As Reformas Religiosas na Europa do Século 16

NOTA:

Este artigo é uma republicação, em 17 de Maio de 2024, mas com revisão, correção e ampliação, de um artigo que eu publiquei, em 25 de Maio de 2017, há virtualmente sete anos, portanto, no meu blog Reformation Space, no seguinte endereço:

https://reformation.space/2017/05/26/reformas-religiosas-europeias-do-sec-16/

Republico o artigo aqui, por três razões:

a. Porque revi o artigo, corrigindo pequenas falhas e ampliando-o;

b. A revisão mais importante que fiz foi na seção sobre a Reforma Radical, movimento que continua a me interessar, e me interessa cada vez mais, por ser uma opção reformada que: em primeiro lugar, desenfatiza o papel da igreja, e, portanto, abre as portas para um Cristianismo Desigrejado, para aqueles que assim o desejarem; em segundo lugar, desenfatiza o papel da doutrina, e, por conseguinte, de credos e confissões, reduzindo drasticamente o perigo da heresia; em terceiro lugar, simplifica, significativamente, os rituais e o caráter sacramental da vida religiosa; em quarto lugar, individualiza e personaliza o relacionamento do crente com Deus, mas vê na comunidade, sempre pequena, como uma célula, cabe numa casa, um elemento de comunhão interpessoal e fraternidade; e, em quinto lugar, é contrário ao envolvimento da comunidade religiosa, e dos crentes, individualmente, com o Estado.

c. Porque este blog, Chaves Space, é o meu blog principal e tem mais seguidores.

EC, Salto, 17.5.2024.

FIM DA NOTA

o O o

Com a comemoração, em 2017, dos 500 anos da Reforma Protestante Luterana na Alemanha, fato que trouxe as Reformas Religiosas do século 16 para uma posição de visibilidade na mídia, concluí que talvez fosse a hora de renovarmos nossa linguagem para nos referir ao conjunto de acontecimentos que começou a se deflagrar na história com o evento — ou suposto evento — da fixação das 95 Teses de Martinho Lutero na porta da Igreja da Universidade de Wittenberg na Alemanha no dia 31 de Outubro de 1517.

Talvez fosse a hora de pararmos de falar em “A Reforma Protestante do Século 16” e começarmos a falar em “As Reformas Religiosas na Europa do Século 16”.

Explico-me.

Se conversarmos com um luterano, a Reforma que conta, para ele, foi a de Martinho Lutero (1483-1546). É esta a Reforma Protestante cujo aniversário de 500 anos se comemorou em 31.10.2017.

Se conversarmos com um calvinista, a Reforma que conta, para ele, foi só a de João Calvino (1509-1564), a de Lutero tendo mantido várias características do Catolicismo (em especial no tocante à Eucaristia, à Confissão, ao uso de imagens, etc.). Lutero, pelo que consta, até acreditar na Virgindade Perpétua de Maria acreditava… (Isso apesar do fato de que, quando Lutero deflagrou o movimento que iria se tornar a Reforma Luterana, em 1517, em Wittenberg, Calvino tinha apenas nove tenros anos).

Se conversarmos com um luterano e um calvinista, ambos juntos, provavelmente eles admitirão que tanto Lutero como Calvino foram reformadores, que concordaram em muita coisa, mas vão caracterizar a Reforma Anglicana de Henrique VIII (1491-1547) como um mero verniz debaixo do qual continuou o Catolicismo, só que sem o Papa. (Prova posterior disso seria o fato de que, no Século 19, muitos anglicanos famosos voltaram para a Igreja Católica do Papa – algo que rarissimamente acontece com luteranos e calvinistas).

E se conversarmos com um defensor da chamada Reforma Radical (que inclui Anabatistas, Espiritualistas, Revolucionários, Racionalistas e assemelhados), qualquer que seja a sua variante dentro da Reforma Radical, ele, provavelmente vai dizer que as supostas reformas de luteranos, calvinistas e anglicanos — as hoje chamadas “Reformas Magisteriais / Magistrais” — não foram reformas dignas do nome, pois alteraram apenas alguns componentes acessórios, e não essenciais, do Catolicismo, não tendo retornado, como alegavam e aparentemente pretendiam, até o Cristianismo Primitivo. Voltaram, no máximo, até o Cristianismo de Agostinho, nos Séculos 4 e 5, se tanto. Segundo os que defendem a Reforma Radical, as “Reformas Magisteriais / Magistrais” mantiveram, todas elas, PRIMEIRO, um detestável e estreito vínculo entre Igreja e Estado (dando um papel significativo aos “Magistrados“), à semelhança do que acontecia com a Igreja Católica, mantendo o pacto e o vínculo da Igreja, Poder Espiritual, com o Poder Secular ou Temporal (político, econômico, militar,) instituído por Constantino e aperfeiçoado por Teodósio I — vínculo esse mantido, até hoje, por boa parte delas, e razão pela qual a Reforma Magisterial / Magistral não retornou até o Cristianismo Apostólico, que vivia em conflito com o Poder Secular ou Temporal; e SEGUNDO, recriaram, depois de um início em que se enfatizava o Sacerdócio de Todos os Crentes, uma hierarquia clerical de vários níveis, ressuscitando papéis sacerdotais (nos sacramentos, pela ordenação), predicatoriais (no culto, na exposição da Palavra), administrativos (na gestão da igreja) e docentes (na educação cristã), que foram retirados do laicato e se tornaram privativos de pastores (que passaram a exercer o “Magisterium” da Igreja, à semelhança do que acontecia na Igreja Católica), …

