Brasil, EUA e Europa

Lembro-me de ter visto uma entrevista do Jô Soares, recentemente falecido aos 84 anos e meio, em que alguém lhe perguntou por que ele continuava a morar no Brasil, depois de haver estudado na Suíça (Lausanne) e falar, com fluência, o Inglês, o Francês e o Espanhol, e, por cima, tendo condições financeiras de morar quase em qualquer lugar do mundo em que quisesse morar. Ele respondeu de forma simples e, de certo modo, convincente, algo mais ou menos nesta linha: Nasci aqui, aqui sou cidadão nato, não quero ser imigrante em algum outro país, por melhor que seja… A questão das línguas que falo é irrelevante para a minha decisão. Se eu tivesse nascido, digamos, em Bangladesh, talvez considerasse me mudar para outro país — quem sabe até o Brasil…. Mas o Brasil é um país grande, bonito, rico, aqui fiz sucesso, aqui me sinto bem. 

Digo isso porque eu sempre me considerei um “Weltburger”, cidadão do mundo, não sendo nem um pouco “nacionalista” em relação à terra em que nasci. Nunca endossei a tese ufanista de Olavo Bilac, que disse “Criança, não verás nenhum país como este!”. Quando estou fora do país não sinto nenhuma falta da comida, do futebol, do Carnaval, das praias, da suposta alegria do brasileira, de sua presumida cordialidade, do seu jeitinho malandro… Nunca escreveria um artigo com o título “Por que me ufano de meu país”… e a razão principal é que eu não me ufano dele.

Já morei nos Estados Unidos, por sete anos seguidos, sem voltar para o Brasil, nem mesmo uma vez sequer, e me sentia em casa lá – não sentia falta do Brasil (embora sentisse saudades da família). Tenho uma filha e duas netas que nasceram nos Estados Unidos e sempre moraram lá. A filha fala Português (mas com sotaque); as netas, não, nem com sotaque… 

No final dos anos 80, começo dos anos 90, passei na Suíça (na região francofone, em Genebra) de um a dois meses por ano, como consultor na sede da Organização Mundial da Saúde (OMS). No total, fiquei lá mais de um ano (embora nunca mais de dois meses seguidos em um mesmo ano) – e, também, me sentia em casa. Quando estava lá, não sentia falta do Brasil. Estava lá quando o Collor baixou seu maldito e funesto plano econômico.

E já viajei o mundo – conheço cerca de sessenta países (em grande parte dando consultoria e fazendo palestras pela Microsoft). E quando viajava, sentia falta da família, mas nunca do Brasil. 

Diante disso, também eu já me perguntei, mais de uma vez, por que eu continuo morando no Brasil. E a resposta que o Jô Soares deu se aplica, em parte, mutatis mutandis, ao meu caso. Não sou nem tão conhecido, nem tão rico, como ele foi. Mas, no resto, o argumento se aplica. Nasci aqui, minha família e a de minha mulher estão aqui (com a exceção de um ou outro membro, tanto do meu lado, como do lado da Paloma, que moram no exterior: do meu lado, tenho, além da filha e das netas, um sobrinho, e um primo nos Estados Unidos, e primos no Canada e em Puerto Rico; do lado da Paloma, temos primos nos Estados e sobrinha e sobrinhos netos no Japão). No início dos anos 70, quando ainda morava nos Estados Unidos, em Pomona, CA, e trabalhava em Claremont, CA, cheguei a dar início a um processo de imigração para os Estados Unidos, mas depois a UNICAMP me convidou para voltar para o Brasil, oferecendo um bom “pacote”, e eu voltei – e nunca me arrependi de tê-lo feito, desistindo do processo que havia iniciado nos Estados Unidos. É verdade que houve momentos, em tempos recentes, com o Brasil politicamente dominado, em nível nacional, pelo PT, em que me deu vontade de arrumar minha trouxinha e me mandar. E confesso que, se houver um descuido da providência e o PT voltar a dominar o país, a vontade voltará.

