Eu e a Tecnologia

Hoje cedo (24.5.2023) li uma passagem em um livro que me pôs a pensar. O livro se chama The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America, foi escrito por Timothy Snyder, e publicado em 2018 – cinco anos atrás. [“América”, para os brasileiros que ainda relutam em aceitar o fato, é o nome do país que fica entre o Canadá e o México na América do Norte. Quem nasce lá é americano, não norteamericano nem, muito menos, estadounidense.] A tese do autor é que o mundo continuava dividido entre grandes blocos de poder político e econômico que, para ele, são nefastos (cada um e o todo), como se deu na Guerra Fria, só que com o acréscimo da Europa. Esses poderes, segundo ele, estavam levando à destruição da liberdade.

Duas coisas me ocorreram ao ler o início do livro.

A primeira é que é incrível que, em 2018, apenas cinco anos atrás, não tenha ocorrido ao autor acrescentar a China ao grupo. Hoje não temos dúvida acerca da necessidade de considerar o grupo com quatro membros: China, Rússia, Europa e América.

A segunda é que o autor, ao dar o livro o título de The Road to Unfreedom, obviamente desejou que o autor se lembrasse de outro livro, publicado em 1943, com o título de The Road to Serfdom. Seu autor foi Friedrich von Hayek, considerado o pai (ou um dos pais, junto com Ludwig von Mises e Milton Friedman, do chamado Neo-Liberalismo. Em 1943 von Hayek nos advertiu que, se o processo não fosse interrompido, o mundo caminhava para o Socialismo. “Serfdom” é “Servidão” – um estado em que não há Liberdade (um estado de “Unfreedom”, com no título do livro de Snyder. Para Snyder, dois dos países do seu grupo, a Europa e a América, são defensores do Capitalismo – no caso da Europa, um Capitalismo Social, por assim dizer, que talvez deva ser descrito como Social-Democracia; no caso da América, um Capitalismo Liberal, mas que está longe de ser o Capitalismo Clássico, laissez-faire, e, sob o Partido Democrático caminha rápido para ser uma Social-Democracia ou mesmo algo pior. A Vice-Presidente dos Estados Unidos da América hoje é Socialista declarada, de orientação marxista-comunista. Ou seja, embora Snyder, em 2018, quando Donald Trump estava na Presidência, chame o inimigo dele de Capitalismo, seu inimigo, na verdade, rapidamente se torna o Socialismo, mais socializante na Europa, um pouco menos socializante na América.

Acrescento uma terceira consideração: o Brasil, que está longe de ser a potência global que gostaria de ser, está no mesmo caminho. Acompanhou a América, fraudou as eleições e voltou a trilhar The Road to Serfdom.

Mas não era sobre isso que queria escrever. Isso é só preâmbulo. Queria só comentar uma passagem do livro de Snyder que me pôs a pensar.

Em 2010 nasceu o primeiro filho de Snyder, um menino. Em 2013, o segundo, desta vez uma menina. Ele comenta que em 2010, teve de esperar até chegar em casa para ligar o seu computador e comunicar aos parentes e amigos que seu primeiro filho havia nascido. Os celulares do tipo smartphone ainda não eram onipresentes. As pessoas, naquela ocasião, com raras exceções, não ficavam com o computador ligado dia e noite. Logo, levou horas, dias e até semanas para algumas pessoas reagirem ao comunicado enviando-lhe, por email, parabéns. Em 2012, em apenas dois anos, tudo isso mudou e todo mundo passou a ter seu telefone celular do tipo smartphone, conectado 24 horas por dia à Internet, ninguém usa mais email para se comunicar, todo mundo se comunica por sistemas de mensagens instantâneas (com texto, voz e vídeo) e espera que as pessoas reajam ao chamado imediatamente: uma demora de cinco minutos, para algo que para nós é urgência urgentíssima, parece um século…

Snyder não está feliz com a mudança, que para a maioria de nós é um progresso. Aqui está a frase dele:

“The machines that were meant to create time were consuming it instead. As we lost our ability to concentrate and recall, everything seemed new.”

