Forma-se uma Ortodoxia sobre a Questão da Ortodoxia e da Heresia

Alister E. McGrath, em seu livro Heresy: A History of Defending the Truth (HarperOne, New York, Kindle Edition), pp. 2-3, enuncia uma tese diferente e, de certo modo, surpreendente. É a seguinte:

Existe, hoje, no mundo teológico cristão, uma Ortodoxia sobre a Ortodoxia e a Heresia.

Eis, em resumo, essa Ortodoxia.

  1. O apelo das heresias na cultura ocidental contemporânea é muito maior do que o apelo das ortodoxias.
  2. Há, na cultura ocidental contemporânea, profundo desprezo pela influência corruptora do poder e por um substrato latente, mas importante e pronto para emergir, de autoritarismo e totalitaritarismo.
  3. É parte dos pressupostos da cultura ocidental contemporânea que a história é escrita pelos vencedores e que as ortodoxias que chegaram até nós nada mais são do que heresias que, através de apoio político, e mediante o uso de métodos muitas vezes indefensáveis, ou, então, por mero acaso (algo muito raro), venceram a guerra cultural e se tornaram ortodoxias – e prontamente tentaram suprimir não só as prévias ortodoxias, mas também as demais heresias, suas antigas colegas, mas rivais, silenciando as suas vozes e monopolizando o campo — alcançando hegemonia.
  4. As ideias de Bruno Bauer ressoam hoje com as suspeitas e os valores de uma cultura cada vez mais anti-autoritária e anti-totalitária. O livro de Bauer rapidamente se tornou um talismã para os críticos das ortodoxias [inclusive para mim, confesso].
  5. Nesta perspectiva, a distinção entre heresia e ortodoxia não tem mais que ver com a natureza e os méritos do que é uma coisa e do que é a outra, a distinção sendo feita de forma arbitrária, sendo uma mera questão de acidente histórico: as ortodoxias designam as ideias que venceram, as heresias aquelas que perderam (mesmo que, no mérito, pudessem muito superiores)

Eduardo CHAVES

Em Salto, 15 de Abril de 2024



Categories: Liberalism

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