A História do Livro “Inquisição Sem Fogueiras”

A discussão é dos eventos narrados no livro Inquisição sem Fogueiras, de João Dias de Araújo. Os eventos acontecem dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), uma das denominações presbiterianas brasileiras (a mais antiga, criada em 1859), durante os anos de 1954 a 1974 – cerca de 20 anos.

O livro foi publicado inicialmente em 1975, o que explica o terminus ad quem do seu mais recente subtítulo (vide abaixo). A dita inquisição continuou até bem mais tarde, e há quem diria que resquícios dela continuam até hoje. Houve uma segunda edição do livro, de 1982, e uma terceira, de 1985, da qual eu tenho cópia. Entre a primeira e a segunda edição, o livro foi traduzido por Jaime (James/Jim) Wright para o Inglês, com o título Inquisition Without Burnings.

Não me consta que tenha havido acréscimos ou alterações significativas da primeira edição para as subsequentes. O texto da terceira edição que eu possuo parece datilografado em estêncil, dando a impressão de uma publicação caseira. Essa edição, porém, foi publicada sob a égide do Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER), do qual eu fui colaborador nos anos setenta por convite insistente do Rubem Alves.

Foi publicada uma terceira edição “Revista e Atualizada” em 2010, pela Fonte Editorial. Também tenho essa edição, impressa, que acrescenta um subtítulo: “A História Sombria da Igreja Presbiteriana do Brasil”. Essa edição impressa ainda está à venda na Amazon BR. A aparência é melhor mas a encadernação é pobre: algumas folhas estão se soltando no final do livro na minha cópia, embora não a tenha há muito tempo.

Recentemente, neste ano de 2020, saiu uma quarta edição, que eu tenho apenas em ebook. Nem mesmo sei se foi publicada uma edição impressa. É esta edição, publicada por Resistência Reformada, que tem o subtítulo “Vinte anos de história da Igreja Presbiteriana do Brasil (1954-1974)”. O texto básico, acredito eu, é o mesmo, mas foram acrescentados uma breve Biografia do Autor, uma Apresentação assinada pelo Conselho Editorial do Resistência Reformada (que informa que o livro foi republicado em celebração pelos 503 anos da Reforma Protestante do Século 16, sendo dada a data de 31.10.2020), e um Posfácio assinado por Ricardo Quadros Gouvêa, que porta o título de “Um Monumento Histórico em Nome da Verdade”.

Numa bela passagem de três parágrafos desse Posfácio, afirma Gouvêa:

“Há livros cuja importância vai muito além da sua qualidade literária. Inquisição Sem Fogueiras é um deles. Trata-se de um documento histórico, um testemunho e uma denúncia de como pode acontecer que cristãos, supostamente em nome de sua fé, se comportem como verdadeiros demônios, tratando outros cristãos, inclusive ministros, com crueldade, condenando-os e separando-os do convívio e do trabalho.

João Dias de Araújo provavelmente não imaginava que seu livro ganharia esse peso e importância. Sua intenção era acima de tudo terapêutica: ele procurava curar-se através da escrita, examinando os fatos acontecidos para exorcizá-los da sua alma. Ele provavelmente imaginava que seu texto ajudaria outros que passaram pela mesma tortura a encontrarem alívio para seu sofrimento, e um novo sentido para a vida. E certamente foi assim. O que ele provavelmente não sabia, é que estava construindo um monumento histórico.

Monumentos existem para que não nos esqueçamos do que se passou. Muitas vezes celebram momentos memoráveis e feitos exemplares. Outras vezes, monumentos são levantados para que a história não se repita. Por isso, Inquisição Sem Fogueiras é um livro triste. Enquanto monumento, este livro pode ser comparado ao Museu do Holocausto. É um memorial perene cujo objetivo é tentar evitar que fatos como estes aconteçam novamente.”

Todo o Posfácio é excelente. Mas cito apenas mais um parágrafo em que Gouvêa explica como pode haver uma inquisição sem fogueiras, uma inquisição que não mata o corpo:

“O que é uma inquisição ‘sem fogueiras’? Há muitas formas de matar. Pode-se matar uma pessoa retirando-lhe sua fonte de renda, suas necessidades básicas, ou mesmo seu élan vital, sua vontade de viver. Em nossos dias, a maneira que os fundamentalistas utilizam para punir o herege já não é a execução pública em fogueiras. Hoje o herege é ‘fritado’ socialmente, sofre o ostracismo elitista das autoridades. Hoje o herege é condenado socialmente pela calúnia e pela difamação, pela perseguição eclesiástica, pelo seu amordaçamento.”

