As Cartas de Amor de Sóror Mariana Alcoforado (1640-1723)

Mariana Alcoforado (Alcoforada, como dizem alguns), a freira portuguesa autora das célebres cartas de amor que foram publicadas, pela primeira vez, em Paris, em 1669, na língua francesa, com o título Lettres Portugaises, e hoje traduzidas, pode-se dizer, em todas as línguas modernas do mundo, nasceu em Beja, Portugal, no ano de 1640 – ano em que terminou o Domínio Espanhol da nação lusitana. Foi batizada, segundo consta, na Igreja Matriz Santa Maria da Feira, daquela cidade, em 22 de abril de 1640.

Era filha de Francisco da Costa Alcoforado e de Dona Leonor Mendes. Seu pai era um Alcoforado legítimo e autêntico, filho de família de grande tradição nobiliárquica, em Trás-os-Montes. As tentativas feitas para que se apagasse esse nome das famosas cartas foram devidas à influência e representação dessa família no século 17. Mas pode se afirmar com razoável certeza que foi mesmo Mariana a apaixonada autora das cartas.

Mariana foi, por mais de sessenta e cinco anos, freira do Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, para o qual entrou muito nova e onde veio a falecer, em 28 de julho de 1723, com oitenta e três anos de idade. O desencanto amoroso não a impediu de viver uma longa vida.

Beja, cidade berço de Mariana, foi o principal palco da Guerra dos Vinte e Oito Anos, de Portugal com a Espanha, e, depois, da Revolução que libertou, em 1640, Portugal do Domínio Espanhol. O pai de Mariana, que ocupava postos administrativos e militares, colocou-a no convento para garantir-lhe a segurança, a saúde e a educação. Sem ter uma vocação real (poucas pessoas que iam para conventos, mosteiros ou seminários naquela época tinham, indo parar nessas instituições por decisão dos pais), ela fez sua profissão de fé aos dezesseis anos, mais ou menos.

No convento, levou a vida de rotina, sem conhecer, talvez, o que era realmente o mundo lá fora, sem provar o que era o amor, até que veio a conhecer o capitão Noël Bouton, conde de Saint Léger, futuro Marquês de Chamilly, e também Marechal de França (1636-1715), a quem endereçou suas cinco Cartas de Amor.

Chamilly, como normalmente veio a ser chamado, era um dos oficiais franceses que tinham vindo lugar em Portugal sob as ordens de Frederico de Schönberg, reorganizador do Exército Português. A França, que também estava em guerra com a Espanha, na frente oriental da Espanha, tinha interesse em ajudar Portugal para enfraquecer a resistência espanhola.

De 1665 a 1667 Chamilly esteve em Beja, ou nos arredores, e, provavelmente, tornou-se amigo da família Alcoforado através de um irmão de Mariana, Baltazar Vaz Alcoforado, seu companheiro de armas. Ajudado por seu prestígio militar, por sua boa aparência, e por suas lisonjas, Chamilly teve pouco trabalho para atear os arroubos da paixão descrita nas cartas.

Quando o caso se tornou conhecido e notório, e se tornou um escândalo, Chamilly retornou à França. Foi daí que surgiram as cartas. De dezembro de 1667 até junho de 1668 foram escritas todas elas, que consistem em gritos desesperados, vibrantes, apaixonados.

Porém, por vezes, esses trechos apaixonados são entremeados de certos traços da razão francesa, de onde alguns críticos, talvez apressadamente, têm concluído que as cartas não são de autoria da freira portuguesa, e, sim, de alguma pessoa francesa. Outros críticos a aceitam como a verdadeira autora e acusam Chamilly de haver publicado, inescrupulosamente, as cartas, em tradução para o Francês, chegando até mesmo ao ponto de inserir algumas frases suas para lisonjear a sua vaidade, vindo daí os chamados traços da razão francesa nas cartas.

