[NOTA INICIAL:]
Artigo de análise do filme identificado no URL https://www.imdb.com/title/tt27714581/reference
O site do IMDB (International Movie DataBase é um
dos sites com mais importância na área do cinema.
Hoje pertence à Amazon.
Eduardo Chaves
[IMDb Member for 25 years, since 2001]
I. Introdução
Voltando de Santiago de Chile, segunda-feira, 18.5.2026, no avião (Turkish Airlines – excelente aparelho, excelente serviço, pontualidade perfeita), tive uma grata surpresa ao assistir ao filme que ganhou, neste ano de 2026, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, desbancando a politizada porcaria brasileira (Secret Agent/O Agente Secreto). Foi o filme norueguês, Sentimental Value/Valor Sentimental… Uma maravilha, na minha opinião, para o meu gosto, levando-se em conta minhas ideias, meus valores, minha forma de ver o mundo, minha forma de fazer as coisas. O diretor do filme é o escandinavo Joachim Trier, nascido na Dinamarca e criado na Noruega.
Joachim Trier é uma pessoa de meia idade (tem 52 anos, completados em 1.3.2026), que convive bem com os mais jovens e com os mais velhos do que ele, e os entende bem. Sua abordagem, na direção desse filme, que tem duração de cerca de 2h10m, mistura características dos grandes diretores de cinema à moda antiga, preocupados com dramas pessoais, familiares, amorosos, profissionais, envolvendo identidade pessoal, memória, projeto de vida, relacionamentos humanos, sucesso, fracasso, bem como conflitos entre o lar e família, de um lado, e o trabalho e suas exigências, de outro, em um ritmo relativamente tranquilo e vagaroso, privilegiando o valores, princípios e ideais, focando o caráter das pessoas… Esses filmes antigos se situavam em contextos que exigiam escolha, tomada de decisão, e ação, mas não eram parte dos chamados filmes de ação: eram filmes que falavam às pessoas, que as levavam a pensar e a refletir, aplicando à sua vida aquilo que descobriram ou aprenderam no dia, nas pequenas coisas, como, por exemplo, assistindo ao filme de Trier. Sentimental Value tem todas essas características. (Gone with the Wind [1939, Selznick International Pictures, produzido por David O. Selznick e dirigido por Victor Fleming] e Doctor Zhivago [1965, Metro-Goldwyn-Meyer, produzido por Carlo Ponti e dirigido por David Lean] tinham quase quatro horas de duração, e requeriam 15 minutos de Intermission / Intervalo). Ele conseguiu um impacto semelhante em metade do tempo – e, por cima, andando devagar.
[NOTA: Gone with the Wind ganhou o Oscar de Melhor Filme, mas Doctor Zhivago, não.]
Joachim Trier é, também, por outro lado, um diretor moderno… Apesar de esse filme ter mais de duas horas de duração, seu diretor é, eu diria, um minimalista que não gosta de correr, que gosta de subentendidos, que não sente necessidade de que um personagem diga aquilo que um franzir de testa, ou um levantar de sobrancelha, ou, então, um olhar (ah, o olhar!) poderia expressar, às vezes, muito melhor. Quando ele usa palavras, ele é econômico e preciso no seu uso. Mas sabe fazer uso de vaguezas e de ambiguidades, ou até mesmo do silêncio, quando recomendável. Além disso, ele é não-linear. Sua técnica de “storytelling” não começa no começo, passa pelo meio e chega ao fim da história. Às vezes ele deixa questões irresolvidas, na história, ou apenas deixa claro que um determinado problema que se tornou evidente atrás, foi resolvido, sem dizer como… Simplesmente deixou de existir. O fato de que a mãe de um personagem cometeu suicídio deixa muitas pessoas intrigadas quanto às razões do suicídio, que não são totalmente esclarecidas no filme. Indagado sobre as razões do suicídio de sua mãe, que foi prisioneira de guerra em um campo de concentração, ele esclarece que essas razões simplesmente não vêm ao caso, porque o filme não é sobre a suicida, que já entra no filme morta e não ressuscita ao longo dele… Aqueles que gostam de saber tudo, nos íntimos detalhes, provavelmente sairão do cinema um pouco frustrados, sou forçado a admitir…
