Bultmann, a História e o Mito

Bultmann, a História e o Mito

1. Introdução

Eu havia inicialmente incluído esta discussão no meu artigo “Rudolf Bultmann e a Questão da Ortodoxia e da Heresia”, neste mesmo blog (Chaves Space). Depois o retirei, em parte porque a discussão lá já andava muito longa, em parte porque achei que a discussão desta questão, de como Bultmann lida com a questão da História e do Mito, poderia prejudicar a discussão da questão básica do outro artigo. No artigo anterior, argumentei que Bultmann era um teólogo liberal, no sentido filosófico-teológico, mas não, necessariamente pelo menos, no sentido do movimento histórico do século 19. Aqui ficará evidente, de passagem, que Bultmann, apesar das críticas que fez ao Liberalismo Teológico do século 19, manteve, também, ao longo do tempo, muitos pontos em comum com ele.

Como disse no artigo anterior, muita gente considera Rudolf Bultmann um teólogo neo-ortodoxo, parte de um grupo, liderado por Karl Barth [1], que, no início do século 20, depois da Primeira Guerra Mundial, ao vivenciar, na guerra, o colapso do otimismo, calcado na ideia do progresso, que imperava no século 19, resolveu abandonar e combater o Liberalism Teológico do século 19, que, segundo o grupo, compartilhava esse otimismo ingênuo, traduzido em uma Ética Cristã travestida de Evangelho Social, como no caso de Adolf von Harnack [2], que havia sido professor de quase de todos eles — e, talvez por isso, se tornou o mais criticado de todos eles. Deixei claro, no artigo anterior, que Bultmann fez parte desse grupo inicialmente. A questão que se coloca é se ele permaneceu muito tempo com o grupo. Minha opinião é de que não. Para mim, pelo menos a partir de 1941, quando ele publicou seu ensaio Neues Testament und Mythologie (O Novo Testamento e a Mitologia), ele passou a ficar fora do grupo. Contribuiu para isso o fato de ele ter um especialista no Novo Testamento, ele se posicionou fora do grupo, com seu próprio círculo de seguidores. Amistoso e cordato como era, entretanto, preservou o bom relacionamento com os demais. Para mim, Bultmann acabou se tornando o último dos teólogos liberais do século 19 — e o primeiro dos teólogos liberais do século 20, embora com um viés diferente. O texto deste parágrafo é uma virtual citação de passagens do artigo anterior.

2. História Acontecida e História Construída

Meu argumento, aqui, como sempre, terá forma meio indireta e digressiva, não forma direta e objetiva. Vou começar discutindo dois tipos de História, que Bultmann faz muita questão de distinguir: o que ele chama, em alemão, de Historie e o que ele chama de Geschichte.

Historie é o que a gente poderia chamar de História-Acontecida, História-Bruta, História-Fato, História-Objetiva. Geschichte é o que pode ser chamado de História-Construída, História-Interpretada, História-Narrada, História-Subjetiva. Mais uma vez, não vou ficar procurando citações de Bultmann para justificar minha posição. Vou relatar aquilo, à modo do Rubem Alves, aquilo que ficou no meu sistema depois de eu ler Bultmann por muito tempo.

Começo meus desvios. Vou começar chamando a atenção do leitor para dois artigos de jornal que considero importantes nesta discussão. O primeiro é um artigo do filósofo Denis Lerrer Rosenfield no Estadão de 25 de agosto de 2014, sob o título (certamente instigante) “Verdade e Narrativa” [3] (http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,verdade-e-narrativa-imp-,1549100/). Denis Rosenfield é um brilhante filósofo que trabalha (ou trabalhava – perdi contato) na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que escrevia, de vez em quando, no Estadão. (Tive o privilégio de conviver com ele durante três dias num colóquio do Liberty Fund numa deliciosa pousada em São Roque, SP, em Julho de 2008.  Esse mês é, para mim, cheio de lembranças muito agradáveis e importantes, que peço vênia para não detalhar.) Minha atenção foi chamada para ele por uma referência num artigo de Rodrigo Constantino, no blog da VEJA, que também é um artigo muito bom, com o título “Os Mitos Históricos Seduzem mais do que os Fatos: É a Narrativa que Importa!” (http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/democracia/os-mitos-historicos-seduzem-mais-do-que-os-fatos-e-a-narrativa-que-importa/). Rodrigo Constantino é bem mais conhecido: é colunista de vários meios de comunicação, e já foi de outro tanto, onde sempre defendeu e continua a defender o liberalismo político, entre outras ideias que me agradam.

