Vagabundagem, Bagunça e Inovação

Retomo, a seguir, dois artigos que publiquei no meu blog Liberal Space, sobre, em parte, o tema que dá título a esta nota: Vagabundagem, Ócio, Bagunça, Indisciplina. Nos dois artigos não tratei do tema Inovação. Eles foram publicados em 30 de Janeiro de 2011 e 18 de Novembro de 2012. Eis sua localização, em ordem invertida (considero o segundo artigo, de 2012, mais interessante) para quem queira se aprofundar no tema:

Vagabundagem e Bagunça

Uma Apologia da Vagabundagem e da Indisciplina

Começo com o tema Inovação.

Ontem à noite estava lendo um livrinho chamado The Myths of Innovation, de Scott Berkun. Numa determinada altura ele relata que Steve Jobs, uma vez, foi entrevistado por um jornalista da revista de negócios Business Week (como bom autor, Berkun revela a fonte: (http://www.businessweek.com/magazine/content/04_41/b3903408.htm), que pergunta a Jobs como é que se sistematiza o processo necessário para produzir (tanta!) inovação (na Apple, na Pixar, e na NeXT).

Jobs, para variar, foi curto e grosso: “You don’t“.

Em suma, não existe um “Passo-a-Passo” para produzir inovações, por que esta depende de criatividade e inteligência, e aqui vem os princípios expostos nos meus artigos de 2011-2012:

  1. não há receita para a criatividade, por que esta, para prosperar, precisa de uma grande dose de desordem, de bagunça, de improvisação e até mesmo de indisciplina;
  2. a inteligência, para prosperar, precisa, acima de tudo, de talento, de liberdade e de tempo, isto é, de gente brilhante vagabundeando.

Em outro delicioso livro que estava lendo ontem à noite, The Diffusion of Innovations, de Everett M. Rogers, o autor sai um pouco do tema principal do livro, que é uma brilhante abordagem a como inovações se esparramam (ou, em muitos casos, deixam de produzir contágio) para discutir como são os ambientes em que elas prosperam e como elas surgem nesses ambientes. Provavelmente muitos dos que me leem estão familiarizados com relatos com os ambientes de trabalho (?) na Microsoft e, principalmente, no Google, em especial se comparados ao tradicional ambiente de trabalho na IBM. Esta nasceu em 1911, em Endicott, NY, com o nome de Computing-Tabulating-Recording Company; a Microsoft em 1975, já com o nome de Microsoft Corp; e o Google em 1998, com esse nome esquisito. Na primeira, que virou, em 1924, depois de já ter uma filial no Brasil, International Business Machines, o ambiente de trabalho era severo e bem comportado: nele executivos, engenheiros e técnicos, indistintamente, usavam ternos azuis escuros, com leves marcas de gis na vertical, camisas azuis clarinhas, gravatas sóbrias e discretas. Nas outras duas, o traje a rigor era mais para o jeans, ou até mesmo a bermuda, a camiseta, quem sabe um boné (mesmo que virado para trás). O horário, na IBM, nine to five. Nas outras duas, flex time. Cansei de ver gente dormindo em sua sala na Microsoft, sem esconder, com a porta aberta, porque lá se sabe que gênio cansado e com sono não produz bem. Se, em vez de uma soneca, o gênio preferia sacudir a preguiça na piscina, na quadra ou na academia de ginástica, bastava chamar um carro da companhia e este o levaria aonde desejasse, por uma meia hora, ou por quanto tempo quiser, para esticar o corpo.

Mas Rogers relata um caso muito interessante (e até bastante bem conhecido): o do Xerox PARC (Palo Alto Research Center), em, naturalmente, Palo Alto, CA. É um causo impressionante.