Enfim: o filme a que assisti é daqueles que aparentemente os Estados Unidos não parecem mais ser capazes de fazer: filme que trata com sabedoria, delicadeza, respeito e competência o tema dos sentimentos pessoais no âmbito dos valores universais. Na minha opinião, trata-se de um filme impecável. Estava indicado também para Melhor Filme. Só uma vez na história do Oscar um filme falado em língua estrangeira e dublado ou legendado para o Inglês, que estivesse indicado nas duas categorias, a de Melhor Filme e a de Melhor Filme Estrangeiro, ganha naquela. Pode não ganhar em nenhuma das duas, mas, se ganhar em uma, ganha na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Sem ter visto o filme que ganhou na categoria Melhor Filme no Oscar 2026, posso garantir que Sentimental Value estaria muito bem-posicionado se tivesse ganho nessa categoria, em vez da outra. Acho que os americanos acham, ou inconscientemente sentem, que filmes estrangeiros falados em língua estrangeira não deveriam concorrer na categoria Melhor Filme, que ficaria equivalente a “Melhor Filme falado em Inglês”. No caso de Cannes, o filme, que teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Cannes de Agosto do ano passado (2025), e ganhou o Prêmio Grand Prix, o segundo mais importante, não a Palme d’Or. Mas a seleta audiência presente à “première”, antes de saber que isso aconteceria, deu-lhe ali na hora o prêmio que merecia: uma inédita ovação, em pé, ininterrupta, durante dezenove minutos.
Para quem gosta de filmes pessoais, lidando com sentimentos familiares, mas, ao mesmo tempo, com valores universais, bem como com as dificuldades em manter os seus valores e, ao mesmo tempo, respeitar as sensibilidades alheias, recomendo o filme sem reserva.
Apesar de ser um filme estrangeiro, o filme teve, no total, nove indicações ao Oscar 2026, o que é raro. Foram elas:
- Best Motion Picture of the Year (Maria Ekerhovd & Andrea Berentsen Ottmar)
- Best International Film (Noruega) [categoria na qual o filme foi vencedor]
- Best Achievement in Directing (Joachim Trier)
- Best Performance by an Actress in a Leading Role (Renate Reinsve)
- Best Performance by an Actress in a Supporting Role (Inga Ibsdotter Lilleaas)
- Best Performance by an Actress in a Supporting Role (Elle Fanning)
- Best Performance by an Actor in a Supporting Role (Stellan Skarsgård)
- Best Original Screenplay (Joachim Trier & Eskil Vogt)
- Best Achievement in Film Editing (Olivier Bugge Coutté)
(https://oscarwinners.net/2026-oscars-winners-list/)
II. Citações e Louvores
Eis algumas citações acerca do filme, de fontes bem credenciadas, transcritas no trailer do filme exibido no melhor site de cinema que eu conheço (e que pertence à Amazon), o International Movie Database:
- “An absolutely breathtaking piece of filmmaking” (Screen Rant)
- (Um filme que absolutamente vai tirar o seu fôlego)
- “A transcendent, moving masterpiece” (Indie Wire)
- (Uma obra prima transcendente, emocionante)
- “What all cinema should aspire to be” (First Showing)
- (Aquilo que toda a arte do cinema deve aspirar a ser)
- (https://www.imdb.com/title/tt27714581/reference/)
- Monólogo que faz parte do script de Gustav, o pai das garotas:
“You know, I don’t believe in God. We weren’t even baptized, my sister and I. We both did the civil confirmation thing just so we wouldn’t miss out on the gifts. (…) But I had this kind of… crisis. I was alone in the house again, lying in my bed, crying. I know everyone lies in bed crying, but… Someone said praying isn’t really talking to God. It’s acknowledging the despair. To throw yourself on the ground because that’s all you can do. Not unlike lying with your heart broken, thinking… ‘Please, call me.’, ‘Please, forgive me.’, ‘Please, take me back.’ I had ruined everything. And I was alone, and crying. And then, for the first time, I sat down on the floor… and prayed. I don’t know who I said it to, but I said it out loud, ‘Help me, I can’t do this anymore. I can’t do it alone. I want a home. I want a home’.”