Em seu artigo, Rosenfield começa fazendo referência a um excelente filme de Clint Eastwood (que considero o melhor diretor vivo de Hollywood chamado Flags of Our Fathers (Bandeiras de Nossos Pais), que em Português recebeu o título inadequado de A Conquista da Honra. Eu teria dado ao filme em Português o título de Bandeiras de Luta dos Nossos Pais. No filme, um velho soldado, ex-combatente da batalha de Iwo Jima, uma batalha crucial para o desfecho da Segunda Guerra Mundial na sua frente no Pacífico, narra como ele e cinco companheiros tiraram uma foto, ao lado da bandeira americana, para comprovar a vitória americana na batalha. Essa foto se tornou um ícone – sendo considerada o símbolo da “virada” americana na guerra contra o Japão. Aquela foto regimentou a opinião pública e, com o seu apoio, os Estados Unidos acabaram ganhando a guerra. Acontece que a foto dos seis soldados com a bandeira foi tirada quando a guerra já estava basicamente ganha. A foto original, tirada pelos soldados que realmente ganharam a batalha, aparentemente se perdeu, e o que a substituiu foi uma foto “fake“, de quem levou a fama sem ter sido responsável pelo sucesso no campo de batalha. Mas foi a “fake picture“, a “narrativa”, vale dizer, o “mito”(o que Constantino chama de “mito histórico) que se tornou a “história”, não no sentido de história-verdade, real, bruta, objetiva, cheia de fatos, “wie sie eigentlich gewesen sind[4], mas a história registrada, narrada, interpretada, construída, a história-mito, que dá uma perspectiva aos fatos ou, então, simplesmente constrói um significado para as evidências disponíveis. Em regra, é essa segunda história, mais Geschichte do que Historie, que sempre prevalece.

O ponto do artigo de Rosenfield é que, no fundo, e para ele infelizmente, é a história narrada que prevalece — enquanto a história real se perde no esquecimento. Por essa razão é que historiadores e pretensos historiadores lutam tanto para controlar qual é a história-narrativa que vai prevalecer e, no futuro, ser contada como se fosse a história-verdade, a história realmente vivida. O ditado de que a história é sempre contada pelos vencedores não é bem verdade. Quem venceu na história de fato não é sempre quem vencer na história narrativa. Quem narra a história que prevalece entre as diversas histórias narrativas é que se torna o vencedor — não aquele que venceu no campo de batalha real. Às vezes nem conseguimos saber o que há de verdade e o que há de fabricação consciente na história narrativa vencedora (nem nas perdedoras).

Note-se que os críticos (como Bultmann) da “História Científica”, da “História como Ciência”, da “História dos Descrição e Explicação dos Fatos como Eles Realmente Aconteceram”, são céticos. Eles estão convencidos, em maior ou menor grau, que esse tipo de história é inalcançável, inatingível, basicamente impossível mesmo. Como admiti no artigo anterior, eu comecei sendo cético acerca da religião, com base na ciência, e, posteriormente, vim a me tornar cético também da ciência, ocasião em que voltei a me interessar pela religião. O meu ceticismo da ciência, a que eu fiz referência no artigo anterior,  foi da ciência natural, dita exata. Mas se eu me tornei cético das ciências exatas, e de seu positivismo (que só há conhecimento na ciência), com muito mais razão vou ser cético da pretensão científica da história, de uma história que acha possível verdadeiramente descrever explicar os fatos como eles, sem sombra de dúvida, realmente aconteceram.  

3. Relativismo e Ceticismo  

Não sou um relativista. Estou convencido de que FATOS — tanto naturais, como sociais, econômicos, políticos, culturais, pessoais (na vida pessoal de cada um) — EXISTEM. Consequentemente, estou convencido de que a VERDADE EXISTE, uma verdade sendo um enunciado ou uma proposição que corresponde ao um fato ou a um conjunto de fatos. E também estou conhecido de que É POSSÍVEL CONHECER A VERDADE.

