Tristeza e Esperança: Para Beatriz Gotardelo (Fraga Moreira)

Beatriz é minha amiga. Há muito, muito tempo. Creio que a conheci em 1961 ou 1962. O ano não importa tanto. O que importa é o lapso de tempo: faz 60 anos, mais ou menos um ano, por aí. Foi no Acampamento Palavra da Vida, próximo de Atibaia, lugar que muitos de meus amigos frequentaram. Lá ficamos amigos. Não daqueles amigos de toda hora, inseparáveis. Mas tínhamos um elo que nos ligava. Nossos pais, Augusto Gotardelo e Oscar Chaves, eram pastores. Haviam estudado juntos. Eram amigos. Isso de certo modo garantia que nosso relacionamento era, de alguma maneira, especial: era uma amizade de segunda geração. Fiquei sabendo hoje, através de algo que ela escreveu, que o pai dela morreu em 2004, aos 93 anos. Deve ter nascido, portanto, em 1911, por aí. Teria ou faria, creio, 110 anos neste ano de 2021. Meu pai morreu antes — treze anos antes, em 1991, quinze anos mais novo, com 78 anos. Nasceu em 1912. Um ano de diferença, por aí, entre os dois. Havia algo mais que era comum entre os dois. Ambos gostavam de poesia e e, ainda melhor, gostavam de fazer poesia, e a faziam bem.

Depois de nossa adolescência, quando éramos jovens, propriamente ditos, vimo-nos pouco. Eu fui morar por longos anos nos Estados Unidos e perdi contato. Quando voltei para o Brasil, em 1974, não nos reencontramos mais face-a-face. Só pelo Facebook, já bem recentemente. Soube que a Beatriz se casou com um outro amigo de infância meu, Álvaro Fraga Moreira Neto, e virou Beatriz Gotardelo Fraga Moreira. Moram hoje em algum ponto da Amazônia legal. De vez em quando nos falamos pelo Messenger. Até em áudio já cheguei a falar com o Fraga Neto.

Acordei hoje cedo, 14 de abril de 2021, por volta de 3h, e tive a graça de encontrar no meu telefone uma mensagem da Beatriz — genérica, não para mim, em particular. Mas que me comoveu bastante. Ainda estou tentando analisar e entender por que a mensagem dela me tocou, me deixou emocionado — e, ao mesmo tempo, tristonho, macambúzio sorumbático, taciturno, borocoxô, ensimesmado… A mensagem dela, com o soneto do pai dela que trazia, me fez lembrar de uma outra mensagem, uma crônica da Miriam Leitão, também filha de pastor, cujo pai também foi colega do meu pai (Uriel de Almeida Leitão, nascido, pelo que consta, em 1915; morreu aos 84 anos, creio que em 1999 – oito anos depois do meu pai e cinco anos antes do pai da Beatriz). Mas, o que importa, é que, afinal de contas, Beatriz, Miriam, eu, somos, os três, filhos de pastores. Fazemos parte dessa categoria de pessoa, com a característica especial de que nossos pais estudaram juntos, na mesma época, no Seminário Presbiteriano de Campinas, onde eu também vim a estudar mais tarde. Mas há uma diferença: eu adoro a Beatriz, mas não tolero a Miriam. Questão de Globo, de política, de epiderme, como diria o Rubem Alves (outro cara que estudou no mesmo bendito Seminário…) A Beatriz e eu temos idades parelhas. A Miriam é cerca de dez anos mais nova. Talvez esses dez anos de diferença façam a diferença entre nós. Mas consigo apreciar algo bonito e sensível mesmo que escrito por alguém que eu não tolero. E a crônica da Miriam tem algo em comum com a mensagem da Beatriz. Ambas tocaram a minha alma. Vou tentar explicar por quê — embora nem eu mesmo tenha muita certeza das razões.

A mensagem da Beatriz contém, como disse, um soneto escrito pelo pai dela. Lindo. Uma perfeição poética, no que diz respeito à forma, e de conteúdo muito bonito também. A mensagem da Beatriz era de divulgação restrita, mas creio que o poema eu posso transcrever. Aqui vai.

MARANATA! VEM, SENHOR! 

(Augusto Gotardelo)

Que te direi, Senhor, quando nos ares
Vieres entre nuvens, triunfante,
Para os salvos contigo aos céus levares
Em cortejo festivo deslumbrante?                      

           Extasiado e feliz entre milhares
           Que te direi, Senhor, naquele instante
           De glória, de alegria, por voltares,
           Ao clangor da trombeta ressoante?

Dos meus lábios louvores, como incenso,            
Hão de subir ao firmamento imenso,
Hão de cantar o meu sincero amor.

           Chorando e rindo, de prazer tomado,
           Hei de exclamar: Senhor, muito obrigado!
           Glorificaste um pobre pecador!

(Meu Microsoft Word refugou o termo “clangor”, mas ele existe no Português, desde por volta de 1560, e quer dizer som forte, estridente, como o de alguns instrumentos metálicos de sopro, como trombeta, trompa etc.)

