60 Anos (1966-2026): A Crise de 1966 no Seminário Presbiteriano de Campinas – Um Relato Histórico-Biográfico

Eduardo Chaves

A data considerada como de fundação da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) é 12 de agosto de 1859, dia em que o missionário Ashbel Green Simonton chegou ao Rio de Janeiro para iniciar o trabalho presbiteriano no país. 

Embora a primeira igreja organizada (Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro) só tenha sido fundada em 1862, e o primeiro presbitério em 1865, a denominação considera a chegada de Simonton em 1859 como o marco inaugural de sua existência institucional. 

Aproveito a data do 167º aniversário da igreja para narrar alguns aspectos tristes da vida da igreja ocorridos em 1966, que ela comemorava seu 107º aniversário – sessenta anos atrás. Já faz tempo. Mas os eventos não foram esquecidos pelos que os viveram.  

Espero, subsequentemente, estender histórico da crise, e até cotejá-lo com o relato de crises semelhantes havidas na “Igreja Mãe”, ou nas “Igrejas Mãe”, as igrejas americanas que investiram no presbiterianismo nacional. Venho trabalhando neste assunto desde 1967, quando cheguei aos Estados Unidos. Mas outras tarefas têm obstruído o meu intento. Aproveito os 60 Anos do Aniversário da Crise de 1966 na Igreja Presbiteriana no Brasil para começar meu trabalho.

1.  Breve Introdução ao Assunto

Entrei no Seminário Presbiteriano de Campinas, oficialmente chamado de Seminário Presbiteriano do Sul (SPS) pela Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), que o criou e o mantém, no mês de Fevereiro de 1964. Saí dele no mês de Agosto de 1966. Ali fiquei durante dois anos e meio, portanto.

Quando lá cheguei, no dia 14 de Fevereiro de 1964 (uma sexta-feira), para fazer matrícula e arrumar e me instalar no dormitório, porque as aulas começariam no dia 17, segunda-feira, parecia que iria ser um ano difícil, na política. A situação política do país estava instável, tanto que, um mês e meio depois, em 31 de Março de 1964, eclodiu o “Golpe Sócio-Político-Militar” que depôs o presidente João Belchior Marques Goulart. Uso essa denominação para o ocorrido em 31 de Março de 1964 porque, para mim, os militares tomaram a iniciativa de agir, usando da força para destituir o governo João Goulart, e assumir o poder, apenas após haverem sido instigados e, depois decididamente apoiados, pela forças sociais e políticas da nação. Mas isto é uma detalhe que, embora relevante para a situação política atual, em 2026, não afeta a questão da situação da política eclesiástica dentro da igreja.

Os acontecimentos no plano político perturbaram um pouco a vida dentro do Seminário. Mas nem tanto. Para os alunos do SPS, exceto pela Festa dos Calouros, que não houve (estava marcada para 1º de Abril daquele ano), não houve maiores perturbações da ordem interna, embora tenha havido alguns alunos veteranos que participaram dos eventos da política nacional – de um lado e de outro.

Para os alunos do SPS, o ano que foi verdadeiramente conturbado, mas que começou aparentemente tranquilo, veio a ser o ano de 1966. A partir de Junho-Julho daquele ano a situação dentro da igreja e principalmente dentro do seminário se tornou um desastre quase total.

Neste ano de 2026, para a crise que teve lugar nos Seminários da IPB, o mês de Agosto daquele ano de 1966 se torna uma data sexagenária. Pretendo, neste modesto artigo (que, espero se torne um livrinho), compartilhar uma série de documentos que tenho em meus arquivos pessoais e contar a minha versão, muito pessoal, da crise, ao apresentar e comentar os documentos.

Desde 1966 não sou mais membro da IPB. Por isso, não tenho nenhum interesse em defender a “versão oficial” da crise, tal qual narrada por Alderi Souza de Matos, historiador (mais cronista do que historiador) oficial da Igreja, em seu livro Uma Igreja Peregrina: História da Igreja Presbiteriana do Brasil de 1959 a 2009 (Editora Cultura Cristã, antiga Casa Editora Presbiteriana, São Paulo, 2009).

Certamente serei acusado por pastores da IPB de defender a “versão dos baderneiros” que foram expulsos do SPS a partir de Agosto de 1966. Na verdade, os que defendem o expurgo afirmam que nós não fomos expulsos: que nós simplesmente “nos expulsamos”, ao nos recusar a assinar um “Termo de Compromisso” que a nova direção do Seminário (SPS, no caso) exigiu que assinássemos para ter direito de pleitear rematrícula no segundo semestre de 1966.

Além disso, há divergência sobre o número dos expulsos, que a IPB chamava de “expurgados”. Vamos falar sobre eles.

2.  Os Expurgados

Esta lista foi retirada do famoso livro do Prof. Rev. João Dias de Araújo, Inquisição sem Fogueiras, publicado em Primeira Edição em 1975, pelo Instituto de Estudos da Religião – ISER, do qual fui membro por algum tempo. Ela fala, na p.58, em 39 alunos expulsos, e dá o nome deles (aqui e ali errando na grafia), a saber:

  1. Eleny Alves Pereira;
  2. Edval de Queiroz Matos:
  3. Dorival Xavier de Oliveira;
  4. Goldofredo Attílio D’Auria; [o nome correto é Gofredo]
  5. Antônio Simões Ferreira Filho;
  6. José Alt dos Reis;
  7. Paulo S. Gomes; [o nome completo é Paulo da Silva Gomes]
  8. Ilfeu Veriano Ferreira; [acho que o nome do meio é Veridiano]
  9. João Batista Pereira;
  10. Walter Caraelo Locoli; [o nome do meio correto é Carmelo]
  11. Vander Boaventura;
  12. Ubirajara de Campos;
  13. Reinhold Felippe Ortliele; [o último nome correto é Ortlieb]
  14. Elias Moacir da Costa;
  15.  Natanael Maria dos Santos;
  16. Carlos Ferreira Júnior;
  17. Dário Pereira Ramos; [o primeiro nome correto é Dario, sem acento]
  18. Celso Martins de Souza;
  19. Daniel Martins de Souza; [é difícil que o sobrenome seja idêntico ao do nº 18]
  20. Otávio Stradioto; [o primeiro nome correto é Octávio]
  21. Henrique de Almeida Lara;
  22. Clodomir Monteiro da Silva;
  23. Eurico Airton Monteiro;
  24. Ricardo Swain Alíssio;
  25. José Salomão Pereira;
  26. Obed Júlio Carvalho;
  27. Josemir Comes da Silva; [o nome do meio correto é Gomes]
  28. Ephraim Santos de Oliveira;
  29. Edson Lacerda;
  30. Daniel Nogueira;
  31. Rubem Alexandre da Silva;
  32. Wilson Arroyo;
  33. Paulo Sérgio Emeriques;
  34. Ciro Rodrigues de Figueredo;
  35. Oscar Pugsley;
  36. Eduardo Oscar Chaves; [antes de Chaves há outro sobrenome: de Campos]
  37. Hermes Gonçalves Arana;
  38. Javan Dicas Laurindo; [o nome do meio é Dias]
  39. Jaime Cleto da Silva.

[João Dias de Araújo, Inquisição sem Fogueiras: Vinte Anos de História da Igreja Presbiteriana do Brasil (Instituto Superior de Estudos da Religião – ISER, Rio de Janeiro, 1ª edição, 1975). Citado apud a 3ª edição, de 1985, p.58.]

Esta lista é repetida nas pp.64-65 do livro do Rev. Antonio Marques da Fonseca Junior, Por que IPU (publicado em Julho de 2003, em Campinas, SP, embora tenha sido impresso pela Gráfica e Editora O Expresso, de São Carlos. O autor do livro era professor do Seminário na época em que eu lá estudava, sendo também, ao mesmo tempo, pastor da Igreja Presbiteriana de Jundiaí. Nela a maior parte dos erros nos nomes dos alunos foi corrigido, exceto o do colega Walter Carmelo Zoccoli, cujo último nome é grafado como “Zuccoli”.)

Mais sério do que os erros nos nomes é o fato de que ninguém menciona o fato de que o número de alunos disposto a concordar com a medida do Supremo Concílio era maior do que trinta e nove. Tecnicamente, o que aconteceu foi o seguinte. Aprovada pelo Supremo Concílio de Fortaleza, a Comissão Especial dos Seminários foi escolhida, empossada e começou a exercer as suas funções. O primeiro seminário a ser visitado foi o de Campinas. Lá chegando, para entrevistar os alunos, que deveriam preencher um enorme questionário em que se comprometiam a fazer um certo número de coisas e a não fazer um outro número de coisas. Nenhum dos alunos dos terceiro, quarto e quinto anos, e mesmo vários alunos do primeiro e do segundo anos, se dispuseram a reconhecer a Comissão e a fazer o que ele mandava. Apenas o Grupo dos Quinze ficou ao lado da Comissão.

Diante da seriedade da situação, a Congregação do Seminário se reuniu, e protestou contra a contra forma não regimental que estava sendo empregada para resolver o problema. A decisão não foi unânime. Os Profs Waldyr de Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro não a endossaram. Mas, em decorrência disso, o Reitor do Seminário, o Rev. Júlio de Andrade Ferreira, renunciou ao cargo no dia 2 de Agosto de 1966. A “Carta Renúncia” do Reitor, que renunciou ao cargo escrendo ao Rev. Mário Lício, Presidente da Diretoria do Seminário Presbiteriano do Sul, está transcrita nas pp.60-61 do livro do Prof. Rev. Antonio Marques da Fonseca Júnior.

