PEPE MUJICA, a Vida e a Morte

[ https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/01/estou-morrendo-diz-pepe-mujica-ao-anunciar-que-cancer-se-espalhou.shtml ]

Há dois dias (9.1.2025), fiz um post, no meu perfil do Facebook, em que coloquei este recorte retirado da Folha de S. Paulo, que circulava pela Internet, elogiado por gente da esquerda e da direita. José Pepe Mujica Prefaciei a foto e o texto da Folha com o seguinte comentário

“PEPE MUJICA se despede em vida – 20250109.

Triste a sua despedida, mas conduzida de forma estoica e resignada, como deve ser.

Algumas vezes é possível adiar o inevitável por um tempo. Mas é preciso saber reconhecer quando chegou a hora. Se estiver sem dor, ou não causando problemas exagerados para os outros, basta deixar as coisas seguirem o seu curso. Se houve muita dor ou uma imposição muito grande sobre os parentes, sou a favor que, se assim decidir a própria pessoa, se recorra à eutanásia, que não passa de um suicídio planejado e assistido. Se for na Suíça, sai caro. Que a sabedoria, a serenidade, e a atitude estoica que Pepe Mujica exibe sejam compartilhadas por sua querida esposa.

Pepe Mujica morre como um filósofo deve morrer. Faz-me lembrar David Hume, meu filósofo mais querido, que, ao perceber que sua vida estava no fim, convidou os principais amigos a visitá-los, tomou com eles uma taça de vinha, deu-lhes um presente (às vezes cash, se a pessoa estava com as finanças complicadas), e, abraçando cada amigo, deles todos, os mais próximos e queridos, se despediu.

Que Pepe Mujica descanse em paz quando chegar a hora.

Eduardo CHAVES, 9.1.2025

A foto abaixo foi retirada da Folha de S. Paulo de hoje. Fiz um recorte de uma foto maior.”

O post e o recorte geraram alguns comentários, que aproveitei para estender e aprofundar (assim espero) a discussão. Vou omitir os nomes das pessoas que comentaram, só aproveitando o conteúdo do que disseram.

Muitas pessoas ficaram impressionadas com a dignidade expressa por Mujica, demonstraram admiração pela beleza (triste) do texto, e se curvaram diante de sua firmeza do caráter. Em resposta a esse tipo de comentário, eu observei que achava Pepe Mujica, uma pessoa autêntica, extremamente digna e respeitável. Acrescentei que, de pouquíssimos políticos de esquerda eu posso dizer isso.

Mas houve dois comentários muito pessoais.

O primeiro, comovente, dizia:

“O meu câncer de esôfago foi para os pulmões. Cirurgia eu já fiz, quimioterapia também. Preciso repetir a quimio, mas meu corpo também não aguenta mais. Mas eu não tenho essa força moral desse respeitável (na minha visão) esquerdista (na visão de todos) que eu admiro muito! Brilhante. Gostaria de ser assim! Mas não sou…”.

Como eu conhecia a pessoa, mas não estava ciente de seu estado de saúde, respondi:

“Lamento, eu não sabia… O que dizer, meu caro? Desejo tudo de melhor para você e lhe envio um abraço cheio de carinho fraterno.”

Uma segunda pessoa, também conhecida minha, filha de uma grande e antiga amiga, fez o seguinte comentário:

“Quando meu marido ficou doente e sabíamos que nada havia a ser feito, ele sabiamente aceitou a finitude com uma tranquilidade tão grande que só nos restou estar com ele tentando ter a mesma tranquilidade. Ele não tinha religião. Como muitos homens inteligentes (ele era um intelectual), ele era cético em relação a muitas coisas que as religiões pregam. Eu tinha muito medo da morte. E de presenciar a morte de alguém que foi tão importante e determinante para a minha vida. Mas fui forte. Ele se foi em casa. Assistido por mim e pelos filhos até o fim. E o medo da morte se foi com ele. Assim como muitas certezas que eu tinha até então. Mudei inclusive minhas crenças. Hoje acredito em reencarnação cada vez mais. E sigo a vida com a certeza do reencontro.”

Respondi-lhe mais extensamente.

“Que belo e impressionante depoimento o seu, querida. Obrigado por compartilhar essa experiencia tão pessoal sua (como o fez um outro amigo meu, em um comentário anterior).

Saber, aqui nesta vida, o que acontecerá conosco depois de nós morrermos, creio que nunca vamos saber. É o que eu penso.

Acreditar que a morte é o fim total e absoluto de nossa vida, e que não há outra vida depois, seja como nós mesmos, seja com outra identidade, também é uma crença — pelo menos assim me parece.

As crenças mais positivas acerca do que acontece depois da nossa morte, como a de que, depois de mortos, nossa alma reencarna (em é reencarnada) em outras pessoas, ou a de que, depois de mortos (ou morto o nosso corpo), a nossa alma ficará em algum lugar não especificado esperando o dia em que seremos ressuscitados, estas duas também são crenças, como a crença daqueles que acham que a morte é o nosso fim total e absoluto.