Mais uma coincidência: o título do poema, “Maranata”, termo que quer dizer (como a Beatriz explica) “Vem, Senhor nosso!” A coincidência está no fato de que, quando meu pai criou uma segunda Igreja Presbiteriana em Santo André, nos anos 1980, deu-lhe o nome de Igreja Presbiteriana Maranata… O pai dela e o meu na mesma faixa de onda.

Quanto à forma do poema, não tenho o que dizer. Para minha estética, é perfeita — na métrica, na rima, no ritmo… Mas não vou discutir a forma dele: quero apenas tecer algumas considerações sobre o conteúdo. No ideário cristão, dizer “Maranata” é pedir que Jesus Cristo, que estaria vivo em algum lugar (no Céu, é a resposta geralmente data, à mão direita de Deus), volte e ponha fim nesta bagunça que virou a nossa vida aqui no Brasil — mas não só aqui, no mundo inteiro.

Clamar para que Jesus Cristo volte é mais ou menos equivalente a expressar o desejo de que esta vida atual que temos chegue ao fim, acabe. Não, necessariamente, com a nossa morte, mas, talvez, quem sabe, com algum tipo de arrebatamento que nos leve diretamente ao Céu, em Primeira Classe, ou, pelo menos, Classe Executiva, com embarque preferencial, sem precisar passar pelos dissabores da morte. Quem bom seria se assim sesse, como dizia o outro.

Estes últimos treze meses têm sido funestos para nós aqui no Brasil e para todos, no resto do mundo. Custou para a morte pela epidemia chegar perto da minha família, mas parece ter chegado com vingança (curiosamente, só pelo lado da família da Paloma; o meu lado da família tem sido poupado até agora, só Deus sabe por quê — mas eu fico grato). Dois tios e três primos da Paloma (os primos removidos um ou dois graus) foram embora, em decorrência do Covid. Todos eles mais novos do que eu. Esse é o tipo de coisa que deixa a qualquer um preocupado — e que nos faz pensar.

Ainda ontem assisti a um belíssimo concerto do oratório “Messias”, de Händel, que encontrei em vídeo no YouTube (e compartilhei no FaceBook), que tem mais de seis milhões de visualizações e milhares de comentários. Um dos comentários é de uma pessoa que ficou enternecida pelo concerto e revelou que está com câncer grave e com Covid, e fica pensando qual dos dois a levará embora primeiro nessa competição macabra. Mas disse que, depois de ouvir e ver o concerto do Messias, ficou imaginando como seria o Céu, e decidiu que estava pronto para ir embora, independente da causa eficiente que provocasse a sua morte: o câncer, o Covid, ou qualquer outra…

Ao ler os relatos da morte de um aqui, de outro ali, parentes e amigos queridos, conhecidos de longa data, amigos do FaceBook, desconhecidos, alguns ilustres, outros nem tanto, comove-me ver a certeza que os ficantes expressam de que os intes (os que se vão) estarão em um lugar muito melhor do que aqui, “nos braços do Pai”, e que, um dia, talvez logo, intes e ficantes se encontrarão de novo.

Para alguns, esse conjunto de ideias, que envolve afirmações teológicas complicadas, que incluem referência: (a) ao poder redentor da morte de Jesus Cristo na cruz; (b) à sua ressurreição e ascensão ao Céu; (c) ao seu retorno à Terra, ocasião em que ressuscitará os mortos e levará os vivos e os mortos que crêem ou creram no poder salvador de sua morte, para o Céu, onde terão vida eterna junto dele, de Deus, o Pai, e dos demais crentes, agora todos finalmente “santificados”, tornados santos. Que bom seria se assim… deixem pra lá.

Algumas pessoas crêem que essas afirmações representam verdades absolutamente certas (porque relatadas na Bíblia). Outros esperam que as afirmações sejam verdadeiras, mas não têm certeza. E outros acham que todo esse conjunto de afirmações não passam de baboseira, e que têm certeza de que a morte é muito mais dolorida e difícil de enfrentar do que imaginam os crentes, porque ela simplesmente representa o fim absoluto da nossa vida. O ponto final da nossa história.

Eu já estive entre os crentes, por um tempo, e entre os descrentes, por um tempo ainda maior. Nunca fui fervoroso, nem na crença, nem na descrença. Hoje me coloco entre os esperançosos. Acredito, hoje, que o locus da religião está mais na esperança e no amor (na atitude e na conduta) do que na fé (na crença), entendida esta, seja como a aceitação irrestrita de determinadas doutrinas (sentido forte), seja como assentimento, ainda que tímido e meio envergonhado, a elas. David Hume, o meu “filósofo padroeiro”, sobre quem escrevi minha longa Tese de Doutoramento, era descrente — nem um fio de esperança tinha. E mesmo assim enfrentou a morte de forma tranquila e serena, com galhardia, como algo que, mais cedo ou mais tarde, chega a todos nós, e que, portanto, deve ser encarada como algo natural. Chamou cada um de seus principais amigos para uma conversa à beira do leito de sua morte, conversaram como se aquele fosse apenas mais um encontro, não o último, deram risadas juntos, e Hume deixou, com alguns, especiais, uma lembrancinha – em geral um ou mais livros. Não é nem apropriado dizer que morreu sem medo do desconhecido, porque, para ele, não havia nenhum desconhecido para temer. Apagou como quem cai num cochilo. Queria morrer assim. Cochilar e não acordar. Ou, quem sabe, acordar no Céu e ter a surpresa de encontrar David Hume lá.