(“Sabe, eu não acredito em Deus. Nem sequer fomos batizadas, minha irmã e eu — fizemos a confirmação civil só para não perdermos os presentes. (…) Mas eu tive uma espécie de… crise. Eu estava sozinho em casa de novo, deitado na minha cama, chorando. Eu sei que todo mundo fica deitado na cama chorando, mas… Alguém disse que orar não é, na verdade, falar com Deus. Orar é reconhecer o desespero. É se jogar no chão, porque é só isso que você consegue fazer. Não muito diferente de ficar deitado com o coração partido, pensando… ‘Por favor, me ligue’, ‘Por favor, me perdoe’, ‘Por favor, me aceite de volta’. Eu tinha arruinado tudo. E eu estava sozinho, chorando. E então, pela primeira vez, eu me sentei no chão… e orei. Eu não sei para quem eu disse o que eu disse, mas disse em voz alta: ‘Me ajude, eu não aguento mais isso. Não consigo fazer isso sozinho. Eu quero uma casa que seja meu lar. Eu quero um lar que eu possa chamar de meu’.”)
(Sentimental Books: Screenplay, à venda pela Amazon Books, pp. 120,122).
III. Um Breve Resumo da História
(feito por mim)
“A Volta à Casa é Simples, a Reconstituição da Família, nem tanto
O filme gira, aparentemente, em torno de uma casa antiga, muito bonita, mas não muito bem mantida, que parece ser o que lhe dá foco. Mas, na verdade, o filme gira em torno dos relacionamentos de uma família, que, através de várias gerações, tem morado naquela casa, que é marcada por tragédias pessoais graves (um suicídio, por exemplo, e quase outros…), conflitos intra- e interpessoais difíceis, problemas sérios para compatibilizar a vida familiar com as demandas da vida profissional, etc. (As mulheres que têm uma profissão fora do lar parecem ser consideradas mais importantes e interessante do que aquelas que ficam em casa cuidado das crianças e do marido…
O núcleo central da família que aparece no filme é formado, no primeiro plano, pelo pai (já com na casa dos setenta, no “presente” congelado) e suas duas filhas (na casa dos trinta), e, secundariamente, pelo marido e pelo filho de cerca de oito anos da filha mais nova. A mãe, uma psicólogo que, pelo que consta, tinha sérios problemas de depressão, acaba de morrer, quando o filme se inicia (de alguma enfermidade, aparentemente). A primeira cena mais importante do filme é o seu enterro, precedido de velório, e seguido de uma “recepção”, que acontece na “na casa”… E fica claro, já de início, que o pai saiu de casa, deixando na casa a mulher e as duas filhas (estas ainda crianças), há um bom tempo.
(NOTA: O tempo decorrido desde que o pai deixou a casa, estimado pelos analistas, com base em informações do script, é de 25 anos. Registre-se que ele, nem sequer uma vez, desde então, procurou restabelecer contato com qualquer dos outros três membros da família que abandonou, nem mesmo no lançamento da primeira peça importante em que a filha mais velha representou, ou no casamento da filha mais nova e no nascimento do primeiro (e único) neto. Supõe-se, com base em informações do script, que as duas meninas tinham, na época do abandono paterno, 13 e 8 anos, respectivamente. Se acrescentarmos 25 anos a essas figuras, as irmãs têm, “hoje”, 38 e 33 anos, respectivamente. A aparência das atrizes que as representam é compatível com essa idade.)
O filme propriamente começa com o velório da mãe. Quando a mãe morreu o pai já estava fora de casa, tendo saído de lá cerca de 20 anos antes, no mínimo. Quando saiu de casa as filhas ainda eram crianças. Portanto, ele, na realidade, as conhecia quase tanto conhecia o neto, vale dizer, não as conhecia: não acompanhou o seu crescimento e desenvolvimento, não tinha como saber a falta que lhes fez nessa crucial fase da vida.
