Uma das primeiras coisas que alguém que começa a estudar Filosofia aprende é que, para filosofar, é preciso sempre fazer distinções. Filosofia, diziam os gregos que inventaram a coisa no milênio anterior ao do nascimento de Jesus de Nazaré, é “amor à sabedoria”. Amar a sabedoria, almejar alcançá-la, esforçar-se para consegui-la são atitudes e decisões que implicam aprender a fazer distinções. Sempre.
Mesmo nas cinco linhas que eu escrevi até agora, há necessidade de enfatizar algumas distinções importantes. Uma delas é a seguinte:
- Amar a sabedoria é uma coisa, que envolve apenas valor e sentimento (plano da emoção);
- Almejar alcançá-la é outra coisa, que envolve desejo e vontade (plano da motivação);
- Conseguir alcançá-la é ainda outra coisa, que envolve ação e empreendimento (plano da ação);
- Por a sabedoria alcançada em prática é uma quarta coisa, que envolve definir os objetivos de longo prazo a alcançar (plano de resultados).
Parece de pouca valia você amar a sabedoria, almejar alcançá-la, conseguir alcançá-la… mas não colocar sua sabedoria em prática, não vivenciar, diariamente, essa sabedoria que você alcançou, tanto em sua vida pessoal, como em sua vida familiar, em sua vida profissional, em sua vida social, em sua vida pública (se você a tiver). Não colocar em prática a sabedoria alcançada parece, com vistas à atenção de objetivos de longo prazo, além de um desperdício do seu tempo e do seu investimento intelectual, parece um contrassenso. Por quê? Porque a finalidade de amar a sabedoria, buscá-la, e alcançá-la é exatamente lhe dar condições de viver a sua vida de forma consciente e examinada, a vida que você, livre e autonomamente, escolheu para você, focada em objetivos, centrada em propósitos, organizada em projetos e planos, enfim, uma vida bem-vivida e realizada, intencional e objetivamente construída. A estratégia de “deixe a vida me levar, vida leva eu”, além de ser expressa em um Português de doer os ouvidos, não é uma estratégia filosófica. Nesta você, consciente e intencionalmente, conduz a sua vida para onde você quer, depois de refletir muito sobre para onde vale a pena levar a sua vida.
Isto posto, vou mudar de assunto por um momento.
1. Um Primeiro Contexto
Imagine que você é um adulto, e alguém chega até você, talvez perto da época do Natal, em um Shopping Center enorme, como o Shopping Dom Pedro, em Campinas, e lhe pergunta:
“Você acredita em Papai Noel?”
Se você responder “Claro que não, olhe para minha cara, sujeito!”, a resposta, embora meio mal-educada, não deixa de ser adequada, caso você não acredite mesmo em Papai Noel, mas ela mostra que você, além de mal-educado, não tem o menor senso de humor…
Se você responder “Claro que sim, acabei de ver um na entrada do Shopping”, a resposta também é adequada e acrescenta uma pitada de bom humor saudável. Se fosse eu a responder à pergunta, poderia acrescentar: “Além disso, meu primo Élcio é o Papai Noel mais famoso de Londrina – ganha uma grana sendo…” E este complemento seria totalmente verdadeiro.
Eu poderia responder também de outro jeito. Poderia dizer “Claro que sim, já estive na Laplândia, no extremo Norte da Finlândia, já dentro do Círculo Ártico, onde o Papai Noel mora, durante o ano inteiro, onde ele tem, além de sua casa, uma fábrica de brinquedos, que eu até tive o privilégio de visitar! O Papai Noel me recebeu, foi muito gentil. Só que ele usava uma roupa cinza claro, não a tradicional vestimenta vermelha”. Essa resposta também seria totalmente verdadeira. Se eu acrescentasse “E eu até comprei uma réplica dele e trouxe para casa para enfeitar minha lareira no Natal”, esse complemento também seria verdadeiro.