Transcrevo a seguir meu post de 2.12.2019 no Facebook, que inclui, depois de três parágrafos iniciais, a bela crônica da Miriam Leitão.

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Compartilho, via minha amiga e “sobrinha adotiva, do coração”, Priscila Kuyumjian, uma crônica da Miriam Leitão que ela, Priscila, compartilhou em 10.8.2016. A crônica foi escrita em 11.04.2015. Acrescentei dois outros parágrafos meus, antes da crônica da Miriam.

Hoje, sem explicação, acordei meio assim, mesmo, como diz a Miriam, sem a vida ter me sacudido de alguma forma: macambúzio, sorumbático, taciturno, casmurro, borocoxô, tristonho, ensimesmado… Quanto antônimo de alegre… Na crônica ela menciona que ela era ensimesmada.

Aqui vai a crônica da Miriam. (Por falar dela, ganhamos um leitão de presente de Natal de nossa querida caseira, recentemente precocemente enviuvada, dona Vânia. Talvez seja tanta morte por perto de mim nessa parte final de 2019 que, inconscientemente, tenha me deixado assim macambúzio hoje. E o fato de que amanhecemos sem Internet aqui no sítio hoje. Usando a Internet do telefone.)

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“Há aqueles dias de ressaca. Não de ter bebido no dia anterior, mas de a vida ter te sacudido de alguma forma, por algum motivo, nos quais você acorda querendo um canto e um tempo de recolhimento. Se acordar assim, dia desses, entregue-se. Há quem queira correr uma maratona para que a endorfina engula esse sentimento de fragilidade. Há quem tome um remédio: a química salvadora que apaga essa sensação de impotência que, as vezes, domina o corpo e nos abate logo no começo de um dia.

Não é uma dor profunda, a que estou falando. É aquela tristeza fina, a certeza de que há algo errado em sua vida. Já sentiu? Pois é, ela pode ser criativa, pode ser o descanso que o corpo pede, pode ser o espaço que sua mente precisa para pensar e, eventualmente, tomar decisões.

Na vida atual a gente se dá pouco tempo para a reflexão. Tudo é muito agitado. Tristeza virou sinônimo de depressão a ser tratada com algum remédio, um esporte radical, uma festa em que exibiremos o sorriso falso na pista de dança. Ninguém pode estar triste. É aconselhado a fazer um tratamento médico e, no consultório, recebe a receita de um remédio tarja preta ou vermelha. No livro “1984” de George Orwell, a distopia da sociedade perfeita, as pessoas tinham que tomar a pílula da felicidade diariamente porque estar feliz era o único estado aceitável naquele mundo autoritário.

Hoje em dia tudo é química, tudo é doença, nada é normal. Uma criança distraída, que passe horas olhando para o infinito será vista com preocupação pelos pais. Levadas ao consultório médico sairão de lá com algum diagnóstico e a receita de um medicamento para alterar o comportamento.

Fui uma criança quieta, ensimesmada, tímida. Não gostava de estar em lugares com pessoas que não conhecesse. Chorei meses no começo do período escolar pelo pavor de enfrentar a turma. Meu irmão, um ano e meio mais velho que eu, era inquieto e agitado. Meu oposto. Eu levei minha introversão para os livros e neles mergulhei com o prazer de abrir uma janela sobre a paisagem de infinitas possibilidades. Naquele mundo tudo podia acontecer e eu me desligava do resto.

Meu irmão usou a inquietação para desenvolver vários talentos. Um deles o de tocar violão, que aprendeu sozinho. Como canta e toca o meu irmão. No dia de hoje seríamos diagnosticados: ele, hiperativo; eu, agorafóbica. Os dois tratados como portadores de síndromes. Me lembro que os vizinhos estranhavam a minha quietude e mutismo. Minha mãe, que teve 12 filhos, sabia respeitar a diversidade do temperamento humano. “Ela é assim mesmo”, dizia. Caminhei, sem pressão, para fora da concha e hoje vivo no mundo da comunicação onde a exposição é o pressuposto.

Precisamos respeitar as tristezas, os recolhimentos, a reflexão. Principalmente precisamos entender as diferenças. Em todas as idades. O normal da vida não é ser alegre, o natural é oscilar entre sentimentos, com momentos de alegria e horas de tristeza. Assim é a vida. Muita ideia boa nasceu de uma hora de introspecção ou do sentimento da tristeza que nos silencia, certos dias. Se acordou assim, querendo silêncio e o mergulho em uma tristeza que chegou de algum ponto, deixe-se ficar no seu canto. O belo da vida é que os dias não são iguais e nem nós somos os mesmos todos os dias.

Crônica de Miriam Leitão, em 11/04/2015

EC, em Salto, 14 de abril de 2021 (seis anos e três dias depois da crônica da Miriam)



Categories: Liberalism

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