A Questão do Ministério Feminino na Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB)

As duas principais Igrejas Presbiteriana do país divergem em relação à questão chamada do Ministério Feminino na Igreja (se mulher pode ser pastora, presbítera, diaconisa). A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) diz que NÃO – e cita uma lista enorme de textos bíblicos para justificar sua posição. A Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB) diz que SIM – e já há um bocado de tempo vem ordenando mulheres para o pastorado, o presbiterato e o diaconato. Na última reunião do Supremo Concílio da IPB houve mais uma tentative de revogar a posição atual, mas não foi aprovada (em uma reunião consistindo apenas de homens).

Minha opinião, nessa questão é basicamente igual à do Rev. Waldyr Carvalho Luz, cuja entrevista para a revista Manifesto eu colocarei ao final do Artigo, na forma de fotos das cinco páginas da revista em que a longa entrevista saiu. O Rev.Waldyr Carvalho Luz foi meu professor no Seminário Presbiteriano de Campinas, nos anos 1964-1966, era amigo de meu pai, de quem foi colega no seminário, e de minha mãe e da família da minha mãe antes de ela se casar com meu pai. Sempre fomos amigos, embora na Crise de 1966 do Seminário tenhamos ficado em lados diametricamente opostos e apesar de ele dizer uma série de coisas acerca de mim em sua biografia que não são exatamente elogios (algumas não exatamente verdadeiras ou corretas). Não tenho dúvida de que ele era uma das pessoas mais cultas que eu conheci (cultas assim no sentido literal e bruto do termo), era extremamente conservador, e mesmo seus adversários, nesta questão, como o Rev. Ludgero Braga, admitem que ele tenha sido, talvez, o maior exegeta do Novo Testamento que o presbiterianismo brasileiro já produziu. Além de ter sido o autor de uma excelente gramática de Grego, foi também autor de uma tradução interlinear do Novo Testamento Grego.

A posição dele é basicamente a seguinte: esta questão é uma questão de usos e costumes, e não deve ser decidida com base em textos bíblicos – ou seja, com base no que a Bíblia diz ou deixa de dizer, tanto no Velho como no Novo Testamento. Ele concede que a Bíblia, que começou a ser escrita possivelmente há uns 3 mil anos atrás, é um documento que reflete a sociedade, a cultura, os usos e costumes de um povo, o israelita, inegavelmente patriarcal e machista (como todos os povos daquela época e daquela região do mundo). Então não adianta ficar citando versículo que diz que a mulher é uma auxiliadora ou ajudante do homem (e concluir que, portanto, o homem é o cabeça do casal — como se aceitava mesmo aqui no Brasil até há pouco tempo); ou que diz que a mulher deve obedecer ao marido no casamento e ser submissa a ele; ou que diz que a mulher deve ficar calada na igreja etc. As coisas eram assim naquele tempo, e, mesmo entre nós, foram assim até recentemente. Legalmente, eu já fui “cabeça do casal”: os bens do casal eram todos listados na minha declaração de Imposto de Renda. Segundo o Professor Waldyr Carvalho Luz, essa visão de mundo não faz parte da revelação que se acredita estar contida na Bíblia: ela é parte do contexto em que a Bíblia foi produzida.

A questão é: a sociedade, a cultura, os usos e costumes mudaram. Eu acredito que evoluíram. Mas não é preciso acreditar que evoluíram. Basta constatar que mudaram. Há mulher em posição de comando ou direção em todo lugar — até no exército americano há mulher que é general e brigadeiro. Menos em algumas igrejas, entre elas a IPB. Na Igreja Católica, também, só homem pode ser padre, bispo, cardeal, papa. Mulher só pode ser freira, que não apita nada na hierarquia da instituição. Mulher cuida de educação de criança nas escolas, de doente no hospital, de pobre e necessitado nas ruas. Mas não exerce nenhum cargo de direção na hierarquia da igreja. Tenho para mim que a Igreja Católica vai rachar primeiro nos Estados Unidos, onde o ativismo feminino é mais forte. Na Igreja Presbiteriana do Brasil, só homem pode ser diácono, presbítero, pastor, presidente de presbitério, de sínodo, de Supremo Concílio. Mulher pode ser professora de Escola Dominical (preferencialmente de criança e adolescente – professor de adulto geralmente é homem) e pode ter sua própria associação, a Sociedade Auxiliadora Feminina. Ali, onde homem não entra, a mulher pode mandar. Pode ser presidente em nível local, regional e mesmo nacional. Mas só de uma associação que só tem mulheres.

