O Liberalismo Teológico que eu Represento e Defendo Faz 60 Anos (Desde 1966, quando fui expulso do Seminário Presbiteriano de Campinas)

O LIBERALISMO TEOLÓGICO QUE EU REPRESENTO E DEFENDO

Compartilho post que publiquei aqui no Facebook exatamente há três anos, em 2 de Junho de 2023. Republico-o aqui para celebrar o aniversário de minha mana querida, Teresinha Furian…

Eduardo Machado Chaves is with Eduardo Epprecht Chaves and three others at O Canto da Coruja, em Salto, SP, on June 2, 2023.

O Liberalismo Teológico

O Liberalismo Teológico não é um conjunto de doutrinas e crenças que todo adepto da Teologia Liberal precisa aceitar para ser considerado um liberal de boa fé (bona fide). Nele (no Liberalismo Teológico) não existem credos e confissões que todo liberal precisa aceitar para poder se considerar um liberal sem questionamentos. Nele não existem doutrinas definidas como certas (recta doctrina) e obrigatórias para todos. Logo, nele não existe ortodoxia — o pensamento certo, correto, de todos aprovado — nem heresia — o pensamento errado, dissonante, desviante. Não existindo heresia, tampouco existem hereges. Inexistindo hereges, não há perseguição nem expurgo deles, os que ousam pensar, ou conduzir sua vida, de forma diferente. Nem, muito menos, fogueiras para a sua execução, em fogo lento, a fim de que sofram ainda mais pelo horrendo crime de pensar diferente, de pensar por si próprios. Inexistindo hereges, também inexistem, dentro do Liberalismo Teológico, os ortodoxos, que se julgam melhores do que os restantes e no direito de julgar e punir os que deles discordam. Um liberal teológico ortodoxo é uma verdadeira contradição de termos.

O Liberalismo Teológico é um jeito e uma forma de:

(a) entender o Cristianismo;

(b) de relacionar o Cristianismo com o mundo em que ele está inserido;

(c) de ler e interpretar a Bíblia, a Tradição, e o Pensamento Teológico Pregresso;

(d) de fazer Teologia para o presente e para o futuro.

Para fazer isso, o Liberalismo Teológico:

(i) procura identificar, definir e preservar a essência da herança recebida;

(ii) está disposto a acomodar o não essencial às novas realidades em que o Cristianismo precisa se situar.

Quem não aceita esses postulados geralmente não vem para o Liberalismo Teológico. Mas se, por absurdo, quiser vir para o arraial liberal, virá, será bem-vindo, e ficará ali até quando quiser sair (se isso vier a acontecer), porque ninguém ficará incomodado com ele, nem, muito menos, tentará impedi-lo de pensar como acha que deve pensar, e agir como acredita que deve agir, e, muito menos, tentará puni-lo por pensar e agir assim.

O Liberalismo Teológico é aberto, amplo, latitudinário, acomodatício, acolhedor. Nem digo que é tolerante, porque é a tolerância que se define pela sua postura liberal. Quem quiser vir para o Liberalismo Teológico, ou nele ficar, vem e fica como é e como está.

Na Igreja Presbiteriana Americana, quando os liberais teológicos, depois de sofrerem inúmeras perseguição e incontáveis expurgos (felizmente não chegou a haver fogueiras na Inquisição de lá), alcançaram a maioria dentro da igreja, através do apoio dos moderados, eles não perseguiram nem colocaram para fora da igreja fundamentalistas e conservadores como J. Gresham Machen e John Gerstner. Estes ficaram lá até o momento em que eles próprios resolveram sair — Machen, logo, Gerstner, bem depois, já quase no fim de sua vida. (Gerstner chegou a ser meu professor no liberal Pittsburgh Theological Seminary).

O movimento conhecido como “Liberalismo Teológico”, que existe desde os primórdios do Cristianismo, não tem esse nome por acaso. Seus adeptos prezam a liberdade de pensar e de agir, e, por conseguinte, de ser cristãos como sua mente e sua consciência acham que devem ser. E não negam esse direito para ninguém.

Se Paulo de Tarso houvesse sido obrigado a ser cristão judaizante, como Pedro e Tiago, não haveria Cristianismo, hoje, como uma opção religiosa independente. O Cristianismo não seria nada mais do que uma variante do Judaísmo Ortodoxo, só que com Cristo. Paulo, se a gente descontar o próprio Jesus de Nazaré, foi o primeiro liberal teológico, à sua moda (como são todos os liberais teológicos, do seu jeito, “their way”). Ele acomodou o Cristianismo Judaizante e Apocalíptico da Palestina Judaica à realidade do mundo greco-romano pluralista, inclusive no tocante à religião. Para ele, em seus momentos de maior clarividência, não havia nem judeu, nem grego, nem romano. Nem homem, nem mulher. Nem senhor, nem escravo. Havia apenas, e simplesmente, gente.