Aparentemente a Diretoria do Seminário Presbiteriano do Sul não acatou a decisão do Reitor, posto que no dia 24 de agosto de 1966 o Rev. Júlio de Andrade Ferreira subscreve um outro documento, desta feita da Congregação, na condição de Reitor. (Vide p.64 do livro do Rev. Marques da Fonseca.

Este documento da Congregação do Seminário é longo e é desnecessário citá-lo por inteiro aqui. Vou apenas citar as partes mais contudentes — e há várias — e observar que o Rev. Waldyr e o Rev. Américo não a endossaram.

“Tomamos conhecimento, por carta de 25 de julho p.p., e firmada pelo Rev. Saulo de Castro Ferreira, acompanhada de cópia das decisões do Supremo Concílio sobre Seminários, de que uma Comissão Especial, nomeada pelo Supremo, está para vir ao SPS no dia 25 deste [a carta tem data do dia 24 de agosto]. Tomamos a liberdade de apresentar à Diretoria, através do seu Presidente, as razões pelas quais não podemos receber a referida Comissão.

1º) O Supremo Concílio ao nomear a Comissão Especial ignorou a hierarquia intitucional para educação teológica. [. . .] [O Supremo Concílio] não pode atribuir a si diretamente as prerrogativas dessas entidades sem primeiro afastá-las ou destituí-las. E não pode nem afastá-las e nem destituí-las contra a lei, sem processo e o devido julgamento por quem de direito — simples matéria de ordem, decência e justiça.

2º)O Supremo Concílio, ao nomear a Comissão Especial de Seminários ignorou a hierarquia conciliar estabelecida na Constituição da Igreja. [. . .] A competência para examinar pastores e candidatos ao ministério e privativa dos Presbitérios. [. . .] O Supremo Concílio não se entendeu anteriormente com os Presbitérios aos quais pertencem professores e alunos do SPS.

3º) O Supremo Concílio não tem definido quais as ‘doutrinas e ideologias que discrepam inteiramente dos símbolos doutrinários da Igreja. [ . . .] Nulla poena, sine lege?’

4º) O Supremo Concílio ao nomear a Comissão Especial de Seminários o fez na presunção de que há uma situação de fato que compromete o futuro da igreja. Onde está esta situação de fato? Qual a denúncia efetivamente especificada e devidamente firmada pelos acusadores? Por simples questão primária de ética, o primeiro passo seria exigir dos acusadores, como manda o CD-IPB, o nome de cada culpado e a respectiva falta cometida.”

Assina a carta o Reitor. Desta vez ele foi despedido e substituído pelo presbítero Eduardo Lane Júnior na Reitoria.

No dia seguinte, 25 de agosto de 1966, os alunos se manifestaram solidários à manifestação da Congregação, coisa rara, nos seguintes termos:

“Sendo do nosso conhecimento que o Supremo Concílio nomeou uma comissão, com plenos poderes, para inquirir e julgar alunos e professores no Seminário Presbiteriano de Campinas;

Sendo do nosso conhecimento que a maioria dos professores de nosso Seminário tomou posição de não aceitar essa Comissão por motivos que já conhecemos:

Em virtude disso, nós também, numa atitude consciente e de hombridade, resolvemos tomar a mesma posição que nossos mestres tomaram, desconhecendo a Comissão.”

Seguem a assinatura dos 39 alunos já mencionados.

Foi assim que surgiram os 39 nomes.

Mas isso não quer dizer que havia apenas 39 alunos contrários à decisão do Supremo Concílio com respeito aos seminários. Sabedores que alguma coisa grave poderia ser causada com os signatários, como, por exemplo, a sua expulsão, os alunos, reunidos, decidiram que os alunos do 4º e do 5º ano, que já haviam cursado pelo menos três anos e meio do Seminário, estavam dispensados de assinar a carta e assim terminar o seu curso com relativa tranquilidade.

Quantos alunos havia, naquele momento, que cursavam o 4º e o 5º ano? Não tenho certeza, mas estimo que pelo menos vinte alunos — vou arrendondar para 21. Assinaram o documento, 39; 21 foram dispensados de fazê-lo pelos alunos; e 15 eram do Manifesto dos Quinze. Total 75. Era mais ou menos isso que o Seminário tinha de alunos naquela época. Isso pode ser conferido pela Secretaria do Seminário. O livro do Prof. Alderi Souza de Matos, historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil, ressalta que no ano seguinte, de 1967, o Seminário Presbiteriano de Campinas tinha 31 alunos, e isto porque recebeu uma turma nova, que se juntou com o Grupo dos Quinze.

Vamos, a seguir, depois desde longo capítulo, voltar aos meses iniciais de 1966.

3. Os Meses de Janeiro e Fevereiro de 1966

O ano de 1966 seria, como em parte foi, meu terceiro ano no SPS. O Bacharelado em Teologia, Curso Longo, durava cinco anos, os dois primeiros dos quais eram chamados de Curso Pré-Teológico (a gente estudava Línguas e um “misturol” de assuntos relacionados à língua portuguesa, baseado em um livro de Silveira Bueno, que tinha o título de Califasia, Califonia, Calirritmia e A Arte de Falar em Público, e outros nas áreas de Filosofia, Sociologia, Psicologia, Introdução ao Estudo da Bíblia, História das Religiões, As Principais Religiões do Brasil, etc.). No terceiro ano começava o Curso Teológico, propriamente dito. Apaixonei-me pela disciplina de Filosofia, cujo professor era o Rev. Francisco Penha Alves, apelidado de Chicão. Os livros básicos eram Living Issues in Philosophy, de Harold H. Titus, Introduction to Philosophy, de George Thomas White Patrick, e Ethics: Modern Conceptions of the Principles of Ethics, de John L. Mothershead. Tenho todos eles – de alguns deles, duas cópias. Virei, ao longo de meus estudos, um filósofo formado e um bibliófilo obcecado, e permaneço nessas sinas até hoje.

4. O Início do 1º Semestre Letivo de 1966

Em Março, eu, além de estar matriculado no SPS, comecei a estudar Alemão, no Goethe Institut, no Centro de Campinas, com o prof. Ernst Manuel Zink. Fiz três estágios de Alemão (os três primeiros) do curso de Alemão, que eu havia começado a estudar, particularmente, com meu colega Waldir Berndt em 1964, e havia continuado por conta própria, em 1965, quando o Waldir já não estava mais no Seminário (formou-se em 1964). No 2º semestre, já fora do Seminário, cursei os três estágios seguintes (quarto ao sexto), e recebi o certificado do Curso Básico e Intermediário de Alemão do Goethe Institut (prestando exames gerais no Instituto Hans Staden, em São Paulo. Também comecei a estudar Inglês no Centro Cultural Brasil-EEUU no 1º semestre, em Campinas. Fui dispensado, por prova, dos quatro primeiros estágios, mas tive de fazer o 5º e o 6º, no 1º e 2º semestres de 1966, para receber o certificado, de conclusão do curso, para quem cogitasse de um dia estudar nos EUUU. E eu sonhava com isso – mas nunca imaginei que dentro de um ano e pouco, em Agosto de 1967, cinquenta e nova anos atrás, isso viesse a se tornar realidade.

No SPS, no princípio do ano letivo, antes de falar dos estudos, concorri numa chapa para a Diretoria do Centro Acadêmico Oito de Setembro (CAOS), para o cargo de Secretário Executivo, e fui eleito. Na primeira reunião da nova diretoria, o CAOS resolveu criar um jornalzinho mensal e eu fui encarregado de providenciar isso, passando a responder como Editor Chefe da publicação, que foi batizada como título de “O CAOS em Revista”. Eu começava a minha carreira de jornalista. A primeira fase foi curta. Durou um semestre só.

Nos estudos, as disciplinas mais importantes que estudei foram três: em primeiro lugar, Introdução à Teologia do Novo Testamento, com o Rev. Osmundo Affonso Miranda, no qual dediquei a maior parte do tempo a estudar The Quest of the Historical Jesus, de Albert Schweizer, e The New Quest of the Historical Jesus, de James M. Robinson; em segundo lugar, História da Igreja Antiga, com o Rev. Boanerges Ribeiro (sim, ele foi meu professor); em terceiro lugar, História do Protestantismo Brasileiro, com o Rev. Júlio Andrade Ferreira. Estudei também umas disciplinas, para mim inúteis, como Homilética, com o Prof. Adauto de Araújo Moraes, Poimênica, com o Rev. Américo Justiniano Brasileiro, e Aconselhamento Pastoral, também com o Rev. Américo, se bem me lembro.