No dia das cerimônias funerais de sua ex-mulher, ele, no entanto, para a surpresa de todos, retornou para casa, sem dar nenhuma explicação, decidido a ocupar novamente o seu lugar, na casa e na família, como se nada de importante houvesse acontecido no intervalo, ou como se ele tivesse apenas saído da casa por alguns minutos para comprar um cigarro na esquina…
O pai havia sido um diretor famoso de cinema, que, no entanto, há anos (estima-se em 15) não dirige nenhum filme.
Mas as filhas sobreviveram, cada uma a seu modo, cada qual com seus problemas, cama uma delas com suas crises. A filha mais velha chega a perguntar à sua irmã algo assim: como é que você explica que, de nós duas, geradas pelos mesmos pais, tendo tido o mesmo tipo de formação e educação, você sai certinha, casa, tem filhos, é feliz, e eu sou esta pessoa toda cheia de problemas, que não se ajusta em lugar nenhum. A resposta da irmã foi de que nem tudo eram rosas… mas que ela, pelo menos, teve a irmã mais velha como estrutura de apoio, e ela, a mais velha, não teve ninguém…
(NOTA: Curiosamente, nos dados fornecidos pela produção do filme, não aparece um Ator em Papel Principal: o pai é listado como Ator em um Papel de Suporte no filme (isto é, no meta filme). A filha mais velha, no entanto, é listada como Atriz em Papel Principal. Ela, na verdade, é, dos participantes no filme, a mais famosa em sua profissão.)
A filha mais velha, que, portanto, é caracterizada como a atriz principal do filme, é, na história, atriz de teatro (não de cinema). Mas o filme nos sugere (sem explicitar) que, embora famosa, ela sofre de problemas psicológicos (nisso puxou a mãe?) que, em alguns papéis ou circunstâncias, como, por exemplo, é obrigada a usar algumas vestimentas que parecem sufoca-la e oprimi-la, produzem crises e conflitos com diretores (e até mesmo com a plateia), os diretores sendo chamados ao camarim, para intervir, obrigando-a a entrar em cena, ou a voltar para a cena (se o problema ocorrer no meio da peça), produzindo reação negativa na audiência. O filme sugere que ela não mora na casa tradicional da família, muito menos com a irmã. Mas não deixo claro onde é a casa dela. Ela é uma criatura solitária e difícil que encontra problemas até para a simples atividade de arrumar um namorado que contemple seriamente casar-se com ela… Prefere ter casos com colegas de trabalho casados.
A filha mais nova, mais tranquila, e até mais bonita e e bem mais doce, fez um papel em teatro ou cinema, quando criança, dirigida pelo pai, mas desistiu de ser atriz para se casar, construindo família, tendo um filho, e morando com o marido e o filho em casa própria, não na casa tradicional da família. É ela que, de certo modo, carrega a tocha daquilo que poderia ser chamado de “família normal”, no filme. Com a morte da mãe, a casa da família teria perdido o único uso que tinha – exceto pelo retorno do pai, que reocupou seu lugar de chefe de família em uma casa, contudo, vazia de gente.
(Apesar do abandono da família e da saída de casa, ocorrido há cerca de 25 anos como visto atrás, nenhuma providência legal havia sido tomada para encerrar o casamento dos dois (o pai e a mãe) e transferir a propriedade da casa para a mulher ou para as filhas. Assim, quando a mãe morreu e o pai voltou, ele retomou a casa, instalou-se lá, mas sem que houvesse mais gente ao seu redor na casa).
O pai quer ter contato, especialmente mais chegado, com a filha mais velha, porque escreveu um novo script (enredo) para um filme, que representará, espera ele, sua rentrée no mundo do cinema, e, finalmente, projetará para o estrelato (no cinema, não no teatro) sua filha mais velha, para quem o enredo foi escrito, segundo repetidas declarações do pai.
(O estilo meio sub-reptício do diretor do filme, e coautor do script, que na verdade é um meta-script, sugere, em alguns diálogos, que o pai, apesar de fisicamente ausente, não deixou de acompanhar, de longe, a vida de suas duas filhas. Isso ficará mais evidente depois, quando a filha mais nova lê o enredo).
