Preguiça Cognitiva: O Desafio de Desaprender e Reaprender

Nós sofremos de “preguiça cognitiva”. A tese é de Adam Grant, em seu livro Think Again: The Power of Knowing what you don’t Know (Viking / Random House / Penguin, 2021). A preguiça é cognitiva porque ela se aplica basicamente às nossas crenças e convicções básicas — não às coisas que nós temos, nem à nossa aparência corporal, externa, nem, em menor grau, aos nossos relacionamentos amorosos ou de amizade.

A maioria de nós (principalmente as mulheres) adora abandonar roupas velhas para substituí-las por novas. Nas classes mais altas, há mulheres que não repetem um vestido em público. Se a Rainha da Inglaterra usar, em uma função pública, o mesmo vestido que já usou em outra ocasião pública, o fato é notícia no The Times of London. A maioria de nós (homens e mulheres) gosta de trocar de carro com certa frequência e até mesmo de comprar uma casa nova (desde que seja em um país, uma cidade, ou um bairro melhor). Não só trocamos alguns dos objetos importantes que possuímos. Tentamos, também, mudar de aparência: as mulheres trocam o seu jeito de cortar e pentear o cabelo, os homens deixam e tiram barbas e bigodes, as mulheres se empetecam na maquiagem, todos nós fazemos sacrifícios (nos hábitos alimentares, nos exercícios) para ficar mais esbeltos, alguns fazem operações plásticas e bariátricas, etc. Todos gostamos de ficar mais bronzeados… No tocante aos relacionamentos pessoais, é hoje comum mudar de parceiros em nossos casamentos e relacionamentos estáveis. Nossas amizades parecem sobreviver melhor ao teste do tempo, mas os conflitos ideológicos do século 21 têm colocado em risco até mesmo amizades profundas, de longa data. (Conheço gente que bloqueia certos amigos no Facebook ou no Instagram “para não perder a amizade”…). Antigamente, um emprego ou uma profissão era para o resto da vida. Conheci várias pessoas que trabalharam nas Indústrias Romi a vida inteira. Pior ainda: fazendo a mesma coisa. Hoje em dia trocamos, tanto um como a outra, tanto o emprego como a profissão, com razoável frequência.

Mas, quando se trata de nossas crenças e convicções, pelo menos as mais básicas, relutamos em mudar. Deixar a religião na qual nascemos, trocando-a por outra, ou, então, por nenhuma, em geral é algo traumático. Converter-se a uma outra religião, ou virar ateu, ou, tendo se tornado ateu, voltar a ser religioso ou crente, não é algo que acontece com frequência ou facilidade para a maioria das pessoas. Certamente não com a mesma frequência que trocamos de roupa, de carro ou de casa. Trocar de ideologia política, deixar de ser comunista (vermelho) para se tornar liberal, ou deixar de ser libertário para virar socialista (cor-de-rosa), deixar de ser conservador para ser revolucionário, ou vice-versa, também não é algo que acontece com frequência ou facilidade para a maioria das pessoas. Até trocar o time de futebol pelo qual a gente torce pode ser difícil — em alguns casos, quase impossível. Eu morei em Campinas por 45 anos e lá torcia pelo Guarani como segundo time. Mudei para a Grande Salto e o meu segundo time passou a ser o Ituano… Mas não consigo me imaginar deixando de ser são-paulino, o meu primeiro time de coração — por pior que o SPFC esteja, e ele anda ruim muito ultimamente… (apesar de ter ganho o Campeonato Paulista este ano, meio que por milagre…) e mesmo que, Deus o livre, vá morar no Rio de Janeiro ou em Salvador.

Por que, em relação a algumas coisas, mudamos com facilidade e com gosto, e em outras acontece o oposto: relutamos em mudar e só o fazemos em circunstâncias excepcionais, muitas vezes diante de eventos traumatizantes (Saulo a caminho de Damasco, por exemplo, no relato bíblico). Por que temos “preguiça cognitiva”, e não temos preguiça vestitiva, veiculativa, domiciliativa, aparenciativa, e nem mesmo muita peguiça relacionativa?

A sugestão de Grant tem que ver, em grande medida, com a questão de nossa identidade.