O mais importante, nas circunstâncias, foi o fato de que, na disciplina de Homilética, os alunos tinham de pregar alguns sermões de prova, diante dos colegas e do corpo docente, no culto diário (do qual fui um dos organistas por um tempo).  O colega, do 3º ano do Curso Breve (um curso curto para alunos já casados ou simplesmente mais velhos), Floramonte Dias Gonçalves, pregou um sermão biográfico sobre o profeta Jonas – e isso acabou se tornando o estopim da crise de 1966 no SPS. Eu não gostei do sermão – mas isto não vem ao caso, eu não tinha a função de criticá-lo. Fiquei irado, porém, quando todos os professores, ou elogiaram exageradamente o sermão ou se omitiram de levantar questões críticas, ressaltando, condescendentemente, que, em se tratando de alunos do Curso Breve, não era mesmo de esperar que o aluno se enveredasse por uma discussão acadêmica mais profunda. O que, na crítica do sermão, eu não podia falar, pois estava na condição de aluno, eu acabei encontrando o tem para o meu primeiro artigo para O CAOS em Revista. Resolvi colocar meus dotes de escritor a serviço da nossa educação teológica…

5. O Estopim da Crise

Em vez de narrar o que aconteceu, vou transcrever o Editorial do primeiro número, de Março de 1966, e o artigo que escrevi no segundo livro, de Abril de 1966. Os jornais, na íntegra, estão disponíveis nos meus blogs na Web. Transcrevo, a seguir, meu Primeiro Editorial e meu Primeiro Artigo, publicados em 18 de Março de 1966.

A. Primeiro Editorial (18.3.1966)

“Em sua reunião de 18 de fevereiro do corrente a Diretoria do CAOS decidiu que se publicasse, periodicamente, um jornal informativo da Diretoria, designando-nos, naquela mesma ocasião, responsáveis pela sua edição. Exatamente um mês após sai o primeiro número. Como primeiro é este um número experimental, para o qual pedimos a opinião dos colegas, para que ele venha a ser a expressão do corpo discente de nossa casa. Não é, porém, apenas a opinião dos colegas que solicitamos. Pedimos também a colaboração de cada um através de artiguetes escritos, através de trechos ou excertos traduzidos de livros ou revistas, através da indicação de livros e artigos recomendáveis. Esperamos que os colegas nos tragam suas colaborações. Será distribuído, gratuitamente, apenas um exemplar para cada colega. A pessoa que desejar mais números terá que pagá-los à razão de Cr$ 200 cada. Será esta uma maneira de arranjarmos um pouco de fundos para a contínua publicação do jornal. Cada vez que houver material suficiente, nas mãos do redator, para a tiragem de um número, este sairá. Contamos, pois, com a colaboração de todos.”

B. Primeiro Artigo: “Instituto Bíblico em Campinas” (18.3.1966)

“Estamos ainda debaixo do revoltante impacto que nos causou a crítica ao sermão pregado hoje por um de nossos colegas. Queremos, de início, esclarecer que tudo o que aqui vamos dizer não visa à pessoa e às idéias do pregador, mas sim à posição e às idéias dos ‘críticos’, membros do corpo docente desta ‘Faculdade’. Colocamos estas duas palavras entre aspas porque não reputamos críticos os que não levam em conta a obra e os resultados da Crítica, fazendo de sua ‘crítica’ tão simplesmente uma avaliação da simpatia do pregador, de sua vestimenta, de sua linguagem, de sua elocução, da estrutura homilética de seu sermão, de sua liturgia, negligenciando o cerne do sermão que é a interpretação dada ao texto. Para se fazer esta interpretação a Crítica Histórico-Literária e Textual é simplesmente considerada ‘farrapos’. Além do mais não consideramos Faculdade uma instituição de ensino que se aliena, através de seus professores (mas graças a Deus não através de todos os seus alunos) do movimento intelectual e teológico contemporâneo. O que está se dando aqui é que nosso Seminário, tido aí por fora como ‘Faculdade de Teologia’, não passa, atualmente, de um Instituto Bíblico, que acha virtude, através de alguns de seus professores, em nem se aproximar dos problemas levantados pela Crítica Bíblica, e que acha que os alunos não precisam conhecê-los, pois são (esses problemas) irrelevantes.

Vejamos, porém, o caso concreto.

Pregou-se, hoje, um sermão de prova biográfico sobre o profeta JONAS. Como base da mensagem do pregador estava a pressuposição de que o livro de Jonas é um livro histórico no sentido de que as informações nele contidas são historicamente verdadeiras e fidedignas, e que o que nele é registrado se deu literalmente como o descreve o livro. O Jonas de que o livro fala foi tido como o profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou em Israel, no século VIII, no reinado de Jeroboão II (Cf. II Reis 14:25).

Reafirmamos que o pregador tinha pleno direito de fazer o que fez, ou seja, de dar esta interpretação conservadora ao livro. Não o criticamos por isso. Afirmamos também que os mestres tinham pleno direito de concordar com o pregador a respeito de sua interpretação e da linha de sua mensagem, o que de fato fizeram. Com o que não concordamos, porém, é que o outro lado da questão não tivesse sido sequer mencionado! Um dos professores mencionou de passagem que o livro apresentava problemas críticos, mas nem sequer esboçou quais e que tipos de problemas seriam estes. Apenas afirmou (certamente opinião pessoal sua) que a Crítica havia tornado o livro em ‘farrapos’, subentendendo-se daí que se é impossível pregar sobre o livro de Jonas com uma interpretação outra que não a sua pessoal, naquele contexto representada também pelo pregador e pelos outros críticos. Um outro crítico mencionou que sua opinião era diferente, mas não julgou conveniente apresentá-la. De qualquer forma o sermão foi tido como muito feliz, pela interpretação sadia, pela riqueza de material, etc., pois fugiu dos problemas críticos, ‘não procurando chifres na cabeça de cavalo’. Embora um crítico houvesse achado que o sermão carecia de melhoras, a impressão tida após a crítica é que o sermão do colega foi o tipo de sermão ideal, “ungido” (o termo foi usado).

Nossa intenção, aqui neste artiguete, pelo qual somos pessoalmente responsáveis, é apresentar o outro lado da questão, como um dever de consciência, pois o outro lado foi redondamente ignorado pelos ‘críticos’ do referido sermão. Se o fazemos é no interesse de esclarecer os colegas, mostrando que o livro de Jonas é ‘pregável’ mesmo depois de a ele ser aplicada uma crítica bastante radical.

Vamos à questão.

O livro de Jonas é diferente de todos os outros escritos proféticos do Velho Testamento no sentido de que não contém uma coleção de oráculos de um profeta, mas é simplesmente uma história a respeito de um profeta. Pode ser esta a razão pela qual um livro que não reivindica de modo algum ter sido escrito por um profeta (o v.1 diz: ‘Veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo:…’ – Notar que o livro é escrito na terceira e não na primeira pessoa: ‘Jonas se dispôs’, ‘Jonas orou’, etc.), e que no aspecto literário pertence a um tipo bastante diferente, foi incluído entre os Livros dos Doze Profetas (os ditos Profetas Menores). Nem podemos dizer que o livro de Jonas seja um conto profético de natureza histórica e biográfica, porque a base requerida para tal não está presente no livro. O livro de Jonas é um poema didático, podemos mesmo dizer que um poema parabólico, escrito para mostrar que Deus se compadece mesmo dos ímpios quando eles se arrependem (3:10; 4:10). Este poema foi escrito com uma moral dirigida contra a intolerância dos Judeus e sua arrogância para com as nações pagãs, resultantes da doutrina da eleição mal interpretada em um sentido particularista. Bastava somente esta moral para que concluíssemos que o livro é pós-exílico, pois sua atitude básica toma por pressuposta a influência de Deutero-Isaías com sua idéia de salvação universal. O capítulo 3, versículo 3, dá a entender que Nínive era considerada uma cidade legendária, dos tempos antigos. Além do mais, a linguagem do livro, com seus aramaísmos, e com formas hebraicas bem posteriores em seu vocabulário e estilo (1:6, 7; 2:1; 3:2, 7; 4:6, 8) não permite que se date o livro anteriormente ao século V. Como terminus ad quem há o fato de o livro ser pressuposto no século II (Cf. Eclesiástico 49:12; Tobias 14:4,8).

Não há dúvida, entretanto, de que o autor do livro de Jonas tivesse tido a intenção de fazer com que o Jonas por ele descrito fosse entendido como o Jonas do século VIII. Isto era comum na antiguidade, quando a questão de direitos autorais e de direitos de nome não era problema jurídico. Qualquer pessoa podia escrever um livro em nome de outrem, ou poderia por seu nome em obra de outrem, ou poderia ainda, como no caso, usar a pessoa de outrem como personagem de seus escritos. O autor, contudo, não pretendeu estar escrevendo naquela época. Além do mais há muito no livro que indica que ele vem de um período bem posterior ao século VIII, além do que apresentamos acima. A cidade de Nínive não era tão grande no século VIII. Além do mais é difícil de se crer que uma cidade tão grande quanto a descrita tenha se convertido ‘desde o menor até o maior’ (3:5), o rei inclusive 3:6 sqq. Note-se que em nenhum lugar mais, nem na Bíblia, nem fora dela, se menciona ‘Rei de Nínive’, pois o rei não era de Nínive, e sim da Assíria, país cuja a capital era Nínive, e que isto não tenha sido registrado em nenhum lugar, nem nas crônicas assírias nem nas israelitas. Por cima é difícil de harmonizar como a Nínive convertida a YHWH, inclusive com o seu rei, no século VIII, tivesse, com o restante da Assíria, ainda naquele mesmo século (721), conquistado Israel e destruído Samaria, levando cativos os líderes.