Houve ainda quem duvidasse que a autora fosse de fato uma mulher, e, mais ainda, que fosse f freira, vindo a crer que elas tivessem sido escritas, originariamente, em francês, e por um homem, a figura da freira apaixonada não passando de recurso de ficção.

A respeito dessa controvérsia, Souza Botelho afirma:

“Um português, ou seja, quem for que conheça bem esta língua, não poderá duvidar de que as Cinco Cartas da religiosa tenham sido traduzidas quase literalmente dum original português. A construção de muitas frases é tal, que, retraduzindo-as palavra a palavra em português, encontrar-se-ão inteiramente no gênio e no caráter desta língua.”

Teófilo Braga e Luciano Cordeiro são do mesmo parecer. A maioria dos demais críticos também o é.

O nome do destinatário das cartas foi pela primeira vez impresso junto com a edição das cartas em 1690. O tradutor delas era Guilleragues. E a autora, a eterna apaixonada? Seu nome apareceu apenas como Mariana até 1810, quando Boissonade encontrou em uma cópia da primeira edição o nome Maria Alcoforado escrito com letra atual, e a veracidade dessa inscrição foi comprovada por Luciano Cordeiro, que encontrou na tradição de Beja fatos concernentes ao caso do então capitão francês com a freira portuguesa.

Foi tal o valor literário dessas cartas que Edmund Gosse mostrou em seu Fortnightly Review a considerável influência exercida por essas cartas na literatura sentimental da França e da Inglaterra.

As cartas deram também tema a Júlio Dantas, que fez a peça “Sóror Mariana”, em um ato, em verso. No final da primeira representação dessa peça, houve uma discussão provocada por uma parente de Mariana, que negava que Mariana as houvesse escrito e, mais, feito o que elas narram. Apareceu também outra peça, em um ato, “A Freira de Beja”. Ainda sobre a primeira peça, foi composta uma ópera pelo maestro Hermínio do Nascimento.

Estão traduzidas, as cinco Cartas de Amor, em quase todas as línguas modernas do mundo. Alcançaram a quinquagésima edição em Francês e a primeira em Inglês e Italiano, antes mesmo da morte da autora, em 1723.

A obra de Mariana forma um dos poucos documentos de extrema experiência humana e revela uma paixão que no curso de três séculos não perdem nada de seu conteúdo. Há ali paixão, ternura, candura, carinho, abandono de si mesma, análise própria. Mariana, em meio de expressões de paixão, censura e agradece, ao mesmo tempo, a Chamilly, o sofrimento que ele lhe proporciona. Pois ela estava enclausurada desde criança quase, levando uma vida casta, pura, de abstenção do mundo. Seu coração desconhecia o êxtase, a ventura, o dom sublime do amor. Chamilly despertou-os, cultivou-os alimentou-os. Mostrou-lhe horizontes de uma nova vida onde o amor dominava. Elevou-a aos mais elevados picos da ventura amorosa para deixa-la cair nos mais sombrios vales da degradação moral e do desespero.

“Eu era moça, era crédula, tinha-me encerrado desde criança neste convento, não vira senão gente desagradável, nunca ouvira as lisonjas que o senhor constantemente me dizia, parecia-me dever-lhe os atrativos e a beleza que me achava, e em que me fazia reparar. Eu ouvira dizer bem de si, toda gente me falava em seu abono. . . e o senhor tudo me fazia para me despertar o amor…” (Carta V).

“Verdade é que, amando-te, gozei deleitações extraordinárias, mas que me custam hoje penas mais extraordinárias ainda.” (Carta II).

A obra de Mariana é ainda uma verdadeira obra de autoanálise psicológica. Os seus sentimentos vão crescendo, gradativamente, até chegar ao desespero. Vejamos como a própria Mariana demonstra isso em suas frases. Na primeira carta há a fé, a esperança de que Chamilly volte para busca-la, e que, juntos, eles ainda possam desfrutar as maravilhas oferecidas pelo amor.

“Não quero mesmo imaginar que te esqueceste de mim… [O destino] separar os nossos corações não poderia. O amor, mais poderoso do que ele, os ligou por toda a nossa vida. [ … ] Ama-me constantemente.” [Carta I].

