A Vida — Esta e a Outra…

POST QUE PUBLIQUEI NO FACEBOOK EM 15.1.2022, mais de 3 anos e meio atrás, agora com acréscimos destinados a nos fazer pensar um pouco sobre a vida — esta, finita, e a eterna, em que alguns acreditam — e a morte.

POST ORIGINAL

Já é 15.1. Basicamente, 1/24 de 2022 já foi.

O RUBEM ALVES dizia que a gente não deveria medir quanto tempo já viveu mas tentar estimar quanto tempo a gente ainda tem para viver.

Prever o tempo que nos resta é algo difícil e arriscado. Você pode ter 18 anos e imaginar que tem a vida toda pela frente — e morrer amanhã (ou até hoje mesmo). Ou você pode ser enfartado e ter 78 anos, como eu [em 15.1.2022], e imaginar (com base em algum cálculo de probabilidades) que tem no máximo mais uns sete anos de vida pela frente — até 85, digamos. E acabar vivendo, como dois grandes amigos que eu tenho, Martha Faustini e Olson Pemberton, mais de 100. [Eles, infelizmente, faleceram, de Jan de 2022 para cá: uma com 103 anos e o outro com 102. Eu me contentaria com qualquer uma dessas idades, se estivesse bem, como eles estavam].

Eu, nos últimos dias, tenho estado a reler KARL POPPER e a escrever sobre temas popperianos, porque participei de uma reunião online (de 24 horas de duração) sobre Popper.

O querido mestre, que morreu com 92 anos, recebeu vários Festschriften (Volumes Festivos ou Comemorativos) pelos seus aniversários, começando com o de 60 anos e indo até o de 90. Descobri que duas pessoas que eram parte do círculo de amizades de Popper, Mario Bunge (nascido na Argentina) e Hans Albert (nascido na Alemanha) viveram até 100 anos e estão no grupo seleto de acadêmicos que recebeu um Festschrift Centenário. Um privilégio. Aqui no Brasil não temos o costume de editar Festschriften para as pessoas comemorarem marcos especiais de sua vida (os anos redondos, a cada 10 anos, por exemplo, a partir dos 60) à medida que seus anos passam.

Popper, em um de seus livros, diz que o que dá sentido à vida é o fato de que ela é finita (chega uma hora ela acaba) e precária (ela pode acabar a qualquer hora: a gente leva um tombo no chuveiro, bate a cabeça na parede, e tchau e bênção: a vida da gente acabou). Tive um colega meu no Seminário de Pittsburgh que, um pouquinho mais velho do que eu, morreu com 34 anos: apareceu de repente um tumor no cérebro dele que o levou em poucas semanas. Deixou mulher e um filhinho pequeno. 34 anos. [NOTA POSTERIOR: Mas, por outro lado, temos um presidente que caiu de um banquinho no qual estava sentado para cortar as unhas do pé, quebrou a cabeça, e não morreu, para a infelicidade de muitos. Os que gostam dele deveriam inventar um cargo de Cortador de Unhas Presidenciais para evitar outros acidentes desse tipo…]

Mas voltemos a Popper. Se nossa vida fosse eterna, sua precariedade seria resolvida — mas seu sentido seria removido. Você não precisaria fazer escolhas, selecionar um projeto de vida, definir prioridades, porque você poderia fazer tudo e qualquer coisa, por mais arriscada que fosse a atividade (da nossa perspectiva) — sendo eterna a nossa vida não haveria risco de perder a vida fazendo uma loucura qualquer [como cortar as unhas do pé…].

o O o

É a possibilidade de perder a vida a qualquer hora, e, com certeza, em algum momento ( no estado atual do conhecimento e da tecnologia médica, por volta dos cento e poucos anos — já foi 40 ou 50 anos), que torna a vida importante e preciosa: a gente vai perdê-la e pode perdê-la a qualquer momento. É isso que nos obriga a fazer escolhas, tomar decisões, selecionar projetos de vida, administrar prioridades e outros recursos, cuidar do corpo e da alma, não arriscar demais, abusando da sorte… (ou da bondade da providência divina).

Desde que comecei a escrever este post já passou mais meia hora. E de meia hora em meia hora daqui a pouco é dia 16 (Jan.22), daqui mais um pouco é fevereiro, daqui mais um pouco é 2023… Ano em que, se eu ainda estiver vivo, farei 80 anos [a base de referência é o ano de 2022].

Quem e o que somos nós para que de nós te lembres e nos mantenhas vivos? Por que tantos outros, tão bons quanto nós, ou muito melhores, foram levados mais cedo, alguns cedo demais, um neto meu com menos de uma semana? Por que a tão poucos é dado chegar aos 100 anos com saúde física, mente sã e lúcida e disposição e gosto de viver?

Para refletir um pouco.

[ACRÉSCIMO DE 7.7.2025]

Eclesiastes 9:9 está certo:

“Perfruere vita cum uxore quam diligis cunctis diebus vitae instabilitatis tuae, qui dati sunt tibi sub sole omni tempora vanitatis tuae, haec est pars in vita et in labore tuo quod laboras sub sole.” Ecl 9,9

[Vulgata Latina]

“Desfruta tua vida com a mulher a quem tu amas, todos os dias da vida que viveres debaixo do sol, pois a vida é instável, pode acabar logo, e é fácil desperdiçar o precioso tempo que temos com coisas que não valem a pena… Esse desfrute será TUDO o que irás receber como recompensa pelo trabalho com que te afadigas, todo santo dia, de sol a sol.” Ecl 9:9

[Tradução minha, meio livre e mais floreada. Mas garanto que o sentido é esse. Eduardo Chaves]

[OUTRO ACRÉSCIMO DE 7.7.2025 QUE ACABOU DE ME OCORRER… ÀS 9H40 DE HOJE]

A OUTRA VIDA, A ETERNA

Há horas em que me pergunto se VIVER ETERNAMENTE, viver para sempre, VIVER sem temer a morte, tanto a da gente como a dos entes queridos que estão perto da gente (supondo que estejam), é algo que deva nos entusiasmar e motivar, depois dos primeiros momentos… SERÁ QUE É? (E quanto tempo estaria coberto nos primeiros momentos da eternidade?) Viver no céu PARA SEMPRE, com uma batina branca, tocando harpa ou lira, comendo de tudo o que é fruto (não deve haver fruto proibido no céu), tendo ambrosia, a comida dos deuses, como sobremesa, todo santo e bendito dia, no almoço e no jantar, por que no céu todo dia será dia santo e bendito, sem nada para fazer, convivendo com o chatonildo do São Paulo, que iria proibir as mulheres de abrir a boca, ou o babaquinha do São João chamando a gente de “amados”, o tempo todo, isso iria cansar a beleza da gente depois de um certo tempo. (Quanto tempo? Sabe-se lá!). Será que passado um certo tempo (Quanto tempo???) a gente iria acabar ansiando por uma mortezinha tranquila, indolor, com aniquilamento (não OUTRA vida eterna…), no lugar da vida eterna que a gente (alguns de nós, pelo menos) hoje aspira alcançar?

Pra pensar.

Em Saltus Tietensis, 7 de Julho de 2025.



Categories: Liberalism

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