Por todos estes motivos é difícil crer na historicidade do livro como tal. Não negamos que tenha existido um Jonas, filho de Amitai, profeta. O que afirmamos é que ele não é o protagonista deste episódio, e que o que é narrado no livro de Jonas é uma parábola escrita com a finalidade acima apresentada, a saber, de mostrar aos Judeus que Deus se compadece e quer a redenção mesmo dos ímpios e gentios. Porque esta mensagem é apresentada com igual clareza por Deutero-Isaías é que se coloca o livro de Jonas mais ou menos na mesma época.

Agora perguntamos: Reconhecer isto é “procurar chifres na cabeça de cavalos”? Cremos que não reconhecê-lo é ignorar chifres na cabeça de um boi! Continuamos: reduz isto o livro de Jonas a ‘farrapos’? Absolutamente! Devemos deixar de pregar sobre o Bom Samaritano somente porque ele não é histórico? Evidentemente não! Se isto é verdade podemos pregar sobre o livro de Jonas mesmo que o episódio e o personagem ali descritos não sejam históricos. O que importa é a mensagem que o autor quis transmitir, ao criar esta parábola: quebrar as tradições nacionalistas dos Judeus, mostrando que Deus ama até os inimigos de Israel!

Embora o livro por seu tipo literário não seja profético, seu espírito o é, particularmente na tendência geral de pensamento a ele imprimida, quando foi escrito, em tempos pós-exílicos. Para por em cheque o particularismo exclusivista do Judaísmo pós-exílico, e a distorção da doutrina da eleição imposta pelo egoísmo religioso, este livro testifica a grandeza da profética concepção de Deus, e a ampla tolerância que esta concepção implica! O livro ainda hoje é uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso. Porque pretendeu mostrar que a compaixão de Deus é maior que o coração humano, que sua vontade de salvar alcança mesmo além dos limites de seu próprio povo, e portanto o leva à tarefa missionária, este livro pertence aqueles no Velho Testamento que prepararam o caminho para o Evangelho.

Os colegas julguem se a crítica que aplicamos ao livro, privando-o de sua historicidade, tornou-o ‘impregável’, esfarrapou-o. Julguem se, em uma Faculdade de Teologia do gabarito que a nossa pretende ter, pode alguém pregar sobre Jonas nos termos em que se pregou, sem que qualquer dos professores presentes à crítica tivesse sequer levantado o problema da historicidade do livro.

Aos Colegas a palavra!”

6. A Reação ao Primeiro Número do Jornal

Eu datilografei o artigo em minha máquininha de escrever portátil, marca Olivetti, passei para o Departamento de Publicações e Divulgação do CAOS, coordenado pelo colega Uílean, que redigitou o material em um estêncil e rodou 250 cópias, trazendo-as a mim, no quarto 215, no segundo andar do novo dormitório. (Por ser membro da Diretoria, eu tinha um quarto só para mim). Distribuí uma cópia do jornal para cada colega, e esperamos pela reação.

Ela não custou a vir.

Dia 18 de Março era uma sexta. O jornal foi impresso e distribuído internamente no fim de semana. Na segunda o Reitor do Seminário, a pedido (se bem me lembro) dos Revs. Waldyr Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro (eles eram os dois professores mais conservadores e inflexíveis), convocou uma reunião extraordinária da Congregação do Seminário para examinar e discutir o conteúdo do jornal. (O conteúdo que cabia discutir eram apenas o meu Editorial e o meu Artigo. O resto era relativamente tranquilo).

Na semana de 21 de Março houve a reunião extraordinária da Congregação e, à noite, depois do jantar, eu recebi a visita do Reitor, Rev. Júlio de Andrade Ferreira no meu quarto. Visita do Reitor a aluno no quarto deste é coisa rara – e bem que, no caso, o Rev. Júlio era amigo da família da minha mãe e era colega e amigo de meu pai (que era pastor). Ele bateu na porta e eu mandei entrar, pensando ser um colega meu. Embora tivesse excelente relacionamento com ele, dada a natureza pacífica, cortês, tranquila e amiga dele, e os laços de amizade que uniam nossas famílias (além dos mencionados, eu trabalhava, nas férias, no Centro Audio-Visual Evangélico – CAVE, do qual a mulher do Rev. Júlio, Da. Alzira Valim Ferreira, era Presidente ou Diretora Geral).

Recebi o Rev. Júlio, com toda a consideração que lhe era devida e com toda a estima pessoal que lhe dedicava, e ele me disse, sem fazer sermão, sem dizer que não esperava que alguém como eu escrevesse um artigo pesado como o meu, etc., que a Congregação havia decidido que o jornal não devia continuar a ser distribuído e determinado o confisco dos exemplares que ainda não haviam sido distribuídos que deveriam estar sob a guarda da diretoria do CAOS. Eu disse a ele que compreendia, abri meu armário, peguei dois pacotes do jornalzinho, que deviam conter 100 exemplares e lhe entreguei. Ele, homem experiente e bondoso que era, não me perguntou se aqueles eram todos os exemplares impressos que restavam e, assim, eu não precisei mentir para ele. Porque, naturalmente, não eram.

Ao mesmo tempo, o Rev. Waldyr Carvalho Luz escreveu a meu pai e relatou sua versão do que estava acontecendo. Na quinta-feira daquela semana, eu estava assistindo a minhas aulas de Alemão no prédio da esquina do Av. Campos Salles com Av. Francisco Glicério, e um colega puxou meu praço e me apontou a porta, onde meu pai fazia sinais para alguém chamar minha atenção. Fiquei frio. Meu primeiro pensamento foi que minha mãe houvesse morrido. Ela andava meio doente. Pedi licença ao Prof. Zink, saí da sala, e meu pai estava visivelmente irritado, e começou me dizendo que o Waldyr (era assim que ele tratava o Rev. Waldyr, que havia sido colega de seminário dele) o havia contatado para relatar o que estava se passando no Seminário, e, a pedido da Congregação, para informá-lo que, sendo a primeira vez que eu fazia algo errado (!), a dita Congregação havia decidido não me punir, mas que, se eu reincidisse no erro, seria expulso liminarmente do Seminário (algo que, no curto prazo, se revelou ser uma mentira). Procurei explicar ao meu pai que tudo aquilo era parte de minha educação e que, de certo modo, era de esperar que alunos e professores divergissem em relação a uma série de questões, teológicas, administrativas, políticas, etc. Não houve acordo. Ele me assegurou que eu estava totalmente errado, que ele achava que eu estava sendo manipulado pelos alunos mais velhos, modernistas, liberais, até mesmo comunistas, como, no entender dele, seria o caso do Elias Abrahão (depois pastor de Curitiba e, mais tarde ainda, quando era famoso em Curitiba, eleito deputado federal pelo Paraná pela legenda do PMDB e, lastimavelmente, morto em um acidente automobilístico na estrada de Curitiba para Navegantes). Mas, de qualquer forma, deixou claro, ele preferia que eu tivesse nascido morto em 1943 a ter que suportar a ingratidão que eu lhe revelava ao me rebelar contra a direção e os professores do Seminário. Ficamos cerca de dois anos e meio sem conversar, por decisão dele.

No Seminário, o tempo foi passando e os temperamentos foram se acalmando um pouco até que chegou dia 18.4, em que deveria ser publicado o segundo número de O CAOS em Revista. A Congregação confiscou o primeiro número, mas não proibiu que houvesse um segundo…

7. A Crise se Agrava

A. Segundo Editorial (18.4.1966)

A seguir, o meu segundo Editorial.

“Ainda Jonas…

No número anterior, primeiro de nosso jornal, procuramos, em um artigo que teve um Sitz im Leben de todos conhecido, dizer algumas palavras sobre o livro de Jonas. Naquele ocasião dissemos que o livro tinha uma mensagem ainda hoje relevante, pois era ‘uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso’. Nosso interesse hoje é assinalar a relevância e o oportunismo desta mensagem no contexto imediato em que nos encontramos, a saber, na vida da IPB.

Vimos, no artiguete passado, que a mensagem de Jonas foi um brado de protesto contra o nacionalismo particularista dos judeus que se consideravam detentores únicos e exclusivos da divina graça, e que, assim fazendo, limitavam à ação de Deus à nação política Israel. Deus estava cercado dentro dos limites políticos da nação. Qual a relação que isto pode ter com a IPB? A relação é que, ainda hoje há o grupo que se considera detentor exclusivo e único da graça divina, grupo este que, assim fazendo, procura limitar a ação de Deus, não a uma nação política, mas a um círculo ideológico, que procura cercar Deus, não dentro de limites políticos, mas de limites ideológicos.

Concretizamos: aqueles que, no seio da IPB, estão preocupados em tirar do seu caminho todos os que não concordarem em gênero, número e caso com os padrões rígidos de sua ‘ortodoxia’ superada estão praticando o mesmo tipo de exclusivismo religioso (senão pior) praticado pelos judeus aos quais foi dirigida a mensagem do livro de Jonas. Estas normas ‘ortodoxas’ têm se tornado os limites cerceadores da ação de Deus. Quem delas se afastar — dizem, ou se não dizem assim o entendem, pois suas atitudes o comprovam — afasta-se do próprio Deus, e então não é digno de permanecer na IPB. Precisa ser expurgado (palavra, por eles, estimadíssima!).

