O Silêncio: A Voz das Pausas e dos Intervalos

[Nota: texto escrito originalmente em 12.11.2010, que sofreu revisão em acréscimos onze anos depois, em 13.11.2021, antes de ser publicado como post no Facebook. Alguns comentários naquela rede social me levaram a fazer mais alguns acréscimos e a publicar o texto aqui neste blog.]

À medida que o tempo passa e eu vou ficando mais velho, o silêncio vai assumindo um valor cada vez maior para mim. O silêncio da velhice talvez seja um silêncio preparatório para o Grande Silêncio. Como dizia um amigo meu, “a natureza é sábia”. Outro dizia, “Deus sabe o que faz”.

Sinto fome de silêncio, hoje, como antes sentia fome de doce… (que ainda sinto, mas não mais tanto, nem tanta).

Aos poucos fui desenvolvendo uma ojeriza a ambientes em que todo mundo fala ao mesmo tempo, em que há uma zoeira como aquela que a gente ouve num shopping cheio ou numa estação de trem lotada… Uma zoeira é, como dizia a impagável PRK-30, “uma impressão generalizada de bagunça”…  — um caos generalizado onde se ouve tudo, ou quase, e não se entende nada, ou quase nada…

Não gosto de situações, em ambientes menores e mais restritos, em que as pessoas parecem se sentir desconfortáveis com as pausas e os intervalos naturais das conversas e se sentem obrigadas a manter a bola rolando. tempo todo…. A gente precisa de pausas na conversa, porque é nelas que a gente absorve o que foi dito pelo outro e reflete sobre o que vai dizer, quando for necessário ou recomendável dizer alguma coisa — nem sempre é. E os intervalos na conversa servem para que sejam introduzidos na conversa momentos de benfazejo silêncio, que refrigera a alma. Como é bom, depois de uma festa barulhenta, quando todo mundo vai embora e só se houve o silêncio. Nelson Rodrigues uma vez escreveu que, no ruidoso Estádio do Maracanã de 16 de Julho de 1950, quando o jogo contra o Uruguai terminou e o Brasil perdeu a primeira copa que tinha chance de ganhar, “nunca se ouviu tamanho silêncio no Maracanã”. O silêncio, o mais das vezes, nos ajuda a assimilar o que aconteceu, a conviver com a realidade.

No entanto, há pessoas que parecem se propor a incumbência de não admitir pausas nas conversas e, assim, tentam preencher todos os minutos de silêncio com alguma manifestação verbal que faz a conversa prosseguir ininterruptamente, continuar rolando, como se uma conversa fosse uma narração pela rádio de um jogo de futebol, mal esperando alguém acabar de dizer alguma coisa para dizer outra, ainda que sem a menor relação com a anterior.

Uma conversa tranquila a dois, “one-to-one“, é, em regra, agradável, mas conversas “many-to-many” em geral soam como alvoroço e me cansam os ouvidos e a mente, quando não me irritam.

Nos silêncios a gente escuta tanta coisa importante! É neles que a gente ouve, pelo menos aqueles que têm esse dom, os pequenos recados divinos que nos são frequentemente passados… mas que, não raro, encontram o canal de comunicação ocupado…  Gilberto Gil, que sabe de algumas coisas, disse:

Se eu quiser falar com Deus,
Tenho que ficar a sós…
Tenho que apagar a luz,
Tenho que calar a voz!

Tenho que encontrar a paz,
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata,
Dos desejos, dos receios…

Tenho que esquecer a data,
Tenho que perder a conta,
Tenho que ter mãos vazias,
Ter a alma e o corpo nus…

Ser econômico ou parcimonioso no próprio falar, e preferir o silêncio alheio à fala, tem um nome: é ser  taciturno…

A história registra o caso de um rei que foi apelidado de “O Taciturno”: William, ou Guilherme, da Holanda. Ele falava pouco, ouvia menos ainda, mas fazia muito… Libertou a Holanda, no século 16, do domínio espanhol e da casa de Habsburgo… É considerado “O Pai da Pátria”, pelos holandeses: Pater Patriae, Vader des Vaderlands… E tudo isso, falando e ouvindo pouco, mas pensando e fazendo muito!

Há um conjunto de palavras em Português que eu aprecio. Não são sinônimas, mas são parte da mesma família:

Taciturno, melancólico, casmurro, jururu, borocoxô, tristonho, mal-humorado, sombrio…

Às vezes me sinto assim. Não o tempo todo, nem mesmo sempre. Só de vez em quando…

Por último: faço uma distinção importante entre falar demais, em companhia, e escrever demais. Falar demais, em companhia, é invadir a privacidade alheia, seu direito ao silêncio e à quietude… Escrever demais, não. Só lê aquilo que a gente escreve quem quer. É difícil ter ouvidos moucos — a gente frequentemente ouve o que não quer. Mas os olhos são “moucos” (mutatis mutandis) quase o tempo todo: a gente só vê (lê) o que quer.

Às vezes escrevo algo aqui que considero importante e ninguém lê — pelo menos, ninguém reage, ninguém curte, ninguém comenta… Nem minha mulher, nem minhas filhas, nem meus irmãos… Não fico chateado, só registro o fato. É parte do ofício.

De qualquer maneira, é sempre bom lembrar que é melhor ficar calado e passar por ignorante do que falar e eliminar qualquer dúvida…

Em Salto, 12.11.2010 – texto revisto hoje, 13.11.2021, ocasião em que fiz pequenos acréscimos.



Categories: Liberalism

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