O ebook custa, na Amazon americana, 3,54 dólares. Uma barganha. Sem de modo algum desmerecer o livro, que eu admiro muito, apenas o Posfácio já vale bem mais do que o preço — especialmente vindo de alguém que foi professor na Pós-Graduação do Mackenzie durante 18 anos (1998-2016).

O Presbiterianismo brasileiro, diria eu, é cheio de divisões e conflitos, alguns cheirando a fogueiras e a carne queimada. João Dias de Araújo escolheu começar seu livro na data de 1954, ano em que Getúlio Vargas cometeu suicídio, encerrando a sua era. A política fervia com os discursos inflamados de Carlos Lacerda. Mas a data aparentemente foi escolhida porque em 1954 um professor foi expulso do Seminário Presbiteriano do Norte, da Igreja Presbiteriana do Brasil, onde João Dias de Araújo também trabalhava como estrela maior. O professor expulso foi um americano a serviço da Igreja Presbiteriana do Norte dos Estados Unidos. Também nesse ano a direção da Igreja Presbiteriana do Brasil interveio no movimento da Mocidade Presbiteriana, extinguindo-o. João Dias de Araújo considerava o movimento a “vanguarda” do Presbiterianismo Brasileiro. Ele usa os dois eventos para afirmar que “o movimento ‘fundamentalista’ [sic; aspas no original] penetra nos arraiais presbiterianos e cria, pela primeira vez na história do cristianismo brasileiro, uma equipe de ‘caçadores de heresias'” (Introdução).

As chamadas heresias, na época, eram preocupação com questões sociais e envolvimento com causas sociais (algo que tinha cheiro de comunismo), interesse por uma convivência mais do que pacífica com outras igrejas, em especial a Igreja Católica (que tinha cheiro de ecumenismo papista), os clássicos “desvios de conduta” protestantes, como fumar, beber bebida alcoólica, dançar, ir ao cinema no domingo, etc. Era esse o clima, na segunda metade dos anos 50, em que eu passei de adolescente para jovem dentro dessa igreja.

A situação externa se tornou mais grave com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, quando eu já estudava no Instituto JMC, com a tentativa dos militares de impedir que João Goulart, o vice-presidente, tomasse posse, com o interregno parlamentarista que João Goulart foi obrigado a aceitar por um tempo, e com a situação de crise em que boa parte dos brasileiros que não eram da esquerda mais radical viu o risco de o Brasil seguir o caminho de Cuba — fato que provocou o Golpe de Estado, envolvendo os militares e boa parte das forças políticas e sociais mais conservadoras do país — inclusive as igrejas, as protestantes e a católica. Muitos pastores da Igreja Presbiteriana do Brasil e de outras denominações evangélicas aplaudiram o golpe, dentre eles o meu próprio pai, rev. Oscar Chaves, e o rev. Enéas Tognini, batista, fundador da Igreja Batista do Povo.

Com o Governo Militar, ainda que em sua fase mais branda, no governo do Marechal Humberto de Alencar Castello Branco, que faleceu em 1967, numa queda de avião, forças conservadoras, reacionárias mesmo, dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil decidiram que havia chegado sua hora. Boanerges Ribeiro, que era diretor do jornal da Igreja, montou uma campanha profissional, como nunca se havia visto antes, e conquistou a Presidência do Supremo Concílio da Igreja, em Junho de 1966, na reunião de Fortaleza.

