[CONTINUAÇÃO DA PARTE 1 (artigo anterior neste blog)]
[MENSAGEM ESCRITA EM 10.5.2006 ]
Vou voltar à carga para discutir aqui, ainda que meio superficialmente, a questão da proposta “Gestão da Ignorância”.
Não gosto da frase atribuída a Sócrates de que “só sei que nada sei”. Estou totalmente convicto de que sei um bocado mais de coisas — e acho que posso facilmente demonstrar isso. A frase atribuída a Sócrates é, portanto, a meu ver, patentemente falsa.
A diferença entre conhecimento e ignorância está, para mim, no fato de que o conhecimento que eu tenho é sempre limitado — enquanto a ignorância não tem limites.
As coisas que eu sei, eu sei que eu as sei. As coisas que eu não sei, nem sempre… E, sem dúvida, pode haver coisas que eu penso que sei, mas, na verdade, não sei.
Entre as coisas que eu não sei (o universo da minha ignorância) estão, por exemplo:
- Coisas que eu não sei e sei que não sei. Sei, por exemplo, que não sei entender ou me expressar em Chinês. Nesse caso, se eu quero me “designorantizar” nessa área, basta que eu tome os passos necessários para aprender Chinês (algo perfeitamente possível, mas não fácil, a essas alturas da minha vida).
- Coisas que eu não sei e não sei que eu não sei. Neste caso, minha ignorância é total. Não há nem jeito de eu decidir a me “designorantizar” nessa área, a menos que eu consiga transformar essas coisas em coisas da categoria anterior.
Creio que é possível, em algum sentido do termo, gerir minha ignorância, quando se trata de ignorância da primeira categoria. Acho difícil imaginar o que poderia ser “gestão da ignorância” no caso da segunda categoria.
Resumindo:
- Há coisas que sei e sei que as sei
- Há coisas que não sei e sei que não as sei
- Há coisas que não sei e nem sequer sei que não as sei
Resta mais uma possível questão:
- Haveria coisas que eu sei, mas não sei que eu sei?
Talvez haja. Mas tenho alguma dificuldade em imaginar que eu possa saber coisas sem ter consciência do meu conhecimento delas. Para saber isso eu teria que ter conhecimento delas, e, daí, a questão muda.
Mudando um pouco a direção do assunto.
Sempre admirei uma postura de Karl Popper (em A Sociedade Aberta e seus Inimigos) de que a postura filosófica mais correta a assumir é a postura de humildes buscadores da verdade — e não a de orgulhosos donos (possuidores, proprietários) dela.
Essa é, parece-me, a atitude de quem está sempre aberto a aprender, pronto a se deixar corrigir, disposto a adotar ideias que se mostrem mais adequadas do que aquelas que ele adota no momento.
Isso, no entanto, não significa que todos estejamos “igualizados” em nossa ignorância. Detesto o igualitarismo em política — e o detesto também em epistemologia. Obviamente, alguns de nós sabemos mais do que outros — sobre uma enormidade de assuntos – e há aqueles que sabem muito mais do que nós-
Nada, porém, nos leva a concluir que, porque “a” sabe mais do que “b” em, digamos, medicina, “a” também saiba mais do que “b” em filosofia ou em política — ou “no geral”. O nosso conhecimento é sempre “content-specific“.
Não resta dúvida de que, ao optar por conhecer uma determinada área, em vez de outra, a gente está tomando decisões — e, assim, de certo modo, gerenciando a ignorância que tem, no sentido de estar conscientemente optando por deixar de conhecer alguma coisa. Mas essa seria uma gestão da ignorância da primeira categoria (das duas mencionadas atrás) — não da segunda… Muito cedo na minha vida decidi que iria me encaminhar para a área de filosofia, humanidades, quem sabe “ciências” humanas”. Assim, muito cedo, optei por “desprivilegiar” a área das matemáticas, das ciências ditas exatas, etc. “Desprivilegiar” quer dizer: estar disposto a conviver com minha ignorância nessas áreas. Mesmo em relação às chamadas ciências humanas (sociologia, antropologia, etc.) não tenho lá grande interesse.
Embora isso possa parecer óbvio, também não resta dúvida de que, se eu sei uma determinada coisa, não há por que me propor aprendê-la. É, porém, importante reconhecer que muitas coisas que eu acho (penso, imagino) que sei eu, de fato, não sei – ou não sei tão bem quanto eu imagino. Talvez o pior ignorante seja aquele que acha (pensa, imagina) que sabe e, de fato, não sabe. Boa parte de meu tempo na Internet é gasta tentando mostrar aos marxistas, socialistas, esquerdistas e esquerdizantes generalizados, e assemelhados, de que eles sabem muito menos do que acham (pensam, imaginam) que sabem… Briga feia, de vez em quando. Mais e mais venho perdendo o interesse em me engajar nela. Acho essa turma quase irrecuperável.
