Os Equinócios, os Solstícios, e a Definição da Data da Páscoa

[Este artigo é resultado de pesquisa-estudo sem maior pretensão, que usou bastante a Wikipedia e aproveitou informações de outras fontes acumuladas ao longo dos anos. Publicado originalmente em 20.2.2020, foi revisado e ampliado em 20.12.2022, quase três anos depois, e dia do septuagésimo sexto aniversário de meu irmão Flávio Chaves, a quem o dedico, nesta forma revisada e ampliada.]

Como todos sabemos, a data da Páscoa varia a cada ano: a Páscoa nunca cai no mesmo dia em dois anos seguidos (e, por vezes, chega a cair em um mês diferente de um ano para outro). Mas nem todos sabem qual a fórmula que define a data da Páscoa. E menos gente sabe ainda que a data do Carnaval muda conforme a data da Páscoa. O modo de definir esta festa religiosa dos cristãos foi estipulada no ano 325 AD pelo Concílio Ecumênico de Niceia (cidade muito antiga, perto de onde hoje é Istambul, que um dia foi Constantinopla, em homenagem ao seu fundador, o Imperador Constantino, o Grande (272-337 AD). Esse concílio foi convocado pelo Imperador Constantino, que havia se convertido ao Cristianismo treze anos antes, em 312 AD.

Foi esse mesmo Concílio que, além de definir questões de menor importância como a forma de calcular a data da Páscoa, decidiu outras questões longe de ser secundárias. A mais importante delas foi a definição de que passaria a ser dogma absoluto da Igreja Cristã a afirmação de que Jesus não só foi plenamente homem, enquanto viveu aqui na Terra, mas também foi, continua a ser, e será, para todo sempre, plenamente Deus. A partir dessa decisão, quem negasse que Jesus era plenamente Deus (ou que negasse que ele também havia sido plenamente homem em sua vida terrena), seria condenado como herege e iria sofrer nas mãos da igreja, apoiada pelo Império Romano. Começou aí a se definir a chamada Ortodoxia Cristã, que tanto problema tem gerado no seio da Igreja Cristã. A Inquisição é filha da Ortodoxia. 

Mas voltemos à data da Páscoa.

A definição da data em que a Páscoa deveria ser celebrada foi feita com base no conhecimento então presumido sobre como coisas funcionavam na natureza, como, por exemplo, quando se iniciavam e terminavam as diferentes Estações do Ano, e, em especial, quando se dão os fatos que decorrem da relação da Terra e da Lua com o Sol, como, por exemplo, a duração dos dias e das noites, se maior ou menor, ao longo do ano, a data das Luas Cheias, etc.

Como sabemos, até a época de Copérnico (1473-1543 [eu nasci exatamente 400 anos depois da morte de Copérnico]), personagem que revolucionou a Astronomia, colocando as coisas, por assim dizer, de ponta-cabeça em relação ao que se presumia que fossem. Antes de Copérnico acreditava-se que a Terra ficava fixa no centro do sistema planetário (na verdade, no centro do Universo) e que os planetas e os demais corpos celestes, inclusive o Sol, giravam ao redor da Terra, como a Lua o fazia — exatamente como a gente percebe. A Terra seria o centro do Universo que Deus criou. Era na Terra que estava o Jardim do Éden, onde tudo começou. Todo o resto do Universo giraria em torno da Terra. Nosso sistema de percepção parece corroborar a tese tradicional: a gente vê o Sol nascer, caminhar pelo firmamento, e, finalmente, se pôr. A tese copernicana vai contra essa nossa observação sensorial (nossa percepção): ela afirma que é a Terra que gira ao redor do Sol (mas não nega que a Lua gire ao redor da Terra).

Mas, em 325 AD, na época do Concílio de Nicéia, faltavam ainda quase 1.150 anos para Copérnico nascer — mais ainda para a criação de sua teoria (que, do ponto de vista puramente observacional, que é o do senso comum, é, convenhamos, bastante inconvincente).

O evento mais importante na fórmula que define a data da Páscoa é chamado de Equinócio.

No Equinócio “a trajetória do Sol” (chamada de Elíptica), ao cruzar o espaço celestial, cruza linha do Equador terrestre. Quando isso acontece, temos o Equinócio, e o dia e a noite têm exatamente a mesma duração: 12 horas cada. É daí que vem o nome do fenômeno: dies (dia) aequus (igual) e nox (noite).

(Notem que estou falando em “trajetória do Sol” no linguajar que a gente usa no dia-a-dia e que, para o pessoal do Concílio de Nicéia, mais de mil anos antes de Copérnico nascer, era quase como ciência divinamente revelada: falo em trajetória do Sol, como se fosse o Sol que “trajetasse”, ao redor da Terra.)

Na verdade, há dois Equinócios por ano, porque em um ano a trajetória do Sol, ao cruzar o espaço celestial, cruza a linha do Equador terrestre duas vezes: uma vez quando o Sol está “trajetando” na direção Norte-Sul, a outra quando está fazendo isso na direção inversa, Sul-Norte. Esses dois eventos são chamados, respectivamente, de Equinócio de Outono e Equinócio de Primavera.

Esses dois Equinócios marcam o início dessas duas Estações do Ano, respectivamente, o início do Outono e o início da Primavera. (De igual forma, há dois Solstícios, que marcam o início das outras duas estações, a saber, o início do Inverno e o início do Verão — falarei um pouco mais sobre os Solstícios adiante).