Se alguém tivesse me perguntado se eu acreditava em Papai Noel quando eu tinha cinco anos e morava em Maringá, no Paraná, eu, um piá vivo e precoce, provavelmente teria lhe respondido: “Claro que eu acredito: ele é o meu pai! No último Natal, eu fingi que estava dormindo e vi o meu pai entrar de mansinho no quarto e colocar os presentes que eu havia pedido (uma bola e uma piorra) ao lado dos meus sapatos, no pé da cama…” – e essa resposta também seria verdadeira.
Para evitar essa confusão toda, se você for um filósofo e alguém lhe perguntar se você acredita em Papai Noel, o mais indicado será responder “Bem, depende do sentido do termo ‘Papai Noel’ que você tenha em mente…“
Se o seu conceito de Papai Noel for o do velhinho, que, na véspera do Natal, à noite, entrega a todas as crianças do mundo (do mundo cristão, pelo menos) um presente de Natal, quase simultaneamente viajando por esse mundo inteiro em um trenó, puxado por renas, auxiliado por algumas ajudantes, digamos, muito simpáticas, e que desce nas casas das crianças pela chaminé, nunca sendo apanhado ou mesmo visto, então a resposta é uma: Nesse Papai Noel eu não acredito! Acreditei nele por algum tempo, mas aos cinco anos abandonei a minha crença.
Se o seu conceito de Papai Noel, porém, for o de que, em quase todo o mundo cristão, hoje, há pessoas que, em vez de simplesmente dar um presente para as crianças no Natal, dizendo “Tá aqui o seu presente de Natal, tá aqui o seu Papai Noel”, preferem alimentar a fantasia crédula das crianças (que mal há?) e exercem o papel de Papai Noel para seus filhos, para os filhos dos outros, que, talvez, não tenham pai, para aqueles cujo pai não tem dinheiro sobrando para comprar presentes de Natal… Há outros que usam a ocasião para alegrar a vida das crianças nos shoppings, posando de Papel Noel com as crianças ao lado, para que os pais tirem uma fotografia delas com o Papai Noel, guardando-a para a posteridade, e, assim, estendendo sua fantasia crédula por algum tempo. Neste caso a minha resposta é outra: Nesses Papais Noéis eu certamente acredito, sim!
É preciso fazer distinções, e, daí, quando elas são bem-feitas, fica bem mais fácil responder às perguntas dos outros. Mas, é forçoso reconhecer, as respostas podem perder um pouco a graça e você pode vir a ser considerado um cara um pouco chato.
Ficou claro que há Papais Noéis e Papais Noéis. Em alguns a gente deixar de acreditar assim que começa a pensar por si próprio. Em outros a gente continua a acreditar, sem problema.
2. Um Segundo Contexto
E agora? E se alguém lhe perguntar se você acredita em deus?
Se você simplesmente responder simplesmente “Sim” ou “Não”, você não entendeu o espírito da coisa – você não é filósofo. O mínimo que se espera de quem recebe uma pergunta dessas é retrucar: “Bem, depende do sentido do termo ‘deus’ que você tenha em mente… Em alguns dos diversos sentidos do termo, eu certamente não acredito. Em outros, acredito sim! Em que sentido você está usando o termo?“
Se quem lhe dirigiu a pergunta ficar meio irritado, é compreensível: ele provavelmente não está acostumado a conviver com filósofos, ainda que amadores ou leigos, sem um Carteira Nacional de Filósofo… Pode ser que ele diga: “O Único, uai, o deus Verdadeiro, o deus da Bíblia…” Se ele respondeu assim, ele complicou terrivelmente a discussão, bagunçando o coreto, em vez de contribuir para o esclarecimento da questão.
Na Igreja e em cursos de Teologia meio chinfrins, ensina-se:
- o Judaísmo foi a primeira religião do mundo a adotar o Monoteísmo: a tese de que existe apenas um único deus, que foi ele que criou o mundo, que, sem ele, nada do que existe existiria ou teria existido, e que é eterno, imaterial, onipotente, onisciente, perfeitamente bom, etc.;
- esse é o deus que Jesus reconhecia, que chamava de Pai, e esse é o deus que o Cristianismo aceita, com uma sofisticação extra: Ele é triúno, ou trino, composto do deus Pai (o original), do deus Filho (que seria Jesus Cristo), e do Espírito Santo (que teria emanado dos dois primeiros), embora essas inovações só tenham surgido no século 4 dC, com os primeiros Congressos Ecumênicos.