(As máquinas que prometiam nos criar tempo, passaram a consumi-lo cada vez mais, em vez de economizá-lo. Perdemos nossa capacidade de concentração e transferimos nossa memória para as máquinas. Eis que tudo se fez novo.)

[Tradução meio livre de EC]

Achei curiosa a observação, que, inicialmente, me soou um pouco raivosa demais. Mas, depois de refletir um pouco, comecei a achar que Snyder tinha razão, pelo menos em parte, e resolvi escrever este artigo, que me leva a refletir um pouco sobre o papel da tecnologia (as tecnologias de comunicação e informação – TCI) na minha vida.

Nasci em 1943, antes de a invenção do computador eletrônico-digital estar concluída. Construído, na Moore School of Engineering, da University of Pennsylvania, com recursos oriundos do orçamento de guerra dos Estados Unidos da América, para ajudar os aliados no esforço de guerra, o ENIAC – Electronic Numeric Integrator and Calculator só ficou pronto mesmo em Fevereiro de 1946, quando a guerra estava terminada há quase um ano.

Assim, a primeira tecnologia de informação que usei, no Norte do Paraná, foi livro, para leitura, e papel, lápis e borracha, para a escrita. Aprendi a ler e a escrever em casa, fora da escola, porque morávamos em um lugar que meu pai considerava o equivalente ao Oeste Americano: lugar sem lei. Havia tiroteios na rua entre os grileiros de terra e a forma mais frequente de acabar com um inimigo ou desafeto era botar fogo em sua casa à noite. A casa era de madeira, uma era longe da outra, havia muito mato entre elas, e o incendiário podia fazer seu trabalho com relativa tranquilidade e em quase total invisibilidade. A escola pública, uma só, era, segundo meu pai, controlada pelos padres, as únicas pessoas no local com um mínimo de cultura. Ela só oferecia o Curso Primário – e as professoras eram meninas que haviam acabado de terminar o Primário se tornavam professoras das novas turmas. Assim sendo, aprendi basicamente sozinho a ler e a escrever, com pequena ajuda de minha mãe, que só havia concluído o Ginásio Comercial em Campinas. Mas era uma ávida leitora de romances policiais e dos romances da chamada “Coleção das Moças”.

Quando viemos para Santo André, em 1952, eu fui para a escola, que se recusou a me colocar numa classe mais avançada, apesar de eu haver demonstrado, a mando de meu pai, que sabia ler e escrever perfeitamente – e que até tinha uma letra bonita. Comecei no Primeiro Ano Primário, mesmo, com a Cartilha Sodré, cuja primeira lição era “A Pata Nada” – pata pa, nada na. A tecnologia continuava a ser a Cartilha, depois, no segundo semestre do ano (1952), o Livro de Leitura, o caderno, o lápis e a borracha. Caneta (de pena) só no Segundo Ano. Mas eu, em casa, tinha uma Caneta Parker 51, que meu pai me havia dado.

Atravessei os anos de 1952 até 1963 com essa tecnologia. Todos os meus trabalhos no Curso Clássico do Instituto José Manuel da Conceição (JMC) foram feitos a mão, em folhas arrancadas do caderno e, mais ao fim, em folhas de papel almaço.

Só vim a comprar uma máquina de escrever (manual, semi-portátil, usada, marca Olivetti) para ir para o Seminário Presbiteriano de Campinas (SPS), onde ingressei em 1964. Mas a máquina foi comprada no final de 1963, de um presbítero da Igreja Presbiteriana de Santo André, que era alfaiate (por que um alfaiate tinha uma máquina de escrever é algo que me intriga), chamado, se não me engano, sr. Arlindo. Não me lembro do sobrenome dele. Tinha uma cara incrível de turco.

Em Campinas, eu usei a minha Olivetti o tempo todo quando estava estudando. Fazia trabalhos, resumos, anotações, etc., todos nela. Só não a levava para a sala de aula porque ela era meio barulhenta e, além disso, eu iria parecer meio exibido com ela, em um ambiente em que quase ninguém mais tinha algo parecido – e suficientemente portátil.