Uma palavra final: O Liberalismo Teológico não está a fim de proselitizar. Por isso, não “missionariza”. Vem para cá [a essas alturas não deve haver dúvida de que eu sou um liberal, não só no sentido político, mas também teológico], quem procura o Liberalism e o acha interessante. Enfim, quem esta afim.

[Essência de um artigo que eu comecei a escrever sobre “A FATIPI e o Liberalismo Teológico”, a propósito de um podcast disponível no Youtube e no Spotify. Esperava publicar o artigo logo depois que o podcast foi divulgado, mas ele cresceu, de certo modo tomou vida própria, e está virando um ensaio, já com 60 páginas, sobre “A Teologia Liberal: Seu Conceito e sua História”. A divulgação desta “essência” do artigo original, agora ampliada, ao ponto de redefinição, tira um pouco da pressão que eu próprio coloquei sobre mim mesmo para publicar o ensaio logo, ainda que meio inacabado… (porque, caso contrário, a crítica ficaria muito distante, no tempo, do fato gerador). Com este “preview”, ou “trailler”, a posição está marcada. [Eduardo Chaves, 2.6.2023, com pequenas correções e revisões nos dias seguintes.]

HOUVE UM COMENTÁRIO, DE MEU CUNHADO, RAFAEL EPPRECHT MACHADO, AO QUAL EU RESPONDI, E QUE AQUI TRANSCREVO:

Comment
Rafael Epprecht Machado

Eduardo Machado Chaves: Parece a versão teológica da música “Imagine” do Lennon…
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Eduardo Machado Chaves

Rafael Epprecht Machado : Quem sabe não é o inverso? Que a “Imagine” de Lennon seja uma versão poética do ideal da Teologia Liberal que é, admitidamente, utópico — e que é muito anterior a Lennon… A Bíblia, ao lado de pedaços ultrarrealistas, tem trechos utópicos, poeticamente utópicos, não é? Parecidos com o “Imagine” (de novo, foi o Lennon que se inspirou lá…).

Eis alguns:

Isaías 11:6-8: “O lobo habitará com o cordeiro, o leopardo se deitará junto do cabrito, o bezerro, o leão novo e o novilho gordo andarão juntos, e um pequenino os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; e o leão comerá palha como o boi. A criança de peito brincará sobre a toca da cobra, e o já desmamado meterá a mão no ninho da serpente.”

Isaías 65:25: “O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi”.

A Teologia Liberal tenta alcançar isso já aqui, na Terra, Loucura? Quem sabe! Mas abrir mão desse ideal me parece ser mais loucura ainda…
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Eduardo Machado Chaves

Rafael Epprecht Machado : Meio irônico você estar citando Lennon e eu, a Bíblia, e, dela, o Velho Testamento… Faz-me lembrar o fim do filme Inherit the Wind, em que Spencer Tracy, representando Clarence Darrow, que era um agnóstico, sai da sala onde havia acontecido, em 1924, o chamado Julgamento do Macaco (Scopes Trial), com a Bíblia na mão… Vale a pena ver o filme… William Jennings Bryan, presbiteriano conservador, foi o Promotor Convidado, para enfrentar Darrow. Morreu de apoplexia logo depois do julgamento, desgostoso com o resultado, que lhe foi favorável (!), mas que teve uma sentença pífia… Ele queria uma sentença mais rigorosa… Fredric March o representou muito bem na tela.
2y

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Eduardo Chaves
Modéstia à parte, este artiguete, que eu escrevi há mais de três anos e publiquei no Facebook há exatamente três anos, está muito bom, para o meu gosto… Estranho seria se não estivesse, não é mesmo? Se não estivesse a meu gosto, eu seria um esquizofrênico. . . which I definitely ain´t.
(Added on 2nd.Jun.2026).

PS

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“Hominem occidere non est doctrinam tueri, sed hominem occidere.”

(To kill a man does not mean to protect a doctrine; it means to kill a man.)

(Matar um homem não é uma forma de proteger uma doutrina; matar um homem é matar um homem.)

—Sébastien Castellion, Contra libellum Calvini [Against Calvin’s Booklet] [Contra o Livreto de Calvino] (in Latin)



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