Em um encontro frio (da parte dela) com sua filha mais velha o pai revela sua intenção, mas a filha mais velha revida, de forma chocante, com o rancor que o abandono paterno lhe havia causado. Não quer nem ler o script. “Você nem me conhece”, diz ela, “como pode ter escrito um script talhado especificamente para mim?
Diante da recusa da filha mais velha, o pai vai procurar uma substituta, e a encontra em uma estrela americana, que aceita enfrentar a empreitada e começa a participar de leituras e ensaios. No geral, o diretor gosta do desempenho dela. Mas ele sempre tem algumas sugestões a fazer sobre o seu desempenho. Se ela for efetivada no papel, a língua original do filme teria de o Inglês, mas todos os outros personagens falam norueguês… Ele sugere à atriz americana que tente aprender o suficiente de norueguês para se desempenhar bem no papel, e ela, com boa vontade, tenta… Mas… Ele quer mais. Será que ela poderia tingir de castanho os seus cabelos louros? Ela começa a ficar implicada e tenta entender a gênese, o Sitz im Leben, do script, investigando a vida do diretor. A essas alturas os testes e ensaios estão quase no fim e está chegando a hora de começar as filmagens. Nesse momento ela pede uma horinha de conversa particular com o diretor, e diz a ele que vai desistir – não porque não goste da história e do papel, mas porque ela parece deslocada, fora de lugar, no papel que foi escrito para a filha dele… Ele não nega o fato, mas reafirma seu apoio para que ela continue, porque acredita que o trabalho dela está muito bom, etc. Mas ela não parece convencida.
Ao mesmo tempo, há um “tête-à-tête” carregado de emoção entre as duas irmãs. A mais nova resolveu ler o script. No processo fica sugerido que o pai, em uma aparente brincadeira, havia incluído uma quase tentativa de suicídio na parte final do script que havia sido destinado à filha mais velha… A filha mais velha, ao tomar ciência disso, diz, assustada, à mais nova: “Você por acaso contou para ele que eu também tentei me suicidar ali?” A filha mais nova diz que nunca mais havia conversado com o pai, muito menos sobre um assunto delicado desses, mas que o script parece indicar que o pai, embora de longe, as havia observado com atenção, e se preocupava com elas, e que o script, que era a história da família, especificamente da filha mas velha, seria uma tentativa de reconstruir a família, de salvar a família de mais uma tragédia… Enfim: uma redenção pela arte, a arte redimindo a vida…
De qualquer modo, dado o seu estilo de mostrar os resultados sem descrever os processos que levaram a esses resultados, o diretor prefere, na sequência mostrar cenas da première do filme, ocasião em que a audiência fica sabendo, com certeza, que o filme de fato foi feito, e com a filha mais velha, e veio a ser considerado uma obra prima, devidamente reconhecida como tal e premiada. E que, na cena final do filme, o diretor mostra a filha mais velha quase cometendo suicídio no mesmo lugar, sendo salva, porém, pelo sobrinho que bateu na porta porque havia esquecido o seu telefone… (ato não solicitado em oração da providência divina?).
Depois da segunda saída do menino de casa, a filha mais velha entra de novo no cômodo fatídico, criando suspense na audiência, mas o diretor grita “Corta!!!”, fazendo as vezes da providência divina e salvando a filha uma segunda vez… 🙂
Mas a audiência fica sem saber o que levou a filha mais velha a finalmente aceitar fazer o papel que havia sido criado para ela e abrir as portas para a reconciliação (redenção?) da família. A coisa acontece sem maiores explicações. Ou, quem sabe, as explicações estão claras para quem quer ver, e decide procurá-las naquilo que se passou na série de cenas anteriores… Explicações, se as há, ficam implícitas, nunca são declinadas em detalhe e com clareza.
Na hora das entrevistas, a atriz americana explica que sua decisão de sair do papel foi acertada, dada o magnífico desempenho da filha mais velha no papel.
