Carta em Resposta ao Post de um Amigo

Meu caro Dioraci Machado:

Você narrou esta história interessante e, ao final, me fez uma pergunta…

A história foi a seguinte:

“É interessante como os hinos do hinário adventista fazem parte da nossa história cristã, nossa cultura musical.

Caro Eduardo Machado Chaves, minha família converteu-se dentro do presbiterianismo num processo que começou em 1909 e terminou com o registro da conversão de toda família em dezembro de 1919 e em 1921 já havia uma igreja organizada na fazenda dos meus bisavós com mais de 100 membros vistos numa foto de 1924.

A adventismo entrou no seio dela e houve reação forte da IPI e houve uma divisão que o próprio Deus resolveu perto dos anos 40. Fez cair todo o telhado da igreja segundos depois da porta fechada, após o culto.

Quem a fechou olhou para trás e viu o estrondo e poeira. Outro ainda escutaram o estrondo da queda a caminho das suas casas.

Cada um desta ou daquela vertente religiosa procurou seu canto.

A maioria permaneceu na IPI assim como não houve divisão na família, que conviveu em harmonia com as escolhas.

Gostaria que conentasse sobre o hinário adventista e compatibilidade com a doutrina reformada.

Eu gosto de muitos hinos do hinário adventista e, apesar das minhas convicções reformada, sinto conforto nos hinos desse hinário.

Como pode?”

Fim da história e da sua mensagem.

Procurarei responder de forma sensata, procurando respeitar posições diferentes, mas sendo fiel àquilo em que acredito.

O Cristianismo deve seu nome e sua razão de ser a uma pessoa, Jesus Cristo. Embora ele nunca tenha escrito nada, ensinamentos seus, e suas ações, estão registrados nos Evangelhos. Como estes são quatro, há algumas divergências nos relatos, mas vou negligenciá-las.

O livro de Atos já relata as atividades dos apóstolos. E o Apocalipse provavelmente foi escrito por outro. O restante do Novo Testamento é composto de cartas dirigidas a igrejas ou pessoas, a maior parte delas sendo atribuídas a Paulo – algumas sem nenhuma dúvida, outras com alguma.

Jesus Cristo, creio não haver dúvida quanto a isso, era judeu. E entre os judeus havia grupos que pensavam de forma divergente: fariseus, saduceus, escribas, zelotes, essenos (estes não mencionados explicitamente no Novo Testamento). Não é fácil inserir os ensinamentos de Jesus Cristo em uma outra dessas “seitas”, ou desses “grupos”. Uma coisa é certa: Jesus Cristo não era um judeu conservador ou ortodoxo. Talvez fosse um judeu liberal (embora em relação a algumas coisas ele fornecesse uma interpretação mais rígida da lei, como veremos).

Quanto ao Jesus aparentemente mais liberal, vou dar apenas três exemplos, mas há mais:

a. Em um sábado (termo que quer dizer “descanso”), seus discípulos estavam com fome e começaram a colher umas espigas de trigo e comer os grãos de trigo. Os fariseus, vendo isso, criticaram os discípulos, porque estavam fazendo algo proibido pela Lei: trabalhar no sábado (colher espiga é trabalho). Mas Jesus defendeu o comportamento dos discípulos e disse: “O sábado foi feito para servir as pessoas, e não as pessoas para servirem o sábado” (Marcos 2:23-28 [NTLH]. Cp. Mateus 12:1-8, Lucas 6:1-5). Jesus disse até mesmo que Davi havia feito algo semelhante em relação aos pães oferecidos a Deus (Marcos 2:26). Algo parecido aconteceu em relação ao jejum (Marcos 2:18-22).

b. Jesus, cansado e com sede, estando em Samaria, pediu água a uma mulher samaritana, e conversou com ela, algo que judeus não faziam (João 4:4-15, esp. v.9). [Essa passagem só aparece em João.].

