A Passagem do Tempo, a Morte, e o Sentido da Vida

[ Post publicado no Facebook em 15.1.2022. É republicado aqui com revisões — correções, alterações, acréscimos.

O endereço original, onde o post pode ser encontrado na versão original, não editada, é:

Comentário de Ney Mourão de 18.1.2022. O comentário pode ser lido, no original, em: 

https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10159536753822141?comment_id=10159541787102141 ]

o O o 

Já é dia 15.1. Basicamente, 1/24 de 2022 já se foi.

O Rubem Alves dizia que a gente não deveria medir quanto tempo já viveu mas tentar estimar quanto tempo ainda temos para viver. Se nossa idade fosse medida assim, ficaríamos com menos tempo de vida a cada dia, até que ele chegasse a zero, e nós iríamos embora. Ele já foi embora. Vai fazer 8 anos este ano de 2022. O tempo passa, como dizia Fiori Gigliotti, locutor de esportes da Rádio Bandeirantes. Ele se referia do tempo de jogo. Mas junto com o tempo de jogo vão todos os outros tempos, inclusive o da nossa vida.

Mas prever o tempo que nos resta, como sugere o Rubem Alves é algo difícil — quiçá impossível. E mesmo que possível, seria arriscado. Você pode ter 18 anos e imaginar que tem a vida toda pela frente e morrer amanhã. Ou você pode ser enfartado e ter 78 anos, como eu, e imaginar (com base no cálculo de probabilidades) que tem no máximo mais uns 7 anos de vida pela frente — até 85, digamos. E acabar vivendo, como dois grandes amigos que eu tenho, Martha Faustini e Olson Pemberton, mais de 100 anos. Tenho dois amigos, de longa data, que são centenários. 

Eu, nos últimos dias, tenho estado a reler Karl Popper e a escrever sobre temas popperianos, porque participei de uma reunião online (de 24 horas de duração) sobre Popper.

O querido mestre, que morreu com 92 anos, recebeu vários Festschriften (Volumes Festivos ou Comemorativos), editados por seus amigos por ocasião de seus aniversários “redondos”, começando com o de 60 anos e indo até o de 90. Descobri, no processo, que duas pessoas que eram parte do círculo de amizades de Popper, Mario Bunge (nascido na Argentina) e Hans Albert (nascido na Alemanha) viveram até 100 anos (não foram adiante: morreram com 100 anos exatos) e estão no grupo seleto de acadêmicos que recebeu um Festschriften Centenário. Um privilégio. Aqui no Brasil não temos o costume de editar Festschriften para as pessoas comemorarem marcos especiais de sua vida (os anos redondos, a cada 10 anos, por exemplo, a partir dos 60), à medida que seus anos passam.

Popper, em um de seus livros, diz que o que dá sentido à vida é o fato de que ela é finita (chega uma hora ela acaba) e precária (a gente leva um tombo no chuveiro, bate a cabeça na parede, e tchau e bênção: a vida da gente acabou). Tive um colega meu no Seminário de Pittsburgh que, um pouquinho mais velho do que eu, morreu com 34 anos. Não caiu no banheiro, mas apareceu de repente um tumor no cérebro dele que o levou em poucas semanas. Deixou mulher e um filhinho pequeno. 34 anos. Já escrevi aqui neste blog e em outros sobre a finitude e a precariedade da vida citando essa passagem de Popper — várias vezes. Eis os posts: 

“O Sentido da Vida”, no blog Liberal Space, em 30.08.2008, no endereço: https://liberal.space/2008/08/30/o-sentido-da-vida/ 

“O Sentido da Vida”, no blog Karl Popper Space, em 3.3.2018, no endereço: https://karlpopper.space/2018/03/03/o-sentido-da-vida/

“O Sentido da Vida — Uma Atualização”, neste blog Chaves Space, em 6.9.2019, no endereço https://chaves.space/2019/09/06/o-sentido-da-vida-uma-atualizacao/

“Gratidão e o Sentido da Vida”, neste blog Chaves Space, em 18.7.2021, no endereço https://chaves.space/2021/07/18/gratidao-e-o-sentido-da-vida/ [5 meses atrás]

E agora este artigo, o quinto sobre o mesmo tema — evidentemente, com repetições e sobreposições, mas sempre com alguma coisinha nova: 

“A Passagem do Tempo, a Morte, e o Sentido da Vida”, neste blog Chaves Space, em 18.1.2022, no endereço https://chaves.space/2022/01/18/a-passagem-do-tempo-a- morte-e-o-sentido-da-vida/

Mas voltemos a Popper. Se nossa vida fosse eterna, sua precariedade seria resolvida — mas seu sentido seria removido. Você não precisaria fazer escolhas, selecionar um projeto de vida, definir prioridades, porque você poderia fazer tudo e qualquer coisa, por mais arriscada que fosse a atividade (da nossa perspectiva) — sendo eterna a nossa vida não haveria risco de perdê-la, mesmo fazendo as maiores loucuras (como dirigir um caro de Formula 1 em Interlagos a 500 km/h ou uma Ferrari na Av. 23 de Maio em São Paulo a 180 km/h). É a possibilidade de perder a vida a qualquer hora, e, com certeza, em algum momento, no estado atual do conhecimento e da tecnologia médica, por volta de no máximo uns cento e poucos anos (já foi 40 ou 50 anos), que torna a vida importante e preciosa: a gente vai perdê-la e pode perdê-la a qualquer momento. É isso que nos obriga a fazer escolhas, tomar decisões, selecionar projetos de vida, administrar prioridades e outros recursos, cuidar do corpo e da alma, não arriscar demais, não abusar da sorte… (ou da bondade e da providência divina).

Desde que comecei a escrever este post já passou mais meia hora. E de meia hora em meia hora daqui a pouco é dia 16.1, daqui mais um pouco é Fevereiro.2022, daqui mais um pouco é Janeiro.2023… Ano em que, se eu ainda estiver vivo, farei 80 anos, no dia 7.9. 

O que somos nós para que de nós te lembres de nós e nos mantenhas vivos, pergunta, com outras palavras, um dos autores da Bíblia… Por que tantos outros, tão bons quanto nós, ou melhores, foram levados mais cedo, alguns cedo demais? Por que a tão poucos é dado chegar aos 100 anos com saúde física, mente sã e lúcida e disposição e gosto de viver?

Para refletir um pouco.

o O o 

PS: Transcrevo, aqui, com a autorização do autor, um comentário de Ney Mourão ao post publicado no Facebook: 

Ney Mourão:

“ Estas reflexões são inevitáveis para quem, como eu, foi desenganado tantas vezes, já esteve próximo da morte outras tantas, já vivenciou uma Experiência de Quase Morte. Tenho aprendido o real sentido do Carpe Diem, vivendo o paradoxo de não querer fazer planos a longo prazo mas ao mesmo tempo vibrando uma esperança gigantesca que me faz, por exemplo, adquirir ingressos para um evento em março. Tudo tem um sentido efêmero, e tudo passa a ser imensamente relevante. Tenho dito que a iminência da morte tem dado sentido à minha vida. “

Inspiradora a coragem, a fortitude, a fé do Ney. 

Em Salto, 18 de Janeiro de 2022. 



Categories: Morte

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