50 Anos como Professor no Ensino Superior

Foi por volta desta época, o Outono (no Hemisfério Norte), no ano de 1971, que eu comecei a trabalhar no Ensino Superior. Não era ainda como Professor: era como Teaching Assistant do Prof. George H. Kehm, no Seminário Teológico Presbiteriano de Pittsburgh. O Prof. Kehm havia sido meu professor de Teologia Sistemática ao longo do meu Mestrado no Seminário (M.Div.). E ele me convidou para ser Teaching Assistant dele enquanto eu cursava o primeiro ano do Doutorado, mas ainda morando no Seminário, que me fez essa gentileza de deixar eu morar, sem pagar, num apartamento do campus. Como Teaching Assistant dele eu atendia alunos, conduzia discussões em grupo com seus alunos, e, algumas vezes, dava aula para ele. Lembro-me de ter dado uma aula sobre “A Análise de Argumentos Teológicos”, usando o livro de Stephen E. Toulmin, The Uses of Argument, e também uma aula sobre o Argumento Ontológico para a Existência de Deus, comparando os argumentos de Anselmo e Descartes.

Foi, provavelmente, no mês de Setembro de 1971 que eu comecei a trabalhar para o Seminário, e o fiz até a minha defesa de Tese de Doutorado, no ano seguinte, em 8 de Agosto de 1972. Fez, portanto, 50 anos, este ano de 2021, que esse memorável acontecimento teve lugar — em algum lugar do mês do meu aniversário.

Depois de ter defendido minha Tese de Doutorado, eu deveria, pelas condições impostas pelos vistos americanos, voltar para o Brasil. Meu saudoso orientador, William (Bill) Warren Bartley III, houve por bem fazer duas coisas inusitadas.

Em primeiro lugar, ele escreveu ao Ministério do Trabalho dos Estados Unidos, argumentando que seria importante, para o meu exercício da função de Professor Universitário no Brasil, que eu tivesse alguma experiência prática nessa função nos Estados Unidos. Para que isso pudesse acontecer, ele solicitou que o Ministério do Trabalho dos Estados Unidos argumentasse junto ao Ministério da Justiça, especificamente através do seu Departamento de Imigração e Naturalização, que o meu visto para permanência nos Estados Unidos fosse prorrogado por dois anos, para que eu pudesse trabalhar, assim adquirindo experiência prática, além de acadêmica, antes de retornar ao Brasil. E que me autorizasse a trabalhar, pois meu visto era de estudo, não de trabalho. Embora improvável, a coisa deu certo e meu visto de permanência nos Estados Unidos foi prorrogado por dois anos e eu recebi autorização para trabalhar normalmente no mundo acadêmico.

Em segundo lugar, faltava arrumar o trabalho que eu faria… Através de contatos dele, e ele tinha uma network fantástica, Bill Bartley descobriu que duas universidades na California, uma a Universidade Estadual da Califórnia, em Hayward, hoje designada como “em East Bay” (apesar de continuar no mesmíssimo lugar), porque se tornou uma importante instituição regional no lado leste da Baía de San Francisco, a outra o conjunto de “Colleges” Integrados de Claremont, ao qual pertencia o Pomona College, o mais antigo deles, iriam ter professores ausentes em sabático nos anos letivos de 1972-1973 e 1973-1974, exatamente os dois anos que eu estava autorizado a permanecer nos Estados Unidos para trabalhar, e agindo, por conta própria, Bill Bartley me arrumou esses dois empregos como Preletor, em Hayward, e como Professor Assistente Visitante, em Pomona. E em Junho de 1974 eu voltei ao Brasil, porque havia arrimado emprego na UNICAMP, onde comecei a trabalhar em Julho de 1974. E na UNICAMP trabalhei até Janeiro de 2007. Saindo da UNICAMP trabalhei por nove anos como Professor Colaborador na Pós-Graduação em Educação Comunitária do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), Campus de Americana, até 2016, da qual era Coordenador meu orientando de Doutorado na UNICAMP, Renato Kraide Soffner. Durante os anos de Julho de 2014 a Junho de 2017 também trabalhei como Professor de História da Igreja e História do Pensamento Cristão na Faculdade de Teologia de São Paulo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (FATIPI). (Curiosidade: meu orientador de Doutorado me arrumou dois empregos em série e um dos meus orientandos de Doutorado me arrumou outro, bem mais longo, agora aqui no Brasil.

Ou seja, de Setembro de 1971 a Julho de 2017, durante quarenta e seis anos, eu trabalhei no Ensino Superior, como Teaching Assistant, Lecturer, Visiting Assistant Professor, Professor Livre-Docente (UNICAMP, 1974-1977), Professor Adjunto (UNICAMP, 1977-1980), Professor Titular (UNICAMP, 1980-2017), Professor Colaborador (UNISAL), Professor (FATIPI). Fui ainda Professor Visitante na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), no Departamento de Informática, em 1987, por um semestre, a convite da Professora Tânia Campos, e na PUCCAMP, no Instituto de Informática, 1992-1997, neste caso a fim de criar e implantar o Mestrado Profissional em Gerenciamento de Sistemas de Informações, em companhia de meus colegas, todos devidamente autorizados pela UNICAMP, a pedido da PUCCAMP, Maurício Prates de Campos Filho (meu grande amigo, e companheiro de inúmeras batalhas na UNICAMP, já falecido) e Manuel de Jesus Mendes, português de nascimento, ambos da Faculdade de Engenharia da UNICAMP, o primeiro da Engenharia Mecânica, o segundo da Engenharia Elétrica.

Na Primavera (aqui no Hemisfério Sul) de 1971 começou, portanto, minha carreira de trabalho no Ensino Superior. Desde Julho de 2017 estou definitivamente aposentado. Mas comemoro, neste Dia do Professor, os 50 anos do início de minha carreira como professor. Deveria ser 49 anos, mas considero o ano como Teaching Assistant também como trabalho docente — afinal de contas, eu era TEACHING Assistant, não Research Assistant.

Parabéns a todos os colegas envolvidos nesta fascinante carreira, a de Professor, na área da Educação — fascinante, mas, de vez em quando, um pouco ingrata. Hoje é o Nosso Dia.

Em Salto, 15 de Outubro de 2021



Categories: Liberalism

1 reply

  1. Parabéns Professor!
    Brilhante trajetória.
    Que o artigo estimule outros professores a se dedicarem aos estudos, afinal só bem ensina quem está sempre aprendendo.
    WL

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