Gosto de filmes assim, que apresentam problemas e expressam confiança e otimismo de que problemas, por mais difíceis que pareçam, podem ser resolvidos, sem ditar as soluções prontas que cada um possa ter para o problema. Filmes que nos fazem pensar. Filmes que nos fazem lembrar de que o afastamento físico nem sempre é sinônimo de abandono ou desapego emocional.
Há uma passagem do filme em que o pai diz algo como: em momentos de desespero, a gente faz coisas que, em condições mais tranquilas, dificilmente faria… É por isso, continua ele, que, em momentos de desespero, até o ateu ora… Ele ora, não porque ache que suas palavras vão convencer uma remota divindade (que poderia ter feito com que as condições que produziram o desespero não se realizassem) a fazer alguma coisa, porque ele, o desesperado, já esgotou todos os recursos disponíveis a ele, “sauf Dieu“…
Palavras interessantes. Fizeram-me lembrar de que meu pai, pastor protestante, que cria na providência divina especialíssima dos eleitos (dos quais ele acreditava ser um), quando foi desenganado pelos médicos, que concluíram que seu câncer de próstata estava por demais avançado e espalhado para permitir a preservação da sua vida, recorresse a medidas que, fossem outras as condições, ele teria frontalmente condenado…
O pai, no filme, recorreu à arte. Quem sabe a arte, a ficcionalização da realidade pela arte, não pode causar o milagre de reunificar uma família que a tragédia espedaçou, e impedir um outro, e pior, despedaçamento?
IV. Comentários e Análises
(retirados de IMDB, traduzidos com ajuda do Google, depois revisados e, em alguns casos, editados por mim):
“Rico em Valores
Os filmes de Joachim Trier se debruçam sobre as crises silenciosas que moldam a vida de cada um de nós. Sua obra é marcada por um equilíbrio incomum entre, de um lado, o rigor intelectual, e, de outro lado, a generosidade emocional: sua obra é formalmente precisa, mas profundamente humana; irônica, mas sem cinismo; e sempre atenta aos pequenos e decisivos momentos em que a nossa vida muda de rumo, de início, de maneira quase imperceptível, depois, em retrospecto, mais visível. Ao longo de sua carreira, ele demonstrou uma profunda sensibilidade para com as formas como as pessoas tentam dar sentido a si mesmas em meio às correntes mutáveis, de um lado, da memória, e do outro, da esperança, quando não da fé e da expectativa…
Seu trabalho mais recente, Sentimental Value, se insere confortavelmente nesse conjunto de obras. Pleno de nuances e sempre comovente, o filme acompanha o relacionamento do diretor de cinema Gustav Borg com suas filhas, Nora e Agnes, de quem se encontra afastado. Após o funeral da mãe reunir novamente a família fragmentada, velhas feridas, ressentimentos não verbalizados e afetos latentes vêm à tona.
Trata-se de um drama sutil, que diz muito sem jamais insistir excessivamente em seu ponto central. Trier utiliza a narrativa para abordar uma série de temas — entre os quais se destacam as dinâmicas complexas da vida familiar, os traumas geracionais e herdados, e a tensão entre a ambição criativa e a verdade emocional. Como sempre, ele demonstra menos interesse na resolução, em si, dos conflitos do que nos processos inquietos pelos quais as pessoas tentam compreender umas às outras e a si mesmas, para chegar a essa resolução.
A narrativa de Joachim Trier — dirigida por ele e escrita por ele, neste caso em parceria com Eskil Vogt — privilegia o diálogo em detrimento do confronto, extraindo seu drama das mágoas semipronunciadas, dos afetos reprimidos e dos ritmos tensos das interações familiares. Subjacente a essas trocas, reside o legado mais silencioso do passado: os padrões emocionais moldados pelas perdas vivenciadas na própria infância de Gustav e as formas sutis como esses padrões se infiltraram na vida de suas filhas.