c. Jesus livrou do apedrejamento uma mulher apanhada em adultério, que alguns fariseus e mestres da Lei queriam apedrejar, porque a Lei determinava que, em casos assim, a mulher fosse morta a pedradas. Jesus lhes disse (escrevendo no chão): “Quem de vocês estiver sem pecado, que seja o primeiro a atirar uma pedra nesta mulher”. Eles desistiram do apedrejamento e foram embora. Jesus perguntou à mulher onde estavam os que a condenavam, e ela respondeu que nenhum deles havia ficado ali. Jesus lhe disse: “Pois eu também não condeno você. Vá e não peque mais!” (João 8:3-11 [NTLH], os versículos citados sendo o 7b e o 11b). [Essa passagem oferece problemas. Em alguns manuscritos aparece aí, neste lugar; em outros, aparece depois de João 7:36; ainda em outros, aparece depois de João 21:25; em outros não aparece no Evangelho de João; em outros, aparece em Lucas, depois de 21:38, ou depois de 24:53. A Bíblia de Estudos de Geneva, de onde são tiradas essas informações, afirma: “A evidência sugere que esses versículos não fazem parte do original do Evangelho de João, mas que provavelmente tem origem apostólica e reproduz um incidente que, de fato, ocorreu durante o ministério de Jesus”. O comentarista não explicita as razões para sua última afirmação.]

Quanto ao Jesus aparentemente mais rígido do que os fariseus em sua interpretação da lei, vou citar uma passagem só, que trata de três questões:

“Eu [Jesus falando] afirmo a vocês que só entrarão no Reino do Céu se forem mais fiéis em fazer a vontade de Deus do que os mestres da Lei e os fariseus.

Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não mate. Quem matar será julgado.’ Mas eu lhes digo que qualquer um que ficar com raiva do seu irmão será julgado.

Quem disser ao seu irmão: ‘Você não vale nada’ será julgado pelo tribunal. E quem chamar o seu irmão de idiota estará em perigo de ir para o fogo do inferno.

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não cometa adultério’. Mas eu lhe digo: quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la já cometeu adultério em seu coração.”

(Mateus 4:20b-22, 27-28 [NTLH]).

Nessa passagem temos um Jesus aparentemente exagerado, em que chamar alguém de idiota equivale a matá-lo, em sua interepretação da lei. Mas o que ele está enfatizando é a importância da intenção.

No livro de Atos e nas cartas do Novo Testamento há inúmeros relatos de divergência de opinião e mesmo de conflito entre os apóstolos, e entre os apóstolos e outras pessoas.

O conflito maior foi entre Paulo e Pedro, a respeito das exigências que deveriam ser feitas aos cristãos gentios (que não eram judeus). Ele se deu em torno da circuncisão, das comidas permitidas, e da chamada comensabilidade (sentar à mesma mesa para refeição). Vide Atos 15 e Gálatas 2. Mas há inúmeras referências a falsos mestres, falsos profetas, falsos ensinamentos, falsas doutrinas, etc. Eis, por exemplo, como Paulo termina a Carta aos Romanos (16:17-18 [NTLH]:

“Meus irmãos, peço que tomem cuidado com as pessoas que provocam divisões, que atrapalham os outros na fé e que vão contra o ensinamento que vocês receberam. Afastem-se dessas pessoas porque os que fazem essas coisas não estão servindo a Cristo, o nosso Senhor, mas a si mesmos. Por meio de conversa macia e com bajulação, eles enganam o coração das pessoas simples.”

Dei-me ao trabalho de gastar quase duas páginas para mostrar, primeiro, que Jesus, embora judeu, divergia daqueles judeus encarregados de interpretar a lei – às vezes em favor de uma interpretação mais liberal, às vezes em favor de uma interpretação mais rigorosa. E que os apóstolos, não só discordaram entre si, mas viviam condenando pessoas que pensavam diferentemente deles, Paulo até mesmo recomendando que os crentes de Roma se afastassem desses que pensavam de forma discordante.

Sempre foi assim. Nos séculos 2 a 5 proliferaram pontos de vista divergentes em relação a tudo o que é doutrina, até mesmo sobre a divindade de Jesus Cristo e, por conseguinte, a Trindade, questões que tiveram de ser resolvidas a mão de ferro nos Concílio Ecumênicos, em especial no de Nicéia (325) e o de Calcedônia (451), que nos legaram credos que são repetidos em muitas igrejas até hoje. Mas não foram apenas doutrinas o objeto de disputa. Também a conduta: a castidade absoluta, ou seja, a total abstinência de qualquer atividade sexual, é superior ao casamento ou é equivalente, do ponto de vista moral? A gente deve servir a Deus em comunidades (igrejas) ou segregados do mundo, em conventos e mosteiros, ou em cima de uma pedra no deserto?