Acontece que hoje há estudiosos de primeira grandeza que afirmam que a religião apresentada no Velho Testamento, e que veio a se tornar o que hoje chamamos de Judaísmo, originalmente, era politeísta, depois passou a ser henoteísta, e só bem depois, após os cativeiros do povo de Israel, bem depois da instituição da monarquia, se tornou realmente monoteísta. Qual a diferença entre essas três posições?
O politeísta reconhece a existência de vários deuses e adora a todos eles, conforme isso se mostre conveniente ou necessário. Se é deus, não há problema algum em adorar. O deus do vizinho está lhe dando uma colheita bem melhor do que o meu está dando a mim, e um rebanho bem mais forte e gordo do que o meu está me dando, então vou adorar o deus dele – também: que problema há em adorar os dois? No Velho Testamento até os próprios israelitas descambavam, de vez em quando, e passavam a adorar outros deuses (como Baal, mais de uma vez; mas vide também a história do bezerro de outro no deserto, e dê-se ao trabalho de procurar outras confirmações).
O henoteísta reconhece a existência de vários deuses mas, por alguma razão, resolve se comprometer e aliar com um deles, que passa a ser considerado maior ou melhor do que os outros, ou porque é o seu, isto é, foi escolhido por você, ou, possivelmente, porque ele teria escolhido e eleito você… O pacto de deus com Abrahão parece ser desse tipo. (Quando você escolhe uma pessoa é fácil se deixar iludir e acreditar que foi a pessoa que escolheu você por causa de sua aparência, de suas boas qualidades, de seu dotes: isso faz bem ao seu orgulho próprio). O primeiro dos Dez Mandamentos parece revelar uma situação assim, quando afirma: “Não terás outros deuses diante de mim”. Esse mandamento parece, inegavelmente, reconhecer que existem outros deuses. Caso contrário deus deveria ter dito algo assim. “Como vocês e todo mundo sabe, eu sou o único deus que existe, então, ou vocês me adoram, ou vão se danar, tendo de se virar sem deus algum.” Há muitos outros exemplos no Velho Testamento de situações semelhantes.
O monoteísmo reconhece a existência de um só deus. Os monoteístas nem cogitam da existência de outros deuses que possam vir a ser comparados, ou podem vir a competir, com o único deus, que é o que você adora. Os demais pretendentes à divindade não passam de falsos deuses, “fake gods“. Quem for atrás deles é idólatra, perde o seu tempo e pode se dar mal no longo prazo (tipo, depois da morte, na eternidade).
Os judeus e cristãos mais ortodoxos admitem que pode parecer que os israelitas adoraram, em momentos de fraqueza, diversos outros deuses, mas afirmam que existe apenas um só deus, ao qual os israelitas se dirigem ou se referem por diversos nomes ou títulos…
Vou dar alguns exemplos (que eu obtive junto ao Copiloto, o assistente de Inteligência Artificial das plataformas da Microsoft):
📜 Principais nomes e títulos de deus no Velho Testamento
1. YHWH (יהוה) (tudo em maiúsculas)
Este é o nome pessoal, por assim dizer, do deus dos Israelitas.
Tradução comum: SENHOR (geralmente todas as letras em maiúsculas).
Sentido: “Aquele que é / Aquele que faz ser”, “Eu sou o que sou”.
Base: Êxodo 3:14–15.
Observação: Esse é o chamado Tetragrama; sua pronúncia original se perdeu. Formas posteriores incluem Yahweh e, na tradição cristã medieval, Jeová.
2. El (אֵל)
Uma forma mais simples e familiar de se referir a deus.
Tradução comum: deus.
Sentido: Aquele que tem força e poder.
Observação: Uso comumente feito em poesia e em nomes compostos (El Elyon, El Shaddai etc. El Shaddai talvez seja o nome composto mais conhecido e ainda usado, se não para interagir com deus, pelo menos para dar nomes a conjuntos musicais, livrarias, etc.)
3. Elohim (אֱלֹהִים)
Uma forma supostamente mais solene de se referir a El, usando o plural (como quando majestades usam o plural majestático). Elohim é o plural de El.
