comprovadamente morta ressuscitar depois de três dias. Se alguém nos relata que isso aconteceu, devemos comparar a probabilidade de que o fato tenha realmente acontecido com a probabilidade de que a pessoa que nos relatou esteja (de boa fé) enganada ou (de má fé) tentando nos enganar. Se a probabilidade da ressurreição for MENOR do que probabilidade da outra hipótese, devemos rejeitar o depoimento ou testemunho.

4. Aplicações Práticas

A maior parte do tempo estamos observando coisas, sentindo coisas, tendo sensações e impressões diversas, sonhando (dormindo ou acordados), conversando, lendo, ouvindo rádio, vendo TV, fuçando na Internet, etc.

As informações que nos chegam dessas diversas formas devem ser aceitas ou não.

Várias pessoas já estiverem no meio de um acidente de carro, por exemplo. Mesmo que não tenham sofrido ferimento nenhum, boa parte das pessoas não se lembra com clareza e precisão do que aconteceu. “– Eu vinha vindo e, de repente, o carro bateu no poste e capotou”. Mas como? Apareceu algum outro carro, alguma criança, algum animal que fez com que você tentasse desviar e acertasse o poste? Você ouviu o pneu estourar? “– Não. Não me lembro.” E não se lembram mesmo. Das milhares de pessoas em um estádio de futebol muitas não vêem quando acontece um gol na frente de seus olhos. Se vêem, não conseguem relatar com precisão os detalhes — em geral nem têm certeza de quem foi que fez o gol. Quando vêem, pensam que o gol aconteceu assim e assado e só vão ver que os fatos se deram de maneira diferente quando vêm o teipe do lance de 256 ângulos diferentes à noite, em casa, na TV. Muitos de nós não se lembram do que almoçaram no dia anterior. Muitos entram em casa e dali dez minutos não se lembram de onde deixaram os óculos ou o celular. Outras vezes chegam em casa sem a carteira, que têm certeza de ter usado enquanto fora, e não têm a menor ideia de onde ela foi parar: se a esqueceram em alguma loja, se a deixaram cair na rua, se ela pode lhes ter sido surripiada na entrada do vagão do metrô, etc. Quando você fica mais velho, então, conforme nos disse Mark Twain, sua memória fica tão boa que você começa se lembrar até do que nunca ocorreu.

Quanto à ressurreição de alguém depois de estar morto por três dias, alguém pode dizer que acredita porque a Bíblia diz. Mas a Bíblia também diz que o Sol foi detido em sua órbita — quando sabemos hoje que não é o Sol que roda em torno da Terra. A Bíblia diz que a mula de Balaão falou. A Bíblia também diz que Moisés dividiu as águas do Mar Vermelho em duas partes e criou um caminho para os Israelitas passarem. Tudo isso é crível só porque está na Bíblia? E por que é que devemos acreditar na Bíblia, mesmo que aquilo que ela diz contradiga o registro uniforme de nossas observações?

O estudo da Epistemologia nos ajuda a lidar com essas questões. Talvez ele nos deixe um pouco céticos, menos confiantes, menos certos do que parecemos ter observado ou do que nos foi relatado por terceiros.

Nossa capacidade de observação, nossa memória, nosso raciocínio, tudo isso é falho e falível. Diante disse, um pouco de ceticismo não faz mal a ninguém.

5. Um Exercício

Nos anos 1970, quando eu era responsável pela disciplina Filosofia da Educação do Curso de Pedagogia da UNICAMP, dávamos muita atenção à Lógica e à Epistemologia Aplicadas à Educação. Elaborei, na ocasião, um exercício com o intuito de mostrar nossa dificuldade em explicitar as razões para aceitar, ou deixar de aceitar, mesmo enunciados ou proposições simples e conhecidas que circulam no dia a dia. É este o exercício:

Responda às seguintes perguntas acerca de cada uma das vinte proposições abaixo:

a) Você considera a proposição (A) verdadeira, (B) falsa, ou (C) impossível de determinar?

b) Quais as razões (evidências, argumentos, outras considerações) que você tem para assim considerá-la?

[NOTA: A elaboração de cada proposição foi feita com muito cuidado. Não assuma que deve haver algum erro no enunciado, porque não há: ele está transcrito exatamente como se desejou.]

