Dois Tipos de Leitores: Uma Reflexão de C S Lewis

Em um texto altamente perspicaz, C S Lewis constata que, além de dois tipos de livros, os bons e os ruins, há dois tipos de leitores, os que leem bem e os que leem mal. A reflexão de Lewis ocupa o primeiro capítulo de seu livro An Experiment in Criticism (Um Experimento em Crítica Literária). O título do capítulo é “The Few and the Many” (Os Poucos e os Muitos). Vou aqui traduzir partes desse capítulo, de forma resumida e evidentemente não literal, acrescentando ao texto de Lewis considerações minhas. Na verdade, sem abandonar o balizamento que o texto de Lewis fornece, misturo as ideias de Lewis às minhas, porque minhas elas se tornaram – na verdade, minhas elas sempre foram: eu simplesmente não tinha consciência do fato, nem palavras para expressar esse fato inegável…

Lewis começa o capítulo observando que a gente em regra distingue entre bons e maus leitores em função do tipo de livros que leem: os bons leitores (leitores de bom gosto) leem livros bons (de boa qualidade literária) e os maus leitores (leitores de mau gosto) leem livros ruins (de má qualidade literária). Ele se propõe a, de certa forma, inverter a coisa e afirmar que a distinção entre bons e maus leitores seja feita, não em função do tipo de livros que leem (bons ou ruins), mas em função da maneira em que leem (qualquer tipo de livro, bom ou ruim, não faz diferença). Há uma maneira de ler que caracteriza uma pequena parte dos leitores (os “poucos”, do título do capítulo I), e outra que caracteriza a maior parte dos leitores (os “muitos” do título do capítulo). Os poucos leem “bem”; os muitos leem “mal”. E, quem sabe, caracterizar os livros em função disso: um bom livro seria um livro lido predominantemente por quem lê bem (os poucos), e um livro ruim seria um livro lido predominantemente por quem lê mal (os muitos)…  

Mas como distinguir os que leem bem dos que leem mal – e assim redefinir o que é um bom livro e um livro ruim?

Primeiro: Os muitos, ou seja, os que leem mal, nunca leem um mesmo livro mais de uma vez. Para eles, se você já leu um livro uma vez, não há nenhuma razão para lê-lo de novo, mesmo que você não se lembre mais daquilo que leu. Um livro já lido é uma coisa morta: pode ser vendido como livro usado, dado para uma instituição de caridade, ou até jogado fora. “Um livro já lido é como um fósforo riscado, uma passagem de trem já usada, o jornal de ontem”, diz Lewis. (Aqui no Brasil, nos bons tempos, os jornais já lidos eram vendidos aos açougues para embrulhar a carne que a gente comprava…). Os poucos, por seu lado, geralmente guardam os livros que leram, formam bibliotecas, e revisitam (releem) os livros que já leram e possuem, leem alguns deles, duas, três, dez, vinte vezes. O bom cristão não lê a Bíblia todo dia, e a Bíblia inteira pelo menos uma vez por ano? Para quem lê bem, todo livro é bom, todo livro é como se fosse uma Bíblia, porque sempre deixa alguma coisa com a gente. Um livro lido é como se fosse um livro de referência. A única forma de designar um livro como ruim é quando ele é mal lido.

Segundo: Para os muitos, ler não é uma atividade importante e prioritária. Eles não reservam um tempo para a leitura dedicada, atenciosa, em ambiente silencioso, sem a companhia de rádio, do televisor, ou do tocador de músicas, ou do Spotify, sem interrupções e perturbações. Eles leem nas “janelas” (nos intervalos) de outras atividades: enquanto esperam o ônibus (ou enquanto aguardam a consulta médica), enquanto estão dentro do metrô, balançando no trem, apertados, às vezes em pé, em meio a enorme barulho, ou quando vão ao banheiro, ou, então, para ficar com sono e adormecer, às vezes com o livro ao peito… A leitura, neste último caso, parece que entorpece, anestesia, faz o leitor passar da consciência para a inconsciência. Ler, para a maioria dos leitores, é um passatempo, ou qual se recorre quando não se encontra nada melhor para fazer: é um último recurso, do qual se lança mão apenas para não ficar parado sem fazer nada. É mais um mata-tempo, que mata o tempo livre disponível, do que um passatempo do qual se deriva genuíno prazer. Os poucos leem pelo prazer que a leitura lhes traz. Quando leem, se envolvem na leitura, emocionam-se, choram… Sentem-se empobrecidos quando passam um dia sem ler por um período relativamente extenso, com a atenção dedicada exclusivamente ao livro, sem interferências externas. Por isso, reservam tempo para a leitura em suas agendas: a leitura para eles é uma atividade importante e urgente, logo, prioritária, que não se pode deixar de fazer todo dia.