Isso é discriminação contra a mulher com base no sexo. Os homens da Igreja Presbiteriana do Brasil não admitem fazer parte de uma igreja ou de uma associação eclesiástica em que uma mulher seja a cabeça. Os líderes da IPB, todos homens, não admitem que uma mulher “mande neles” (nem na igreja nem em casa). Isso em pleno século 21. Já é mais do que hora de isso ser reavaliado. O problema é que atualmente só homem participa do processo de avaliação da questão — e, na IPB, nega sempre a rever a questão (da mesma forma que na Igreja Católica). A IPB que é também contrária ao chamado Ecumenismo, comporta-se nesta questão exatamente com a Igreja Católica.

A Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB) já reavaliou e a coisa caminha muito bem. É isso. Essas questões de usos e costumes não são questões que devem ser resolvidas lançando versículo bíblico para aqui e acolá. Exigem bom senso apenas.

No Velho Testamento, que o Rev. Ageu Magalhães cita em sua lista de 30 razões por que a mulher não pode mandar nem ensinar na igreja (a não ser no caso do ensino de crianças e adolescentes), se um casal não tinha filho, o homem pegava uma segunda mulher e resolvia o problema – às vezes até a própria mulher dele trazia uma serva sua para transar com o marido e lhe gerar um descendente. Todo mundo sabe disso. Os Mórmons, inicialmente, achavam que isso (poligamia) era parte da revelação divina, e, por isso, consideravam a poligamia admissível. Depois, a muito custo, e com muita pressão do governo americano (!), abandonaram sua postura. Será que no Brasil será necessário que o governo intervenha?

Será que, se o Presidente do Supremo Concílio tiver um enfarte não fatal do miocárdio, ele vai se tratar como o pessoal do tempo bíblico se tratava numa situação assim, na base da oração e do milagre, ou vai imediatamente ser trazido ou levado para o INCOR? (Não estou jogando – ou rogando – praga, nem negando a eficácia da oração ou a existência de milagres – simplesmente relatando que os líderes da IPB, quando doentes, vão para um hospital e se tratam de acordo com a melhor medicina disponível.)

Ora, a administração de uma instituição é coisa que tem evoluído com os tempos. Ninguém administra uma propriedade agrícola como Caim e Abel faziam; ninguém administra uma instituição educacional como os gregos administravam seus liceus e suas academias (lá, também, as mulheres não tinham vez). Ninguém administra instituições de saúde como hospitais da forma que essas instituições eram administradas pelas instituições de caridade medievais. Por que as igrejas da IPB devem ser administradas como Calvino administrava a igreja de Genebra? Em Genebra eles de vez em quando queimavam hereges, com a anuência de Calvino… Será que…? Paro aqui.

Em Salto, 3 de Agosto de 2022.

PS 1: 

O Prof. Waldyr Carvalho Luz, com cuja argumentação eu me alinho no artigo acima, defende sua posição em uma entrevista longa (5 páginas) que está disponível no número #329 (de 13.2.2012) da revista Ultimato, pp. 44-49 (a página 45 é um anúncio). Quem quiser ler pode consultar a edição digital da revista, no endereço abaixo, poderá encontrar uma visão contrária à do Rev. Ageu Magalhães e do Rev. Ludgero Moraes, ambos da IPB. Eu acho a contestação sempre benéfica:

https://issuu.com/ultimato/docs/ultimato_digital_edicao329

PS 2:

Em um grupo Igreja Presbiteriana do Brasil, uma senhora respondeu ao meu artigo defendendo o status quo, dizendo que está tudo bem assim, que uma mulher pastora negligenciaria o lar (como muitos homens pastores o fazem), etc.

Respondi mais ou menos nos seguintes termos:

Respeito totalmente a sua posição. É sensata. Minha mãe era mulher de pastor da (na) IPB e nunca almejou ser, também ela, pastora. Não gostava nem mesmo de ser Presidente da SAF.

A minha posição não é de que toda mulher deva buscar o ministério eclesiástico, em uma de suas formas: é que aquelas que o almejarem, possam alcançá-lo, não sendo proibidas até de buscá-lo apenas porque são mulheres. Estamos entendidos?

Muitas mulheres podem almejar o ministério eclesiástico para depois que os filhos crescerem, ou quando ficarem viúvas, com os filhos já casados e arrumados na vida, não é verdade?

Seus argumentos tentam convencer as mulheres da IPB a não buscarem o ministério eclesiástico. Quem quiser ouvi-los, que os ouça, e se se convencer, que os siga.

Mas aposto que há muitas mulheres presbiterianas que discordariam de você — mesmo não querendo, elas mesmas, ser pastoras, presbíteras e diaconisas. Como uma questão de justiça, de abolição, dentro da igreja, de mais um preconceito e mais uma discriminação contra as mulheres.

Um abraço.

Eduardo Chaves.



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