Quando fui para São Leopoldo, no início de 1967, levei minha Olivetti. Mas quando fui para os Estados Unidos da América, no segundo semestre desse mesmo ano, não a levei. Deixei-a na casa dos meus pais e nunca mais a vi na vida.

Na América, em Setembro de 1967, comprei uma máquina de escrever elétrica (não eletrônica), marca Smith-Corona. Usei essa tecnologia para tudo, até para escrever as 620 páginas de minha tese de doutoramento. Quando vim para o Brasil, em 1974, eu a trouxe e a usei por um bom tempo. Mas hoje ela está desaparecida. Não sei onde foi parar. Um dos mistérios de coisas desaparecentes que me afligem. Seria um belo acréscimo ao meu Museu de Tecnologia.

Continuei a usar minha Smith-Corona na UNICAMP até Março de 1982, quando comprei meu primeiro microcomputador, um Commodore 64. Os primeiros microcomputadores montados (não em kit) foram lançados nos Estados Unidos da América em Dezembro de 1977: o Apple II, da Apple Corporation, o TRS-80, da Tandem Radio Shack, e o Commodore PET (PET = Personal Electronic Transactor). Quatro anos e três meses eu comprei aquele que era a terceira geração dos microcomputadores da Commodore: depois do Pet veio o VIC-20, e, em seguida, o Commodore 64. Depois do Commodore, ganhei um Itautec I-7000 da Itautec, um clone do Apple II feito pela Unitron, e um Itautec I-7000 PC-XT, em 1986, que foi meu primeiro clone do IBM-PC e o primeiro microcomputador que tinha um disco rígido, um disco de 5 MB. Tudo isso. De 1982 em diante nunca mais usei máquinas de escrever. Usei Processadores de Texto. O primeiro foi Word Machine, no Commodore 64, depois Word Perfect, no Apple II, depois o Redator, no I-7000 da Itautec, e, finalmente, Microsoft Word (for DOS), no I-7000 PC-XT da Itautec. Desde então, 1986, nunca mais usei um outro Processador de Textos, que não Microsoft Word. Só mudei da versão para DOS para a versão para Windows. Devo registrar que meu primeiro livro, Informática: Micro-Revelações (hoje disponível em ebook na Amazon) foi publicado em 1985, tendo sido escrito em um computador CP-500 da Prológica (que era um clone do TRS-80 da Tandem Radio Shack), usando o Processador de Texto WordPerfect, e usando como impressora uma máquina de escrever eletrônica da Remington (que usava “margaridas” para imprimir, adaptada como impressora de alta qualidade — trocando-se a margarida, obtinha-se uma fonte diferente, um grande progresso, na ocasião).

O resto é história. Usei microcomputadores clones da IBM, rodando Microsoft DOS e Microsoft  Windows, desde 1986 até 2011. Em 2011 ganhei da Paloma um Apple MacBook Air e comecei um love affair com a Apple e o MacOS, que logo virou um casamento. So doze anos depois, neste ano de 2023, ousei comprar um microcomputador Dell, com Microsoft Windows 11, e passei a ser bígamo, usando o MacBook de 12” da Apple, que comprei em 2018, minúsculo, pesando menos de um quilo, e o Dell XPS 13 Plus 9320, um pouco mais pesado, mas uma lindíssima máquina, com 32GB de memória interna, disco SSD de 1TB, tela de vídeo de 3980×2800, tipo touch screen, fantástico. Mas confesso que tenho apanhado um pouco usando a nova máquina, não sei se por culpa da Dell ou da Microsoft. Tudo é ultrassensível: a tela, o teclado, o touchpad. De vez em quando só de passar a mão por cima, sem enconstar em nada, coisas acontecem – como acontece com os telefones que operam por aproximação, sem precisar de toques.