1) A terra é redonda, com um pequeno achatamento nos polos

2) Neste momento eu [quem estiver lendo isto] estou pensando sobre como responder a estas perguntas

3) Um dia tem 24 horas

4) Não devemos julgar os outros, para que não sejamos julgados

5) Todos os morcegos são vivíparos

6) Os povos antigos eram, em sua maioria, bárbaros

7) Se Pedro é pai, então ele tem pelo menos um(a) filho(a)

8) O enunciado de nº 8 neste exercício é falso

9) A virtude, que é sempre o melhor caminho, está no meio, entre as extremidades

10) Deus, um ser todo-poderoso, onisciente e infinitamente bondoso, sem dúvida existe

11) Através de um dado ponto exterior a uma linha reta pode ser traçada uma, e apenas uma, linha paralela a essa linha

12) Eu [quem estiver lendo isto] acredito que é o Sol que gira ao redor da Terra, e não vice-versa

13) Em 25.1.1554 foi fundada a cidade de São Paulo

14) Fadas, duendes, essas coisas não existem

15) Se sofro nesta vida, é porque em encarnação anterior fiz coisas que hoje estão sendo punidas

16) O Prof. Eduardo geralmente vem dar aulas de óculos

17) A terra e os demais planetas do sistema solar giram ao redor do sol

18) A probabilidade de se tirar um seis numa jogada de dados é 1/6

19) A UNICAMP é mais marketing do que qualquer outra coisa

20) Sócrates (como Sherlock Holmes) nunca existiu: foi uma invenção de Platão (Sir Arthur Conan Doyle)

Notas

[1] Estou usando (e vou continuar a usar) dois termos não muito comuns na linguagem do dia-a-dia: “indagação” e “inquirição”. Uso-os no sentido em que as pessoas de fala inglesa normalmente usam os termos “questioning” e “inquiry“. Indagação é o ato de fazer perguntas — aos outros ou a si próprio. Indagação é basicamente sinônimo de questionamento, arguição. Inquirição é o ato de, tendo recebido (ou encontrado) uma indagação de terceiros, ou tendo-a feito a si próprio, procurar encontrar uma resposta apropriada para ela. Inquirição é basicamente sinônimo de inquérito, investigação, averiguação. David Hume (1711-1776), que, ao lado de Sócrates, é o meu indagador e inquiridor favorito na História da Filosofia, gostava de usar o termo “inquiry” no título de seus livros: An Inquiry Concerning Human Understanding (1748); An Inquiry Concerning the Principles of Morals (1751).  (“Inquiry” às vezes é grafado “Enquiry“). No título das traduções para o Português optou-se por usar o termo “Investigação” para traduzir “Inquiry“: Uma Investigação Acerca do Entendimento Humano; Uma Investigação Acerca dos Princípios da Moralidade.

[2] Para a maior parte dos filósofos clássicos, excluídos os materialistas, o ser humano tem um componente material (o seu corpo, que é dotado da capacidade de perceber, através dos órgãos dos sentidos) e um componente mental (a sua mente). A mente, por sua vez, se divide em três componentes ou “faculdades”: o intelecto (que se ocupa de pensar, refletir, raciocinar), a alma (que se ocupa das emoções, dos sentimentos, das paixões), e a vontade (que se ocupa de escolher, decidir e agir). Os termos não importam tanto quanto a coisa. A mente se ocupa do cognitivo, do emotivo e do conativo.  Em especial depois do surgimento do Cristianismo, tem havido muita discussão acerca de onde encaixar o espírito. Mas essa discussão está fora do escopo deste artigo. Na visão popular, o intelecto está relacionado ao cérebro, que fica na cabeça, e a alma está relacionada ao coração, que está no peito. Nunca ficou muito claro, no pensamento popular, a que órgão estaria relacionada a vontade…

[3] Quando se fala em observação, que tem lugar através dos sentidos, donde a qualificação “sensorial”, normalmente há uma referência à percepção, ou apreensão, de algo externo à pessoa. Quando alguém diz “Eu vi um gato no telhado,” em geral se pressupõe que tenha havido um gato no telhado, que foi o objeto da observação, pela percepção, do sujeito, e que esse objeto seja externo à pessoa — tanto que, se outras pessoas olhassem o telhado no mesmo ponto, do mesmo ângulo, também veriam o gato. Quando alguém diz, em relação a uma viagem, por exemplo, “Eu estou com um pressentimento ruim acerca dessa viagem”, em  geral se assume que essa experiência (ou sensação, ou sentimento) esteja ocorrendo dentro da pessoa, isto é, “dentro” de sua mente (em um ou mais de seus componentes, não importa o “lugar” em que se situe esse componente). Em sonhos, alucinações, visões a pessoa pode ter a nítida impressão de que aquilo que é o objeto do sonho, da alucinação ou da visão, está sendo observado pela percepção — embora, segundo parece, nada esteja no seu campo de visão, audição, tato, etc., que possa ser objeto de observação por outrem. A observação é, de necessidade, algo público, intersubjetivo; a experiência, algo inteiramente pessoal, que outros não conseguem observar ou experienciar também. Devo acrescentar aqui uma Nota a esta Nota… Boa parte dos dicionários da Língua Portuguesa “refuga” o verbo “experienciar”, ou, então, inserem o verbete mas fazem remissão para “experimentar”. Em Inglês há dois verbos distintos: to experience e to experiment. O primeiro tem o sentido mais de “ter, ou vivenciar, a experiência de”; o segundo, de “tentar, provar, deixar de ignorar, deixar de ser virgem em relação a, fazer um experimento”. Ter uma experiência de algo não é exatamente a mesma coisa que fazer um experimento com algo — embora possa haver semelhanças. Compare: “Eu experienciei [tive a experiência de] um arroz que mais parecia uma comida dos deuses do Olimpo do que um prato de acompanhamento nas refeições nossas de cada dia…” e “Experimente o arroz para ver se está bom de sal.” São dois verbos distintos, não é verdade?