As roupas que nós vestimos, em geral e até certo ponto, não fazem parte de nossa identidade. A gente põe determinadas roupas sobre o corpo para ficar em casa, outras para sair, outras para trabalhar, outras para ir à igreja ou a casamentos, outras para ir a uma audiência com a Rainha da Inglaterra, e fica quase pelado para ir à praia (tem gente que fica quase pelada também longe da praia). No entanto, a questão não é totalmente tranquila aqui. Houve uma época em que mulher usar calça comprida mexia com a identidade dela (pelo menos na visão dos outros). Era proibido para as mulheres entrar de calça comprida nas igrejas, nos tribunais, e até no Gabinete do Reitor Zeferino Vaz da UNICAMP, fundador da instituição, quando eu entrei na instituição em 1974. Uma mulher que se vista com uma blusa ou um vestido com muito decote em cima ou pouco pano embaixo pode ser barrada (até hoje) de certas escolas, seja ela visitante, aluna ou professora — só não sendo barrada se for a própria diretora da escola… Homens parecem ter mais latitude, mas eles próprios se impõem limites. Pouquíssimos homens têm coragem de sair na rua de saia ou de vestido, ou, então, bastante maquiados, exceto, em alguns casos, no Carnaval.

O carro que dirigimos ou a casa em que moramos (neste caso, suas características estruturais, seu tamanho, sua aparência, sua localização) tem menos relação com nossa identidade, mas tem alguma. Por que alguém, podendo, escolhe morar em Saint Tropez ou em Monte Carlo, em vez de Jaboticabal ou Santa Rita do Passa Quatro? Por que alguém opta por dirigir, e compra, um Audi, uma BMW, uma Mercedes, um Porsche, uma Ferrari, em vez de um Toyota Corolla ou um Honda Civic — ou um Volkswagen Gol ou um Fiat Uno. Todos esses modelos de carro levam as pessoas para os mesmos lugares, de forma mais econômica (embora não tão depressa nem com tanto conforto). Dificilmente é por investimento apenas ou por razões meramente econômicas. Em regra é para realçar certas características que a pessoa considera essenciais em sua identidade… Nós que não podemos fazer isso achamos que esse tipo de pensamento (e comportamento) é frívolo, mas… Seria inveja?

Quanto mais próxima uma questão é de nossa identidade, como nós a definimos e percebemos, mais difícil mudar. Esta é a tese de Grant. A gente em regra não gosta de reconhecer que está mudando de identidade ou de admitir que mudou.

E nossas crenças e convicções, pelo menos as mais básicas, estão profundamente entranhadas com a nossa identidade. A gente se veste assim ou assado, dirige um Fusca antigo ou uma Hilux, mora em Higienópolis ou na Vila Maria. Mas a gente diz que É religioso ou ateu, crente ou católico, liberal ou socialista (ou, então, corintiano ou palmeirense ou são-paulino — o resto não conta…).

Entre as coisas que nós temos muita dificuldade para mudar estão os nossos pontos de vista em relação à educação. Para a maioria das pessoas, educação tem que ver com escola (obrigatória, of course), com professor, com ensino, com aula, com currículos, com livros didáticos, com transmissão de conhecimentos, com provas e exames (como o ENEM — que, parece, para a frustração da esquerda, saiu direitinho este ano, apesar das demissões em massa no INEP), com diplomas e certificados, com profissões e carreiras, tudo padronizadinho para todo mundo… Essas pessoas têm dificuldade até para entender o que seria uma educação não obrigatória, sem escolas, sem professores, sem ensino, sem aulas, sem currículo, sem livros didáticos,  sem transmissão de conhecimentos, sem provas e exames, sem diplomas e certificados… Mas a educação, no passado pré-moderno, sempre foi assim. E tudo indica que, no futuro, “assim caminha(rá) a humanidade” novamente. Eu espero e desejo.

Termino com uma das frases mais significativas do livro, na minha forma pensar:

“Uma característica marcante da sabedoria está em saber quando chegou a hora de abandonar algumas das ferramentas (físicas ou mentais) que você mais aprecia e algumas das ideias e formas de ver o mundo que constituem as partes mais queridas de sua identidade”.

Chega a hora em que essas ferramentas, ideias, e formas de ver o mundo começam a agir contra você, começam a operar no sentido oposto ao dos seus maiores e melhores interesses.

Em Salto, 22 de Novembro de 2021



Categories: Liberalism

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