Ser Ateu Não É Fácil

Faz tempo que não trato dessa questão, por ser ela razoavelmente delicada. Eu, em 1960, tomei a decisão de ser pastor presbiteriano, fiz o meu curso Colegial Clássico (hoje Ensino Médio) em um internato presbiteriano, o Instituto José Manuel da Conceição (JMC), em Jandira, SP, de 1961 a 1963, fiz um pouco mais de três anos de Bacharelado em Teologia, em dois seminários, o Seminário Presbiteriano do Sul (SPS) Campinas, em Campinas, SP, e a Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, RS, recebi um diploma de Bacharel em Teologia do Pittsburgh Theological Seminary, de Pittsburgh, PA, pelos estudos teológicos realizados até então e pela aprovação em alguns exames, no ano de 1967, fiz Mestrado em Teologia, na mesma Instituição, concentrando-me em História da Igreja e do Pensamento Cristão, em 1967-1970, e fiz meu Ph.D. na University of Pittsburgh, em 1970-1972, com concentração em História da Filosofia (Século 18, Iluminismo, David Hume), e na História do Pensamento Cristão (a Questão da Razão e Revelação, de Tomás de Aquino a John Locke). Terminado o Doutorado, fui ser professor de Filosofia, em duas universidades, na California. Desisti de ser pastor, porque, ao longo de meus estudos de Teologia e Filosofia, havia perdido a fé, como se diz, que me havia levado a querer ser pastor. Como bom presbiteriano que era, minha fé era crença (aceitação da verdade de proposições e enunciados, com base na evidência e nos argumentos apresentados, belief, fides), algo eminentemente cognitivo, não era confiança (trust, fiducia), algo que tem que ver com experiência, relacionamento pessoal, sentimento de comunhão, amor) — algo que não era parte de minha vivência.

Na realidade, a partir de 1970, passei a me considerar agnóstico, depois cético, e depois ateu, e assim me considerei até basicamente 2010. Chamo esse período de minha peregrinação no deserto, ou meu exílio. Isso não é segredo para quem me acompanha e lê o que escrevo, em especial os meus blogs. Nunca achei que havia evidência contundente, por parte da ciência, por exemplo, de que Deus não existia. Mas eu também achava que os argumentos da Teologia Natural eram pouco convincentes e que acreditar nos fatos narrados na Bíblia, Velho e Novo Testamento, e aceitar os argumentos atribuídos a Jesus e a Paulo, era abrir mão da minha racionalidade. Para mim, o agnóstico, o cético ou o ateu, nenhum deles, tem de provar nada. Quem tem de provar, quem tem de apresentar evidências, quem tem de argumentar que essas evidências comprovam a veracidade daquilo em que ele acredita, é quem afirma alguma coisa, é quem acredita em alguma coisa — não é quem nega. Esse é um princípio epistemológico derivado da área jurídica: quem tem de provar alguma coisa é quem acusa, quem afirma, não quem nega, não quem se defende da acusação. Os agnósticos, os céticos, os que não acreditam simplesmente examinam os fatos apresentados e os argumentos invocados. Se acharem que eles provam a veracidade da tese apresentada, a aceitam. Se não acharem, não acreditam, pura e simplesmente. Não é necessário nem sequer suspender o juízo ou o julgamento. Num tribunal, numa corte de lei, se a promotoria, que acusa, e, portanto, que afirma que alguém cometeu um crime, é quem tem de provar. Se não o fizer, o réu é declarado inocente e colocado em liberdade — não precisa provar nada e não pode mais ser julgado por aquele suposto crime.

O fato de que um indivíduo não pode ser julgado mais de uma vez por um mesmo crime é uma peculiaridade do Direito Ocidental. Na Epistemologia, uma proposição pode ser julgada quantas vezes a gente quiser — na verdade, as proposições estão perpetuamente em julgamento. A Verdade é sempre uma Tese, na realidade, uma Hipótese, uma Conjetura, que pode não ter sido falsificada ou refutada até hoje, mas pode vir a sê-lo amanhã. Isso aprendi com Karl R. Popper. Meu Orientador de Doutorado, William W. Bartley III, foi Orientando de Popper, na London School of Economics. Quem está à procura da verdade nunca pode concluir, de uma vez por todas, que a encontrou e, portanto, tem direito de interromper a sua busca pela verdade por já tê-la encontrado.