Vimos, contudo, no artigo passado, que quando o homem estabelece limites que particularizam e estreitam a órbita da ação de Deus o próprio Deus encontra um meio de arrasar com essas pretensões do coração humano. As obras do autor de Jonas e de Deutero-Isaías são em Israel  evidências típicas disto. Foi porque os israelitas não atentaram ao fato de que Deus queria quebrar (como de fato quebrou) estas barreiras particularizantes que foram por Ele rejeitados.

É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, ‘O CAOS em Revista’ se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de ter os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra Utilitarianism, Liberty and Representative Government (New York: Dutton, 1910, p.79) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as ideias que temos expressado e, esperamos, que continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, elas não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma ideia falsa é expô-la! Quem estiver com a verdade não precisa temer ideias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se crêem portadores de ideias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas ideias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de idéias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o chamado delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser ‘criminosos’ neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!

Neste espírito e com este alvo é que ‘O CAOS em Revista’ sai, exatamente um mês depois do primeiro, em seu segundo número.”

B. A Congregação Reforça sua Posição: Estamos em Ditadura 

Uma nova Reunião Extraordinária da Congregação do Seminário acontece, a pedido sempre dos mesmos. O segundo número de ‘O CAOS em Revista’ também é confiscado, pelo mesmo procedimento: nova visita do Magnífico Reitor ao meu quarto. As coisas acontecem como da vez anterior.

No entanto, desta vez a Congregação resolveu ir mais longe: determinou que nenhuma publicação dos alunos, oficial (isto é, do CAOS) ou dos alunos, individualmente, acerca do que se passava no Seminário poderia sair de dentro dos muros do Seminário sem exame e autorização formal e explícita da Congregação. Estávamos sob censura prévia. Como acontecia com o país, fora dos muros, vivíamos debaixo de uma Ditadura dentro do Seminária: a ditadura da Congregação, que extrapolava de longe seus direitos e seus poderes.

Ou seja, até segunda ordem, não poderíamos publicar um terceiro número do nosso jornal em 17 de Maio de 1966.

7. Alunos em Minoria Tentam Apoiar a Congregação

Entre o segundo e o terceiro número do jornal, ou seja, entre 17.4.1966 e 17.5.1966, houve a publicação, fora do jornal, de um nefasto manifesto assinaado por quinze alunos, todos eles do 1º ou do 2º ano, ou seja do chamado Curso Pré-Teológico. Ele ficou conhecido como o “Manifesto dos Quinze”. Para fazer sentido dos Editoriais e dos artigos que seguem, publico-o aqui, inclusive com o nome de seus indignos signatários…

O curioso é que os alunos que subscreveram a essa manifesto, que foram liderados e apoiados pelo Rev. Waldyr Carvalho Luz, que se reunia com os alunos do 1º e do 2º ano toda quarta-feira, para, em uma Reunião de Oração, discutir a situação do Seminário, e que acabou ficando considerado por tantos quantos leram o nefasto manifesto como seu evidente autor, achavam que estavam apoiando a Congregação do Seminário, embora estivessem se esquecendo de um detalhe que será ressaltado logo depois da transcrição do manifesto.

A. O “Manifesto dos Quinze”

Aqui vai o texto do manifesto.

“Aos Membros, Oficiais e Ministros da Igreja Presbiteriana do Brasil

Saudações no Senhor,

Sentimos um dia que Deus nos chamava para o sagrado ministério da Palavra. Obedecendo a esse chamamento, decidimos entregar a vida ao serviço do Senhor, não medindo as dificuldades, os problemas, os sacrifícios que teríamos de enfrentar. Foi nesse propósito que viemos para o Seminário. Não tínhamos ilusões de que não iríamos encontrar um céu aberto. Esperávamos, entretanto, encontrar um ambiente favorável para os estudos, um meio apropriado para cultivar espiritualidade, uma atmosfera de seriedade moral e de respeito, particularmente para com as pessoas e as instituições da Igreja. Preferiríamos não dizer da desilusão que tivemos.

Não queremos prejudicar o Seminário ou a Igreja. Nem desejamos atingir pessoas. Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todo sentido, contudo, aspiramos um Seminário melhor, mais vida espiritual, mais firmeza de caráter, mais consagração, fé mais vigorosa, convicção mais sólida, testemunho mais cristão e espírito mais dedicado na evangelização e na obra da Igreja. Temos silenciado até agora por que não queríamos nem de longe concorrer para o agravamento da situação. Só Deus sabe das angústias de nossa alma e das preocupações de nosso espírito, das lágrimas que temos vertido, das noites mal dormidas, das lutas em oração que temos sustentado. Chegamos, porém, a um ponto em que não mais podemos manter-nos calados. Por amor ao Seminário e à Igreja temos de sair a público para clamar contra os abusos que presenciamos e a situação em que vivemos. Com tristeza infinita, temos de apelar a todos os corações crentes a que se levantem para defender esta Casa, que tanto amamos, e a IPB nesta hora crítica.

Com o maior dos pesares temos de dizer que o Seminário não é hoje a Casa de Profetas, de onde saíam homens de Deus, fiéis à Bíblia e ardendo de entusiasmo pela salvação dos pecadores, ministros piedosos que continuem a obra dos grandes homens do passado, grandes na fé, grandes na consagração, grandes no fervor, grandes na piedade, prontos a todo sacrifício, varões de Cristo sem reservas.

O Seminário é hoje um lugar onde se zomba dos que levam a sério a Bíblia, a oração, a vida espiritual; onde se desmoraliza de todas as formas a liderança da Igreja, suas instituições e seus homens de confiança; onde se hostilizam professores que não se dobram aos interesses do grupo dominante; onde se defende a libertinagem e a imoralidade; onde existem clubes dos que se reúnem para fumar e beber; em cujo refeitório se praticam atos que ferem a mais elementar educação e onde a própria oração é motivo de ridículo e zombaria; onde se defende o amor livre e se condena como pietismo e moralismo todo esforço de viver cristãmente, segundo os padrões do Evangelho; onde se tacham de estreitos todos quantos mantêm firmes as doutrinas do Calvinismo clássico e aceitam a Bíblia como inspirada Palavra de Deus; onde se veiculam idéias modernistas como se fossem a verdade de Deus, somente porque os teólogos do dia e os estafetas dos evoluídos desta e de outras terras o proclamam; onde não existe interesse geral pela evangelização e pela conversão dos pecadores; onde uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdista, exerce inexorável pressão sobre os colegas que não rezam pela sua cartilha e trama de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento; onde figuras estranhas ao Seminário e até à IPB, muitos até ministros, não sentem escrúpulos em manter encontros para desmoralizar a Igreja, autoridades eclesiásticas e professores da instituição de maneira desleal e revoltante; onde impera a irreverência e o cinismo; onde palavrões e piadas picantes são a norma de não poucos; onde a dignidade feminina e a pureza pessoal são objeto de alusões que não podemos aqui referir. Onde colegas são humilhados e tratados de maneira contrária ao amor de que tanto falam, especialmente aqueles que são novatos, vítima de trotes que refletem bem o espírito evoluído dos seus promotores; onde a vida espiritual e devocional é baixa, tanto quanto o pode ser; onde os cultos são mal assistidos e por alguns inteiramente desprezados; onde um círculo de oração iniciado por um grupo desejoso de mais vida devocional é hostilizado e combatido; onde a maioria indiferente e acomodada, querendo manter uma neutralidade impossível, acaba sempre fazendo a jogada da liderança negativista; onde as próprias autoridades não parecem em condições de agir com firmeza.

Irmãos no Senhor, não dissemos tudo que poderíamos dizer. O próprio deão do ano passado, Rev. Dr. Osmundo Afonso Miranda, traçou um retrato bem realista da situação em seu relatório à Diretoria do Seminário, que é um brado de alerta contra a referida situação. A situação é séria, o sentimos. Por amor a Cristo e Sua Palavra, por amor à IPB e seu ministério autêntico, por amor aos crentes sinceros de hoje e às gerações do futuro, é preciso por paradeiro a esses desmandos. Aqui, diante de nosso Deus, obedecendo à voz de nossa consciência, com o coração sangrando de tristeza, bradamos pedindo que alguma coisa seja feita. Não podemos ficar indiferentes nem calar-nos; seríamos cúmplices desse processo de desmoralização da Causa. Pensai no que estamos relatando, informai-vos de tudo, orai muito e agi com firmeza. E que Deus, o nosso Deus, nos dê forças para não fugirmos ao dever, para sermos fiéis à Sua vontade. Amém.”