Trier também se mantém atento às tensões existentes entre a arte e a intimidade. Um filme que Gustav tenta realizar em conjunto com Nora transforma-se em uma espécie de linha de falha emocional — um lembrete de como a criatividade pode, simultaneamente, iluminar e distorcer os relacionamentos pessoais. Para Nora — e, em menor grau, para Agnes —, participar da obra do pai oferece a possibilidade de estabelecer uma conexão, mas traz consigo também o risco de serem arrastadas de volta para padrões dos quais elas passaram anos tentando escapar. Trier trata essas dinâmicas com sua característica delicadeza, permitindo que as contradições coexistam lado a lado, em vez de forçá-las a se encaixar em conclusões temáticas simplistas.
A fotografia de Kasper Tuxen estende essa delicadeza ao próprio universo visual do filme. Suas imagens são, caracteristicamente, despretensiosas, privilegiando a luz natural, contrastes suaves e uma câmera gentil e observacional que parece pairar à margem das conversas, em vez de se impor a elas. Os planos fechados surgem com parcimônia, mas com propósito, capturando o lampejo de dúvida ou anseio que atravessa um rosto antes que o personagem consiga reprimi-lo.
Os interiores são enquadrados com uma calidez serena, enquanto as cenas externas carregam uma sutil e melancólica sensação de amplitude — como se a própria paisagem estivesse absorvendo as tensões não resolvidas da família. A casa da família, em si, transforma-se em uma tela viva; o coração pulsante da narrativa de Trier. O trabalho de Tuxen nunca força a barra em busca de simbolismos; em vez disso, cria uma atmosfera visual na qual as correntes emocionais subjacentes do filme podem vir à tona sem alarde (com exceção de um único momento: uma referência desnecessária e explícita ao filme Persona, de Ingmar Bergman).
Além disso, a direção de arte de Jorgen Stangebye Larsen reflete a sutileza emocional do filme, privilegiando espaços “vividos” — moldados por hábitos acumulados — em detrimento de escolhas estéticas ostensivas. Embora algumas cenas pareçam arrastar-se, a montagem de Olivier Bugge Coutte geralmente se revela um trunfo para a obra, permitindo que as cenas respirem e que as conversas se desenrolem com suas hesitações naturais, ao passo que as transições fluem com a lógica silenciosa da memória. Soma-se a isso a trilha sonora original de Hania Rani que, em conjunto com uma seleção musical eclética, acrescenta uma corrente emocional contida, sem jamais sufocar o drama.
As atuações são uniformemente sólidas, ancoradas pela performance multifacetada e desarmantemente vulnerável de Stellan Skarsgård no papel de Gustav. Ele interpreta o personagem não como um tirano ou um mártir, mas como um homem que aprendeu a confiar no próprio charme e na esquiva, carregando feridas antigas que jamais quis examinar plenamente, em profundidade — com lampejos de vulnerabilidade emergindo apenas quando ele está exausto demais para reprimi-los.
Renate Reinsve oferece uma verdadeira aula de atuação, conferindo uma energia tensa e inquieta à personagem Nora, capturando tanto seu anseio por conexão quanto seu recuo instintivo diante das armadilhas emocionais que ela reconhece com excessiva clareza.
Inga Ibsdotter Lilleaas, por sua vez, entrega uma atuação mais contida, mas não menos comovente, no papel de Agnes — cuja aparente serenidade exterior constitui menos um sinal de certeza do que uma estratégia para manter suas próprias dúvidas sob controle. Juntos, eles criam uma dinâmica verossímil, com cada atuação sintonizada ao delicado equilíbrio do filme entre afeto, frustração e uma história marcada pela tragédia.
Além disso, Elle Fanning e Anders Danielsen Lie, em papéis menores, completam o elenco com uma segurança discreta, conferindo textura à obra sem jamais desviar o foco do trio central.
Sentimental Value, de Joachim Trier, é um drama de observação primorosa que reafirma seu lugar como um cronista sensível das conexões humanas.
(Review by reelreviewsandrecommendations, Dec 28, 2025)
“Obra Prima, Digna de Oscar
Esta é a primeira vez que avalio um filme no IMDB. Assisti a ele no cinema há alguns dias e é, de longe, o melhor filme que já vi na minha vida. Ele ainda está entranhado em mim, mesmo tendo assistido há vários. Adoro como é possível quase tocar e sentir a atmosfera do filme. Este filme é digno de um Oscar, e espero que todos venham a assistir a ele pelo menos uma vez na vida.”