Por volta de 2010, ao ler algumas coisas de dois amigos meus, um, antigo, Jonathan Wells, que eu fiquei conhecendo na década de 1970, e o outro, Marcos N. Eberli, cientista que foi meu colega na UNICAMP, fui convencido de uma tese simples, que eu havia estudado em minha tese (1970-1972) e rejeitado: os fatos e os argumentos dos que defendem a tese de que este nosso universo, tão amplo, tão complexo, mas, no fundamental, tão ordenado (e tão lindo) só pode ter sido produzido por um ser sábio, inteligente, e poderoso (e, além disso, apreciador da beleza) — essa tese é muito mais plausível do que a tese alternativa de que tudo isso ocorreu por acaso, a partir de uma explosão inicial (um bing bang), ou de várias, e de múltiplas combinações aleatórias, mas sem projeto (design), sem propósito (purpose), sem finalidade (end), que, para mim, hoje, é uma tese totalmente inaceitável, inacreditável, mesmo. As teses complementares apresentadas pelos naturalistas ou materialistas, para explicar a origem da vida (das plantas e dos animais em geral, inclusive dos seres humanos) e, no caso do ser humano, para explicar a origem da inteligência humana, que foi capaz de inventar (criar) a própria ciência e as tecnologias dela resultantes, são igualmente inaceitáveis, inacreditáveis, mesmo.

Estudando a Epistemologia (Teoria do Conhecimento), a Lógica (Teoria da Argumentação), a Filosofia da Ciência, eu acabei voltando a acreditar em Deus. Não exatamente no mesmo Deus em que eu acreditava antes, mas em um Deus que, para mim, naquele momento, era suficientemente próximo do Deus em que eu acreditava antes para representar um avanço significativo.

Confesso que, embora tenha nascido e sido criado em um lar cristão, e tenha lido a Bíblia inteira várias vezes, ainda quando criança, e tenha ouvido milhares de vezes a advertência de que é preciso amar a Deus acima de todas as coisas, até mesmo mais do que amamos os nossos pais, nunca consegui fazer isso. O Deus do Velho Testamento, em especial, sempre me pareceu, ora distante e remoto, ora, bravo e raivoso. A figura dele nas histórias bíblicas contadas na Escola Dominical com a ajuda do flanelógrafo, o mostravam mau e implacável. Nunca sorria. Quando comecei a ler a Bíblia, ao redor dos cinco anos (na escola só entrei com oito anos e meio) fiquei ainda com mais medo dele: mandava os seus seguidores invadir a terra dos outros e matar todo mundo, inclusive mulheres e crianças. Isso me deixava apavorado. Meu pai de vez em quando era bravo quando a gente aprontava alguma arte, mas a maior parte do tempo era bondoso, carinhoso, sorridente, até brincalhão.

O lar cristão em que nasci e cresci era Presbiteriano. Meu pai era pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Decorei o Breve Catecismo de Westminster quando tinha cerca de cinco ou seis anos. Ele começa dizendo que nós devemos louvar a Deus e glorificá-lo para sempre. E eu sabia, por ouvir dizer na igreja, que a gente devia temer a Deus. Temer, para mim, era ter medo, e medo de Deus eu tinha. Louvar a Deus, segundo eu entendia, era cantar hinos para ele. E eu sempre gostei de cantar. Glorificar a Deus eu não sabia direito o que era. Mas duas coisas em três me deixavam bem, imaginava eu. Eu tinha medo de Deus, isto é, temia a Deus, e cantava hinos, isto é, o louvava.

Só vim a estudar as Institutas de Calvino quando estava fazendo o Mestrado, em Pittsburgh, já com mais de 24 anos. O medo de Deus tinha em grande parte ficado para trás. Mas o Deus de Calvino era muito mais parecido com o Deus do Velho Testamento do que com o Deus impersonado por Jesus, um Deus que é pai bondoso, que ama e tem misericórdia dos outros… O Deus de Calvino não é pai, é rei, soberano, altivo, orgulhoso, vingativo, que só quer ser glorificado e ouvir louvores. Foi daí que saiu o louvar a Deus e glorificá-lo para sempre do Breve Catecismo. O Deus de Calvino decidiu, desde antes da criação do mundo, em seus Decretos Eternos, que iria criar um mundo, e nele poria seres humanos. Mas antes de fazer isso já, não só previu, mas determinou que os humanos criados por ele iriam desobedecê-lo, e que seriam punidos, não só os dois originais, mas todos — TODOS — os seus descendentes iriam carregar o peso do desobediência de Adão e Eva. Ele, junto com o Plano A, montou um Plano B, que salvaria alguns — não aqueles que se comportassem bem, mas aqueles que ele escolhesse do alto de sua arrogante soberania. O restante, mesmo que fossem pessoas excelentes, iriam, depois de morrer, passar toda a eternidade no Inferno, sofrendo os mais horríveis tormentos. Sem ter feito nada errado. Só porque Adão e Eva desobedeceram a Deus e o Plano B de Deus não era para todo mundo. Sempre achei isso não só injusto, mas sádico.