Assinavam o Manifesto:

  1. Hermes Mariano, Presbitério de São Paulo
  2. Ariovaldo C. Bomfim, Presbitério de São Paulo
  3. Elpídio Gonçalves. Presbitério do Rio Doce
  4. Evandro Luiz da Silva, Presbitério de Cuiabá
  5. Floramonte Dias Gonçalves, Presbitério Oeste de Goiás
  6. Célio J. Duarte, Presbitério Florianópolis
  7. Francisco Antônio Maia, Presbitério de Brasília
  8. Silas Augusto Tscherne, Presbitério de Rio Claro
  9. Dirceu Xavier de Mendonça, Presbitério de Rio Claro
  10.  Gilson Barbosa Gomes, Presbitério do Rio de Janeiro
  11.  Eldman Francklin Eler, Presbitério de Governador Valadares
  12.  Adolfo Potenciano, Presbitério de Goiânia
  13.  José Silvério Júnior, Presbitério de Brasília
  14.  José dos Anjos, Presbitério Norte de Minas
  15.  Jarbas Dantas, Presbitério de Campinas

B. A Negligência dos Reacionários

a. Terceiro Editorial (18/5/1966)

Novo dia 18. Novo “O CAOS em Revista”. Até aqui temos podido ser pontuais. Esperamos poder continuar a sê-lo.

“Muitas coisas aconteceram em nossa casa desde que o segundo número saiu. Dentre elas merece destaque, não pelo conteúdo, mas pela repercussão, o Manifesto (na falta de melhor palavra) que um grupo de quinze alunos endereçou aos membros da Igreja Presbiteriana do Brasil, delatando coisas que se passam aqui dentro (e até as que não se passam), separando estas coisas de seu contexto, julgando-as erradas e pedindo punição para quem as comete. Deve ser dito ainda que o referido manifesto está sendo espalhado ilegalmente, pois não passou pela Congregação, canal competente para o envio de qualquer documento dos alunos para fora dos limites do Seminário.

‘O CAOS em Revista’ lamenta o sucedido. Lamenta por várias razões.

Em primeiro lugar, o referido manifesto veio dividir definitivamente nossa comunidade. Antes dele havia correntes, tendências divergentes, que não chegavam, contudo, a ser grupos. Havia mesmo aqueles que eram neutros a qualquer corrente: os que se chamavam de ‘a terceira força’. O manifesto, no entanto, acabou com tudo isto, criando dois grupos apenas: o dos que assinaram o manifesto (quinze) e o grupo dos restantes. Este fato decepou qualquer esperança de se poder viver em real comunidade aqui.

Em segundo lugar, lamenta pelo simples fato de que ‘roupa suja se lava em casa’.

Lamenta, ainda, pelo mal que os colegas signatários do referido manifesto vão causar ao membros da IPB, escandalizando-os desnecessariamente. Porque o instrumento de escândalo não são tanto os que cometeram determinadas coisas tidas por erradas quanto os que as espalharam a um contexto inteiramente diferente e não preparado para ouvi-las. Se observarmos o que Paulo tem a dizer a respeito do comer carne de porco, vamos notar que o erro não estava no comer em si, mas no escândalo que isto podia causar. Correto. São feitas e ditas coisas aqui dentro de nosso dormitório e de nossos quartos (não tantas e tão terríveis quanto o referido manifesto pretende que sejam) que não escandalizam ninguém no ambiente em que estão sendo feitas e ditas. Levadas, contudo, para um ambiente não preparado para ouvi-las, estas coisas servem de escândalo. O culpado deste escândalo, contudo, não é quem faz o ato, mas quem o espalha para um ambiente não preparado para ouvi-lo.

Isto é o que mais lamentamos no manifesto. Não lamentamos o mal que seus signatários pretenderam causar aos outros, ‘neutros e liberais’. Lamentamos, sim, pelo mal que causarão e já estão causando, inconscientemente, a uma enormidade de crentes inocentes, que não precisavam saber das dificuldades internas de nossa casa, que, porque internas, deveriam ser resolvidas aqui dentro. A atitude dos que assinaram o manifesto, dos que orientaram ou estimularam a sua confecção, dos que o estão enviando e distribuindo não é nada pastoral em relação aos membros da Igreja que eles querem salvar! Eles, os responsáveis pelo manifesto, não tinham o direito de escandalizar os membros humildes e inocentes das nossas Igrejas. Por isso é que reputo correta a opinião de um pastor que ao receber o manifesto disse: ‘Isto é antes de um ato de covardia para com os membros da Igreja!’ É construindo e não destruindo que se deve alcançar um objetivo.

‘O CAOS em Revista’ registra, pois, com pesar, esta mancha negra nos anais do corpo discente desta casa. Continuaremos, porém, a lutar, de modo franco e legal, à luz do dia, através do diálogo leal, para que cada um tenha a liberdade de pensamento e ação indispensáveis à vida de cada verdadeiro homem, de cada verdadeiro cristão. É com o intuito de restabelecer diálogo que o redator escreveu o artigo ‘Parafraseando’. Ele tem esperado em vão a contribuição dos colegas. E ainda espera. Por que algum dos colegas signatários  do manifesto não se decide a um diálogo franco em lugar de fazer ataques subversivos e inesperados? É uma tática mais madura e mais máscula. As páginas de ‘O CAOS em Revista’ estão à espera.

Enquanto isto, colegas, lutemos para que, em nosso meio, cada um possa ter a autonomia de pensamento que o cristão precisa ter. ‘Lembrai-vos sempre de que não existe felicidade sem liberdade, e de que o fundamento da liberdade é a coragem’ (Péricles, Discurso aos Atenienses, citado por Tucídides, em A Guerra do Peloponeso, Livro 2, citado por Celso Furtado, Dialética do Desenvolvimento, p.7).”

b. Segundo Artigo: “Parafraseando” (18/5/2015)

E aqui segue o meu segundo artigo.

“’Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros’ (Lucas 18:9).

Certa vez, em uma Faculdade Teológica, passaram a existir dois grupos: um que se dizia ‘conservador’ e outro que era taxado de “modernista”. Certo dia os conservadores oraram assim: ‘Ó Deus, graças te damos porque não somos como os demais colegas: defensores da libertinagem e da imoralidade, fumantes e beberrões, defensores do amor livre, mantenedores de simpatias pronunciadamente esquerdistas, irreverentes, cínicos, contadores de piadas e desrespeitadores da dignidade feminina. Louvamos-te, ó Deus, porque assim não o somos. Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste; nós, por ocasião das refeições, ficamos quietos: chegamos a bater palmas e a sorrir para mostrar nosso amor cristão, mesmo quando são proferidos discursos que nos criticam; aceitamos a Bíblia toda como palavra inspirada de Deus; estamos sempre aos pés dos líderes da Igreja para aprender deles como agir honesta, franca e desinteressadamente; saímos três ou mais vezes por semana para pregar a tua palavra, embora nosso estudo seja com isso prejudicado: contudo, teu sábio servo do passado já dizia que ‘o muito estudar é enfado da carne’ — aliás o teu Espírito colocará nos nossos lábios a mensagem, mesmo que nada tenhamos estudado! Ó Deus, atenta para isto: somos fiéis servos e testemunhas da tua palavra aqui neste Seminário; para conseguirmos sê-lo chegamos até a desrespeitar as leis da Congregação, ó Deus, pois mandamos, por trâmites ilegais, um formidável manifesto aos crentes da tua igreja, condenando tudo o que de errado se passa aqui dentro, fora do nosso grupo, evidentemente; por amor à tua causa, ó Deus, chegamos ao ápice da ousadia e da coragem ao afirmar que as próprias autoridades que dirigem este Seminário não parecem estar em condições de agir com firmeza. Mas nós o estamos, ó Deus, e te agradecemos por isto.’

O resto todo o mundo sabe. Aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aqueles que era roubador, injusto e adúltero, aquele que era um pária moral na sociedade de sua época. Estranho, não? Mas real. No entanto seria bom perguntar por que o fariseu, que era o pietista, o legalista, o moralista, o ortodoxo da época de Jesus, não foi justificado. A razão parece óbvia, embora muitos não a queiram ver: o fariseu não foi justificado porque colocou como critério de sua auto-avaliação diante de Deus o seu próximo, o publicano. E, nestas circunstâncias, aferindo-se por um critério imperfeito, o fariseu jactou-se diante de Deus, orgulhou-se, e creu que poderia trazer nas mãos e apresentar diante de Deus algo de bom: o seu comportamento, o seu modo de agir, o seu zelo pelo cumprimento da lei divina. E não foi justificado embora praticasse atos muito bons em sua vida, se os considerarmos isolados de sua motivação e de seu contexto. Porque todas as vezes que nos avaliamos por critérios e padrões imperfeitos nos tornamos orgulhosos.

Às vezes este orgulho é disfarçado sob a capa de uma pseudo-humildade, sob palavras tais como estas: ‘Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todos os sentidos, contudo…’ (grifo meu). Não são, no entanto, nossas palavras a coisa que tem importância primária. É nossa atitude que, lhes subjaz, que é o primariamente importante. Mesmo que pronunciemos, em lágrimas e com o coração sangrando, palavras que falem a respeito de nossa humildade, se nossa atitude for a de um juiz apontando erros nos outros, não estaremos sendo humildes, mas orgulhosos.

Será bom perguntar porque sentimos um prazer imenso em apontar as falhas, erros e os defeitos dos outros, principalmente quando estes são pessoas mais preeminentes que nós, em outros setores, ou talvez no mesmo a que nos dedicamos. Porque no instante que fazemos isto podemos nos jactar e nos consolar intimamente, dizendo: ’embora fulano seja melhor estudante que eu, embora se destaque mais em certos círculos, na hora em que souberam que ele faz isto e aquilo eu subirei na cotação do povo, mediante o rebaixamento do outro!’ A raiz de todo mexerico, fuxico e de toda delação está nesse nosso desejo de nos compararmos com os outros e de ver neles falhas, e de torná-las ainda mais negras, através de generalizações precipitadas e de mentiras mesmo, porque assim teremos maior realce. Isto até me faz lembrar da história daquela ordem de monges, que nada mais tendo de que se orgulhar orgulhavam-se de sua humildade!