A. A Questão do Método

O problema está em determinar quais são os fatos, como eles foram causados, que outros fatos vieram a causar, etc., e isso de forma objetiva, desinteressada, desapaixonada, não envolvida nem, muito menos, partidária, sem deixar que nossas opiniões ou as de outros influenciem no processo de descobri-los. Isso é muito difícil no caso ciências exatas, que lidam com a natureza, com coisas visíveis, observáveis, e tangíveis, com métodos e procedimentos empíricos e replicáveis (reprodutíveis). No caso da história, a despeito da confiança dos que se chamam historiadores científicos, temos eventos únicos, irrepetíveis, que acontecem uma vez e nunca mais, que não podem ser replicados (reproduzidos). As evidências, no caso da história, consistem, de um lado, de depoimentos humanos, em regras de pessoas que não estão mais vivas, e, portanto, em forma escrita, pessoas que nós sabemos que erram, e, mesmo quando não erram, podem mentir para tentar nos enganar e induzir ao erro, e que não podem mais ser inquiridas, contra-examinadas, e cujos documentos escritos podem ser, ou ter sido, fabricados, alterados, falsificados, etc. De outro lado, as evidências consistem de objetos, artefatos, em muitos casos arqueológicos, ruínas, etc., que trazem a verdade escrita em si próprios e que precisam ser identificados, datados, analisados, etc. Assim sendo, é dificílimo chegar à verdade, e mais difícil ainda ter certeza de que se chegou à verdade. Às vezes é possível estar de posse da verdade, mas por meio de chance ou acaso, sem ter evidência de que se está de posse da verdade. A verdade consiste de um enunciado ou proposição que corresponde aos fatos. Um enunciado ou proposição consiste de conceitos, expressos linguisticamente através de palavras em determinadas relações umas com as outras. Todos nós sabemos o quão difícil é dizer exatamente o que se pensa e se deseja expressar. A gente tenta dizer uma coisa e acaba dizendo algo diferente, às vezes até o oposto do que a gente queria. A verdade existe, sim, mas ela é escorregadia, de difícil formulação e expressão. Dizer, em relação a uma determinada coisa, que nós estamos dizendo a verdade, a verdade inteira e completa, nada, nem um til, mais do que a verdade, que estamos certos disso e podemos comprovar tudo o que estamos dizendo através de evidências e argumentos que podem ser examinados, é demonstrar uma ousadia tremenda, é exibir uma gigantesca presunção…

B. A Questão da Dúvida e o Ceticismo

A lição do ceticismo (não o radical, que afirma que não podemos saber nada, que a verdade não existe e que fatos são ilusões, mas o ceticismo moderado de David Hume) é que devemos ser modestos e humildes, moderados em relação ao que imaginamos conhecer ou saber, sem ir além do que os evidências e os argumentos permitem… E esse ceticismo mostra que é difícil ir além das narrativas e chegar aos fatos brutos que as comprovam ou falsificam. Tudo o que temos, a maioríssima parte do tempo, como Karl Popper nos mostrou em relação às ciências naturais, são CONJETURAS, que vão ser refutadas e falsificadas nos primeiros testes e exames. Chegar à verdade, só com muitíssima sorte — e, mesmo assim, sem jamais poder ter certeza. Certeza, com disse David Hume e, depois dele, Karl Popper, só na lógica (incluindo as matemáticas) em que a gente define as regras do jogo, fala em termos condicionais, e diz, “SE A é igual a B, e B é igual a C, então A é igual a C”. Pronto: certeza absoluta. Queria uma? Está aí. Se formos usar conceitos e palavras em vez de símbolos, aqui vai outra: “SE José é pai de Alice e Alice é mãe de Anello, então José é avô de Anello”. Certíssimo. Outra? “Em um triângulo, a soma dos seus ângulos é 180 graus”. “Em um triângulo reto, a soma do quadro dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa”.

C. Um Exemplo Rápido

No Brasil tivemos um período de Governo de Militares, que tomaram o poder e governaram durante 21 anos (1964-1981) sem eleições diretas pelo povo. Criaram Atos Institucionais, cassaram mandatos, fecharam partidos, criaram um outro, fecharam o Congresso e o Supremo Tribunal Federal por um tempo, mas, na maior parte do tempo mantiveram o Congresso em funcionaram, embora tenham mexido em sua composição. Isso se deu menos de 60 anos atrás. O término do processo faz menos de 40 anos.

Conhecemos a verdade sobre esse período? Vários historiadores, a chamada “Comissão da Verdade”, e uma parte significativa da população afirmam uma coisa. Outros historiadores, os próprios militares, e boa parte da população afirmam outra. Afirmar, porém, é uma coisa. Comprovar, por fatos e argumentos o que se afirma, é outra. Os militares forem vilões e os terroristas heróis? Ou foi o inverso? Ou será que não foi bem nem uma coisa nem outra, tendo havido vilões e heróis dos dois lados. Ou, talvez, a ideia de que havia apenas dois lados então (como agora) seja uma pressuposição falha?