Ato contínuo, decidiu que seu primeiro alvo seriam os seminários, e, dentre eles, o de Campinas, em que eu estudava, no terceiro ano, sendo Secretário do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” e Redator Chefe do jornal “O CAOS em Revista” (CAOS sendo acrônimo do nome do Centro Acadêmico). O Supremo Concílio da igreja criou uma malfadada Comissão Especial de Seminários e colocou para presidi-la um militar, o Coronel Renato Guimarães, presbítero da igreja que era dirigida pelo novo Presidente do Supremo Concílio. Montada às pressas a Comissão se dirigiu ainda em Julho de 1966 para Campinas, apesar de ser este mês de férias, tentando entrevistar os alunos com base em um questionário. Exceto no caso de uma pequena minoria, os alunos se recusaram a deixar-se arguir pela comissão. A própria Congregação dos Professores do Seminário protestou (dois professores se abstendo, Waldyr Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro) e escreveu uma dura carta à Comissão Executiva do Supremo Concílio acerca do caráter inusitado, não previsto nas normas da igreja, da dita comissão. Trinta e nove alunos escreveram uma carta apoiando a Congregação — um fenômeno raro, pois o CAOS e a Congregação viviam às turras: os quatro primeiros números do meu jornal foram empastelados por ordem da Congregação. Cinco professores signatários da carta da Congregação foram demitidos – vale dizer, expulsos. O Reitor e o Vice-Reitor estavam entre eles, o que dá a dimensão da crise. Foi nomeado novo Reitor, que os alunos passaram a considerar um Interventor. Em Agosto, quando fomos nos rematricular (era preciso se rematricular todo semestre), fomos surpreendidos com um documento em que cada um se comprometeria a fazer uma série de coisas e a não fazer uma outra série de outras coisas. Quem não assinasse, estava impedido de continuar no Seminário. Os 39 signatários da carta de apoio à Congregação se recusaram a assinar foram postos na rua. A mim, que já tinha uma quantidade enorme de livros, foi dada uma semana para sair de meu quarto com minhas coisas. Minha tia, que morava em Campinas, me salvou, abrigando-me em sua casa e deixando que eu ali guardasse os meus livros… Eu rapidamente arrumei um emprego na Robert Bosch do Brasil de Campinas e fui cuidar de minha vida. Cheguei a pensar que nunca mais voltaria a estudar. O restante dos alunos expulsos se esparramou. Alguns conseguiram ir para outros seminários brasileiros, o da Igreja Metodista, em Rudge Ramos, o da Igreja Presbiteriana Independente, em São Paulo, até mesmo o Seminário Unido de Buenos Aires. Eu próprio, oito meses depois estava estudando na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, e, a partir de Setembro de 1967, no Pittsburgh Theological Seminary, em Pittsburgh, PA, EUA. Outros desistiram de seguir carreira no ministério eclesiástico e encontraram outra forma de viver a vida.

Enquanto isso, o rolo compressor fundamentalista continuava a todo vapor. A Comissão de Seminários, depois de Campinas, foi para o Seminário do Centenário, em Vitória, e para o Seminário do Norte, em Recife, onde também houve expurgos de professores e de alunos, embora em menor número (os dois seminários eram menores e mais novos do que o de Campinas, chamado de Seminário do Sul).

Boanerges Ribeiro foi reeleito para a Presidência da igreja por mais um mandato em 1970, mandato esse que foi concluído em 1974 — data em que João Dias de Araújo resolveu escrever o seu corajoso livro. Todos os que estivemos envolvidos no processo somos gratos a ele por ter feito isso. Ao ler o relato dos mesmos anos feito pelo Historiador Oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil ninguém diria que a igreja havia atravessado um período verdadeiramente inquisitorial — que, é bom que se diga, não terminou em 1974, data em que Boanerges Ribeiro deixou a presidência do Supremo Concílio da igreja. Companheiros seus, para usar um termo neutro, continuaram a dirigir a igreja por um bom tempo.

Em suma, é esse conturbado período da história da Igreja Presbiteriana do Brasil que é coberto pelo livro de João Dias de Araújo, que ganha sua quarta edição este ano, 54 anos depois dos eventos de 1966, que me envolveram mais diretamente. Resolvi, ao ensejo do acontecimento, a publicação da quarta edição do livro, juntar minhas modestas forças para não deixar que o que foi feito caia no esquecimento. Tenho muitos documentos pessoais que acrescentam mais fatos e diversas dimensões humanas ao processo.

Espero ter tempo, saúde e forças para dar uma contribuição além da que já dei para o conhecimento do que se passou na Igreja Presbiteriana do Brasil na época em que estive nela consciente do que se passava. Minha decepção com a igreja foi tão grande que passei 43 anos sem ser membro de qualquer igreja. Voltei somente em 2010, e apenas porque a porta foi aberta por e para uma outra denominação presbiteriana, a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB), da qual sou membro até hoje. Meio relapso, mas sou. O intermediário nesse caso foi meu grande amigo e irmão, fará 60 anos daqui a dois meses, rev. Elizeu Rodrigues Cremm. Nela IPIB, mais especificamente na Faculdade de Teologia de São Paulo (FATIPI), também fui professor de História da Igreja e do Pensamento Cristão, de 2014 a 2017 — algo que era o meu sonho e que encerrou minha carreira de professor universitário de uma forma que me trouxe enorme satisfação. Agradeço a IPBI por ter me dado essa oportunidade, estando eu já aposentado, com mais de 70 anos na ocasião.

Em Salto, 12 de dezembro de 2020.



Categories: Liberalism

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