Para mim a religião tem muito mais que ver com a nossa conduta, enquanto estamos vivos, enquanto estamos aqui neste mundo, do que com crenças que me parecem especulativas sobre o que nos acontecerá depois da morte, para as quais, na minha opinião, não temos nenhuma evidência realmente séria e contundente.

Embora já tenha concordado com ele, no passado, discordo, hoje do filósofo W.  K. Clifford, que defendia a tese de que, não havendo evidência séria e contundente para p (uma proposição qualquer acerca da existência de algo, que vou chamar de x), devemos acreditar em não-p (o seu oposto), tendo a obrigação epistemológica de defender a tese de que x não existe).

Diante dessa posição de W. K. Clifford, hoje tendo a concordar mais com William James, filósofo e psicólogo americano, quando afirma que, não havendo evidência suficiente para p, temos total liberdade de acreditar em não-x ou em x. Não havendo razões epistemológicas (evidências) para optar, estamos livres para acreditar, com base em outras considerações, naquilo que nos ajuda a dar mais sentido à nossa vida presente e que nos ajuda a vivê-la melhor.

UNS, como o filósofo Karl Popper (na minha opinião o maior filósofo do século 20, que viveu uma vida interessante ao longo de todo o século), acreditando que nossa vida é única e altamente perecível, e, por isso, extremamente valiosa, concluiu que é exatamente a crença de que esta nossa vida presente é a única vida que temos e teremos, que nos permite encontrar ou construir sentido nela. A nossa vida presente é valiosa porque ela é muito boa e agradável, mas extremamente curta e perecível, dizia ele. Ela acaba. Ela tem fim.

OUTROS, acreditando que ressuscitarão um dia em sua presente identidade, mesmo que com um corpo diferente.

AINDA OUTROS, acreditando que teremos uma outra chance, ou várias outras, de viver mais vidas, quiçá melhores, ou que nos aperfeiçoem, reencarnando ou sendo reencarnados, de modo a poder nos aperfeiçoar em cada degrau do processo.

Pode haver outras opções, mas as principais me parecem ser essas. Uma coisa me parece certa. A duração de nossa vida é limitada, e sua duração é precária: ela pode terminar daqui a pouco, na próxima esquina, ou até mesmo em casa. Diante disso, não devemos desperdiçar a nossa vida brigando uns com os outros sobre uma possível e eventual vida futura. Vivamos nossa vida aqui como se fosse a única. Se tivermos uma outra, em qualquer modalidade, será um grande presente, não é? Eu, como gosto de viver, penso que seria um grande presente. Só não seria um grande presente se ganhássemos uma vida futura para vivê-la eternamente em um fogo eterno com cheiro de enxofre… Mas essa (a chamada doutrina das penas eternas) me parece uma crença totalmente absurda e improvável. É o que penso.”

Em um terceiro comentário, também pessoal, mas em outro sentido, alguém observou:

“Nós, os mais ‘velhos’ (75+), paramos pra ouvir o Pepe Mujica, o seu reconhecimento de humanidade, limitação, esgotamento dos recursos científicos e o fim do tempo que chega à beira da morte. Lembro-me do Apóstolo S. Paulo, escrevendo para seu amigo e discípulo Timóteo, na 2a Carta, 4.6-8: ‘…O tempo é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.’. A vida passa rápido, com um vento, como a névoa… Tudo passa, mas três coisas permanecem: Fé, Esperança e Amor. Essas são eternas, dívidas, é de Deus. Disse Jesus: ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida’. A vida humana passa, mas o eterno é com o Filho de Deus. Abraço. Graça e Paz.”

Respondi, embora tenha hesitado um pouco antes de decidir fazê-lo, assim:

“Caro amigo: reconhecer a inevitabilidade da morte, e encarar a morte com serenidade e naturalidade, e, em alguns casos, até considerá-la bem-vinda, é coisa de filósofo de inspiração estoica. Regozijar-se com a morte, porque se acredita que ela representa um passar desta para uma vida melhor, é coisa de pastor. O Pepe Mujica é uma pessoa admirabilíssima, mas não é cristão, muito menos crente. Não nos esqueçamos disso. Quando David Hume (que também não era) morreu, muita gente que presenciou a sua morte não conseguiu se convencer que alguém que não era cristão ou crente pudesse enfrentar a morte de forma tão calma e tranquila: não como um evento ou processo que nos leva desta vida para uma melhor, mas como algo inevitável que, em algumas circunstâncias, pode ser até bem-vindo. É isso que penso”

Eduardo Chaves

São Paulo (Vila Sonia), 11 de Janeiro de 2025



Categories: Liberalism

1 reply

  1. Eu, como espiritualista ( não digo espírita pois o nome necessariamente está atrelado à Doutrina de Allan Kardec), acredito na vida após a morte e na reencarnação. De todo modo, seja qual for a crença, importa sermos bons, no sentido no Evangelho de Cristo.

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