Em resumo: temos acesso aos fatos, algum de nós jura pela mãe (como a gente dizia, mesmo os crentes, quando éramos crianças) que sabe e conhece qual é a verdade e pode demonstrá-la e comprová-la por evidências e argumentos incontestáveis?

A narrativa (história-construída) que, por qualquer meio, ainda que cheio de invenções, inverdades e meias verdades (que, na realidade, são meias mentiras) é capaz de conquistar a opinião pública acaba prevalecendo e passando por história, como se fosse a história-acontecida — a história-verdade.

4. Bultmann

Voltemos a Bultmann…

Para o cristão comum, leigo em teologia e nas sofisticações do pensamento acadêmico, o Novo Testamento da Bíblia cristã (vamos nos ater a ele) contém vários gêneros literários: ficção inspiradora (as parábolas), preces (o Pai Nosso), ensinamentos morais (as Bem-Aventuranças), e, naturalmente, história — entendida pelo cristão comum como história-acontecida, história-verdade.

O que, para esse cristão comum, é história-verdade no Novo Testamento? Os três primeiros evangelhos, chamados de Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), parte do quarto evangelho (João), o livro de Atos dos Apóstolos (supostamente escrito pelo mesmo autor do Evangelho de Lucas), etc. Nos evangelhos sinóticos está contida basicamente a história de Jesus de Nazareth, desde seu nascimento até sua morte, ressurreição e ascensão aos céus. Tudo isso, para o cristão comum, é história-verdade, isto é, fato histórico inegável.

Bultmann, um cético moderado, que às vezes exagera um pouco, mas só um pouquinho, nega que aquilo que os evangelhos sinóticos relatam sejam fatos (históricos ou de qualquer outro tipo), “wie sie eigentlich gewesen sind” (como eles de fato aconteceram. Para ele, o que temos nos evangelhos, inclusive nos sinóticos, é kerygma – termo que pode ser traduzido como “narrativa daqueles que vieram a acreditar que Jesus de Nazareth era o Messias prometido a Israel, ou, num contexto menos judaizante, o Filho de Deus”. Em outras palavras: o que os evangelhos sinóticos relatam não é história-verdade, mas, sim, história-narrativa, esforço de quem acredita em algo e quer, através de sua narrativa, persuadir os demais a acreditar também…

O surpreendente é que Bultmann não chega a essa conclusão para denunciar a substituição da história-verdade pela história-narrativa no caso dos evangelhos sinóticos. Para Bultmann, o que importa não é a verdade histórica (que os historiadores científicos positivistas ingenuamente imaginavam poder descobrir), mas, sim, a verdade-narrada, a verdade-confessada, a verdade-proclamada.

Na verdade, é essa “virada” que torna o liberalismo teológico de Bultmann diferente do liberalismo teológico do século 19. O liberalismo teológico do século 19 se especializou em escrever “Vidas de Jesus” que, supostamente, relatariam quem Jesus de Nazaré realmente foi, o que ele de fato fez, o que ele verdadeiramente pregou. Os liberais teológicos do século 19 eram seguidores de Jesus, incorporaram sua ética do amor ao próximo — e, através de Adolf von Harnack, transformaram o Novo Testamento em manual para o Evangelho Social. Renegaram Paulo e João, por exemplo — que, para Bultmann, são os únicos dois que valem a pena no Novo Testamento. Para ele, a mensagem de Jesus e a mensagem dos demais autores do Novo Testamento não têm grande interesse. A de Paulo e João, sim… Porque a narrativa delas tem substância suficiente para ser reinterpretada em categorias existencialistas e para falar ao homem moderno (o homem do “Entre Guerras” e do período posterior à Segunda Guerra, o período da Guerra Fria.

Por isso, Bultmann, que se considera cristão, sem maiores qualificativos, não tem o menor problema em admitir que, pelo menos no entender dele, nada se alteraria, em relação à fé cristã, se alguém, per impossibile, conseguisse demonstrar que Jesus de Nazaré nunca viveu e morreu como todo mundo, nunca ressuscitou e subiu aos céus. Para ele a ressurreição de Jesus de Nazaré é algo que não aconteceu dois mil anos atrás na Palestina, mas, sim, algo que acontece hoje (como vem acontecendo desde o início do Cristianismo) na pregação da igreja cristã, sempre que alguém, em decorrência da pregação da igreja, tem a experiência existencial de realmente encontrar, na figura de Jesus de Nazaré, o Messias, o Cristo e o Senhor de sua vida e toma a decisão de se tornar uma “nova criatura”, de viver “segundo o espírito”, e não “segundo a carne”…