Mas pensar isso é perigoso. E se tudo isso for verdade?

Não consigo acreditar no Deus do Velho Testamento, que tem algumas características que me parecem ser as de um déspota pouco esclarecido, egoísta, cheio de si, vingador, que distribui punições totalmente desproporcionais em relação às ofensas, que, no fim do mundo (ou da vida de cada um) vai condenar um monte de gente a punições horríveis, por toda a eternidade. Mas acreditar em um Deus mais simples, mais magro (em sua lista de características), mais parecido com o Deus de Jesus de Nazaré, em alguns momentos, do que com o Deus do Velho Testamento (ou o de Paulo), parece-me, hoje, algo viável. Não sei se esse “Deus mais magro” micro-gerencia o mundo, ouvindo orações, atendendo a pedidos, estando em controle dos mínimos detalhes daquilo que acontece ou deixa de acontecer. Em todo caso, de vez em quando eu tenho esperança (não fé, que para muitos crentes implica certeza) de que ele possa atender a algumas raras e silenciosas petições para que ele proteja aqueles a quem eu amo, para que eu tenha tempo para terminar alguns projetos que me são caros, etc. Ou, mais frequentemente, para agradecer as inúmeras coisas boas (“bênçãos”) que têm acontecido em minha vida, os oitenta e dois anos que já completei, com saúde bastante boa — até aqui, pelo menos… Não tenho fé, na verdade, nem muita esperança, de que haja uma vida depois desta, mas, se houver, tudo bem, não tenho medo. Meu medo maior é não viver esta vida da melhor maneira possível.

Voltei a pensar nessas questões por causa de um livro que eu achei de um sacerdote da Igreja Ortodoxa, quem diria, cujas ideias, só algumas delas, passo a discutir a seguir. Só entrei em uma Igreja Ortodoxa duas vezes na vida. Uma vez em Istambul, na Turquia, antiga Constantinopla, em 1984, e a outra vez em São Paulo, no bairro do Paraíso, para o casamento de uma secretária minha que tinha acabado de perder pai — mas resolveu não deixar que isso a impedisse de se casar com o homem que havia escolhido para ser seu marido. Isso deve ter sido no fim dá década de 1980,

I. ALGUMAS OBSERVAÇÕES DE ANDREW STEPHEN DAMICK

Em seu livro Orthodoxy and Heterodoxy: Finding the Way to Christ in a Complicated Religious Landscape (2ª edição, revista, Ancient Faith Publishing, Chesterton, IN, 2017), Andrew Stephen Damick, que é sacerdote da Igreja Ortodoxa (embora more nos Estados Unidos), coloca um Apêndice relativamente curto sobre Ateísmo e Agnosticismo.

Ali ele faz algumas observações bastante interessantes. Vou resumir aqui as principais, para depois comentar.

1. Observações de Damick Acerca do Sentido dos Termos Envolvidos

“Concordo com aqueles que dizem que ser ateu ou agnóstico requer um certo tipo de fé, mas isso não faz com que esses pontos de vista possam ser considerados religiões.”

[. . .]

“Esses termos – ateu e agnóstico – são usados pelas pessoas para significar uma série de coisas diferentes (mas relacionadas). Aqui estão alguns exemplos:

  • a. ‘Não acredito que exista um deus’.
  • b. ‘Eu acredito que não existe deus’.
  • c. ‘Não tenho crenças que tenham alguma coisa a ver com um deus’.
  • d. ‘Eu sei que não existe deus’.
  • e. ‘Não vi nenhuma evidência de que existe um deus’.
  • f. ‘Não sei se existe um deus’.
  • g. ‘Não posso saber se existe um deus’.
  • h. ‘Ninguém pode saber se existe um deus’.
  • i. ‘Se existe um deus, eu não gosto dele e não quero nada com ele’.
  • j. ‘Eu não acredito no seu deus’.
  • k.’As pessoas naquela igreja são hipócritas e não quero nada com elas’.
  • l.’Pessoas religiosas fizeram coisas ruins em nome de seu deus’.