Na Idade Média houve sérias divergências. As ordens monásticas (beneditinos, agostinianos, dominicanos, franciscanos, etc.) não se entendiam uma com a outra nem com o clero secular (que exerciam sua função no mundo secular, não em mosteiros e convento), nem com o pessoal das igrejas. Em 1054 a Igreja Oriental se separou da Igreja Ocidental, quando o Papa Romano excomungou o Patriarca de Constantinopla e este devolveu a gentileza e excomungou o Papa. Tentativas de reforma, por parte de John Wycliffe na Inglaterra, e Jan Hus, na Morávia, resultaram na morte por execução dos dois reformistas.

Depois da Renascença, veio a Reforma. Uma parte da igreja se revoltou contra Roma, e, logo em seguida, os vários líderes da Reforma começaram a perseguir, exatamente como a Igreja Católica havia feito com eles, aqueles que deles discordavam. Zuínglio concordou que anabatistas fossem executados por afogamento, Lutero concordou que dezenas de milhares de camponeses, que queriam reforma social e econômica, junto da religiosa, fossem assassinados de forma selvagem, na Inglaterra anglicanos perseguiam católicos e puritanos (calvinistas), em Genebra Calvino consentiu que Michel Serveto fosse queimado em praça público por achar, não que Jesus Cristo não fosse divino, mas que ele fosse divino em uma escola um pouco abaixo da divindade do Pai, e assim por diante. A Guerra dos 30 Anos foi uma selvageria, e foi uma guerra entre cristãos.

Do século 18 para cá surgiram deístas, metodistas, adventistas, mórmons, Testemunhas de Jeová, Pentecostais de várias estirpes. Mas surgiram, também, dentro das denominações históricas, liberais e modernistas, e, contra eles, organizaram-se conservadores e fundamentalistas (que são conservadores plus, mais radicais).

O que tudo isso deve significar para nós hoje?

Aqui começo a responder a sua pergunta: “Como pode?”

Respondo, inicialmente, com outra pergunta: “Como não pode?” O Cristianismo começou como uma seita judaica, que discordava das demais seitas judaicas, mais antigas. Depois da morte de Jesus, houve divergência e discordância dos apóstolos entre si, e entre grupos de crentes: inicialmente o grupo de cristãos de origem judaica e o grupo de origem gentia. Depois divergências doutrinárias, divergências acerca de conduta, divergências sobre a forma de organizar a igreja (se com anciãos, presbíteros, bispos, arcebispos, patriarcas, etc.), divergências sobre a participação de mulheres e escravos em cargos importantes (não apenas em funções subalternas) na igreja, divergências sobre a conveniência de associação da igreja ao Império Romano, tornando-se uma Igreja Imperial, mantida pelo poder público, depois divergências entre a igreja que falava grego e a igreja que falava latim (resultando na primeira grande divisão do Cristianismo, muito maior do que a Reforma Protestante foi no século 16), etc.

Se há algo que caracteriza o Cristianismo, desde o início, é a sua diversidade, não a sua unidade organizacional, ou sua uniformidade doutrinária, ética, etc.

Depois da Reforma Protestante, a Igreja Católica se recusou a considerar os protestantes cristãos verdadeiros, por causa das divergências. A maior parte das Igrejas Protestantes acabou fazendo a mesma coisa em relação à Igreja Católica. Por quê? Ah, os católicos aceitam a autoridade do Papa e o consideram infalível quando falando ex cathedra… E os católicos aceitam ainda a autoridade da Tradição além da autoridade da Bíblia…

Você é presbiteriano e eu sou também. Nunca fui membro de nenhuma outra igreja ou denominação – embora tenha ficado fora da igreja por muitos anos. Pergunto-lhe: Primeiro, a autoridade do Papa sobre os católicos é maior do que a autoridade de Calvino sobre os presbiterianos? Segundo, a autoridade da Tradição na Igreja Católica, com seus Concílios Ecumênicos, é menor do que a autoridade da Confissão de Fé de Westminster (CFW) sobre os presbiterianos? Além disso, os presbiterianos e a maior parte dos demais protestantes aceitam a autoridade pelo menos dos quatro primeiros Concílios Ecumênicos. Ah, você poderia dizer, mas os presbiterianos aceitam a aceitam a CFW porque ela é apenas um resumo da Bíblia. Será? Os reformados, em especial os presbiterianos, aceitam o Sola Scriptura, por isso não aceitam a Tradição. Mas onde está o Sola Scriptura nas Escrituras? Onde, na Bíblia, se afirma que apenas a Bíblia, e nenhum outro escrito, nada mais, tem autoridade? A autoridade de Calvino vem de onde? A Bíblia diz que Calvino terá uma autoridade semelhante, só que um pouquinho abaixo, do que a autoridade dela? Calvino e a CFW só repetiram a Bíblia? Evidentemente que não. Eles interpretaram e sistematizaram, à sua moda alguns dos ensinamentos da Bíblia… Só até certo ponto…

