Arriscar a Vida, Deliberadamente Enfrentando a Morte, para se Divertir ou Ganhar uns Minutos, Virou algo Trivial

Prestei consultoria, durante cerca de 15 anos, ao Instituto Ayrton Senna, que é uma instituição, do tipo ONG, que presta serviços na área social, especialmente na área educacional. Quando comecei, em 1998, Ayrton Senna já havia morrido e era venerado, como um santo, dentro e fora do Instituto que herdara seu nome.

Foram 15 anos de grande aprendizado, de estabelecimento de uma fantástica rede de amizades que mantenho até hoje, e de prestação de relevantes serviços, na área do uso das tecnologias de comunicação e informação no processo de aprendizagem, para pessoas que, naquela época, dificilmente teriam acesso a essas tecnologias.

Preocupava-me um pouco, porém, o fato de que o dinheiro usado para a prestação desses serviços fosse ganho com uma atividade que levara uma pessoa, Ayrton, a quase diariamente arriscar sua vida, de modo deliberado, não porque precisasse, mas porque queria, confrontando-se de maneira quase brutal com a morte, que, em 1º de Maio de 1994, acabou lhe levando a melhor, ceifando-lhe a vida de 34 anos (um ano a mais do que a idade que se supõe que Jesus tivesse ao também ser divinizado).

Mas Ayrton, pelo menos, ganhava muito dinheiro, atraía mulheres bonitas, recebia a adoração de seus fãs.

O pior acontece com aqueles que colocam a vida em risco, e se dão mal, sem ganhar nada, mesmo que ninguém morra, além deles próprios. Digo isso por causa dos dois eventos que descreverei a seguir.

Essa semana passada uma moça de 21 anos resolveu pular de um viaduto meio abandonado que passava sobre uma linha de estrada de ferro aparentemente de todo abandonada, e resolveu fazer isso só pela sensação da coisa… Ela não iria ganhar um prêmio, se o salto desse certo, não iria ficar rica e famosa. Ela só virou relativamente famosa porque a coisa deu errado e ela morreu. Se tivesse dado certo e ela houvesse sobrevivido, não teria ganho mais nada além do continuar a estar viva. No fim, pagou R$ 180,00 para morrer.

Tudo foi feito por amadores. Quem organizava a coisa aparentemente não era uma empresa estruturada, com CNPJ, Departamento Jurídico que possa ser responsa bilizado, etc. Era um bando de gente que resolveu ganhar uma grana significativa pelo trabalho de um dia. Segundo consta, a fila para desafiar a morte continha cerca de 90 pessoas (que pagavam cerca de R$ 180,00 para saltar). Basta multiplicar R$ 180,00 por cerca de 100 pessoas e dá perto de R$ 18.000,00 basicamente livres, sem necessidade de pagar impostos, etc. Os organizadores botaram a moça na beirada do viaduto, e sem checar se ela estava amarrada corretamente, a empurraram… A distância era de 40 metros. Mas eles simplesmente se esqueceram de lhe amarrar a corda (que, segundo se informa, fora reparada no dia anterior, por estar meio gasta), e, assim, ela saltou, fazendo um selfie de sua morte para o seu fim…

Quando a moça se despedaçou lá embaixo, à vista de todos (alguém, segundo tudo indica, surripiou a câmara, pois não foi encontrada), ninguém mais teve vontade de viver a sensação supostamente fantástica de desafiar a morte. Como as curvas a 300 kph da Formula 1, o tal jump deve dar a quem o pratica a sensação de que, se algo der errado, uma coisinha minúscula que seja, como uma corda mal-consertada, um nó mal-feito, ou uma solda mal-feita (no carro do Ayrton), ou mesmo uma corda totalmente esquecida no processo, adiós, vida marvada, num dianta fazer mais nada.

Ontem, na mesmíssima semana, e na mesma região, um motoqueiro jovem, que mudou recentemente aqui para o bairro, perto de casa, na zona rural de Salto, para não fazer o balão, que acrescentaria no máximo um minuto, ou que sejam dois, ao seu percurso, e, quem sabe, também “for the heck of it”, resolveu cruzar uma rodovia de duas pistas e quatro faixas de trânsito (duas faixas para cada lado, com uma mediana rebaixada ao meio) e, só Deus conhece a causa específica deste fato, foi abalroado por um carro que deveria vir a uns 100-110 kph, que é a velocidade que todo mundo pratica nesse lugar, que é uma enorme reta, em que os carros que estão transitanto podem perfeitamente ser vistos. A gente só viu a foto do carro no grupo de WhatsApp da comunidade do bairro. Quebrou o parabrisa, amassou todo o capô, retorceu inteiro o parachoque, os pneus ficaram bambos. Felizmente fotos da moto e do que restou do seu piloto não foram divulgadas.

O que leva as pessoas a fazer isso (especialmente nos dois últimos casos: no caso do Ayrton, há o dinheiro, há a fama, e todos os demais “perks” que o dinheiro e a fama traz, quando se é bem sucedido)? Nem a moça nem o rapaz tinham muito (ou mesmo alguma pouca coisa) que ganhar ao arriscar a vida e desafiar a morte. A vida deve valer muito pouco para quem se dispõe a colocá-la em risco com tanta sofreguidão, por nada ou por quase nada. Uma hora a morte leva a melhor. E, daí, todo mundo fica procurando um culpado que não seja a própria vítima.

Sobre o episódio da moça, recomendo que vejam/ouçam a crônica a seguir. Vale muito a pena:

https://www.instagram.com/reel/DZlsRH3oxk6/

https://www.instagram.com/reel/DZlsRH3oxk6/

Em Salto, 17 de Junho de 2026.

Eduardo CHAVES



Categories: Liberalism

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