Em 1990 comprei meu primeiro telefone celular, um Motorola PT-550, que fui gradualmente substituindo por versões mais novas (StarTAC, MicroTAC, etc.), mais potentes e menores, usei também o Nokia 91, até comprar meu primeiro iPhone, em 2011. De lá para cá tenho sido razoavelmente fiel ao iPhone, mas admito ter tido uns casos, primeiro com o Samsung Notebook (II e IV) e, depois, com outros aparelhos da Samsung. Em termos de operadora, usei quase o tempo todo a TELESP Celular / Tess / Claro, tendo tido um breve claro com a Tefónica / Vivo, que detestei, voltando logo para a Claro. Hoje tenho quatro celulares, dois iPhones e dois Samsungs. Confesso que a única coisa que me leva a usar a Samsung é o preço mais acessível, apesar da qualidade de seus aparelhos ter melhorado significativamente. Em termos de design (dobrável, flipável, tela curva, etc.) ela tem sido mais ousada e arrojada do que a Apple.

Apesar do exagero no número de celulares que possuo, todos com número próprio, três deles com números do tipo “Golden” (fácil de lembrar), e apesar de carregar sempre um sempre, infalivelmente, comigo, não sou um grande usuário de telefone. E a razão é fácil de entender: não consigo digitar com os dois polegares ao mesmo tempo. Nem com um polegar só. Digito, “catando milho”, com o indicador da mão direita – e isso faz com que digite infinitamente mais devagar do que minha mulher e minhas filhas. Por incrível que pareça, a Paloma digita quase com a mesma velocidade do que as filhas, apesar da diferença de geração. Eu não consigo. Só uso o celular para anotar um número de telefone, uma chave de PIX, ou mandar um recadinho do tipo “Cheguei”. Para escrever continuo sendo dependente total de Microsoft Word, tanto no Apple Macbook, rodando MacOS, como no Dell XPS Plus, rodando Windows. Não tenho nenhuma expectativa de que isso venha a se alterar.

No Microsoft Word atual eu posso inserir texto falando, em vez de usando o teclado, e a tecnologia está bem aperfeiçoada, mas não tenho o costume. Também não sou usuário regular de Siri (Apple), Cortana (Microsoft) ou Alexa (Amazon). Às vezes brinco com a Alexa: temos cinco ou seis aqui em casa, já perdi a conta. Mas é só brinquedo. Normalmente ligo e desligo a luz, a televisão, o ar condicionado, etc. manualmente. Minha lista de To Do’s é digital mas não em voz – embora hoje o computador e o telefone falem e entendam a voz humana.

Contei toda essa história por causa da observação feita por Snyder. As tecnologias digitais de comunicação e informação surgiram para facilitar a vida e poupar tempo. Estou convicto de que fazem isso mais do que apenas bastante bem, para quem não se escraviza a elas e se torna viciado no seu uso. Para mim, elas são excelentes ferramentas de comunicação e de acesso à informação. Não sou viciado nos telefones, mas confesso ser nos microcomputadores. Não consigo passar muito tempo longe deles. Utilizo-os para escrever, publicar posts e blogs, e me comunicar com os outros. Não sou viciado em ler notícias e fofocas, em conversar em grupos de bate-papo, em ver fotos, ver vídeos, reels, etc, jogar joguinhos, e navegar em lojas (exceto na Amazon USA).

Mesmo assim, confesso gastar um tempo desmedido arrumando arquivos no disco local e na nuvem, fazendo backups, dando uma sintonia fina na configuração dos principais programas (apps) que uso, etc.

Diria que sou totalmente dependente da tecnologia hoje (em especial dos microcomputadores) mas que não chego a ser viciado, no sentido de usá-la por que não tenho outra coisa a fazer, ou por que é supostamente útil saber o que se passa na vida de pessoas importantes e celebridades, etc. O telefone eu uso quase só para conversar (por voz e por texto, conversas curtas). E nunca ouço uma mensagem oral em modo acelerado para sobrar mais tempo para ouvir outras mensagens (também em modo acelerado).

Mas acho que a gente precisa se monitorar para não acabar ficando solipsista, eremita, cuja única companhia significativa é o telefone. Recuso-me a usar o telefone para pagar o bilhete do metrô (eu não pago por ser idoso), ou para pagar contas, etc. Quando preciso pagar alguma coisa na rua, uso o cartão de crédito, mas, em casa, uso o microcomputador.

É isso. Apreciaria comentários.

Em Salto, 24 de Maio de 2023.



Categories: Liberalism

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