Da segunda carta em diante já começa aparecer a dúvida… Ela duvida que ele volta, duvida que ele ainda a ame.

“Quanto custa resolver-nos suspeitar longamente da boa fé daqueles que amamos. [ … ] Todos se comovem do meu insano amor… e tu, só tu, permaneces em profunda indiferença… [ … ] Não ouso rogar-te que me ames. Adeus.” [Carta II].

Na terceira e na quarta carta Mariana já começa a demonstrar o seu desespero em vista da situação em que se encontrava, em vista da perda quase certa do amor daquele que era tudo para ela.

“Vivo, e como desleal, faço tanto por conservar a vida quanto por perdê-la! [ … ] Morro de vergonha… Acaso a minha desesperação existe somente nas minhas cartas?” [Carta III].

“Estou desesperada. A tua pobre Mariana não pode mais. Tem compaixão de mim…” [Carta IV].

A quinta e última carta Mariana já escreve com mais razão. Parece começar a sua recuperação. Já se apossou dela a desilusão completa. Ela procura ser indiferente, mas a paixão foi grande demais. Ela não consegue. Em meio a frases sensatas surgem ainda algumas, veementes, cheias de ardor e exaltação. Ela devolve a Chamilly, junto com essa carta, a pulseira e o retrato que ele lhe havia dado, para que não se lembre dele com saudade, vendo esses objetos.

“Mando-te o que me resta de ti”.

Para conseguir se separar dele emocionalmente ela precisou usar toda a força de vontade que tinha.

“Mas tudo se consegue, sendo aí a vontade ajudada de tantas razões”.

Mostremos uma frase somente para provar que ela tentou, sem, contudo, se tornar indiferente e fria.

“Sabe pois que percebo, enfim, seres indigno de todos os meus sentimentos, e conheço todas as tuas ruins qualidades”.

Agora, em diversas frases, mostremos que ela não conseguiu inteiramente realizar o seu intento. Ela se exaltou com a simples lembrança do seu amor.

“A tua indiferença me é insuportável. [ … ] Hei de ser infeliz toda a minha vida. [ … ] Amei-te como louca. [ … ] O amor por si só não chama amor. [ … ] Quando deixará o meu coração de ser dilacerado?”

Mariana amou. Amou demais. Suas cartas ao Cavalheiro de Chamilly são uma antologia do sublime deste mundo. Ela conheceu as maiores venturas e maiores sofrimentos, as maiores alegrias e as maiores tristezas – que só o amor pode proporcionar e só o fim do amor pode causar.

Sua obra, como já dissemos, é uma obra de análise própria, de introspecção. Ela se objetiva e exterioriza, faz de si objeto de estudo para poder investigar, através de suas cartas, seu próprio eu, em sofrimento.

Os sentimentos prospectivos de seu desejo de amor correspondido vão aparecendo gradativamente: confiança, esperança, dúvida, ansiedade, desespero. Ela passou por todos esses estágios e chegou ao fim procurando, se não exterminar, abafar a sua paixão.

Não sabemos se conseguiu esquecer o seu Cavalheiro de Chamilly, Conde, Marquês e Marechal, mas para ela somente o seu Chamilly.

Pessoalmente, cremos que não conseguiu inteiramente. Seu amor for por demais profundo. Para um amor como este são bem empregados os versos do poeta patrício:

“A mim, que importa uma ilusão perdida,
se a lembrança do que se perdeu
vive conosco para toda a vida.”

