o O o

Como disse, eu, depois de ver o filme, fiquei com a sensação frustrante de que esperava mais dele. Mas essa sensação vem, gradualmente, diminuindo, por razões que passo a expor.

O filme trata – dentro das limitações do “medium” (filme, cinema) – de alguns dilemas morais importantes.

O principal deles diz respeito às consequências de erros morais que cometemos, muitas vezes no que, no momento, parece ser o exercício do dever, e o sentimento de culpa, de revolta, de necessidade de fazer justiça que esses erros suscitam nas pessoas (tanto nas vítimas como, por vezes, nos perpetradores dos erros e, também, nos bystanders) bem como na sociedade em que aconteceram.

O filme levanta uma outra questão interessante. Tenho eu o direito, ou mesmo o dever, de revelar algo sobre uma outra pessoa, que pode reduzir sua pena ou até mesmo salvar sua vida, quando essa pessoa se recusa a fazê-lo ela mesma, por considerar o objeto da revelação vexatório? Tenho eu o direito ou o dever de agir no que presumo ser o melhor interesse da pessoa, quando ela própria acha que seu melhor interesse é preservar o segredo e a privacidade de uma condição que considera vergonhosa?

Outra questão importante: crimes, como os descritos, podem vir a ser expiados ou perdoados e produzir redenção ou reconciliação? Ou é tarefa das vítimas, e seus herdeiros, garantir que até o último culpado receba sua justa punição?

Ainda mais uma questão interessante. Numa aula, o professor de direito de Michael, um sobrevivente do Holocausto, afirma que “as sociedades gostam de imaginar que operam com base em princípios morais, mas isso não é verdade: elas operam com base na lei”… Agora, se a lei prescreve comportamentos que são considerados imorais, o que faz a pessoa simples, que quer apenas desempenhar bem o seu trabalho, que não é intelectual, que não filósofa??? Hanna Schmitz, mesmo em seu julgamento, em 1966, ainda está perfeitamente convencida de que seu trabalho era guardar as prisioneiras, evitar que fugissem… – como poderia ela abrir a porta da capela para deixa-las escapar do fogo, sim, mas também da custódia em que se encontravam??? Ela participou dos crimes nazistas porque “that was my job”, e ela acreditava ser seu dever fazer o seu trabalho bem feito, porque seus chefes estavam no poder legalmente, tinham a autoridade de lhe dizer o que deveria fazer e tinham o direito de esperar que ela fizesse o que lhe era ordenado…

A lei, a despeito da necessidade de interpretação, e do relativo subjetivismo do processo hermenêutico, tem por base um texto, que é algo razoavelmente objetivo. Mas a moralidade, ancora-se em quê? Se vamos julgar a lei por critérios morais, que moralidade vamos usar? Vamos usar a moralidade católica para impedir que o divórcio, ou o aborto, se tornem legais? Vamos usar a moralidade protestante puritana para impedir que a lei faculte que as pessoas andem seminuas nas praias, que as mulheres façam topless onde quiserem, que os assim chamados naturistas pratiquem o seu nudismo em praias reservadas para essa prática (praticando ali  tanto o topless como o bottomless)? Vamos usar essa mesma moralidade para proibir, com a força da lei, a edição e circulação de revistas que exibem pessoas nuas, filmes de sexo explícito, livros considerados pornográficos? Por outro lado, parece que, ao separarmos a lei da moralidade, e afirmarmos que, no mundo sócio-político, vale a lei, não a moralidade, nos curvamos ao cinismo daqueles que afirmam, ao ser flagrados em falcatruas de todo tipo, que seu comportamento ficou dentro dos limites da lei. E não é só de falcatruas financeiras que se trata: afinal de contas, Hanna Schmitz agiu dentro dos ditames da lei – e, por causa disso, trezentas mulheres inocentes morreram.

Hanna, apesar de ser descrita por suas vítimas, ou por aqueles que as representam, como um monstro, não é uma pessoa má… Ela é uma pessoa simples, que acha que tem de cumprir com o seu dever e fazer, da melhor forma possível, o que os seus chefes lhe ordenam e esperam dela… Quanta gente não pensa do mesmo jeito, e só não comete crimes, pequenos ou horrendos, porque seu chefe nunca lhe pediu que fizesse algo moralmente errado?

Enfim: a pessoa comum tem a obrigação de entender as questões mais intricadas da ética filosófica e da filosofia política? É razoável esperar isso, quando mesmo filósofos profissionais discordam frontalmente em relação a essas questões?

O que fazer daqueles que, dentro de igrejas e partidos políticos, aceitam uma ética de segunda mão, sobre a qual nunca refletem? Os católicos que se opõem ao aborto, ou ao controle da natalidade, ou ao divórcio, porque é isso que a Igreja Católica Romana ensina que é certo, e eles não têm ou a vontade ou a capacidade de destrinchar essas questões morais complicadas, essas pessoas não estão, porventura, sem perceber, correndo o risco de agir erroneamente, ou até mesmo de cometer crimes contra determinadas pessoas, porque agem segundo uma moralidade recebida por autoridade, sobre a qual não refletem, ou porque não querem, ou porque não podem, ou porque não acham que é preciso?

A questão do analfabetismo de uma pessoa adulta, mesmo numa sociedade desenvolvida como a Alemanha da época da Segunda Guerra, embora central para a trama, parece ocupar um lugar claramente secundário diante dessas outras grandes questões.

Kate Winslet representa na tela uma personagem que muitas pessoas considerariam um monstro. Mas ela consegue fazer com que o mostro, sem deixar de ser monstro, tenha cara humana, sofra, goste de ouvir a melhor literatura, ria, faça amor, traga prazer e confiança para um menino (que ela chamava de “kid”)… Um grande feito. Poucas atrizes conseguiriam fazer isso. Sem dúvida o melhor papel de Kate Winslet até hoje. Com seus 33 anos, ela promete muito mais. Consegue ser convincente até quando, com a ajuda da maquiagem, evidentemente, representa uma mulher de quase sessenta e cinco anos.

Quando, em seu último encontro, Michael pergunta a Hanna se ela tem pensado muito sobre o passado, ela lhe pergunta: sobre o nosso passado? Ele diz que não: sobre o passado em geral. Ela lhe responde: “Não importa o que eu penso. Não importa o que eu sinto. Os mortos continuam mortos”.

Isso é verdade: os mortos continuam mortos. Mas o resto não é verdade: o que pensamos e o que sentimos importam. E vendo filmes como esse, somos forçados a pensar e a sentir. E se pensarmos e sentirmos, provavelmente corremos menor risco de cometer erros morais e mesmo crimes por estarmos vivendo e agindo em piloto automático.

Em São Paulo, 25 de Fevereiro de 2009

Transcrito aqui neste blog em Salto, 1 de Janeiro de 2016