(Comentário na página Affeksjonsverdi – termo que é o título do filme em Norueguês).
“O Mérito de não Ser Excessivamente Explícito e Explicativo
Algo que apreciei muito no filme é que ele nunca é excessivamente explicativo. Ele confia na capacidade do público de pensar, de conectar o que foi dito anteriormente ao que acontece mais tarde, de inferir, e de juntar as peças do quebra-cabeças por conta própria. Esse tipo de confiança narrativa é raro e faz com que o filme pareça inteligente, sem ser exibido (por assim dizer).”
(Resenha de TheBigStick, Nov.29,2025. Este comentário é feito por alguém que considera o filme “bom, mas não fantástico, não a obra prima (masterpiece) que todo mundo, inclusive eu, está dizendo que ele é…”)
V. Déjà Vu
Tive sentimentos, não idênticos, mas semelhantes, quando vi El Secreto de Sus Ojos, filme argentino que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010 (já faz dezesseis anos).
Naquela história um investigador de polícia fica obcecado para encontrar o criminoso que, de forma selvagem, estuprou e matou uma jovem e linda mulher, recém-casada. Depois de muitas peripécias, ele descobre que o jovem viúvo foi mais esperto do que ele, e chegou ao criminoso antes da Justiça, aplicando-lhe justiça pelas próprias mãos. Mas, surpreendentemente, ele não matou o criminoso: prendeu-o em cárcere privado em uma propriedade rural distante, no qual o criminoso era (mal-)tratado e sofreu todo tipo de torturas, como se maltrata e tortura um animal inconsciente que fez alguma coisa que causou indizível sofrimento. “Para alguns crimes”, disse o rapaz, “a morte é punição muito branda”. Chama-se a pena de morte de “pena máxima”, mas a pena máxima não é a morte (que pode ser um alívio): é uma vida longa (quiçá eterna?) com sofrimentos indescritíveis a todo momento.
Era essa a mensagem de El Secreto de Sus Ojos. Qual a mensagem de Sentimental Value? Na minha forma de ver as coisas, a mensagem é de que nossas ações, mesmo que livres e conscientemente tomadas, tomadas sem o objetivo de machucar ninguém, apenas porque temos um imperativo para com nós mesmos que nos impele a viver, “dentro das quatro linhas da nossa constituição”, por assim dizer, sem desejo, muito menos intenção de machucar ninguém, em especial os nossos filhos, a quem amamos. Mas a busca da realização de nosso projeto de vida, de nossa “eudaemonia” (realização, felicidade não hedonística), quase inevitavelmente vai machucar alguém a quem queremos bem, até mesmo nossos filhos, sem que essa fosse nossa intenção. Mesmo que não intencional, esse seu ferimento é real, é preciso se reconheça o fato. Essa percepção ajuda a reduzir o rancor, a raiva, o ódio que muitas vezes persiste décadas após o acontecido. A mensagem que Joachim Trier deixa é que é preciso que reconheçamos isso e procuremos dar chances à vida de, quem sabe através da arte (literatura, cinema, teatro), permitir que encontremos uma solução para os problemas, uma redenção, digamos. Há um certo otimismo nessa visão. A redenção não é inevitável, não chega automática. É preciso buscá-la, e, para tanto, ficar à espreita, para as chances e as brechas que o acaso ou a providência nos oferece, e que nós nem notamos, porque estamos ensimesmados em nossa dor, “carpindo a nossa dor sozinhos”. No filme, o papel da irmã mais nova, a mais feliz, ou, simplesmente, a limitadamente feliz, foi essencial. Foi ela que ajudou a quebrar o orgulho da irmã mais velha, mostrando-lhe que o pai havia usado a arte para tentar pacificar e reunificar a família. Esse era o jeito dele, “his way“. Acima de tudo, é preciso ter tato, delicadeza e paciência.
Em Salto, 22 de Maio de 2026
N’O Canto da Coruja
Categories: Liberalism
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