Mas, nessa briga, temos de ter critérios: o que me permite, justificadamente, dizer que eu sei algo? o que me permite, justificadamente, dizer que aquilo que fulano acha (pensa, imagina) que sabe ele de fato não sabe?
Ou seja, a gente pode acreditar, inicialmente, que dá para discutir a gestão do conhecimento sem sujar as mãos com questões epistemológicas (filosóficas) sobre o que é o conhecimento, o que nos permite demarcar o conhecimento da mera opinião e da profunda ignorância… Mas, no fundo, não dá…
Caminhando para o fim, é forçoso reconhecer que há diferentes tipos ou níveis de ignorância. Como, por exemplo:
- Ignorância daquilo que eu nunca soube e nem sei que não sei
- Ignorância daquilo que eu nunca soube, mas sei que não sei
- Ignorância daquilo que eu um dia soube, e sei disso, mas me esqueci, e também sei disso
- Ignorância daquilo que eu um dia soube, mas nem me lembro mais de que soube (tendo, talvez, enterrado no meu inconsciente o fato de que eu um dia soube aquilo)
Em relação às coisas que eu sabia, mas das quais me esqueci, também é possível distinguir:
- coisas que eu sabia, mas esqueci, mas sei que eu soube e sei que eu esqueci (eu sabia muito bem extrair raiz cúbica de números com vários dígitos, mas me esqueci de como se faz isso — embora não tenha dúvida alguma de que eu um dia soube)
- coisas que eu sabia, mas esqueci a tal ponto que nem me lembro de que um dia as soube… (nesse caso, se trata de algo que poderíamos chamar de “deep forgetting“…)
- coisas que estão em “deep forgetting” mas é possível extrair de lá através de terapia
- coisas que estão em “deep forgetting” mas nem Freud conseguiria remover de lá
Existe ainda uma outra pergunta: há coisas que eu sabia, mas INTENCIONALMENTE decidi esquecer? Ou será que, apud Freud, a gente, quando reprime conhecimentos desagradáveis, o faz INCONSCIENTEMENTE?
Por fim: quando se trata de instinto, estamos abandonando a questão do conhecimento e passando para uma outra área? De novo a questão do conceito de conhecimento está em jogo.
E para terminar mesmo…
Como ficou claro na Primeira Parte deste artigo, eu pertenço ao conjunto de pessoas (e espero que a essas alturas ainda não seja um conjunto unitário) que acredita (sic) que existe conhecimento (e não apenas informação) armazenado FORA da mente das pessoas. Seria esta uma questão de fé ou alcançaria a condição de questão de conhecimento? Estou razoavelmente convicto de que, se somente existisse conhecimento DENTRO da cabeça das pessoas, o estudo da História (que eu prezo muito e ao qual me dedico) ficaria muito comprometido. E a leitura de um bom romance também… Sem falar em sistemas especialistas, redes neuronais, algoritmos genéticos, e, o xodó de hoje, a inteligência artificial.
Mas para discutir isso seriamente é preciso que a gente tenha um conceito básico de conhecimento que norteie nossos esforços de gerenciar esse conhecimento. Caso contrário, a coisa desanda. Não é preciso que esse conceito seja amparado por um tratado de epistemologia de proporções kantianas. Mas algum conceito precisamos ter…
Na educação, em especial, estou cansado de ver gente descrever como “construção de conhecimento” o que não passa de bate-papo frívolo. Sem um conceito de conhecimento que nos permita demarcar conhecimento de mera opinião, de mero achismo, de mera masturbação sociologizante, de mera conversa de um botequim, a coisa fica complicada – e desanda, como disse atrás.
Na administração de empresas, o gerente da fábrica que cria um ambientezinho para os operários trocarem ideias, será que vai manter o ambientezinho se as únicas ideias trocadas ali forem piadas de mau gosto ou, talvez pior, formas de evitar trabalhar?
Não estou argumentando que a filosofia seja a disciplina “rainha” na gestão do conhecimento. Mas há certas coisas que, sem dúvida, sine qua non…
Em Taipei, na Tailândia, 10 de maio de 2006
–Eduardo Chaves
eduardo@chaves.pro
Transcrito aqui em 12.12.2024, 18 anos e meio depois, com alguma revisão.
Categories: Liberalism
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