Muitas suposições, algumas delas factualmente erradas ou incompletas, estão por trás dessas declarações. Por exemplo, muitos ateus rejeitaram a fé em Deus porque não gostam da forma como Deus lhes foi apresentado – geralmente como um punidor tirânico e arbitrário.”

2. Observações de Damick Acerca da Questão da Evidência

“Provavelmente o maior problema para ateus e agnósticos é a questão das evidências. Onde exatamente está esse Deus que os crentes afirmam conhecer? Esse é, de fato, o cerne da questão. A razão deveria deixar claro que ninguém pode dizer honestamente: “Eu sei que deus não existe”. Por que? Dizer tal coisa exigiria que alguém tivesse conhecimento de absolutamente tudo que existe. Uma agulha pode ser colocada num palheiro, mas a menos que absolutamente cada pedaço de feno seja examinado separadamente, você não pode dizer: ‘Não há agulha ali’.

Embora uma pessoa dedicada a encontrar tal agulha tenha a possibilidade de ser tão minuciosa, ninguém jamais poderia examinar o universo inteiro para ver se existe um deus em algum lugar nele. Isso não só exigiria a capacidade de observar simultaneamente todas as partes da realidade sobre a qual podemos teorizar como existentes, mas também exigiria que tivéssemos um conhecimento perfeito de tudo o que possa existir em qualquer forma. E se existirem outras dimensões da realidade que não sejam limitadas pelo nosso universo? E mesmo que conhecêssemos todo o espaço possível que precisava ser explorado, teremos os tipos certos de ferramentas para detectar o que está presente nele? Ou e se detectássemos um deus, mas não soubéssemos quem estávamos vendo?” [Appendix I; meu leitor Kindle não indica a página, mas o Apêndice é curto.]

Há mais coisa interessante, mas citarei mais abaixo. Vou comentar primeiro, de forma sucinta, o que está dito nas passagens já citadas.

II. OBSERVAÇÕES MINHAS SOBRE AS OBSERVAÇÕES DE DAMICK

Concordo com Damick de que a controvérsia básica envolve basicamente duas áreas:

A Área Linguística, basicamente a Semântica, que tem que ver com o significado dos termos envolvidos;

A Área Filosófica, envolvendo basicamente duas sub-áreas: a Epistemologia, que tem que ver com a teoria da racionalidade, com a questão da diferença entre conhecimento e opinião, e com a questão da relação entre verdade e evidência, e a Lógica, que tem que ver com a teoria da argumentação, os diferentes tipos de argumento, a questão da validade, invalidade e solidez de argumentos, a questão da refutação de argumentos, etc.

1. Acerca das Questões Linguísticas

Concordo, em princípio, com a maioria das doze afirmações feitas por Damick.

Primeiro, não tenho dúvida alguma quem afirma que é ateu precisa especificar e esclarecer o sentido que dá à sua afirmação, pois ela pode ter diferentes sentidos.

Segundo, sou da opinião, porém, que a maioria absoluta dos ateus, ao afirmar seu ateísmo, tem em mente a primeira ou a segunda frase (a ou b). Ou ele não acredita que exista um deus (algum deus) específico OU ele acredita que que nenhum deus exista. Não conheço ninguém que afirme o que diz a quarta frase (d).

Terceiro, sou da opinião que a maioria absoluta dos agnósticos, ao afirmar seu agnosticismo, tem mente uma das frases situadas nas posições de cinco a oito (e-h).

Quarto, Damick não discute, no Apêndice que discorre sobre o Ateísmo, o sentido do principal termo envolvido, a saber, Deus. Não pretendo inovar aqui. Só vou esclarecer que, ao falar em Deus, eu (não necessariamente Damick) tenho em mente um ser eterno (sem começo e sem fim), espiritual (imaterial e incorpóreo), extremamente inteligente, poderoso, e bom, que é responsável pela criação, operação e sustentação do mundo e de tudo o que nele existe. Isso aí. Há gente que elevaria as características citadas ao grau máximo (onisciente, todopoderoso, infinitamente bom, por exemplo) e há gente que acrescentaria outras características que eu deixei de fora (pessoal, por exemplo). Mas eu deixo a conceituação de Deus do jeito que está como uma conceituação mínima. Creio que ela abrange pelo menos o Deus do Deísmo, da Religião Natural e do Teísmo. Parece-me evidente que os teístas seriam aqueles que gostariam de reforçar as características citadas e acrescentar outras.