O erro do fariseu não foi fazer todas aquelas coisas. Foi comparar-se com o que não fazia, e julgar-se superior, julgar-se na condição de juiz do seu próximo. Todas as vezes que nos aproximamos de Deus auto-avaliando-nos por critérios imperfeitos nos tornamos orgulhosos, e nos sentimos no direito e em condições de apresentar a Deus alguma realização nossa, algo que nos conceda mérito diante dele. E todas as vezes que assim fazemos estamos sendo fariseus: mesmo que aquilo que estejamos apresentando a Deus seja a nossa fé, seja a nossa ‘ortodoxia’, seja a nossa conduta impecável!

O mérito do publicano estava em que, quando quis avaliar-se, não tomou para si critérios humanos, e, portanto, imperfeitos, mas colocou o próprio Deus como padrão de sua auto-avaliação. E porque assim agiu sentiu-se imediatamente arrasado. Não viu mérito algum em sua pessoa. Diante de Deus ele não era nada. Então, não podia orgulhar-se. Simplesmente não tinha de quê. Só pode dizer: ‘Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador’. E foi justificado.

Como esta parábola deve ter chocado os ouvintes de Jesus! Como aquela crítica tremenda aos ‘santos’ e ‘justos’ fariseus, aos ‘ortodoxos’, e a setença de que o publicano havia sido justificado deve ter arrasado os ouvintes de Jesus! Justamente o publicano, que não era apenas ‘modernista e liberal’, mas HEREJE! No entanto, o impacto que a parábola causou nos ouvintes de Jesus foi esquecido e hoje a parábola não faz parte da Bíblia de muita gente tida por aí como exemplo de santidade.

Finalmente uma palavra aos ‘Quinze’: o que fazeis, vós os que assinastes o manifesto, com textos tais como este (Lucas 18:9:14)? Simplesmente o ignorais? Por diversas vezes já tenho ouvido a acusação de que nós, os ‘modernistas’, recortamos a Bíblia, para fazer nossa exegese ou formular nossas doutrinas. Será que é verdade? Ou, em última instância, será que é toda a verdade? Porque o que posso perceber é que vós, os conservadores e ‘ortodoxos’, também a recortais, não através da exegese, mas através do vosso comportamento, através de vossas vidas! E, em assim fazendo, vos tornais mais liberais do que os próprios. Quero crer, no entanto, que assim o fazeis ignorantemente e não de espírito premeditado. Quero, com sinceridade, crer que é inconscientemente que extraís de vossas Bíblias, em vossa vida e através de vossa conduta, textos tais como o acima mencionado, que não é o único. Ou será que não percebestes que a vossa atitude em fazendo o manifesto que fizestes, não permite que a Parábola do Fariseu e do Publicano continue mais em vossas Bíblias? O mesmo se dá com textos tais como Mat. 7:1 sqq; Tiago 4:11-12 e outros.

Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os ‘Quinze’, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  ‘não-ingênuos’ que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles. Quando tiverdes adquirido um pensamento crítico e uma capacidade independente de avaliar as coisas, o que se dará do segundo ano em diante, embora haja alunos que já cheguem aqui com estas qualidades, então podereis observar o quanto fostes insensatos. E vos arrependereis muitíssimo. Pois então vereis porque as vossas expectativas de ter 2/3 dos alunos ao vosso lado (correspondentes ao I e II ano somados), expectativas estas bastante vivas no início deste ano, vieram a falhar, e sois apenas quinze em uma comunidade de quase oitenta. Tendes apenas dois do segundo ano em vosso meio. Os outros ‘abriram os olhos’ (o que não significa que tenham se tornado ‘modernistas’ – apenas perceberam quão estreitos sois). Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente. Mas é somente o tempo que vos poderá mostrar isto. É com paciência que espero que ele e o Espírito Santo (por que não?) realizem o seu trabalho.”

c. Quarto Editorial (18/6/1966)

Este Editorial não chegou a ser publicado: foi censurado previamente. Mas transcrevo-o, mesmo assim.

“Ainda um ‘O CAOS em Revista’. O último deste semestre. Os leitores já acostumados à sua leitura talvez notem que, neste número, ‘O CAOS em Revista’ está um pouco diferente, em seu conteúdo, dos números anteriores: está menos vivo. Motivos vários contribuíram para que isso se desse, dentre os quais a falta de tempo do Redator e a falta de colaboração dos colegas no sentido de enviarem artigos, traduções, poesias, etc., para serem publicados.

Outro motivo ainda, a ser notado, é a ordem explícita e inequívoca da Congregação do Seminário Presbiteriano do Sul, que determinou que nenhum ‘O CAOS em Revista’, ou equivalente, fossem publicado sem o visto do Senhor Reitor ou do Senhor Deão. Esta ordem explícita, acrescentada da reprovação enérgica feita ao Redator, pela matéria contida nos três primeiros números do jornal, e da ameaça de punição por indisciplina em caso de reincidência, esclarecem, sem possibilidade de equívoco, a posição da Congregação e a posição que ela nos reserva. (Observe-se que os dois primeiros números do jornal foram julgados duas vezes pela Congregação. Na primeira vez, ela decidiu não opinar sobre eles, enviando-os ao Presbitério do Redator. Na segunda vez, por razões ignoradas, decidiu reprovar a matéria sobre a qual em vez anterior havia se omitido).

O campo que a Congregação nos permite abranger, contudo, trorna-se demasiado restrito quando notamos que ela considera a matéria contida no terceiro jornal fora da competência e do direito de manifestação de um jornal do corpo dicente. Torna-se difícil, pois, formular um jornal em que tratar de problemas que diretamente afetam a vida de todos os alunos é considerado ‘fora da competência’ de um jornal de alunos.

Assim sendo, resolvemos, em protesto, transcrever uma seção (Seção 4, no Capítulo II) do livro A Formação da Mentalidade (Mind in the Making), de James Harvey Robinson. Se o trecho que será transcrito for lido em seqüência aos três primeiros números do jornal, poderá comunicar uma mensagem bastante relevante. É o que esperamos.”

d. Matéria para ser transcrita em 18/6/1966

Também foi censurada também. Mas transcrevo-a, mesmo assim.

“Somos incrivelmente descuriosos da formação das nossas crenças, mas por elas nos enchemos de amor quando no-las querem roubar. Torna-se óbvio que não são propriamente as idéias que nos são caras, sim o nosso amor próprio. . . .

Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade, e a revolta sentida quando duvidam das nossas verdades estimula-nos a ainda mais nos apergarmos a elas. O resultado é que a maior parte do chamado raciocínio humano consiste em descobrirmos argumentos para continuarmos a crer no que cremos.  . . .

Esta distinção entre ‘boas’ e ‘reais’ razões é das mais importantes nos domínios do pensamento. Podemos de pronto dar o que chamamos as nossas ‘boas’ razões para sermos católicos ou maçons, republicanos ou democratas, amigos ou inimigos da Liga das Nações. Mas as razões ‘reais’ ficam em outro plano. Não há dúvida que a importância desta distinção é notória, embora obscura. Um missionário batista concorda prontamente em que o budista não é budista por conseqüência do cuidadoso estudo que fêz dessa crença, mas simplesmente porque nasceu numa família budista de Tóquio. Mas considerará ofensivo à sua fé reconhecer que a sua parcialidade para com certas doutrinas provém de ter tido ele uma progenitora afiliada à igreja batista de Pudlebuyry. . . . Mas nem um nem outro perceberá por que motivo está defendendo as suas opiniões pessoais.

As razões ‘reais’ das nossas crenças vivem ocultas des nós mesmos, tanto quanto dos outros. À medida que crescemos, muito naturalmente vamos adotando as idéias ambientes relativas à religião, às relações de família, à propriedade, aos negócios, ao governo. Absorvêmo-las, de tanto ouvi-las zumbir em torno de nós, no seio do grupo em que vivemos. Ademais, como Totter notou, essas idéias, como produto da sugestão e nunca do raciocínio, possuem o característico de parecerem perfeitamente óbvias. . . .

Este espontâneo e leal apoio aos nossos preconceitos — este processo de descobrir ‘boas’ razões para justificá-los — recebe dos cientistas modernos o nome de ‘racionalização’ — palavra nova para coisa muito velha. Nossas ‘boas’ razões nada valem para o honesto esclarecimento de um assunto, porque, por mais solenemente que sejam apresentadas, não passam, no fundo, de resultados de preferências pessoais, ou preconceitos, não refletindo nenhum sadio desejo de acertar. . .

O fato de uma idéia ser antiga e largamente espalhada não constitui argumento a seu favor, mas sim argumento para que tal idéia seja estudada e testada, a fim de verificarmos se não passa de mera racionalização.”