Na década de 60 a Xerox Corporation era uma empresa já velha, de razoável visão, à procura de produtos inovadores com os quais ganhar market share em um mundo que mudava de cara na sua frente. A Xerox havia sido fundada cinco anos antes da IBM, em 1906, em Rochester, NY (cidade em que, em 1888, surgiu a gigante da fotografia, Eastman Kodak — tudo no Estado de New York, mas não na cidade). Talvez esse fato explique porque a Xerox nasceu em Rochester. De qualquer maneira, o nome de batismo da Xerox incluía o termo “photographic”: era o horroroso nome de The Haloid Photographic Company. Por pouco a gente não fala em tirar um halóide em vez de um xerox. Halóide pelo menos rima com os refrestancantes altóides. Mas na década de 60 os headquarters da Halóide / Xerox e seus laboratórios haviam feito um upgrade e estavam na Nova Inglaterra. A cultura empresarial da Xerox era parecida com a da IBM: terno escuro, camisa clara, e gravata sóbria e discreta.

Mas alguém com muito poder na área de pesquisa e desenvolvimento dentro da empresa e um bocado de inteligência e loucura na cabeça, chamado Jacob E. “Jack” Goldman (será que era judeu?), com o título imponente de “Xerox Corporation’s chief scientist”, resolveu criar, em 1970, lá do outro lado do mundo, onde estava sendo criado o Vale do Silício, mais precisamente, em Palo Alto, o Xerox Palo Alto Research Center — Xerox PARC (notem só a sugestão contida no nome: PARC = Park! O Xerox PARC era para ser um Kindergarten Park — só que para adultos: para cientistas que, talvez, não tiveram infância!). Para isso arrumou uma tonelada de dinheiro e outro tanto de liberdade de ação (algo raro dentro da conservadora Xerox.)

Mudamos do Nordeste para o Sudoeste dos Estados Unidos. Lá, o clima é outro… Palo Alto é o local da sede da célebre e celebrada Stanford University, junto à qual existia (na cidade próxima de Menlo Park, CA) o celebérrimo Stanford Research Institute (SRI), criado em 1946, inicialmente vinculado à Universidade, mas que depois se tornou independente em 1970 (olhem a coincidência nas datas) com o nome de SRI International. [Até eu, em 1972, fui morar na Califórnia — mas do outro lado da Baía de San Francisco: o lado Norte, onde fica a Universidade de Berkeley; Stanford e o Vale do Silício ficam do lado Sul da Baía.]

No SRI trabalhava uma pessoa fenomenal chamada Douglas Engelbart (Douglas Barba de Anjo!), que havia reunido ao seu redor um grupo enorme de pessoas brilhantes e inovadoras. Dele se diz que “tudo“, nada menos do que tudo, na Revolução da Informática que começou nos anos 60 e prosperou nos anos 70 e 80, começou com ele, “Douglas Engelbart”. Vale a pena ler sua história no livro escrito por outro doido, Howard Rheingold, Tools for Thought: The History and Future of Mind-Expanding Technology”. Eu menciono essa história na Introdução do meu livro recente, uma coletânea de artigos sobre Educação e Tecnologia, com o título Quarenta Anos de Mudanças na Educação e na Tecnologia: Vol. 1 (1978-1992), publicado pela Amazon, em formato Kindle.

Engelbart era um engenheiro que não gostava de números — gostava de imagens (que são objeto da arte!); um pacifista que não gostava do fato de que computadores tivessem sido inventados como parte de um esforço de guerra e eram usados apenas como enormes calculadoras para determinar a trajetória de mísseis e outros instrumentos balísticos destinados à destruição; um visionário que imaginava que os computadores dos engenheiros poderiam ser transformados em ferramentas de pessoas leigas em computação para aumentar e estender o poder da mente humana de fazer bem, resolvendo os sérios problemas que desafiavam a mente humana desassistida pela tecnologia… Problemas se resolvem conversando, discutindo, colaborando. Para que o computador pudesse se tornar um resolvedor de problemas ele teria de, antes, ser transformado de uma calculadora em uma comunicadora…