2. Acerca das Questões Epistemológicas e Lógicas

Está certo Damick de que, ultrapassado o plano das questões linguísticas ou semânticas, é necessário lidar com as questões epistemológicas e lógicas. É o que farei aqui, nesta ordem.

A. A Questão Epistemológica da Evidência, do Conhecimento e da Verdade

a. A Questão da Evidência

Primeiro, se houvesse evidência inequívoca a favor de um lado e contra o outro, a questão estaria decidida, seja a favor do ateísmo, seja a favor do teísmo: aquele que tivesse evidência favorável, e contra o outro — não haveria controvérsia.

Segundo, se não houvesse nenhuma evidência, nem de um lado, nem do outro, a questão também estaria de certo modo decidida a favor do agnóstico.

Terceiro, o problema surge na situação mais comum de parecer haver alguma evidência tanto para um lado como para o outro, mas essa evidência não é inequívoca. É nessa situação que surge a controvérsia maior.

O quer dizer isso?

Primeira situação

Anoiteceu, digamos, em algum lugar razoavelmente distante dos polos da Terra. A gente vai dormir. E alguém levanta a questão: “Será que o dia vai nascer amanhã?” Creio que as pessoas, em sua totalidade, diriam que sim — que acreditavam que o dia iria nascer dali umas horas. Por quê? Porque durante a vida delas toda isso aconteceu, e nunca houve uma só ocasião em que um novo dia não nasceu. A evidência a favor dessa crença é contundente. E não há nenhuma evidência contrária.

Segunda situação

Em algum lugar da terra alguém está muito doente, os médicos o desenganaram, alguns dos órgãos dele já pararam de funcionar (os rins, por exemplo), ele está quase totalmente inconsciente, dormindo o tempo todo, os parentes estão todos reunidos esperando o desenlace, quando, de repente, a sonda mostra que começa a descer urina, ele respira fundo, abre os olhos, vê aquela gentarada ali, sorri levemente, e diz algo como “Que bem que vocês estão todos aqui!” Vendo a filha ao lado da cama ele pergunta: “Filha, quando a gente vai para casa?” Em seguida tenta se assentar na cama e começa a conversar com os circunstantes. A enfermeira é chamada, ela não acredita no que vê, chama o médico, este vem e diz: “Nunca vi uma coisa destas! Os dois rins dele estavam parados há mais de 24 horas! Não há explicação. Mas se quiserem levá-lo para casa, eu dou alta e amanhã cedo ele sai.” O que pensar? Quem acredita que Deus existe vai dizer que foi um milagre divino. Quem não acredita vai dizer que coisas improváveis assim, embora extremamente raras, acontecem de vez em quando, e que alguma coisa que estava obstruindo a passagem de urina em pelo menos um dos rins deve ter cedido e aquele rim voltou a funcionar. Este exemplo não é de Hume. Nem é totalmente inventado. Algo assim aconteceu em minha família há dois anos. Se milagres de fato existem, deve haver quem os realize. Mas também pode ser que foi um sopro da sorte, por assim dizer.

Terceira situação

Alguém, em um campo de batalha (que pode ser em uma de nossas cidades brasileiras), recebe uma saraivada de balas que o atingem na cabeça no rumo do coração, no abdômen, e a pessoa cai, para todos os fins, morta. A ambulância chega, constate que a pessoa não tem pulso. Os médicos e enfermeiros tentam ressuscitá-la. Levam-na para o hospital e lá constatam que, além de ela não ter mais pulso, a atividade cerebral está paralisada: várias balas atingiram o cérebro dela. O que fazer? Começar os preparativos para a liberação do corpo, para o velório, para o funeral, ou esperar pelo menos três dias por um milagre? O sogro do Eduardo (na Segunda Situação) não estava quase morto e reviveu? O termo chave aqui é “quase”. No caso do meu sogro, o Machadinho, ele tinha pulso e atividade cerebral, mas os rins estavam inativos. No entanto, para os médicos, era só uma questão de tempo. Os médicos erraram no caso do meu sogro. Ele voltou para casa e viveu mais um ano. Será que os médicos que examinaram o baleado não poderiam igualmente estar errados?