Pulando para a questão dos adventistas, que foi o que gerou a sua pergunta (e acrescentando a questão dos mórmons, que é bem parecida).

Também gosto muito da música dos adventistas, de cunho mais popular (em geral conjuntos e quartetos masculino, com acompanhamento de teclados, guitarras, às vezes baterias), e adoro a música dos mórmons (que é uma música de grandes corais acompanhados de orquestras e sofisticados órgãos de tubos). Mesmo que os hinos reflitam uma teologia que eu não endosso, gosto de ouvi-los, e, em alguns casos, cantar junto sozinho. Essa questão, para mim, com todo respeito, é uma não-questão. Gostar de cantar um hino não significa endossar a teologia que pode estar embutido em sua letra.

O problema que eu reputo sério está contido na minha pergunta, feita atrás: “Como não pode?”

Como disse alguns parágrafos atrás, se há algo que, acima de tudo, caracteriza o Cristianismo, desde o início, é a sua diversidade, não a sua unidade, muito menos a sua uniformidade. Só quem não lê a Bíblia com atenção e desconhece a História da Igreja pode imaginar que, no início, todo mundo concordava com tudo, em relação a doutrina, conduta, forma de organização, etc., e só com o tempo alguns hereges espíritos-de-porco, estragaram tudo se desviando de um conjunto de pensamentos, condutas, e formas de organização e de ação uniformes.

Segundo a edição de 2001 da World Christian Encyclopedia (que é a única que eu pude consultar) existiam 33.830 denominações cristãs por volta do ano 2000. (Esse número conta como diferentes as denominações nacionais, ainda que afiliadas, de alguma maneira, a uma denominação ou instituição estrangeira, ou a alguma liga, aliança ou federação). Esse número teria chegado perto de 43.000 em 2015 e, provavelmente, segundo os especialistas nessas previsões, chegará próximo de 55,000 em 2025, daqui um ano… Dessas, a maioria absoluta é de denominações que se consideram de alguma forma protestantes. A Igreja Católica consegue segurar bem a barra representada por suas vozes dissidentes. O Papa, como o Frei Leonardo Boff bem sabe, chama a voz dissidente a Roma, aplica-lhe um sabão, deixa claro que ele depende mais da igreja do que ela dele, e pede-lhe que cale a boca e não pregue, dê aula, faça conferência ou escreva o que quer que seja por, digamos, dez anos. A maioria deles cala boca e fica quietinho, mantém seu quarto e sua comida no mosteiro, se frade, ou na universidade, se professor universitário, e tudo bem. Protestante é espinhado. Se levar uma bronca, ele sai e vai para outra igreja – ou, melhor ainda, funda outra. É um método autoritário e meio desumano, mas funciona. Precisamos achar um método que não seja nem uma coisa (autoritário), nem outra (desumano), mas funcione. Um método que opere em um clima de liberdade e conviviabilidade.

As igrejas ou denominações (considero uma denominação um conjunto de igrejas dentro de um determinado espaço, seja ele país, região, estado) que conseguem, de alguma forma, manter sua unidade, mesmo perdendo um membro aqui, outro ali, mas recebendo mais membros do que perdem, crescendo, sobrevivem… Mas, para isso é preciso que nelas haja liberdade e conviviabilidade – ou verdadeira comunhão. Ter “comunhão” só com quem pensa e age exatamente como a gente, sem viver bem e aprender com quem pensa e age diferente, mas quer ser parte ou membro daquela comunidade, é abrir mão de uma estratégia de crescimento: tanto do crescimento intelectual e espiritual dos membros, individualmente, como do crescimento da igreja ou denominação. Igreja ou denominação que hostiliza os que pensam diferente, coloca-os para fora, defenestra-os, expurga-os não cresce em nenhum sentido.