O “Jesus da História”, para Bultmann, não importa. Não importa nem mesmo se houve um Jesus histórico (isto é, que verdadeiramente tenha existido em algum momento no primeiro século de nossa era na Palestina). O que importa é o “Cristo da Fé”, proclamado na narrativa do Novo Testamento (em especial na narrativa de Paulo e João). Uma vez admitido isso, nada impede, pelo contrário, que se faça uma distinção “clara e distinta” entre o foco dos livros considerados históricos (os Evangelhos Sinóticos e Atos), o foco específico das cartas consideradas genuinamente paulinas (sete, não as treze da tradição), o foco do Evangelho e das Cartas atribuídas a João, e o foto do resto (inclusive o Apocalipse atribuído a João). Nada é história-verdade: tudo é história-narrativa, tudo é manifestação ou proclamação da fé de diferentes setores da comunidade cristã primitiva.

Na minha primeira leitura de Bultmann, eu, inicialmente, sempre considerei como mais importante o fato de que ele mostrava que a visão de mundo do Novo Testamento é, basicamente, uma visão mítica, não uma visão científica, enquanto que a visão de mundo do homem moderna é, basicamente,  uma visão científica. Nessa leitura, a visão mítica do mundo se contrasta com a visão científica do mundo, vale dizer, com a verdade científica; e a verdade científica é verdade real, não uma construção narrativa… E, nessa leitura, seria preciso reinterpretar a visão mítica do mundo encontrada no Novo Testamento. Conforme essa visão mítica, seres espirituais “do andar de cima do mundo”, isto é, que habitam o céu (Deus, os anjos e outros espíritos “do bem”), lutam, incessantemente, com seres espirituais “do andar de baixo do mundo”, isto é, seres que habitam o inferno (Diabo, anjos caídos e outros espíritos “do mal”), para controlar a nossa vida aqui “no andar térreo” e, por esse controle, determinar se, um dia, depois de nossa morte, vamos habitar no céu ou no inferno (para sempre). A proposta de Bultmann seria procurar reinterpretar essa visão mítica, de acordo com os cânones da filosofia moderna (que, para ele, era filosófico-existencialista, não científico-naturalista), para chegar a um relato sério e honesto do que acontece com nossa vida aqui na Terra (que é o único local que conhecemos). Aqui nesta nossa vida nos vemos atraídos, ora para o bem, ora para o mal, e, embora convencidos de que devemos fazer o bem (ou viver “segundo o espírito”), nos vemos lamentavelmente atraídos para fazer o mal (para viver “segundo a carne”). O que fazer, para que possamos encontrar uma saída para esse dilema, que nos permita alcançar um viver autêntico e realizado? Isso, em minha primeira leitura de Bultmann, era o que ele estava tentando fazer: ajudar o homem moderno a dar o salto para a existência autêntica, algo que o a quantidade enorme de mito no Novo Testamento o impedia de ver.

O problema com essa minha primeira leitura bultmanniana é que ela desconsidera o fato de que, segundo ele, a maneira de passar de uma existência inautêntica para uma existência autêntica parece ter, necessariamente, que ver com o “evento da salvação” (Heilsgeschehen), que, por sua vez teria que ver com a morte de Jesus de Nazareth e sua ressurreição como o Cristo em quem devemos acreditar e ao qual devemos dedicar a nossa vida, para que ela se torne autêntica e realizada… MAS, nada disso é verdade histórica, ou história-verdade, para Bultmann, e, sim, Geschichte, história-narrativa, ou seja, interpretação — mesmo que seja interpretação do que de fato não existiu ou ocorreu. Vale dizer, para todos efeitos, mesmo que isso seja um mito — um outro mito, mais palatável ao homem moderno, mas, apesar disso, um mito, nevertheless (que quer dizer, não nos esqueçamos, never the less… nunca menos!). 

Quem sabe Joseph Campbell não estava certo, e tudo é mito? [5] Quem sabe mito não é simplesmente um nome meio desatualizado que se dá à nossa Visão de Mundo, a nossa forma de enxergar e encarar as coisas e, acima de tudo, a vida, nós e a vida, a nossa vida, a nossa forma de ter esperança, e a nossa forma de entender a fé com fiducia, confiança (não como assentimento à crença, menos ainda indubitável), confiança, ainda que infundada, nunca a certeza, de que, no fim, tudo vai acabar bem? Ou, pelo menos, acabar… E continuar caminhando!

