Teus e Ateus

Hoje, 16.1.2023, acordei às 4 da manhã. O sono tinha acabado, e estava desperto. Diferentemente do que faço normalmente – quando acordo, geralmente me levanto em seguida e vou fazer algo de útil – eu fiquei na cama, dando tratos à bola, por mais ou menos uma hora. Fiquei imaginando se eu não deveria escrever um livrinho para iniciantes acerca do que é a Filosofia – que, etimologicamente, quer dizer “Amor da Sabedoria”, ou “Amor do Saber”. Talvez devesse chamar-se, o livrinho, Filosofia, para Leigos, a Partir da Estaca Zero. Quem sabe. 

Depois de uma hora vim olhar meu Facebook e uma notificação me chamou a atenção. Veio de um grupo, do qual sou membro, chamado “Ateus”. Sou membro de vários grupos de “Teus”, também, de cristãos crentes, devotos a Deus. E também de grupos de Agnósticos e Céticos. Não sou daqueles que tem certeza de tudo e só vai beber e comer de fontes e de pastagens que alimentam suas certezas. Sou um cara cheio de dúvidas. Não só sobre a religião como sobre a ciência. E até a própria filosofia, na qual sou formado.

Na discussão, de vez em quando meio brutal, nesse grupo “Ateus”, em um determinado ponto alguém escreveu: 

“Bom vocês têm seus bons motivos para não acreditar em DEUS, mas já lhes adianto: só acredita em DEUS quem tem fé. Se você tem fé, terá prova da existência do criador.”

Alguém respondeu, sensatamente:

“Se acreditássemos em Deus, não seríamos ateus.”

Outro disse: 

“O crente acredita que existe um poder sobrenatural que tudo rege tudo o que acontece e isso é um problema dele.”

Outro, que já leu um pouquinho, perguntou: 

“Se deus não existe, tudo é permitido?”

Outro procurou responder: 

“Sei lá, mas há pessoas que acreditam em um deus e tudo o mais, e são extremamente cruéis… Eu fico a imaginar como seriam se não acreditassem…”

Outro disse, na mesma veia:

“Se quem diz que crê em Deus anda mentindo, violentando, prevaricando, disseminando ódio, assaltando, roubando, matando, etc., e esse seu deus fica caladinho, alguma coisa errada, não está certa!!! Basta refletir. Não vejo, nas manchetes, notícias de que ateus tenham cometido crimes por serem ateus. Em regra a causa do crime é outra.”

Outro falou: 

“Se você quer prova que Deus não existe, prove de onde o universo se originou. Provando que o universo se originou de alguma outra causa, que não um ‘Deus’, você terá provado que Deus não existe. Se não fizer isso, eu posso continuar a usar Deus como uma hipótese para a origem do mundo.”

A resposta veio pronta e mal educada:

“Por mim, seu pateta, você pode até usar como hipótese o Papai Noel e a Fada do Dente.”

O autor da observação original sobre usar Deus como uma hipótese da origem do mundo retrucou.

“Se fizer isso, não terá o meu respeito.

E o mal educadinho encerrou essa trilha da discussão.

“Nem eu quero! Ph*da-se!”

Um outro resolveu mudar de assunto e disse: 

“A verdade é que a base da religião não é a fé, é o medo.”

Um outro perguntou:

“Você está afirmando que a religião prega o medo?”

A essas alturas eu resolvi me arriscar a ser chamado de pateta ou pior e disse:

“Na minha maneira de entender, nenhuma religião PREGA o medo. Mas toda religião SE CONSTRÓI em cima do medo — e da esperança. O medo simplesmente existe. A gente nasce e logo tem medo de ficar sozinho, medo de ficar no escuro, medo de não ter quem cuide da gente, medo da morte (da gente mesmo ou daqueles que são importantes para nós, como nossos pais ou cuidadores), medo de chover quando a gente quer passear, medo de não chover quando a gente planta alguma coisa que precisa de água, medo de não saber o que fazer para se manter vivo, seguro e alimentado se nossos pais ou cuidadores faltarem, etc. A partir de um certo momento a gente percebe que outros vivem melhor ou pior do que nós, que as coisas, para eles, dão mais certo ou mais errado do que para nós, que sua lavoura produz mais ou menos do que a nossa — e isso gera esperança de que as coisas possam melhorar para nós… Daí a gente se pergunta: ‘Será que existe alguém ou alguma coisa que controla tudo isso? Ou será tudo simplesmente obra do destino, da sorte e do azar?’ Para alguns parece plausível acreditar que há forças, poderes ou seres que controlam as circunstâncias da vida da gente, se vai chover na nossa horta, se vamos encontrar alguém de quem a gente gosta e que gosta da gente… As perguntas se multiplicam, geradas pelo medo. Quando a gente morrer, será que tudo acaba, ou será que existe uma outra vida, que, de certo modo, é prosseguimento dessa? Ou será que a gente se reencarna e vive uma outra vida? Certamente algumas dessas possibilidades são mais atraentes do que outras — e a gente espera que elas aconteçam conosco. Elas passam a acreditar que não precisamos deixar que o destino controle a nossa vida, e que podemos, de certo modo, interceder junto às forças, aos poderes, quiçá aos seres, que controlam a nossa vida, apresentando-lhes oferendas, fazendo-lhes sacrifícios, louvando-os, quiçá adorando-os. Antropologicamente falando, é assim nascem as religiões. Do Medo e da Esperança. Elas não precisam pregar o medo. Já nascemos com ele. Mas precisam pregar a esperança. Se não quisermos ter esperança, é fácil. É só virar ateu e achar que tudo depende apenas de nós mesmos e de nossa sorte ou azar. É perfeitamente possível que tudo que as religiões pregam para aplacar o nosso medo seja mentira, invenção de quem quer se aproveitar de nós. Ou pode ser que algumas coisas sejam mais verdadeiras do que outras. É difícil de saber. Cada um acredita no que lhe parece ser mais plausível — ou em nada, passando a ser, além de ateu, um niilista. Se for assim, nem é preciso desejar que tudo se foda. Nem precisa escrever com ph. Na hora certa, isso acontecerá. Até para você, que perdeu a esportiva. Boa sorte — se é que desejar-lhe isso faz alguma diferença, ou é simplesmente um foda-se com o sinal trocado.”

Paro aqui — por enquanto. 

Em Salto, 16 de Janeiro de 2023.



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