Post Inicial – January 12 at 06:31
Para os calvinistas mais fanáticos… A Bíblia diz, em algum lugar, que ela própria é um dos Cinco Solas?
Se diz, onde?
Se não diz, como é que ela, não se reconhecendo como fonte única de doutrina, pode ser aceita como fonte única de doutrina por quem defende o Sola Scriptura?
Perfeito, mermão!
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Saudades…
Esperar um versículo que diga literalmente isso? Não é assim que funciona. Se for assim qual o próximo passo? Negar a trindade?
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Se não é assim que funciona, como é que funciona?
Basicamente, que Cristo é a culminação da revelação especial e que Ele diz que o mais será ensinado pelo Espírito Santo (que é enviado da parte dele e do Pai) após sua partida. Com o encerramento da revelação especial, está encerrado o ensino autoritativo que forma a igreja e informa a vida dos crentes.
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Boa sugestão a sua: onde está, na Bíblia, que, por suposto, é a única fonte de doutrina cristã ou do conhecimento de Deus (Sola Scriptura), onde está na Bíblia, repito, uma exposição clara e defesa coerente da doutrina da Trindade?
Mas onde se baseia a ideia de que houve o encerramento do ensino do Espírito meramente porque nós encerramos o cânon?
Assunto interessante, mas ainda não tenho conhecimento para responder. Comentando aqui para poder acompanhar.
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Welcome…
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Parabéns pela modéstia que o leva a reconhecer que não tem conhecimento suficiente para responder e que está apenas acompanhando a discussão. Há muita gente que responde mesmo sem ter conhecimento suficiente…
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Obrigado Eduardo.
Como a própria escritura nos diz:
‘… há tempo de ficar calado e tempo de falar… ‘ (Eclesiastes 3:7)
E nesse assunto precisei reconhecer o tempo de ficar calado.
Afinal, com meus pouco mais de 3 anos de conversão, ainda não tenho bagagem para discutir esse, como tantos outros assuntos em profundidade.
Como sempre “brinco” em conversas que relato o meu processo de conversão, “estou tentando tirar o atraso de todo o tempo que fiquei longe de Deus e das escrituras”, mas ainda tenho um longo caminho pela frente.
Espero que um dia, não tão distante, eu consiga responder melhor essas perguntas.
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Tudo de melhor para você, Irineu. Grande abraço.
Cristo É O Verbo, Ele mesmo se apresentou como Caminho, Verdade, e Vida. Só aqui 2 Solas – Scriptura e Christus.
Sim, o Sola Scriptura é ensinado diretamente na Bíblia. Foi ensinado por Cristo e pelos apóstolos.
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Gostaria de ter a indicação das passagens, por favor.
Onde vemos tal ensino ?
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Vamos começar com uma definição básica:
Sola Scriptura significa que todas as autênticas doutrinas cristãs são ensinadas pela Bíblia. Ou seja, se não for possível demonstrar que uma doutrina é verdadeiramente ensinada pela Bíblia, não devemos crer que se trata de uma autêntica doutrina cristã.
O que Sola Scriptura não significa:
Sola Scriptura não significa que todas as verdades sobre todas os assuntos estão na Bíblia. Por exemplo, Sola Scriptura não significa que a Bíblia diz quem é o presidente do Brasil em 2025 ou qual é a cura do câncer. Sola Scriptura não significa que a Bíblia contem todas as informações sobre tudo, mas que ela contém todas as doutrinas cristãs – todos os autênticos artigos da fé cristã.
Então, Sola Scriptura é ensinado pela Bíblia? Sim, em muitos lugares e de muitas maneiras!
Aqui estão as provas:
1 – Durante seu ministério terreno, Jesus cria e ensinava que havia uma coleção de livros que eram divinamente inspirados, que é o que ele costumava chamar de “Escrituras” (Mt 21:42; 22:29; 26:54).
Sabemos que Jesus cria que essa coleção de livros era divinamente inspirada de duas maneiras principais:
(a) Com base nas passagens em que ele faz afirmações sobre essa coleção de forma geral, referindo-se à Escritura como um todo como divinamente inspirada. Exemplo: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (Mt 26:54)
(b) Com base nas passagens em que ele faz afirmações sobre os livros individuais que fazem parte dessa coleção. Exemplo: “Hipócritas, bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:7-9; cf. Is 29:13). Aqui Jesus cita o livr do profeta Isaías como um livro divinamente inspirado. Em outras passagens dos Evangelhos, ele faz o mesmo com os outros livros da coleção.
Esse conjunto de livros, que Cristo, durante seu ministério terreno, chamava de “Escrituras”, era o que nós cristãos chamamos de “Velho Testamento”.