A teologia liberal do século 19 vendia o mito do Evangelho Social, e o fez com razoável sucesso. Ainda hoje há muitos que seguem esse evangelho em nossas igrejas. Bultmann, o simpático liberal “edição revista, ampliada e melhorada” do século 20, acredita no mito do Evangelho Existencial. Tentou vendê-lo, mas o mundo andou mais depressa e ele não encontrou muito comprador para o seu evangelho. O lado crítico e, de certo modo, destrutivo da sua obra tem mais seguidores. Mas Bultmann viveu o seu evangelho, de forma simples, frugal e despretensiosa, como diácono de sua igreja, e tentou vendê-lo, através de seus livros fascinantes. É como se dissesse: “Lamento, mas é isso que temos!”. Ou, como se dizia antigamente, quando alguém chegava em nossa casa: “Entre, seja bem-vindo, mas desculpe a pobreza…”.

Pena que o mundo andou e está numa época em que os mitos são um Evangelho Revolucionário, um Evangelho destinado a Minorias Identitárias, e outros grupos, mais irados e menos simpáticos do que Bultmann. Mito por mito, eu prefiro o mito do Evangelho Existencial de Bultmann.

Nunca vou fazer parte da Ortodoxia (outro mito). O meu mundo é das minorias. Mas não o das Minorias Identitárias. O meu mundo, é, por vezes, de uma Minoria de um Só: o Indivíduo e Si Próprio, o indivíduo recalcitrante e herege, mais aqueles que ele conseguir convencer, pacífica e serenamente, a acompanhá-lo na jornada. Sem ter certeza sobre aonde vão chegar. Mas com uma certeza: nós estamos aqui e, por, enquanto, este é o nosso lugar. E navegar é preciso.

5. Notas

[1] Apesar de a história ser sobejamente conhecida, do grupo participavam, além de Karl Barth, também Emil Brunner, Friedrich Gogarten, Eduardo Thurneysen, e, inicialmente, também Rudolf Bultmann. Por causa da popularidade da segunda edição de seu livro A Carta aos Romanos (Der Römerbrief), de 1922 (a primeira edição foi de 1919), Barth acabou assumindo uma certa liderança sobre os demais, a ponto de se sentir à vontade para criticar, publicamente, e por escrito, tanto Brunner como Bultmann. “Nein! Antwort an Emil Brunner” (Não! Resposta a Emil Brunner), de 1934, trata da teologia natural. E “Rudolf Bultmann: Ein Versuch ihn zu Verstehen” (Rudolf Bultmann: Uma Tentativa de Entendê-lo), de 1952, trata de vários aspectos do pensamento de Bultmann, inclusive da proposta de Demitologização. Esse artigo está disponível, em Inglês, no Vol. II de Kerygma and Myth: A Theological Debate, mencionado atrás.

[2] Para conhecer as ideias teológicas (não as históricas) de Harnack a melhor fonte é seu livrinho Das Wesen des Christentums (A Essência do Cristianismo), que tem, em Alemão, o mesmo título de um livro fascinante  que Ludwig Feuerbach publicou em 1841. O livro de Harnack foi traduzido para o Inglês com o título de What is Christianity? (O que é o Cristianismo?), talvez para não criar confusão com o livro de Feuerbach. A tradução foi feita por Thomas Bailey Saunders e o livro, em Inglês, foi publicado em 1901 por G. P. Putnam’s Sons. O livro serviu de base para as aulas que Harnack deu na Universidade de Berlim no ano letivo 1899-1900. Os interessados podem ler What is Christianity? gratuitamente, em sua tradução para o Inglês, no seguinte endereço na Internet: https://ccel.org/ccel/harnack/christianity/christianity.i.html.

[3] A História, independente de qualquer outra coisa que seja, é narrativa. E pelo menos dois autores, Adam Schaff e Paul Ricoeur, aquele marxista, este não sei bem o quê, escreveram livros sob o título de História e Verdade.

[4] Leopoldo Ranke (1795-1886), pelo que consta, é o pai da história científica, positivista. Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Leopold_von_Ranke.

[5] Joseph Campbell (com apoio de Bill Moser), The Power of Myth (Random House, New York, 1988). Para sua biografia, vide Joseph Campbell: A Fire in the Mind: The Authorized Biography, de autoria de Stephen Larsen e Robin Larsen (Inner Traditions, Rochester, VT, hoje em Kindle Edition, Amazon Books).

Em Salto, 15 de Outubro de 2021



Categories: Liberalism

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