BIBLIOGRAFIA:

1. Sóror Mariana, a Freira Portuguesa, de Luciano Cordeiro

2. Camilo e Sóror Mariana, por Detrás das Grades, de Apio Garcia

3. Et Tut le Rest n’Est Rien, de Claude Aveline

4. Encyclopaedia Britannica, Edição de 1911, Volume I

5. Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, Volume I

6. As Cartas da Freira Portuguesa, tradução de Luciano Cordeiro

7. As Cartas de Amor de Mariana Alcoforado, tradução de Morgado de Mateus

Eduardo Oscar Chaves
14-9-1962

NOTAS EXPLICATIVAS (de 22 de Fevereiro de 2019):

Eu tinha dezoito anos quando escrevi esse artigo; dezenove quando o passei a limpo, a mão, em folhas de papel almaço, e o entreguei ao meu professor de Literatura Portuguesa, Rev. Renato Fiuza Teles.

O título original do trabalho foi: “As Cartas de Amor de Sóror Mariana Alcoforado ao Cavaleiro de Chamilly: Biografia e Comentários”. Na época eu assinava meus trabalhos como “Eduardo Oscar Chaves”.

Meu aniversário de dezenove anos ocorreu em meio a esse processo, em 7-9-1962.

Em 1962 eu cursava o Segundo Ano do Colegial Clássico do Instituto José Manuel da Conceição (JMC), em Jandira, SP, Km. 32 da Estrada de Ferro Sorocabana. O trabalho foi escrito para a matéria Literatura Portuguesa, ministrada pelo Rev. Renato Fiúza Teles, que tinha o costume de fornecer uma lista numerada de pontos e fazer com que sorteássemos, através de pecinhas de um jogo de Tômbola, qual seria o tema de nosso trabalho. Tive a sorte de tirar o número correspondente ao tema “As Cartas de Amor de Sóror Mariana Alcoforado”.

Nunca havia ouvido falar de Mariana Alcoforado. Nunca havia lido nada sobre ela. Desconhecia totalmente a sua existência até aquele momento. Mas gostei da escolha, porque eu era uma pessoa romântica então (continuo a sê-lo), e, portanto, um tema que lidasse com cartas de amor, em especial escritas por uma freira, me intrigava. Sempre tive a impressão de que todo jovem, na faixa de 15 a 21 anos, por aí, curtiu a fantasia de um dia uma freira se apaixonasse por ele, largasse o hábito… 🙂

Fui à humilde biblioteca do JMC procurar material bibliográfico que me permitisse enfronhar-me do tema e escrever o trabalho. Não havia nada. Absolutamente nada.

Fui falar com o Rev. Renato para lhe dizer que parecia impossível que eu escrevesse o trabalho, porque nosso livro didático de Literatura Portuguesa não mencionava a freira e nossa biblioteca no Colégio não tinha nenhum livro de Literatura Portuguesa que fizesse referência a ela. Talvez, sugeri, eu devesse sortear um outro ponto.

“Não!”, disse o professor. Vá à Biblioteca Municipal Mário de Andrade em São Paulo e você encontrará lá pelo menos um livrinho que contém as cartas.

A Biblioteca Municipal de São Paulo ficava na esquina das avenidas Consolação e São Luís na Capital, a uns 40 km do Colégio — de trem, pela Sorocabana. A viagem no trem de subúrbio demorava no mínimo uma hora (mas de ônibus demorava muito mais. O trem vinha de Itapevi, passava em Jandira, e, no caminho para a Estação Júlio Prestes em São Paulo, passava e parava nas estações de Barueri, Carapicuíba, Quitaúna, Osasco, Presidente Altino, Imperatriz Leopoldina, Domingos de Moraes, Lapa e Barra Funda. Nove estações entre Jandira e a Estação Júlio Prestes. Hoje há mais.

Fui para São Paulo. De fato, a Biblioteca possuía um livrinho, publicado em 1917, pela Editora Lelo & Irmão, do Porto, que continha as cinco Cartas de Amor, com o título completo de Cartas de Amor ao Cavaleiro de Chamilly, na tradução de Morgado de Mateus, com um Prólogo (uma Introdução) de Júlio Brandão, de dezesseis páginas, contida nas páginas vii a xxii. O livrinho dizia ser “Terceira Edição”, mas não informava sua data de publicação. Posteriormente descobri, através de outras fontes, que era 1917. Seu tamanho é 16×11 cm.