É preciso não esquecer que as Estações do Ano ocorrem em períodos opostos no Hemisfério Norte e no Hemisfério Sul. Quando, no Hemisfério Norte, começa a Primavera, aqui no Hemisfério Sul começa o Outono (e vice-versa); quando lá começa o Verão, aqui começa o Inverno (e vice-versa). Quase todo mundo sabe disso, especialmente hoje, neste mundo globalizado, mas nem sempre foi assim, e mesmo nós, ainda hoje, de vez em quando nos esquecemos desse fato.

EQUINÓCIO DE OUTONO

O Equinócio de Outono é o momento exato  em que a trajetória do Sol cruza a linha do Equador terrestre na direção Norte-Sul.

Aqui no Hemisfério Sul, o Equinócio de Outono, que marca o início do Outono, ocorre em 21 ou 22 de março. Já no Hemisfério Norte, a situação se inverte e o Equinócio de Outono ocorre no dia 22 ou 23 de setembro.

EQUINÓCIO DE PRIMAVERA

O Equinócio de Primavera é o momento exato em que a trajetória do Sol cruza a linha do Equador terrestre na direção Sul-Norte.

Aqui no Hemisfério Sul, o Equinócio de Primavera, que marca o início da Primavera, ocorre no dia 22 ou 23 de setembro. Já no Hemisfério Norte, a situação se inverte e o Equinócio de Primavera ocorre em 21 ou 22 de março).

SOLSTÍCIO DE VERÃO

O Solstício de Verão ocorre quando um dos pólos da Terra (Norte ou Sul) tem sua inclinação máxima em direção ao Sol. Isso acontece duas vezes por ano, uma vez em cada hemisfério (Norte e Sul). Para esse hemisfério, Norte ou Sul, o Solstício de Verão se dá quando o Sol atinge sua posição mais alta no céu, fazendo  com que a incidência da luz solar sobre aquele hemisfério seja a maior possível. Neste caso, a duração do dia é a maior de todo o ano. 

Aqui no Hemisfério Sul, o Solstício de Verão, que marca o início do Verão, se dá em 21 ou 22 de Dezembro. No Hemisfério Norte, ele se dá em 21 ou 22 de Junho. 

SOLSTÍCIO DE INVERNO 

O Solstício de Inverno ocorre quando um dos pólos da Terra (Norte ou Sul) tem sua inclinação mínima em direção ao Sol. Isso acontece duas vezes por ano, uma vez em cada Hemisfério (Norte e Sul). Para esse Hemisfério, Norte ou Sul, o Solstício de Inverno se dá quando a posição do Sol no Céu atinge o ponto mais próximo Terra, fazendo  com que a incidência da luz solar sobre aquele hemisfério seja a menor possível. Neste caso, a duração da noite é a maior de todo o ano. 

Aqui no Hemisfério Sul, o Solstício de Inverno, que marca o início do Inverno, se dá em 21 ou 22 de Junho. No Hemisfério Norte, ele se dá em 21 ou 22 de Dezembro. 

O CÁLCULO DA DATA DA PÁSCOA

A data da Páscoa foi definida como sendo o primeiro Domingo após a primeira Lua Cheia que se verificar a partir do Equinócio de Primavera — no Hemisfério Norte.

É isso. Não nos esqueçamos de que Nicéia estava no Hemisfério Norte e que, em 325 AD, o pessoal não tinha nem ideia de que havia um Hemisfério Sul. Aqui, no Hemisfério Sul, a data da Páscoa é o primeiro Domingo após a primeira Lua Cheia que se verificar a partir do Equinócio de Outono.

A Sexta-Feira da Paixão é aquela que antecede o Domingo de Páscoa. A Terça-Feira de Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa. Assim, para chegar à Terça-feira de Carnaval, basta subtrair 47 dias da data do Domingo de Páscoa. A chamada Quarta-Feira de Cinzas é o dia seguinte à Terça-Feira de Carnaval. Entre a Quarta-Feira de Cinzas e o Domingo de Ramos (que é o Domingo que antecede ao Domingo de Páscoa), temos o período de 40 dias chamado de Quaresma (em princípio, quarenta dias). Há seis Domingos na Quaresma, denominados, pouco criativamente, de I, II, III, IV, V e VI. O Domingo VI é o Domingo de Ramos, que encerra a Quaresma. A semana que antecede a Páscoa é chamada de Semana Santa. Para calcular o dia de Corpus Christi, que é sempre em uma Quinta-Feira, somam-se 60 dias à data do Domingo de Páscoa.

No último ano bissexto, que foi em 2020, o Equinócio de Outono cai, aqui no Hemisfério Sul, no dia 20 de Março. Nesse dia começa o Outono para nós (e a Primavera para quem mora no Hemisfério Norte). A primeira Lua Cheia depois dessa data caiu no dia 7 de Abril, uma Terça-Feira. O domingo seguinte foi o dia 12 de Abril, que foi, como manda a tradição, o Domingo de Páscoa.

Quod erat demonstrandum.

Em Salto, 16 de Março de 2020. Revisão e ampliação realizada em 20 de Dezembro de 2022. 



Categories: Carnaval, Data da Páscoa, Equinócios, Solstícios

2 replies

  1. Querido professor, agradeço a Deus por sua vida … Saudade das suas aulas

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