Tradução: deus – no singular (apesar de o termo estar no plural).
Sentido: Ser divino supremo; o poder criador, a força maior, o todo-poderoso.
Observação: Usado em Gênesis, capítulo 1, por inteiro.
Nota: Embora plural na forma, este substantivo rege verbos no singular, quando se refere ao deus de Israel.
🌟 Nomes Compostos com “El”
Nome Hebraico Significado Referência
El Elyon אֵל עֶלְיוֹן deus Altíssimo Gn 14:18–20
El Shaddai אֵל שַׁדַּי deus Todo-Poderoso Gn 17:1
El Olam אֵל עוֹלָם deus Eterno Gn 21:33
El Roi אֵל רֳאִי deus que vê Gn 16:13
El Berit אֵל בְּרִית deus da Aliança Jz 9:46
🌟 Nomes Compostos com “YHWH”
Nome Hebraico Significado Referência
YHWH Jireh יהוה יִרְאֶה O SENHOR proverá Gn 22:14
YHWH Nissi יהוה נִסִּי OSENHOR é minha bandeira Ex 17:15
YHWH Rapha יהוה רֹפְאֶךָ O SENHOR que te cura Ex 15:26
YHWH Shalom יהוה שָׁלוֹם O SENHOR é paz Jz 6:24
YHWH Sabaoth יהוה צְבָאוֹת O SENHOR dos Exércitos 1Sm 1:3
YHWH Ra‘ah יהוה רֹעִי O SENHOR é meu pastor Sl 23:1
YHWH Tsidkenu יהוה צִדְקֵנוּ O SENHOR é nossa justiça Jr 23:6
YHWH Shammah יהוה שָׁמָּה O SENHOR está ali Ez 48:35
🌟 Títulos Teológicos Adicionais
Título Hebraico Sentido Referência
Adonai אֲדֹנָי Senhor, Mestre Sl 8:1
HaShem הַשֵּׁם “O Nome”, para, em reverência, não usar YHWH
Melech מֶלֶךְ Rei Sl 47:2
Go’el גֹּאֵל Redentor Is 41:14
Kadosh Israel קְדוֹשׁ יִשְׂרָאֵל O Santo de Israel Is 1:4
Ab (Pai) אָב Pai (raro VT) Is 63:16
Tsur צוּר Rocha Dt 32:4
Shofet שֹׁפֵט Juiz Gn 18:25
PERGUNTA:
Para que tanto nome, nome composto, nome descritivo (quase apelido)? Fica a impressão que dizer que todos esses nomes se aplicam a uma entidade só é uma forma de tentar esconder o fato de que Israel, nos primeiros séculos de sua existência, era uma nação politeísta, ou, pelo menos, henoteísta (no sentido dado aos termos atrás), que interagia, e por vezes adorava, vários deuses.
Eis os dados de alguns livros que sugerem essa ideia:
Mark S. Smith, The Early History of God: Yahweh and Other Deities in Ancient Israel
Mark S. Smith, The Origins of Biblical Monotheism: Israel’s Polytheistic Background and the Ugaritic Texts
David Penchansky, Twilight of the Gods: Polytheism in the Hebrew Bible
John Day, Yahweh and the Gods and Goddesses of Canaan
Francesca Stavrakopoulou, God, an Anatomy
Francesca Stavrakopoulou, Land of our Fathers
Para concluir este artigo quero levantar um outro problema, este, a meu ver, mais sério.
3. Um Terceiro Contexto
Independente de os israelitas interagirem com vários deuses, e mesmo os adorarem, em momentos de fraqueza, ou de terem um deus só, ao qual, em um excesso de criatividade, eles davam diversos nomes ou apelidos diferentes, parece-me indiscutível que, no geral, o deus principal, o chamado deus de Abrahão, Isaque e Jacó, no Velho Testamento, é bem diferente do deus de Jesus de Nazaré, no Novo Testamento.