[4] Eis o que diz Karl Popper em seu texto, escrito nos anos 1930-1933, antes da publicação de seu primeiro livro (que se deu em 1934), mas que só foi publicado em 1978, em Alemão, e apenas em 2009, 15 anos depois da morte da Popper, em Inglês, com o título original de Die beiden Grundprobleme de Erkenntnistheorie e, em Inglês, de The Two Fundamental Problems of the Theory of Knowledge [cito a partir da tradução para o Inglês, feita por Andreas Pickel, e, em seguida, traduzo para o Português]: “The critical attitude is characterised by the fact that we try not to verify our theories but rather to falsify them. Verifications are cheap: they are easy to come by if one is looking for them. The only verifications of significance are serious attempts at falsification that have not achieved their objective, thus resulting in a verification rather than a falsification. But even in such cases it is, of course, always possible that the next test of the same theory will result in a falsification. The critical attitude is – evidently – the attitude of searching for an error. This applies not only to the testing of empirical theories but also, more generally, to the criticism of philosophical theories [ * ]. Naturally, one should not dwell on errors that are easily repaired but, if possible, correct them before embarking on serious criticism. The importance of the critical attitude, of the search for falsifications as opposed to the almost always successful search for verifications, was already seen by the inductivist Francis Bacon; what he did not see was that verifications are of no significance – unless they are unsuccessful falsifications.” [Kindle Edition, Loc.776-789]. Em Português: “A atitude crítica é caracterizada pelo fato de que nós tentamos, não verificar as nossas teorias, mas, em vez disso, falsificá-las. Verificar algo é coisa fácil, quando é isso que se está procurando fazer. As únicas verificações que têm significado são tentativas sérias de falsificação, que não alcançaram o seu objetivo, assim resultando em uma verificação, e não em uma falsificação. Mas mesmo nesses casos, é, naturalmente, sempre possível que o teste seguinte da mesma teoria resulte em sua real falsificação. A atitude crítica é — evidentemente — a atitude de procurar encontrar erros. Isso se aplica não só à testagem de teorias empíricas, mas de teorias em geral, inclusive à crítica de teorias filosóficas [ * ]. Naturalmente, a gente não deve se contentar com a descoberta de erros que podem ser facilmente reparados, mas, sim, se for possível, corrigi-los, antes de embarcar em críticas mais sérias. A importância da atitude crítica, da busca por falsificações, em vez da procura, de forma quase sempre bem sucedida, por verificações, já tinha sido notada pelo indutivista Francis Bacon. O que ele não percebeu foi que verificações não têm a menor importância — a menos que sejam tentativas mal-sucedidas, mas sérias, de falsificação.” [ * ] No texto que antecede ao asterisco eu me afastei da tradução para o Inglês para seguir o original em Alemão, que diz: “Das gilt nicht nur für die Überprüfung von empirischen Theorien, sondern ganz allgemein; auch für dir Kritik philosophischer Theorien” (p.XXX da edição original em Alemão, publicada por J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), Tübingen, 1979). O leitor versado nas duas línguas verá que o tradutor para o Inglês limitou a atitude crítica às teorias empíricas e às teorias filosóficas, porque omitiu a seguinte cláusula que Popper incluiu no original: “sondern ganz allgemein”, que deve ser traduzida como “[não só à testagem (Überprüfung, testing) de teorias empíricas] mas de teorias em geral, [inclusive à crítica de teorias filosóficas]”. É sempre bom ter o original em mãos… A minha cópia foi adquirida em 6.7.1981 e recebida aqui no Brasil em 11.8.1981 – quarenta anos atrás, dezoito anos de ser publicada a tradução para o Inglês!

Em Salto, 4 de Agosto de 2021



Categories: Liberalism

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