[Subsequentemente, em 1986, quando era Diretor do Centro de Informações Educacionais Secretaria de Estado da Educação do Estado de São Paulo, na Praça da República, no antigo prédio do Colégio Caetano de Campos, achei, em um sebo improvisado que foi montado do lado esquerdo do prédio (de quem está de frente para ele), uma cópia idêntica, sem tirar nem por, do livrinho e, sem nenhuma dúvida, comprei-o. É dessa cópia do livro a fotografia abaixo.]

O nome da autora das Cartas de Amor é indicado apenas como “Sóror Mariana” (sem o Alcoforado), na capa e na primeira página.

Muita gente (em especial críticos literários franceses, e ninguém menos do que Jean-Jacques Rousseau) questionou a autoria da freira. Primeiro, por ser mulher, e, por cima, por ser mulher se metendo a discorrer com tanta competência sobre a alma humana, em momentos de êxtase e de desespero — algo que se acreditava ser assunto de homem. Segundo, por ser freira se metendo a falar de paixão humana e carnal, coisa de que absolutamente não devem entender nada. Terceiro, por não ser francesa, sendo a única fonte para o texto das Cartas de Amor uma misteriosa edição francesa de 1669, em Paris, que não indicava autor, nem se era tradução, nem, caso fosse, a língua original, embora seu título fosse Lettres Portugaises

A propósito, eis o que disse Jean-Jacques Rousseau sobre as Cartas de Amor:

“Em geral as mulheres não gostam de arte, não são versadas em nenhuma delas, e não têm genialidade para elas. Elas podem fazer sucesso com pequenas obras que precisem apenas de um espírito leve, bom gosto, e graça. Mas o fogo dos céus que aquece e forja a alma, aquele gênio que consome e devora, aquela eloquência abrasadora, aquelas emoções sublimes que levam suas maravilhas ao fundo dos nossos corações, sempre deixam a desejar nos escritos das mulheres. Elas não conseguem descrever ou sentir amor. [ … ] Eu apostaria tudo no mundo que as Cartas Portuguesas foram escritas por um homem.” 

[Apud Myriam Cyr, Letters of a Portuguese Nun: Uncovering the Mystery Behind a 17th Century Forbidden Love (Miramax Books, 2006; tradução brasileira de Alexandre Martins, com o título de A Maior Paixão do Mundo: A História da Freira Maria Alcoforado e Suas Cartas de Amor Proibido (Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2007) p. 154 da edição em Português, de onde foi tirada a citação. O livro transcreve as cinco Cartas de Amor, no caso da versão em Português na mesma tradução de Morgado de Mateus, que eu usei para fazer o trabalho.].

Havia outro fator corroborando para que se ocultasse a autoria de Mariana. A “bendita” Igreja Católica Romana, sempre ela, ao surgir o boato de que a autora das Cartas era uma freira portuguesa, apaixonada por um cavaleiro francês, tentou uma “operação abafa”, para conter os danos decorrentes do fato de que uma (até então) recatada freira pudesse ter gozado inebriantes noites de amor em sua própria cela (curiosamente, privada), dentro um convento, sem ser descoberta e punida com, no mínimo, a expulsão da Ordem. No mínimo…

Quando franceses chauvinistas e católicos retrógrados se unem para promover uma causa inverossímil, e inverídica, o resultado em geral não é nada bom…

As dezesseis páginas do Prólogo de Júlio Brandão foram o que me salvou, em 1962, embora houvesse também referência às cinco Cartas de Amor na Enciclopaedia Britannica, na Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira e em outros livrinhos que a bibliotecária me ajudou a encontrar e que incluí na Bibliografia — um deles em Francês, mas, felizmente, eu já lia bem em Francês, graças à dedicação de minha melhor mestra, a Profa. Elza Fiuza Teles, mulher do Rev. Renato, meu professor de Literatura Portuguesa (e de Biologia Educacional).

