Abelardo e Heloísa: Os Santos que Deveriam Ter Sido

Para os interessados em política luso-brasileira, 21 de Abril é o dia trágico do enforcamento de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, no ano de 1792.

Para os mais interessados em filosofia, lógica, ética e teologia, bem como nos sofrimentos que a ética e a teologia da Igreja Católica infligiu sobre algumas de suas melhores mentes, 21 de Abril é o dia, também trágico, da morte de Pedro Abelardo, um dos maiores filósofos e teólogos na Idade Média, e o maior lógico que o mundo já conheceu desde Aristóteles. Ele morreu em 1142, exatamente 650 anos antes de Tiradentes – e 801 anos antes de eu nascer (desculpem o toque egocêntrico…).

Há várias razões pelas quais admiro Abelardo.

Em um post de dois dias atrás (19.4.2022) no Facebook, listei os meus “santos favoritos” da Igreja Católica: Agostinho, Abelardo e Aquino (os três com o nome iniciado com “A”). [ Vide https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10159689764557141 ]. Acontece, porém, que meu caro Abelardo nunca foi considerado um santo pela Santa Igreja. Pelo contrário. Além de ser mal visto por causa de seu apaixonado relacionamento com Heloísa, que lhe custou muito caro, ele foi condenado como herege, depois descondenado, mas sempre pairou sobre ele uma certa suspeita que lhe custou a santidade (embora ele tenha se tornado monge, abade e teólogo depois de sua castração (esse o preço que lhe custou o relacionamento apaixonado com Heloísa). Mas seu comportamento fora das normas morais da Igreja Católica e suas ideias teológicas fora dos limites da ortodoxia católica não impediram que ele viesse a ser considerado um dos maiores filósofos da Idade Média, maior, na condição de filósofo, do que Agostinho e Tomás de Aquino, e, na condição de praticante da Teologia Filosófica (ou Teologia Natural), fazendo séria sombra a Agostinho e a Tomás de Aquino, se bem que sem ser tão ortodoxo quanto eles. Mas Tomás também não foi inicialmente considerado ortodoxo, dada sua reverência diante de Aristóteles, mas subsequentemente foi não só “ortodoxizado” como considerado a própria norma da ortodoxia católica. Quem sabe um dia Abelardo venha a ser “reabilitado” também, se bem que eu o prefira herege.

Na área filosófica, há hoje um renascimento de interesse em Abelardo, que alguns historiadores da filosofia consideram, de certo modo, o Pai do Empirismo Inglês dos séculos 17 e 18 e da Filosofia Analítica Anglo-Saxã do século 20 (e que permanece até hoje) – apesar do fato de que era francês, embora na época o latim universalizasse os scholars. Seu foco filosófico sempre esteve na discussão da relação entre a realidade (com suas entidades e fatos), a lógica (com suas leis e conceitos) e a linguagem (com seus termos e palavras). Além disso, ele discutiu questões importantes da epistemologia (como o problema dos universais) e da chamada filosofia da mente (que acaba sendo filosofia da psicologia em uma época bem anterior ao surgimento da psicologia). Em todas essas questões Abelardo foi pioneiro de posições mantidas até hoje na Filosofia Analítica Anglo-Saxã.

Escreveu também bastante, e de forma muito interessante e significativa, sobre a Ética. O seu relacionamento com Heloísa, com quem se casou secretamente e teve um filho (antes, naturalmente, do tio de Heloísa, e cânone de Notre Dame, ter descoberto o relacionamento e mandado castrar Abelardo), forneceu elementos suficientes para Abelardo questionar em especial a ética sexual da Igreja Católica e a sua atitude para com as mulheres. Isso, apesar de ele ter se tornado, primeiro monge, depois abade, e, depois, teólogo famoso, e ela tenha se tornado freira, depois abadessa, e, por fim, a equivalente de um bispo na esfera feminina, em que não há bispas na Igreja Católica – questão que ainda pode levar a Igreja Católica Americana a se separar da Romana.

A propósito, Heloísa era uma jovem prodígio do ponto de vista intelectual e empreendedor. Conhecia extremamente bem diversas línguas e tinha uma mente privilegiada, admirada e elogiada não só por seu marido, mas por diversos intelectuais de sua época. Criou conventos, organizou-os, criou filiais (verdadeiras franquias) e se tornou uma personalidade poderosa no século 12.

Abelardo e Heloísa, dadas as decisões que foram obrigados a tomar, no contexto da época, não puderam criar o filho que tiveram, que recebeu o estranho nome de Astrolábio, e que foi criado por Denise, uma irmã de Abelardo. Mas Abelardo escreveu um livro que dedicou, com carinho, ao filho. E este, longe de ter repudiado os pais, parece ter tido por eles o maior respeito e afeto.

Até à morte dos dois, muito próximas, a de um e a da outra, Abelardo e Heloísa se corresponderam e consideraram casados. O casamento, embora secreto, nunca foi declarado nulo ou anulado. A correspondência de ambos está, em sua maior parte, preservada e publicada. Em uma de suas cartas Abelardo (evidentemente mentindo, segundo a maioria dos estudiosos) disse que seduziu Heloísa, usando de subterfúgios, força e até violência física. Mas ela rebateu essa afirmação com energia, em outra carta, dizendo que tudo que aconteceu entre eles foi de livre e espontânea vontade, e que, longe de ter sido seduzida e estuprada, foi ela que tomou a iniciativa de manter o relacionamento amoroso e sexual com Abelardo – que alto, bonito e bem falante era cobiçado pelas mulheres parisienses da época (pelo menos as solteiras e disponíveis, mas vá saber…). Apesar da mentira, foi digna a atitude dele de tentar impedir que a reputação de Heloísa, na época uma abadessa famosa, pudesse vir a se turvar pela lembrança, por adversários, do seu passado. E mais digna ainda, por não envolver falsas mentiras, foi a atitude dela de dizer a verdade, assumindo os seus atos, a despeito dos prejuízos à sua história de vida que essa verdade pudesse trazer.

Enfim, hoje é aniversário da morte de Pedro Abelardo, falecido 880 anos atrás. Um brinde a ele e à sua amada Heloísa. Ambos santos na minha Hagiografia.

Em Salto, 21 de Abril de 2022



Categories: Liberalism

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