Até aqui mencionei quatro variantes de Reformas Protestantes. Mas há uma quinta reforma religiosa que teve lugar no Século 16, embora não seja Protestante: a Reforma Católica. Apesar de a expressão consagrada na literatura para se referir ao que aconteceu na Igreja Católica, diante do que começou a acontecer na Alemanha, na Suíça, em cidades livres do Sacro Império Romano (como Estrasburgo e Genebra — esta sendo posteriormente incorporada à Confoederatio Helvetica, nome latino da Suíça), e na Inglaterra, estendendo-se posteriormente a outros países europeus (França, Países Baixos, Morávia, Boêmia, etc.) e de fora da Europa (como os recém colonizados territórios da América), seja “Contra-Reforma Católica”, essa expressão dá a impressão, errônea, de que as iniciativas da Igreja Católica foram meras reações às demais reformas, não envolvendo nenhuma “reforma real”. Embora haja quem discorde, essa impressão, como disse, é errônea. Por isso, prefiro falar em “Reformas Religiosas Europeias” do período – expressão essa que inclui aquilo que hoje, para a maior parte dos historiadores, foi uma real Reforma Católica. Talvez a Reforma Católica não tenha sido tão abrangente e profunda quanto as outras (pois manteve a autoridade do Papa e da Cúria Romana, do Magisterium, da tradição…) — mas, segundo os defensores da Reforma Radical, nem as outras três variantes (Luteranismo, Anglicanismo, Calvinismo) foram lá tão abrangentes e profundas assim…

O Movimento Reformista dentro do Catolicismo, iniciado [ver o parêntese que constitui o próximo parágrafo] com o inglês John Wycliffe (1320-1384), que gerou o movimento dos Lolardos, continuado com o tcheco Jan Huss (1369-1415), que gerou o movimento dos Hussitas, e que teve algum progresso com o italiano Girolamo Savonarola (1452-1498), que gerou o movimento conhecido como “dos Piagnoni”, e o holandês Desidério Erasmo (1466-1536, já em parte contemporâneo de Lutero), um dos líderes do Humanismo Renascentista, todos os quais pretendiam continuar com uma só igreja, sem dividi-la, mas com algumas reformas, acabou produzindo no mínimo cinco igrejas diferentes: a Luterana, a Calvinista, a Anglicana, a Radical (Anabatista, etc., até a Unitária, no século 19), e a Católica, com um verniz novo… Isso sem contar o Movimento Humanista Secular, que pode ser visto como, de algum modo, um resultado do Humanismo Renascentista, posteriormente reforçado pelo Iluminismo, e que acabou por produzir o Unitarismo, no século 19. (O Unitarismo é uma versão moderna do Anti-Trinitarismo dos séculos 16 e 17, que acabou levando Michel Serveto para a fogueira, em 1553, em Genebra, sob o olhar vingativo e satisfeito de Calvino).

[Parêntese: O nome de Pedro Valdo / Valdez (c. 1140 – c. 1205), que gerou o movimento dos Valdenses, poderia ser incluído nesta lista de precursores das Reformas Religiosas do Século 16. Mas isto levaria a lista dos precursores da Reforma muito para trás, para o período anterior a Tomás de Aquino (1225-1274), e me obrigaria a considerar até mesmo São Tomás como um reformador! Mas é possível escrever a história da igreja da perspectiva de seus reformadores e incluir nela até mesmo os diversos movimentos monásticos. Na realidade, um desejo meu, que eu nunca vou realizar, é escrever a história da igreja da perspectiva das heresias e dos hereges… Talvez porque eu seja muito mais herege do que ortodoxo.]

Em Salto, 17 de Maio de 2024 (vide a Nota, no início.)



Categories: Liberalism

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