Terceiro: Os muitos, ao terminar de ler um livro, dificilmente conseguem resumir o que retiraram do livro, o que ficou com eles da leitura, o que foi digerido, entrou em seu sistema, passou a integrar o seu DNA, por assim dizer (Rubem Alves dizia isso – disse-o no Prefácio a um livro meu). Em geral, os que leem mal, pouco tempo depois da leitura, lembram-se de quase nada do que leram. Pouco ou nada restou da leitura. Para os poucos, no entanto, a leitura de um livro, mesmo de um livro considerado ruim por outros critérios, sempre produz algum resultado, sempre causa algum impacto, sempre gera alguma aprendizagem, alguma mudança, alguma alteração no mindset, alguma transformação. Em decorrência da leitura, a forma de estar consciente de quem lê bem muda, sua maneira de perceber e entender o mundo se altera, ele nunca mais vai ser o mesmo. Em alguns casos, a experiência é como a de encontrar um novo amor, de converter-se a uma nova religião… É algo do qual não se vai esquecer nunca.

Quarto: Uma decorrência da constatação anterior, que afeta mais os poucos do que os muitos, é que os que leem mal se esquecem do que leram: precisam, às vezes, gastar um bom tempo numa livraria, folheando um livro, para concluir se já o leram ou não. Para os que leem bem, entretanto, suas leituras os acompanham para sempre, em todos os lugares. Trechos de suas leituras lhes vem constantemente à mente, lembram-se de comportamentos típicos de certos personagens, de acontecimentos e cenas das diversas histórias, de passagens inteiras, que, por vezes, conseguem repetir de cor. Personagens marcantes dos livros lidos se tornam como se fossem amigos do leitor que lê bem. Sua forma de pensar, sentir e agir se torna um paradigma ao qual o leitor sempre recorre. As consequências de seus atos são lembradas quando o leitor se encontra em situação análoga ou semelhante. Os livros, através do bem ler, se tornam companheiros permanentes. Os que leem bem chegam a dar aos seus filhos o nome dos personagens mais marcantes dos livros que leram, nomeiam seus animais de estimação para homenagear os animais simpáticos que encontram nas histórias – e essas histórias sempre alargam, aprofundam, expandem e assim tornam a sua experiência mais diversificada, mais variada e mais plena, e, sua vida, mais rica.

Para concluir, os muitos não conseguem entender o relacionamento que os poucos têm com a leitura e com os livros. Acusam os poucos de ser maníacos por livros, viciados em leitura, de dar mais atenção à realidade virtual que os livros lhes apresentam do que à realidade propriamente dita que está fisicamente ao seu redor. Não conseguem entender quando alguém prefere ficar em casa lendo a sair para ir a algum lugar, qualquer lugar, apenas para “respirar um ar novo”, “movimentar um pouco as pernas”, “ver algo diferente”.

Dizer que os poucos gostam de ler e os muitos leem apenas porque não têm algo melhor para fazer é verdadeiro, mas não expressa toda a verdade. O que uns e outros fazem com os livros não é a mesma coisa, e não deveria ser descrito pela mesma palavra, “ler”. Deveríamos ter em nosso vocabulário uma palavra para o ler dos poucos e uma palavra diferente para o ler dos muitos, que distinguisse claramente uma atividade da outra. E deveríamos ter clareza sobre o que torna uma coisa diferente da outra.

Em Salto, 28 de Abril de 2022



Categories: Literature, Literatura, Books, Livros, Reading, Leitura, Crítica Literária, Literary Criticism

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