2 – Em tudo o que Jesus ensinava durante seu ministério de ensino, e em tudo o que os apóstolos transmitiram como sendo a doutrina que eles receberam de Cristo, eles sempre enfatizavam que sua doutrina estava inteiramente contida nessa coleção de livros – nas Sagradas Escrituras (o Velho Testamento). Podemos constatar isso de duas maneiras principais:
(a) Ao ler o Novo Testamento, podemos constatar que, em cada livro, passagens específicas dos livros do Velho Testamento eram sempre citadas para fundamentar todas as doutrinas cristãs que eram ensinadas.
Por exemplo, para ensinar a doutrina da concepção virginal, Mateus cita o profeta Isaías (Mt 1). Para ensinar que ele nasceria em Belém, ele cita o profeta Miquéias (Mt
2). Para ensinar que Jesus curaria os enfermos, ele também cita o profeta Isaías (Mt 8:17). Se você ler os quatro Evangelhos com atenção, verá que, em tudo o que é dito sobre o que Cristo fez ou ensinou, os evangelistas enfatizam que o que fez e ensinou já estava contido nas Sagradas Escrituras do Velho Testamento, de modo que não há nada na doutrina de Cristo que já não estivesse nas Sagradas Escrituras do Velho Testamento.
Vemos o mesmo nas Epístolas. Por exemplo, na Epístola aos Romanos, quando Paulo quer provar que toda a raça humana é corrompida, ele cita diversas passagens dos Salmos (Rm 3). Quando ele quer provar que somos justificados pela fé e não pelas obras da lei, ele cita as histórias de Abraão e de Davi (Rm 4). Quando ele quer explicar porque todos são pecadores, ele cita a história de Adão (Rm 5). Quando ele quer provar a eleição e a predestinação (Rm 9), ele cita histórias do Gênesis (Jacó e Esaú) e do Êxodo (Faraó). Ou seja, em tudo o que Paulo ensina na Epístola aos Romanos, ele não ensina absolutamente nada sem provas das Sagradas Escrituras do Velho Testamento. Isso prova que toda a doutrina da Epístola aos Romanos já estava contida no Velho Testamento. O mesmo pode ser dito sobre todas as epístolas do Novo Testamento. Em tudo o que os apóstolos ensinavam nas Epístolas, há passagens do Velho Testamento que provam o que eles estão ensinando.
Podemos dizer o mesmo sobre os sermões dos apóstolos no livro de Atos. Em todos os sermões que eles pregam, eles sempre fundamentavam tudo o que eles ensinavam com passagens específicas do Velho Testamento.
Quando os apóstolos fazem isso, eles estão seguindo o que Jesus ensinou no dia de sua ressurreição. Quando Jesus ressuscitou, ele disse que tudo o que os discípulos deveriam crer sobre ele, já estava escrito no Velho Testamento (Lc 24).
Reply – cont
(b) Há diversas passagens em que esse princípio é explicado explicitamente, que todas as doutrinas de Cristo ensinadas pelos apóstolos estavam contidas no Velho Testamento.
Por exemplo, esse princípio foi enfatizado por Paulo em seu julgamento perante o rei Agripa. Em Atos 26, o apóstolo estava sendo julgado perante o rei Agripa por causa das acusações que os judeus vinham fazendo contra ele. Em sua defesa, ele começa falando sobre sua história de vida (v. 3-5). Depois, ele fala da época em que ele perseguia os cristãos (v. 9-11) e conta sobre como, em meio à perseguição que ele promovia, Jesus se revelou a ele no caminho de Damasco (v. 13-18). Quando Jesus se revelou a ele, ele foi comissionado por Jesus para ser um pregador do evangelho (v. 16-18). Com base nisso, ele argumenta que estava sendo injustamente perseguido e acusado pelos judeus (v. 19-21). Até aí, tudo o que Paulo contou foi o testemunho pessoal dele. Mas logo em seguida, ele argumenta que o rei Agripa não precisava simplesmente confiar na palavra dele. Ele diz: “Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer” (v. 22). Quando Paulo diz, “os profetas e Moisés”, ele está se referindo às Escrituras do Velho Testamento (cf. Lucas 16:29,31; 24:27,44). Em outras palavras, eles estava dizendo que, em vez de confiar cegamente no que ele dizia, o rei Agripa poderia comparar o que Paulo ensinava com o que estava escrito no Antigo Testamento e, com base nisso, ele poderia constatar que tudo o que Paulo ensinava era o que a Escritura do Antigo Testamento já ensinava. É por isso que ele pergunta: “Crês tu nos profetas, ó rei Agripa? Bem sei que crês.” Ou seja, o que ele está dizendo é o seguinte: “Rei Agripa, se você crê nos profetas, você precisa crer no que eu ensino sobre Jesus, você precisa crer na minha doutrina, porque tudo o que eu ensino sobre Jesus já estava escrito na Bíblia do Antigo Testamento. Então, quem crê e concorda com os profetas, precisa crer e concordar comigo.”