(James Harvey Robinson, A Formação da Mentalidade / Mind in the Making)

e. Quinto Editorial (18/8/1966)

Material que continuou a ser censurado previamente, também – mas que também transcrevo aqui:

“Temos em mãos o que seria ‘O CAOS em Revista’ do mês de Junho, mas que não o foi, por causa do aborto que sofreu. O Editorial, que naquela ocasião escrevemos, procurava dar um relato sucinto dos acontecimentos que culminaram na colocação, naquela oportunidade, de ‘O CAOS em Revista’ sob a tutela da Congregação do SPS [Seminário Presbiteriano do Sul], fato este que, por sua vez, ocasionou o aborto mencionado.

Um tempo relativamente longo decorreu desde então. Vivemos em outro contexto: temos outro Reitor, temos outro Presidente no Supremo Concílio. A cúpola que dirigia os destinos da IPB [Igreja Presbiteriana do Brasil] foi trocada. Há uma nova direção.

Todos estes acontecimentos, todas estas mudanças, toda esta “renovação”, pareceriam ser sinais de que a IPB rejuvenesce, reforma-se, atualiza-se, sofre uma renovação, no verdadeiro sentido do termo, sem as aspas indispensáveis ao emprego anterior da palavra. Mas, todos sabemos, isto não é verdade. A IPB preferiu, através da maioria dos representantes presentes ao Supremo Concílio, dar-se um outro rumo: o de lutar, em pleno século de viagens interplanetárias e de armas nucleares, como se fosse ‘remanescente de uma época de cavalaria’, para usar a apta imagem de Dietrich Bonhoeffer [em Letters and Papers from Prison], isto é: usando uma linguagem que não é a nossa do século XX; valendo-se de meios de ação que mais se assemelham aos da Idade Média; pregando idéias que há um século já eram tidas como desatualizadas, anacrônicas, conservantistas, vetustas; empregando métodos de pressão e repressão que nos fazem lembrar a Santa Inquisição Medieval; sendo dirigida por uma cúpola que, no seu totalitarismo, faria Hitler tremer de inveja no túmulo; expressando-se através de um órgão oficial que nada fica a dever aos periódicos do Rev. Raphael Camacho e do Mr. Robert Rapp! A IPB chegou a este ponto. Ou, melhor dizendo, permitiu que a conduzissem a este ponto.

Lembro-me de uma frase de Goethe, lida algures, que diz: ‘Muitos preferem morrer a pensar’. Na minha opinião, esta frase explica a razão de ter a IPB se deixado levar à situação em que se acha: ‘Muitos preferem morrer a pensar’. A IPB já sofre, agora, e vai sofrer muito mais ainda, os resultados da ‘preguiça intelectual’ daqueles aos quais se delegaram poderes para decidir a respeito dos destinos da Igreja. Isto porque, enquanto a maioria prefere morrer a pensar, há aqueles, poucos e raros, que quase morrem de pensar para descobrir meios de manipular a maioria não-pensante, a fim de que esta venha a servir a seus objetivos pessoais, egoístas, de ‘will to power’. E o resultado, trágico, mas inevitável, a menos que os não pensantes se decidam a pensar por si, é que, muitas vezes, uma pessoa, que se proponha este alvo, consegue manipular uma multidão, quase sempre de boa fé, levando-a a satisfazer às suas aspirações (suas, bem entendido, do manipulador). É mais fácil, realmente, deixar que os outros pensem por nós; que nos ditem o que fazer; que decidam quais destinos devam ser os da Igreja; quais normas devam regê-la; quais doutrinas devam ser sua confissão. É o caminho mais fácil, o ‘caminho largo’, mas aquele que leva à negação completa do dom da inteligência.

‘Contudo’, talvez diga alguém, ‘o prezado jovem está se esquecendo de algo muito importante: foi o Espírito Santo que fêz com que se deliberasse em Fortaleza como foi deliberado. Ou será que o irmão é dos modernistas que não crêem no Espírito Santo?” Sim, muitos já disseram isto, e não só uma vez. E é aqui que se situa, no meu entender, a maior heresia dos ‘situacionistas’ presbiterianos de hoje: a heresia de fazer a vontade soberana, ilimitada, perfeita de Deus identificar-se com sua finita, limitada, imperfeita, egoísta e pecaminosa vontade, a heresia de cercear os limites da ação divina, a heresia de orientar o Espírito Santo em lugar de procurar dele genuína orientação, a heresia de buscar Deus apenas como um meio útil na aquisição de um determinado objetivo e não como um fim em si, a heresia de colocar doutrinas e normas de conduta em nível superior à vontade específica de Deus para o nosso hic et nunc, a heresia de fazer com que a mensageira se torna mensagem, a heresia de tornar a serva maior do que o seu Senhor!

Parece que exagero. Provo, contudo. Tenho em mãos uma carta escrita pelo Conselho da IP [Igreja Presbiteriana] de Belo Horizonte, data de 2 de julho, quase dez dias antes do Supremo Concílio — carta esta para cuja elaboração um de nossos colegas, especialmente chamado a Belo Horizonte, emprestou sua valiosa cooperação! A carta, que deveria ser enviada a todas as Igrejas Presbiterianas do Brasil, acompanhada de uma cópia do ‘Manifesto dos Quinze’, reimpresso por aquela Igreja, denuncia em alto e bom som a ‘orientação modernista que os nossos Seminários vêm dando aos seus alunos [oxalá!], nossos futuros pastores’. Depois de analisar a situação, o referido Conselho, encabeçado pelo Rev. Wilson de Souza, faz as seguintes sugestões aos Conselhos das Igrejas às quais se destina a carta:

‘a) Ore e convide outros irmãos a orarem, pedindo a Deus uma solução certa para o problema, promovendo, se possível, reuniões de oração com esta finalidade.

[ . . . ]

c) Telegrafe AGORA e peça a outros irmãos para telefonarem HOJE ao Presidente do Supremo Concílio, solicitando solução urgente para os problemas dos nossos Seminários’.

Até aí compreende-se. A aberração, contudo, vem depois, quando a carta continua:

‘Esses telegramas poderão ter redações, mais ou menos, como estas:

Solicito SC tome providências enérgicas contra modernismo reinante nossos seminários.

A IP de (nome da cidade) espera que SC promova expurgo modernistas que atuam em nossos seminários’.

Mais do que em qualquer outro lugar, aqui se faz presente a heresia atrás mencionada. Aconselhava-se a orar, pedindo a Deus a solução do problema. Para que orar, entretanto, se a solução já estava decidida, como bem o expressam os ‘telegramas-padrão’. Ei-la, clara, insofismável: EXPURGO dos que conosco não concordam. Esta solução já estava pronta, já havia sido tomada muito antes do Supremo Concílio. E do mesmo modo todas as outras. Aqueles belos apelos feitos pelo agora Presidente do Supremo Concílio, através de sua imprensa privada, para que a Igreja orasse, pedindo que o Espírito Santo orientasse o Supremo, eram desnecessários. As principais decisões e soluções já estavam no bolso de seu colete, Deus sabe já há quanto tempo! Uma prova inequívoca disto é o fato de ter sido designado relator da Comissão que iria estudar os problemas dos Seminários, ninguém menos do que o Rev. Wilson de Souza, o capacho atrás mencionado, que já se demonstrara parcialíssimo e preconcebido em relação ao problema. E a arbitrariedade acompanhou todas as outras decisões. Pobre Espírito Santo! Invocaram-no tanto, mas manietaram-no, cercearam-lhe a ação. Talvez tivesse ele uma outra solução para os problemas, talvez ele não fosse tão conservador quanto se dizem ser os atuais chefes da Igreja, mas seu parecer não foi aceito, talvez por ter sido expresso por alguém da ala contrária, talvez por não se identificar com os moldes dos ‘telegramas-padrão’ e com os planos do partido vitorioso.

E assim caminha o tempo. A história, contudo, saberá passar seu julgamento (além de Deus que será bem capaz de passar o seu) sobre este negro período na vida da IPB. Enquanto, porém, o futuro não vem, para apresentar os vários aspectos e matizes da situação, é dever nosso, ao qual não nos podemos escusar, levantar uma voz profética contra o estado de coisas em que nos encontramos. ‘O CAOS em Revista’ sempre se dispôs a isto. O artigo de Tristão de Athayde reflete o conflito das gerações. O de Alvino Alves, mais específico, é muito oportuno ao caracterizar a ortodoxia conservadora. ‘O Pequeno Inquisidor’, colaboração anônima, recebida pelo Correio, ataca o problema ainda mais específico da ‘inquisição’ que nos visitou aqui.

O Redator aproveita para comunicar que deixará o cargo, a partir do próximo número, em virtude de seu desligamento do Seminário, a partir de 5 de Setembro até o final do ano. Agradece a colaboração, o estímulo, e o incentivo que recebeu durante o tempo que dirigiu o jornal, e coloca-se, mais do que nunca, ao lado daqueles que, cientes de sua responsabilidade para com Deus e os homens, para com o homem do século vinte, procuram evitar que a Igreja se torne mais uma relíquia, entre outras, dentro de nossa história. Agradece ainda àqueles que programaram este número, e o realizaram, sem os quais ele não sairia.

E até breve.”

o O o

É isso… Este é o início do meu presente de aniversário de 167 anos para a IPB. Vem mais.

Em Salto, 12 de Agosto de 2026

Eduardo CHAVES



Categories: Liberalism

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