Foi assim que nasceu a interligação, primeiro de computadores individuais em rede, depois de redes em redes maiores e mais complexas, até a Rede das Redes, a Internet, que surgiu em 1969 — e Engelbart é considerado um de seus pais! Mas ele foi além, e de seu trabalho surgiram as Interfaces Gráficas com o Usuário (Graphical User Interfaces – GUI), cheias de ícones gráficos (icons), pelos quais o usuário navega através de um mouse (também inventado por Engelbart), mediante clicks que abriam janelas (windows) na tela, janelas que tinham menus que abriam na tela, em uma lista descendente de opções (dropdown menus), ou que saltavam na tela com alternativas ou explicações (pop-up menus), etc. Além de ter sido o pai da Internet, Engelbart é pai de tudo isso, que foi criado, na década de 1960, em seu Augmentation Research Center – ARC (Centro de Pesquisa em Ampliação [da Mente e dos Sentidos Humanos]), que ficava dentro do SRI. E tudo isso permitiu a concomitante ou consequente digitalização do som e da imagem que tornou possível a Multimídia, a TV Digital e Interativa… O resto é jornalismo — que é a primeira versão da história contemporânea…

(Esses desenvolvimentos são narrados em dois livros meus. O primeiro, Informática: Micro Revelações, de 1985, e o segundo, Multimídia: Conceituação, Aplicações e Tecnologias, de 1992. Os dois livros estão esgotados, primeiro depois de ter chegado a dez edições e se tornar best-seller por várias semanas no ranking da Folha de Informática na década de 1980. Mas eles ainda podem ser encontrados em sebos, em especial no Estante Virtual. Mas publiquei, recentemente, uma edição de valor histórico do primeiro, sem fotos, imagens e gráficos, na Amazon, no formato Kindle — com o mesmo título do livro original)… E, quem sabe, ainda publique uma edição semelhante do Multimídia, o primeiro livro sobre o assunto. Um filósofo escrevendo sobre coisas de engenheiro…)

Jack Goldman, o principal cientista da Xerox, não criou o Xerox PARC bem ali, em Palo Alto, do lado de Stanford e do SRI, por acaso… Ele queria que as pesquisas da Xerox fossem contaminadas por aquele ambiente recheado de inovações. Ele escolheu para dirigir o Xerox PARC um outro doido: Robert Taylor (mesmo nome do artista de cinema), um gerente laissez-faire, que convivia com bagunça e até com indisciplina, com gente que parava de trabalhar e ia jogar uma partida de vôlei no meio do expediente, que instalou uma enorme sala de reuniões cheia de almofadas, cadeiras reclináveis (loungers, onde dá para cochilar), cheia de refrigerantes e guloseimas… E, além de tudo, disposto a roubar gente do SRI. Não conseguiu roubar Engelbart, mas levou vários de seus colaboradores.

Com eles, o Xerox PARC inventou um microcomputador com tela gráfica, o ALTO, aproveitando todas as invenções de Engelbart (interface gráfica, janelas, mouse, estrutura de menus), a metáfora do desktop (a tela do computador como se fosse o topo de uma escrivaninha), a programação orientada por objeto, a ideia de papel eletrônico, copiadoras, impressoras a laser…

Foi dali que Steve Jobs pegou as ideias para o Lisa e para o Macintosh. Foi ali que Bill Gates pegou as ideias para a Microsoft Windows. A Apple processou a Microsoft por plágio ou roubo de ideias e concepções. Perdeu. A Microsoft provou que não tinha roubado as ideias e concepções da Apple, mas sim da mesma fonte na qual a Apple havia bebido… Isso é história e é fato, não é só causo.

Mas por que é que foram a Apple e a Microsoft que carregaram os louros do sucesso, e não a Xerox? Porque os executivos da Xerox, lá da Nova Inglaterra, primeiro de tudo, achavam que o negócio da companhia era imagem, era fotografia, era copiadora, era, no máximo, impressora. Computador, não! A Xerox não patenteou nada a não ser as tecnologias e imagem digital (digital imaging). O resto ela deixou que a Apple e a Microsoft levassem de graça, sem processo, sem royalties, sem mesmo uma parceriazinha…

Segundo de tudo, os circunspectos e fleugmáticos executivos da Nova Inglaterra não gostavam da atmosfera de liberdade, do clima de bagunça e vagabundagem, do jogo misturado com o trabalho… A Apple e a Microsoft gostavam — porque sabiam que essa atmosfera e esse clima, que essa filosofia de que trabalho e jogo se misturam ao ponto de você não ter mais certeza se trabalho é sério e jogo é brincadeira, ou vice-versa, tudo isso desperta a criatividade, agita a inteligência, fomenta a inovação…

Uma palavra sobre a educação, para concluir, que cito de um dos meus dois artigos mencionados no início (o de 2011).

