[Transcrito, na data de hoje, 7.Jun.2026, de meu blog Catedral Online, no endereço: https://catedralonline.org/2026/06/07/registrando-uma-injustica/.
Transcrevo para maior divulgação do fato.]
o O o
Quando alguém comete uma injustiça, você, sabendo e podendo, deve dizer, enquanto há tempo… É o que eu farei aqui.
O título desta nota, que não chega a ser um real artigo de blog, já explica por que estou escrevendo o que pretendo deixar registrado, como convicção minha.
Tenho guardado isso comigo há muito tempo. Mas ele e eu já temos mais de oitenta anos e uma hora dessas um de nós se vai – ou até mesmo os dois – sem que a injustiça seja registrada, por quem foi vítima, por razões óbvias, e por quem, talvez, seja o único a reunir o conhecimento e a coragem para revelá-la.
Em 28.10.2010 fui admitido, por jurisdição, como membro da Catedral Evangélica de São Paulo (a Primeira Igreja Presbiteriana Independente da Capital). Foi, para mim, e para minha mulher, que também foi admitida como membro na ocasião, uma decisão importante. Por quarenta anos, desde que eu havia me formado em Teologia pelo Pittsburgh Theological Seminary, em Maio de 1972, e havia me recusado a pleitear a ordenação ao ministério na United Presbyterian Church of the USA, eu estava fora da Igreja institucional – na verdade, de qualquer igreja. Foi meu período de exílio no deserto. A Catedral foi minha Canaã.
Naquele ano de 2010 encerrara o seu longo ministério (37 anos, o mais longo que já houve na Catedral), o de todos querido Rev. Abival Pires da Silveira (falecido, desde então). O Conselho da Igreja, reunido, resolveu escolher, para sucedê-lo, um de seus pastores auxiliares, o Rev. Valdinei Aparecido Ferreira.
Nada tenho contra o Rev. Valdinei, que foi, além de meu pastor, durante o período em que permaneci membro da Catedral, até 14.3.2021, e principalmente durante o período em que fomos colegas, como professores da Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, a FATIPI, em São Paulo, um grande amigo. Espero que o que vou dizer aqui não seja causa de rompimento dessa amizade. Não deveria ser, a meu ver.
A injustiça a que me refiro é a seguinte.
O Rev. Valdinei era pastor auxiliar na Catedral há algum tempo, não sei quantos anos. Mas o pastor auxiliar que havia acompanhado o Rev. Abival durante quase todo o ministério dele na Catedral foi outro, o Rev. Elizeu Rodrigues Cremm, que, pelo que me consta, foi pastor auxiliar do Rev. Abival durante 34 dos 37 anos em que o Rev. Abival ficou à frente da Catedral. Em 2010 o Rev. Elizeu tinha, ou ia fazer, 68 anos (nasceu em 18 de Junho de 1942). Virtualmente todo mundo, na igreja, e mesmo fora dela, esperava que o Rev. Elizeu viesse a ser escolhido como o novo Pastor Titular da Catedral. Fazia 34 anos que ele era pastor ali, era o pastor de almas (e não só de ouvidos) que visitava os crentes, quando estavam doentes, que oficiava no funeral, quando faleciam, que fazia os casamentos, que batizava as crianças, que fazia a profissão de fé da maioria dos membros da igreja. No entanto, aparentemente usando como justificativa o fato de o Rev. Elizeu já ter 68 anos, e, portanto, vir a ser obrigado a renunciar o cargo, pela compulsória, em um ano e meio, quando fizesse 70 anos, ele foi deixado de lado, para a total decepção da maioria dos membros.
A injustiça do Conselho da Catedral está no fato de que, ainda que fosse por seis meses apenas, e não dezoito, o Rev. Elizeu, por tudo o que ele fez na Catedral, pelo amor que ele tinha (e tem) pela Igreja, pelo carinho que os membros tinham para com ele e nunca tiveram com o Rev. Valdinei (bastava olha a fila dos cumprimentos na porta da igreja no final dos cultos matinais), ele merecia ter sido escolhido Pastor Titular da Catedral. Mais do que uma honra para ele, seria uma honra para a Catedral ter o nome do Rev. Elizeu Rodrigues Cremm na nobre listagem de seus Pastores Titulares, ainda que ele só viesse a ocupar o cargo por um ano e meio, por força das circunstâncias. Mas esse um ano e meio seria somado aos 34 anos em que ele foi Pastor Auxiliar, com maiúsculas, na verdade, o Braço Direito, do Rev. Abival. Oxalá Deus desse a todo Pastor Titular da Catedral um Pastor Auxiliar como o Rev. Elizeu.
Conheço, sou colega, sou amigo, e até fui ovelha do Elizeu há 65 anos, desde Fevereiro de 1961, quando eu fui calouro no Instituto José Manuel da Conceição e ele já era veterano. Alguns dirão que escrevo esta nota mais por amizade do que por justiça. Mas é por justiça. A amizade não elimina a injustiça cometida pelo Conselho da Catedral, que só teria de esperar dezoito meses para eleger o Rev. Valdinei, se ainda quisesse fazê-lo, e, hoje, teria a honra de poder contar com o nome do Rev. Elizeu Rodrigues Cremm fazendo companhia aos nomes de Eduardo Carlos Pereira e Jorge Bertolazzo Stella, além do próprio Abival. O Rev. Alexander Latimer Blackford, que fundou a igreja, foi pastor dela apenas por um ano e pouco, entre 1865 e 1867. O reputado Rev. Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa também foi pastor da igreja por pouco tempo, em 1887 e 1888.
É isso. Dizem que, quando a gente tem mais de 80 anos, pode dizer o que quiser que ninguém se ofende. Vamos testar essa regra da sabedoria popular.
Em Salto, 7 de Junho de 2026.
P.S. Daqui a 11 dias o Rev. Elizeu completará 84 anos bem vividos. Que esta notinha seja minha homenagem a ele, que, junto do Rev. Assir Pereira, são os meus dois maiores amigos, vivíssimos, graças a Deus, há mais tempo.
Eduardo CHAVES
Categories: Liberalism
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