O deus do Velho Testamento é rei e majestade, soberano imponente, autoritário e prepotente, zeloso da sua reputação, ciumento, guerreiro e vingador, nem um pouco misericordioso, que arbitrariamente escolhe um povo (que nem existia ainda) e rejeita os demais, independentemente do que as pessoas que constituíam esses povos eram ou faziam, ou iriam ser ou vir a fazer, simplesmente porque essa é a decisão inquestionável de sua vontade soberana, que ele não admite que seja questionada…
Para o deus do Velho Testamento, não é importante determinar o que é moralmente certo, porque ele tem certeza de que aquilo que ele ordena é que é certo e deve ser feito. E aquilo que ele proíbe é errado e não deve ser feito. Por isso, na tomada de Canãa ele ordena aos israelitas que matem todo mundo, homens, mulheres e crianças, e ponto final. Nenhuma dor de consciência depois. As ações são certas ou erradas porque ele as determinou ou proibir – por nenhuma outra razão. Até quando uma mulher menstrua, e fica, segundo deus determina, impura (e transmite sua impureza para quem tocar nela), ela precisa oferecer a deus um sacrifício de alguns pássaros para satisfazer o sentimento de poder e superioridade de deus e ser “purificada” (purificada de quê, pergunte-se, do fato que seu corpo se comporta como deus o criou? Se o corpo dela funciona desse jeito, e isso é mau, a torna impura, e é uma condição que precisa ser expiada com sacrifícios, a culpa deveria ser exclusivamente dele).
O deus do Novo Testamento, que Jesus de Nazaré nos apresenta, é pai amoroso e magnânimo, que considera a todos os seres humanos seus filhos, e que está disposto a perdoá-los, quando eles deixam de revelar seu amor para com ele deixando de amar os seus irmãos… E de fato os perdoa, se eles simplesmente se arrependerem e pedirem perdão. Em Mateus 9:13 Jesus afirma que deus prioriza o amor, a compaixão e a misericórdia genuína em vez do cumprimento estrito de rituais religiosos ou leis vazias. “Misericórdia quero, não sacrifício”. Ou vide as parábolas do Bom Samaritano e do Fariseu e o Publicano. A mensagem é que a bondade para com o próximo é mais valiosa do que sacrifícios e outros rituais formais que eram comuns no Judaísmo.
Assim, quando alguém nos perguntar se acreditamos em deus, podemos retorquir indagando do interlocutor: Que deus, o de Abraão, Isaque e Jacó ou o deus de Jesus? O deus que mandava apedrejar mulheres adúlteras ou o deus que levou Jesus a dizer à mulher adúltera: “Os que condenavam você não estão mais aqui. E eu, que estou aqui ao seu lado, não condeno você. Vá, volte para sua casa e não faça mais isso…”
Entre esses dois, eu, certamente, tenho a minha preferência. E você?
4. Um Quarto Contexto (Para Concluir)
Mil e setecentos anos depois de Jesus, quando começava o século 18, o mundo ocidental foi confrontado com uma nova filosofia, racionalista, crítica, agnóstica, cética, até mesmo atéia. Viveu, especialmente na Europa (e, dentro da Europa, especialmente na Inglaterra, na França e na Alemanha, um período chamado de Iluminismo. O século é chamado de O Século das Luzes.
Neste século surgiu um grupo que se denominou “deísta”, para diferenciar dos cristãos tradicionais, que eles chamavam de “teístas”.
Qual a diferença entre os deístas e os teístas?
Para os teístas, o deus Bíblico, depois de ter criado o mundo, e lhe dado leis que regulam seu funcionamento, continuou a agir nele, revelando-se e se fazendo conhecido, basicamente de três formas:
- Em primeiro lugar, ordinariamente, através da operação do próprio universo que ele criou e do funcionamento do mundo natural de que somos parte, que operam e funcionam por meio processos naturais definidos nas chamadas leis da natureza ou leis naturais, que também foram criadas e são mantidas por ele;
- Em segundo lugar, também ordinariamente, através daquilo que ele faz na história e na vida dos indivíduos (e não só na natureza), supervisionando, coordenando ou mesmo dirigindo o curso regular de eventos históricos, nos quais os seres humanos operam como “meios”, “intermediários”, ou “instrumentos” da providência divina, de modo a fazer com que os objetivos divinos sejam sempre alcançados, até mesmo na nossa vida pessoal;
- Em terceiro lugar, agora extraordinariamente, através deportentos, prodígios e maravilhas que ele opera, fora dos processos e leis naturais, mas dentro da história e na vida dos seres humanos individuais, ou seja, através de seres humanos ou (supondo-se que eles de fato existem) através de seres espirituais (como anjos), como sinais para aqueles que creem nele, sinais esses aos quais se aplica o termo genérico “milagres”.