“Conclamo todos nós a defender as bandeiras da vagabundagem que faz a inteligência progredir e prosperar e da indisciplina que permite que a criatividade e a inovação emerjam e prosperem.

Não quero uma educação à la chinesa, nem mesmo à la coreana ou à la finlandesa. Quero uma educação que permita que a inteligência e à criatividade prosperem. E, para isso, não tenho dúvida, precisamos de tempo livro, de ócio, de vagabundagem, de conversa jogada fora, de ausência de rigidez, de flexibilidade, de improvisação (nisto somos bons!), de não levar muito a sério os planejamentos e as regras, que foram criados para nos ajudar e não para nos cercear e amarrar.

Há uns meses, numa palestra para a Rede Pitágoras, em Belo Horizonte, elogiei o Bill Gates e o Mark Zuckerberg por terem abandonado Harvard – a melhor universidade do mundo em todos os rankings – para poderem se tornar o enorme sucesso que são, mudando a vida deles e a nossa, para melhor.

É isso. Este é o meu principal sermão de hoje cedo.”

Quem quiser ler mais sobre assunto, aqui está uma pequena bibliografia (da qual eu, felizmente, tenho todos os livros na minha biblioteca, aqui do meu lado) — quase todos os livros podem ser comprados como e-book Kindle na Amazon:

Everett M. Rogers, The Diffusion of Innovations [5a edição, 2003, livro já mencionado no texto]

Howard Rheingold, Tools for Thought: The History and Future of Mind-Expanding Technology [1985, 2000, 1a e 2a edição, livro já mencionado no texto]

Michael Swayne & Paul Freiberger: Fire in the Valley: The Making of the Personal Computer [1984 e 2000, 1a e 2a edição; a 3a edição, de 2014, tem o subtítulo alterado: Fire in the Valley: The Birth and Death of the Personal Computer].

Tom Forester, High-Tech Society: The Story of the Information Technology Revolution [1985].

Adam Fisher, Valley of Genius: The Uncensored History of Silicon Valley (As Told by the Hackers, Founders and Freaks Who Made It Boom) [2018].

Michael Hiltzik, Dealers of Lightning: Xerox PARC and the Dawn of the Computer Age [2009]

Douglas K. Smith & Robert C. Alexander, Fumbling the Future: How Xerox Invented, Then Ignored, the First Personal Computer [1999]

Walter Isaacson, The Innovators: How a Group of Hackers, Geniuses and Geeks Created the Digital Revolution [2014]

George Couros: The Innovator’s Mindset: Empower Learning, Unleash Talent and Lead a Culture of Creativity [2015]

Clayton M. Christensen, Disrupting Class: How Disruptive Innovation Will Change the Way the World Learns [2008]

Erik Brynjolfsson & Andrew McAfee, Race Against The Machine: How the Digital Revolution is Accelerating Innovation, Driving Productivity, and Irreversibly Transforming Employment and the Economy [2011]

Nicholas Carr, Building Bridges: Essays on Business, Technology and Innovation [2011]

Jay Cross, Informal Learning: Rediscovering the Natural Pathways That Inspire Innovation and Performance [2007]

Tony Wagner, Creating Innovators: The Making of Young People Who Will Change the World [2012]

Donald Luskin, I Am John Galt: Today’s Heroic Innovators Building the World and the Villainous Parasites Destroying It [2011]

Em Salto, 20 de Janeiro de 2019

Eduardo Chaves



Categories: Criatividade, Inovação, Inteligência, Liberdade

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