O dia 27 de Outubro deveria ser um dia em que calvinistas de todos os naipes ao redor do mundo pedissem perdão, todos os anos, pela execução — na verdade, pelo assassinato frio — de MICHEL SERVETO, em Genebra, Suíça, no ano de 1553, denunciado por Calvino pelo crime de heresia — isto é, simplesmente por pensar diferente dele, Calvino, teólogo-mor da cidade. Afirma~se que Serveto negava a divindade de Cristo e, por conseguinte, não acreditava na Trindade. Isso não é exatamente verdade. Serveto não negava a divindade de Cristo, mas era da opinião que a divindade de Cristo não era igual a divindade de Deus Pai. Calvinistas ortodoxos têm todo direito de considerar Serveto errado nesta e porventura em outras questões. O que não tinham e não têm é o direito de matar quem pensa diferente deles, por mais importante que lhes pareça ser a divergência.
Hoje deveria ser um dia triste, que vem no calendário apenas quatro dias antes do dia em que protestantes mundo afora comemoram a Reforma iniciada por Lutero em 1517.
Ainda esta semana passada ouvi alguém que exerce o pastorado protestante em uma igreja presbiteriana dizer em público como foi lamentável que a Igreja Católica perseguisse os reformadores protestantes. Concordo que foi. Mas acho mais lamentável ainda que as lideranças daqueles que foram perseguidos pela Igreja Católica tenham, em seguida, perseguido, da mesma forma violenta e irrecorrível, em muitos casos condenando à morte e executando, colegas seus, reformadores, oue ousavam discordar dos “big bosses” — e que protestantes de hoje façam de conta que isso não aconteceu. Zwínglio perseguiu dezenas de anabatistas na região de Zurique, na Suíça, e mundo afora, e foi responsável pela sua morte (em geral por afogamento). Lutero expulsou de Wittenberg e perseguiu, entre eles, seu ex-professor e ex-reitor, Karlstadt, a pessoa que lhe entregou na universidade o diploma de doutorado, por ser a autoridade maior da área, e pediu ao Príncipe da Saxônia a morte, sem piedade, de dezenas de milhares camponeses alemães na região da Saxônia, em que ele vivia. E Calvino perseguiu Serveto, que havia vindo até ele para fugir da perseguição dos católicos, e muitos outros, na minúscula Genebra, e teria feito a mesma coisa com Castellio, por ousar defender Serveto e criticar Calvino. Erasmo, um católico, protegeu Karlstadt e Castellio em Basiléia, na Suíça, arrumou-lhes emprego, honrou-os por serem os intelectuais brilhantes e íntegros que eram.
Hoje o mundo evoluiu um pouco, não, nesse aspecto, por influência dos reformadores protestantes, mas de gente como Erasmo, e não se matam mais hereges, aqueles que ousam pensar diferente. Mas eles, os “hereges” continuam a ser discriminados, perseguidos, expurgados de nossas denominações. O “odium theologicum” que levou os reformadores protestantes do século 16 a adotar o mesmíssimo procedimento inquisitorial que levou a Igreja Católica a persegui-los, persiste até hoje em boa parte de nossas denominações e comunidades eclesiais.
O dia 27 de Outubro deveria ser designado pelos cristãos reformados de todos os matizes como o Dia Mundial de Penitência pela Perseguição de Hereges.
Salto, em 27 de Outubro de 2024
Categories: Liberalism
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