Para os deístas, deus, sendo perfeito, criou o mundo (que inclui os seres humanos), dotou esse mundo de leis naturais que regulam o seu funcionamento e o sustentam, dotando os seres humanos, que fazem parte desse mundo, de inteligência e razão, e, tendo feito isso, se afastou-se do mundo, para curtir a sua vida, passando a viver fora da máquina que ele havia criado.
Daí vem a expressão “deus ex Machina”. Essa expressão aponta para a tese de que deus, como um perfeito engenheiro, criou o mundo, que seria uma máquina extremamente complexa, com inúmeras partes diferentes, mas que funciona de forma regrada e ordenada, por incorporar princípios e leis que lhe permitem funcionar por si própria. Depois de ter recebido a partida, por assim dizer, dada por seu criador, o mundo não carece mais da ação do divino engenheiro que o criou, e que agora se mantem fora dele, não tendo mais necessidade, nem propensão, de intervir nele, alterando e ajustando o seu funcionamento. Intervenções desse tipo, como milagres e atendimento de orações, provariam que deus criou um mundo que precisa a todo mundo ser ajustado… Isto é, um mundo “menos do que perfeito”. Mas de deus os deístas esperavam um mundo “mais do que perfeito”…
Os deístas, assim, “acreditam na existência de (um) deus, que criou o mundo e exerce a sua providência através das leis que ele criou para regular o comportamento da natureza, rejeitando a tese de que deus tenha também se revelado através de revelações ou por qualquer outra maneira que não a luz da razão que ele nos deu para encontrá-lo no universo”, diz um conhecido autor. Continua ele: “Mais especificamente, eles acham que existe uma religião natural, que não é institucional, nem sacerdotal, nem possui rituais, e que se baseia exclusivamente em argumentos racionais, como o do desígnio e da ordem, ou da primeira causa, que apontam para ele, rejeitando qualquer apelo a profecias e milagres”. O autor em questão é J. C. A. Gaskin, Hume’s Philosophy of Religion (2nd Edition, Macmillan Press, London, 1988, 1st Edition de 1978)
Para concluir, as alternativas não são apenas “o deus de Abrahão, Isaque e Jacó” e “o deus de Jesus de Nazaré”. Há também “o deus dos deístas” – e muitos outros.
Foi por isso que, em um artigo recente, publicado neste mesmo blog, eu defendi a tese de que, em um mundo em que há tantos deuses, é difícil ser ateu e rejeitar a todos os deus que circulam por aí… Sempre há um ou outro com o qual é possível conviver bem. Como eu disse atrás, convivo bem com o deus de Jesus de Nazaré. Não convivo nada bem com o deus de Abrahão, Isaque, Jacó e com o deus raivoso dos profetas do Velho Testamento, nem com o deus de Paulo de Tarso (que não deixa as mulheres abrirem a boca na igreja), nem com o deus de Agostinho de Hipona, nem com o deus de João Calvino, de Genebra. Convivo razoavelmente bem com o deus de Tomás de Aquino da Summa Contra Gentiles e com o deus dos deístas…
Para os deístas, Deus ao criar o mundo e nele o ser humano, dotou o ser humano da capacidade de descobrir, pelo uso de sua inteligência, de sua razão, e, por que não, dos seus sentimentos, através de nossa consciência, o que é moralmente certo e o que é moralmente errado. O moralmente certo e o moralmente errado não dependem de uma decisão de Deus ad casum, caso a caso. Os princípios que regulam a moralidade estão gravados na natureza que o Deus criador houve por bem nos dar. São universais.
É por isso que a moralidade e a religião andam juntas.
É isso.
Em Salto, 8 de Fevereiro de 2026
Eduardo CHAVES
Categories: Liberalism
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