Para pegar material (transcrito em fichas, pois não se esqueçam de que não havia xerox, então, naquele ano de 1962) que me permitiu escrever o trabalho, precisei vir três vezes de Jandira a São Paulo e passar o dia inteiro na Biblioteca Municipal “Mário de Andrade”.

Finalmente, com todo o material coletado, escrevi o trabalho, a mão, em oito folhas (mais a folha de título e uma em branco no final) de papel almaço, hoje totalmente amareladas, entreguei-o ao Rev. Renato, que me deu nota 9,5, com a observação de “Muito bom trabalho”.

[A Paloma, minha mulher, professora e detetive desde que estava no ventre de sua mãe, tentou descobrir o porquê do desconto de 0,5 na nota. Achou três razões, todas elas indicadas pela caneta vermelha do professor. Em um primeiro lugar, escrevi “batisada” em vez de “batizada”. Em um segundo, esqueci de fechar umas aspas. E, no terceiro, escrevi um “por cada”, que foi sublinhado por ser cacófato. É assim que a gente perde ponto em redação escolar… As três falhas foram devidamente corrigidas no texto acima.]

Em retrospectiva, considero que minha carreira de escritor começou no ano anterior, em 1961, meu Primeiro Ano no JMC, quando escrevi um outro trabalho, este para a matéria Língua Portuguesa, ministrada pelo Rev. Joaquim Machado, no Primeiro Clássico da mesma escola.

Vide, a propósito, meu artigo “50 Anos de Carreira (55 em 2016)”, de 31 de Outubro de 2015, neste blog, em https://chaves.space/2015/10/31/50-anos-de-carreira/. Vide também a versão original do artigo, de 13 de Julho de 2011, no meu outro blog, Liberal Space, com o título “50 Anos de Carreira”, em https://liberal.space/2011/07/13/50-anos-de-carreira/. Vide também, neste blog Chaves Space, meu artigo “50 Anos de Carreira Internacional”, de 19 de Agosto de 2017, data em que me mudei para os Estados Unidos, para estudar, em https://chaves.space/2017/08/19/50-anos-de-carreira-internacional/.

Hoje a bibliografia sobre as Cartas de Mariana vai longe. Elas estão traduzidas para virtualmente todas as línguas modernas que representam alguma coisa na área literária.

Poucas coisas refletem tanto as mudanças ocorridas no mundo, em geral, e no Brasil, em particular, como o fato de que, em 1962, eu precisei viajar, durante três dias, para copiar à mão, em fichas cartolinadas, trechos das Cartas que fossem suficientes para eu fazer meu trabalho e tirar uma boa nota (como fiz e tirei). Hoje, só na Amazon, é possível comprar várias edições das cartas, em Português, Francês, Inglês, Espanhol, Alemão, etc. e ter acesso a inúmeras monografias — inclusive algumas que foram Teses de Doutoramento — sobre a obra prima de Mariana.

Nunca foi encontrado um original em Português das Cartas. Esse fato, e outros, que ela muito bem aduz, levaram Myriam Cyr a concluir que as cartas foram originalmente escritas por Mariana em Francês. Tendo a concordar com ela — embora minha concordância seja mais intuitiva do que crítica. Rousseau, no século 18, achava impossível que uma mulher houvesse escrito uma obra com tanta profundidade. Eu, no século 21, acho impossível que um homem pudesse haver escrito uma obra com tanta sensibilidade. Mariana, mulher jovem, inteligente, culta, e aparentemente linda, certamente poderia ter o insight psicológico e a sensibilidade para escrevê-las.

Se eu tivesse uma outra filha hoje, dar-lhe-ia o nome composto de Mariana Alyssa, assim, encadeando um nome ao outro na pronúncia, em homenagem a Mariana Alcoforado e a Ayn Rand, cujo nome de registro era Alyssa Zinovievna Rosenbaum. Uma representando a sensibilidade e a emoção; a outra, a razão e a crítica.

Matéria transcrita neste blog em 22 de fevereiro de 2019.

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Categories: Biografia, Literatura, Love Letters

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