Mas há sérios obstáculos para uma decisão nesse sentido por parte de alguém com a minha idade e demais características. A Paloma tem um bom trabalho aqui, no Instituto Federal de São Paulo. Juntando a minha e as dela, formando as nossas, temos três filhas aqui, vários irmãos, sobrinhos e primos, e ela, o pai, por aqui. Temos comadre e compadre aqui, a quem queremos como irmãos. Temos afilhados, aqui. Temos bons amigos esparramados aqui. Também temos propriedades, planos de saúde razoavelmente bons etc. E “last, but not least”, temos uma multidão de livros (mais de 30 mil), discos, filmes, e outras coisas (móveis, bugigangas) que seria impossível levar para o exterior e dos quais não gostaria de me separar… Coisa de velho, essa, creio eu. Apego a coisas que têm apenas valor utilitário e emocional. Certamente não tenho o temperamento desapegado de minhas coisas que os meus amigos Zuleica Coimbra e Jorge Mesquita (ela minha colega no Primeiro Ginasial, em Santo André, em 1956), que venderam tudo o que tinham por aqui, na acolhedora cidade de São Pedro, e se mudaram para Guimarães, em Portugal, começando vida nova no país irmão (no qual o Jorge nasceu). Mas confesso que sinto uma certa inveja de sua capacidade de fazer isso no presente estágio da vida deles. 

SE – “big if” – conseguisse fazer isso, e a Paloma também – só há três lugares no mundo em que eu contemplaria viver: na região de Ohio Oriental e Pennsylvania Ocidental, beirando o Lago Erie, em que minha filha mais velha e minhas netas moram; na região de Chaves, em Portugal, no Trás-os-Montes, perto da Galícia, porque é um lugar lindo e tem o atrativo especial do nome do Concelho; e na região de Genebra, na Suíça, incluindo a vizinhança francesa (como Ferney-Voltaire e Évian, com preferência para a primeira, onde Voltaire morou), mais tranquila e com custo de vida mais acessível – mas tendo o ponto negativo de estar na Comunidade Europeia, pela qual não tenho nenhuma simpatia. 

Sou descendente de portugueses dos dois lados da família: do lado paterno, pelos Chaves, do lado do meu avô, Carlos (Calico), e pelos Oliveira, do lado da minha avó, Alvina; do lado materno, pelos Campos, do lado do meu avô, José (Juca), e pelos Claro-Godoy, do lado de minha avó, Angelina (Gina). Meus bisavôs, do lado materno, tanto do lado do meu avô como do lado de minha avó, se chamavam Joaquim e Maria. Se alguém tinha dúvida da minha lusitanidade, ela termina aqui. Casei-me com a Paloma, cujos ancestrais são portugueses, do lado paterno (Oliveira-Machado), e suíços, do lado materno (Epprecht). E todo esse pessoal de fora imigrou para o Brasil em algum momento. Está explicado por que eu opto por morar ou aqui no Brasil, onde tudo se juntou, ou em Portugal, ou na Suiça. Portugal representa a Comunidade Europeia (ma non tropo), e a Suiça, a parte da Europa que se recusou a entrar ou continuar na União Europeia (que hoje inclui o Reino Unido), porque quer, a todo custo, manter a sua liberdade e autonomia. Diferentemente do Reino Unido, que entrou, com reticências (nunca aceitou adotar o Euro como moeda), mas oportunamente reconsiderou sua decisão e saiu, a Confederação Helvética nunca entrou, porque sempre teve em alta conta, e nunca esteve disposta a ceder, nem mesmo em parte, o seu direito de pensar e agir por si própria, vale dizer sua liberdade e sua autonomia. O “espírito de manada” (herd spirit) não tem nada que ver com os suíços. Eu, pessoalmente, admiro a atitude suíça e não gosto da União Europeia, com seus engravatados em Bruxelas, Estrasburgo e Luxemburgo, por causa de sua ideologia socializante e anti-libertária. 

É isso. Não sei bem por que tive a ideia de escrever sobre isso. A ideia me veio à cabeça aparentemente a partir do nada. 

Em Campinas (no apartamento de minha filha mais nova), 21 de Agosto de 2022



Categories: Brasil, Exterior

3 replies

  1. “Aqui fiz sucesso” creio ser a razao principal. Nao foi o meu caso. Fi-lo entretanto nos EUA. Que no frigir dos ovos pode me permitir passar os ultimos anos de minha vida no Brasil, no minimo benificiado pela “arbitrage” da diferenca de moedas. O tempo dira’.

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