Quarta situação

Um habitante da Laplândia, na região norte da Finlândia, foi viajar para a região central da África, e lá, à beira de um amplo lago, em companhia de um nativo, vê uma manada de elefantes bebendo água. O finlandês diz para o nativo: “Lá na minha terra, há uma época, perto do fim do ano, em que faz tanto frio, mas tanto frio, que a água de um lago como este congela e fica de tal modo dura que essa manada inteira de elefantes poderia atravessar o lago andando e ir parar lá do outro lado dele.” O nativo respondeu: “Não acredito.” Segundo Hume, que dá o exemplo, exceto pela Laplândia, o nativo estava epistemicamente certo em não acreditar, porque na vida dele inteira ele nunca havia visto algo semelhante. No entanto, nós sabemos que a experiência dele era limitada, e que, na realidade, ele estava errado.

COMENTÁRIOS

Acho que a situação relativa ao teísmo e o ateísmo oscila entre algumas possibilidades. Tecerei a seguir alguns comentários.

Dificilmente alguém vai acreditar que Deus existe, ou deixar de acreditar que Deus existe, exclusivamente com base em argumentos lógicos sustentados por evidência empírica constituída de fatos indubitáveis. Tendo a concordar com Damick quando ele afirma o seguinte:

“Acho que um dos erros que muitos de nós cometemos (inclusive eu) [. . .] é acreditar que podemos convencer a outra parte a ver a verdade. Não acredito que isso seja possível. Nunca conheci ninguém que tenha conseguido argumentar com sucesso, de modo a convencer o outro, que dele discorda, de que Deus existe, ou de que Deus não existe.” [Appendix I; como já disse acima, meu leitor Kindle não indica a página, mas o Apêndice é curto. Esta tradução não é exatamente literal: tomei um pouco de liberdade ao traduzir a passagem, preservando o sentido.]

As pessoas se convertem, do teísmo para o ateísmo, em geral em decorrência de alguma experiência, em geral traumática, que vivenciaram ou pela qual passaram, não em função de argumentos lógicos que apelam para evidência empírica constituída de fatos indubitáveis. Um acidente besta que mata uma pessoa excelente e importante em nossa vida, na flor de sua idade, quando tinha ainda a vida inteira para viver, pode levar alguém que acreditava em um Deus infinitamente bom, todo-poderoso e onisciente a deixar de acreditá-lo. O ex-rabino Richard Rubenstein, que eu tive o privilégio de conhecer, na década de oitenta, deixou não só de ser rabino mas de acreditar em Deus ao compreender a dimensão do Holocausto. “A ocorrência do Holocausto não teria sido permitida por um Deus como aquele em que eu acreditava”, disse ele, “se ele existisse”. (Novamente, o sentido é esse, as palavras podem não ter sido exatamente essas: cito de memória, a partir de uma palestra que ele deu, nos anos oitenta, na qual eu estava presente.) Quando ele chegou a essa conclusão, deixou de acreditar em Deus e deixou de ser rabino. Certamente há um argumento embutido em sua decisão, do tipo modus tollens (Se Deus existe, algo como o Holocausto não acontece; o Holocausto ocorreu; logo, Deus não existe). Mas as premissas não são fáticas: em seu conjunto, elas são valorativas: ninguém que fosse infinitamente bom, e que tivesse o poder de evitá-lo, teria deixado o Holocausto acontecer — e isso, para ele, por causa da sua dimensão. Não adianta argumentar que pode ter havido uma “razão suficiente” que justificaria o fato de Deus ter permitido o Holocausto (como quando se argumenta que a dor de uma injeção ou de uma amputação é justificada pelo fato de que vai impedir a doença ou a morte de uma pessoa. Ele simplesmente não aceitaria nenhuma dessas “razões suficientes”, pela dimensão do ocorrido.

B. A Questão Lógica dos Argumentos e sua Validade e Solidez

A controvérsia, no caso, é de natureza basicamente epistemológica, e tem que ver com a teoria da racionalidade, com nossa visão do que é racional ou razoável fazer. David Hume, filósofo escocês do século 18, um cético (o ceticismo é algo mais forte do que o agnosticismo) afirmou que uma pessoa sábia (ele não gostava muito do termo “racional”) proporciona suas crenças à evidência disponível para elas.

Acho isso sensato.

Sei que devo complementar este artigo e dar-lhe um fecho, mesmo que não tenha alcançado nenhuma conclusão definitiva.

Mas não estou disposto a tentar fazer isso agora. Fica para mais tarde. Espero que o que já foi dito seja de alguma utilidade para ninguém. Mas não vou me decepcionar se não for…

Em Salto, 5 de Fevereiro de 2026.



Categories: Liberalism

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