Pensamento e Linguagem

[O presente texto é o Preâmbulo de um livro que eu escrevi em 1990 (concluí em 4.11.1990) para ajudar minha filha mais nova, que, na época, tinha 15 anos, a completar o Fundamental II (nona série). A principal dificuldade dela era a disciplina Língua Portuguesa (quase a única disciplina do Ensino Básico que eu sentia prazer em estudar). Olhando o programa, e examinando os principais problemas que minha filha vinha encontrando, juntei minhas Gramáticas (devo ter perto de vinte) e elaborei um texto razoavelmente simples, cheio de exemplos e exercícios, envolvendo especialmente Sintaxe e Estilística (áreas em que se concentravam os principais problemas de minha filha). O texto completo tem cerca de 140 páginas. Resolvi escrever um preâmbulo para ele, ressaltando a importância do estudo da Linguagem, em especial da Gramática. É esse preâmbulo que transcrevo a seguir, com pequenas revisões feitas desde 1990, mas principalmente na data de hoje (24.3.2021).]

Estuda-se a Linguagem, em especial a Gramática (da qual a Sintaxe e a Estilística fazem parte), não por pedantismo, mas porque a linguagem é o artefato no qual o Pensamento se consolida e o mecanismo pelo qual se expressa, bem como o principal veículo através do qual o nosso pensamento se comunica a outras pessoas.

É verdade que a correção da expressão linguística, solitária ou comunicada a outrem, não garante, por si só, que o pensamento nela consolidado, por ela expresso, e através dela comunicado seja de boa qualidade. Isso significa que é possível ter conteúdo em forma correta, mas sem qualidade, e, em alguns casos razoavelmente raros, conteúdo de alguma qualidade em forma que carece de melhoramento. Mas é bom que se registre que isso é raro. Em se tratando de pensamento e linguagem, é difícil que conteúdo de boa qualidade se expresse em forma inadequada. A razão para isso está no fato de que a relação existente entre pensamento e linguagem é tão íntima que uma linguagem inadequada dificilmente permite que se expresse um pensamento claro, preciso e significativo. O pensamento se consolida na linguagem, e, em parte, se constitui pela linguagem. Assim, na realidade, a inadequação linguística geralmente é sintomática de pensamento obscuro e impreciso, de confusão nos conceitos e enunciados (entidades lógicas) que subjazem aos termos e às orações (entidades linguísticas).

Nós, os seres humanos, somos seres sociais. Nosso desenvolvimento, como seres humanos, se dá em companhia, cooperação e colaboração com outros seres humanos. Assim, temos, como seres humanos, necessidade de comunicação constante com nossos semelhantes. Essa necessidade nos coloca diante de um imperativo: ou aprendemos a pensar com clareza e precisão e a comunicar esse pensamento de maneira correta, para que seja significativo e alcance os objetivos colimados, ou seremos deixados ou passados para trás por aqueles que sabem fazer isso — ou por aqueles que fazem isso melhor do que nós.

Em uma sociedade letrada como a nossa, em que a linguagem oral é imprescindivelmente complementada pela linguagem escrita, que, no nosso caso, aqui no Brasil, faz uso de um alfabeto, embora, possivelmente, sempre vá haver semianalfabetos, ou mesmo analfabetos completos, que alcançam uma certa medida de sucesso, o número deles tende a reduzir-se, nas formas mais desenvolvidas dessas sociedades, ao nível do estatisticamente desprezível. Por isso, o estudo e o domínio da linguagem, especialmente em sua forma escrita, é, em regra, um primeiro e importante passo para quem deseja ser bem sucedido, pessoal e profissionalmente. E o que se denomina de Gramática é o conjunto de regras que definem o bem escrever — e, através da escrita, o bem falar.

O segundo passo é estudar a estrutura Lógica do discurso, isto é, dos conceitos, enunciados e argumentos que, mais do que subjazem à nossa linguagem, a constituem. Mas a discussão dessa questão está fora do escopo do presente trabalho.

O terceiro passo é estudar as técnicas de convencimento e persuasão – aquilo que antigamente se chamava de Retórica  – assunto que também fica fora do escopo deste trabalho.

Apenas como curiosidade, o estudo da Gramática, da Lógica e da Retórica constituíam a base da educação fundamental na Antiguidade Clássica e na Idade Média. Esses três domínios do conhecimento eram chamados de Trivium, que corresponderia mais ou menos à nossa educação de nível fundamental, ao qual se acrescentava o Quadrivium, que corresponderia mais ou menos à nossa educação de nível médio, e que se constituía do estudo das Matemáticas, das Ciências e das Artes.

Em outros trabalhos me ocuparei de discutir a Lógica, a Retórica e o Quadrivium. Neste vou discutir a Linguagem — mais especificamente, a Gramática. Mas mesmo no caso da Gramática, vou pinçar apenas dois elementos que me interessam mais: a Sintaxe e a Estilística.

Campinas, 4 de Novembro de 1990 e Salto, 14 de Março de 2021.



Categories: Liberalism

2 replies

  1. Isto é ser “pai”!
    Escrever um livro em razão de preocupações com o aprendizado da filha!
    Muito bem, Eduardo!

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