As Igrejas Presbiterianas brasileiras um dia souberam ser igrejas que cresciam e permitiam que seus membros crescessem, intelectual, moral e espiritualmente. Hoje não sabem mais. A própria IPIB, a que você pertence, e que eu frequento, sem ser membro, está em forte campanha de revitalização de suas igrejas. Revitalizar, se eu entendo bem o conceito, é fazer com que elas parem de diminuir de tamanho, que elas parem de definhar, que não percam a pouca vida que têm, vindo a morrer… A IPIB não cresce. Ela tem pastor sobrando. A vida de um pastor de igreja não é fácil. Exceto em algumas igrejas que possuem alguma condição especial (membresia rica, como a IPB de Pinheiros, ou muitas fundações, como a Catedral), os pastores ganham pouco, acabam por arrumar bicos (ser professor é o primeiro), e, depois, acabam achando algo mais atraente e deixam o ministério. Há ex-pastor sobrendo em São Paulo. As duas principais Igrejas Presbiterianas brasileiras têm crescido pouco, quando crescem. Mas poderiam estar muito maiores, se não tivessem se dividido tanto, ao longo do século 20. Primeiro, saiu a IPIB, cerca de quarenta anos depois saíram uma Conservadora da IPB e outra da IPIB (as duas se juntando pouco depois), e, ao mesmo tempo, saiu uma Liberal (a Igreja Cristã de São Paulo), que logo fechou, por ser composta basicamente de intelectuais e professores universitários que não sabem, ou não querem, evangelizar). Logo saiu uma Fundamentalista, saíram várias Renovadas, Avivadas, e Pentecostais, e, por fim, saiu uma Unida (que é um ironia, porque é uma unida que é fruto de desunião e da hostilização e expurgo dos diferentes. Ela saiu da IPB. Tudo isso é fruto de incapacidade de conviver com diferenças.

Quando fui professor de História da Igreja na FATIPI, que é uma faculdade obrigada (pelo MEC) a aceitar candidatos ao ministério de outras igrejas, fiquei assustado que, com pentecostais na classe, houvesse alunos que não achavam que os pentecostais fossem protestantes ou mesmo cristãos… Não tinham a menor ideia por que os pentecostais estavam ali ou o que iam fazer com o curso.

Encontro, todo dia, nas Redes Sociais, gente hostilizando outras pessoas que pertencem à mesma denominação protestante, por causa de doutrina ou conduta – por ordenar, ou por não ordenar, mulheres ao ministério dito docente, ao presbiterato, ao diaconato. Ou por serem fundamentalistas. Ou por serem liberais.

Nas próprias Redes Sociais encontro protestantes ditos históricos que chamam Adventistas, Mórmons, Testemunhas de Jeová, membros da Universal, até Pentecostais não tão compromissados com a Teologia da Prosperidade, de não cristãos – ou, na melhor das hipótese, pejorativamente, de “seitas”. Há muitos que não consideram os católicos cristãos – quanto mais os ortodoxos orientais (gregos, russos, ucranianos, etc.). Para a maior parte dos protestantes de hoje aqui no Brasil, os membros dessas igrejas / “seitas” precisam ser convertidos para o cristianismo – o “Cristianismo Verdadeiro”, que seria o deles. Enquanto isso, o número de pessoas que se consideram desigrejadas, sem religião, agnósticas, céticas, atéias, etc. cresce.

Vi um artigo, recentemente, que, nos EUA, 28% dos americanos se declaram “sem religião” no censo. Desse grupo genérico, 17% se declara ateu, 20% se identifica como agnóstico, e 63% afirma que não é nada, em particular, no tocante à religião. 28% é quase um terço, em um país que muitos acreditavam ser o país mais religioso do mundo.

Hoje, nos EUA, é muito mais perigoso se declarar cristão conservador (que se presume ser de direita) do que se declarar ateu radical, praticante e proselitista.

É isso, por enquanto. Quem sabe sai alguma discussão interessante de sua pergunta e deste texto.

PS: Acho difícil de acreditar que foi Deus que causou a explosão no templo construído por seu avô. Se foi ele, deveria ter explodido quase todo templo protestante no Brasil…

Em Salto, 4 de Novembro de 2024



Categories: Liberalism

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