As palavras de Paulo perante o rei Agripa são um maravilhoso resumo do que o livro de Atos já vinha mostrando desde os primeiros capítulos, que as coisas que os apóstolos diziam sobre Cristo e sobre a doutrina de Cristo já estavam completamente contidas na Escritura do Velho Testamento.
Outro exemplo:
ATOS 17
(10) E logo os irmãos enviaram de noite Paulo e Silas a Beréia; e eles, chegando lá, foram à sinagoga dos judeus.
(11) Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim.
A palavra “Escrituras” do verso 11 refere-se ao Velho Testamento, pois eram os livros que esses judeus já tinham na sinagoga antes de Paulo chegar lá. Sendo assim, o que o verso 11 está dizendo é que tudo o que Paulo ensinava já estava contido no Velho Testamento. Além disso, o verso 11 prova que a doutrina dos apóstolos (que era a doutrina de Cristo) estava contida no Velho Testamento com tanta clareza que, mesmo sem ainda aceitar a autoridade de Cristo ou dos apóstolos, os oponentes dos apóstolos poderiam estudar a Escritura e chegar à conclusão de que os apóstolos estavam certos. Essa é a doutrina da perspicuidade da Escritura.
Ora, se tudo o que os apóstolos ensinavam já estava contido no Velho Testamento, se tudo o que eles testificavam de Cristo era o cumprimento do que o Velho Testamento já dizia sobre Cristo, e se essas coisas estavam tão claras no Velho Testamento que os judeus incrédulos eram incentivados a examinar o Velho Testamento para comprovar que os apóstolos estavam certos, então somos forçados a concluir que a Escritura completa, que inclui não só o Velho, mas também o Novo Testamento, é agora muito mais do que suficiente e ainda mais clara para revelar a nossa única regra de fé e prática.
Isso é o Sola Scriptura, que todas as autênticas doutrinas cristãs são ensinadas pela Bíblia. Como eu demonstrei acima, o Sola Scriptura foi claramente ensinado por Cristo e pelos apóstolos.
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Antes de mais nada, quero agradecer e louvar o seu esforço para responder à minha pergunta. Esta resposta é bem diferente de sua primeira resposta de duas linhas (uma linha e meia, para ser preciso), o que me faz sentir gratificado por ter insistido que você apresentasse a indicação das passagens a que você se referia.
Na verdade, analisando sua resposta, creio que ela é tão completa quanto uma resposta a uma pergunta desse tipo pode ser, a partir do que me parece ser seu ângulo básico de visão.
Só queria que você esclarecesse um ponto.
No final você resume:
“Ora, se tudo o que os apóstolos ensinavam já estava contido no Velho Testamento, se tudo o que eles testificavam de Cristo era o cumprimento do que o Velho Testamento já dizia sobre Cristo, e se essas coisas estavam tão claras no Velho Testamento que os judeus incrédulos eram incentivados a examinar o Velho Testamento para comprovar que os apóstolos estavam certos, então somos forçados a concluir que a Escritura completa . . . “
O que eu esperava neste ponto era algo assim: “. . . então somos forçados a concluir que a Escritura completa já estava contida no Velho Testamento e o Novo Testamento não era nem necessário.”
Em outras palavras: Qual a mensagem nova que o Novo Testamento trouxe que quem tem apenas o Velho Testamento não tem?
Mas mais uma vez, obrigado. Creio que todo mundo que está presente nesta discussão lhe fica devedor pelo tempo e esforço que você gastou para elaborar esta peça.
Bom dia,
“Em outras palavras: Qual a mensagem nova que o Novo Testamento trouxe que quem tem apenas o Velho Testamento não tem?”
O ensino do Senhor Jesus, no dia de sua ressurreição, responde:
Para os dois discípulos no caminho de Emaús, ele disse:
LUCAS 24
25. E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!
26. Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória?
27. E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.
E depois, para os seus apóstolos:
44. E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos.
45. Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras.
46. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao
terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos,
47. E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém.
48. E destas coisas sois vós testemunhas.
Veja que o ponto da repreensão de Jesus era enfatizar que eles ignoraram que seu sofrimento, sua morte e sua ressurreição já tinha sido ensinado pela Escritura (coleção de livros divinamente inspirados). Ou seja, esse texto visa ensinar que as doutrinas do sofrimento, da morte e da ressurreição de Jesus (v. 46), bem como a doutrina do arrependimento, da remissão dos pecados e da salvação de todas as nações (v. 47) já eram ensinadas no Velho Testamento. Qual é a relevância do Novo Testamento então? O verso 48 explica. Não é introduzir doutrinas novas, mas é dar testemunho de que essas coisas já tinham se cumprido. O Velho Testamento diz que aconteceria (e até diz QUANDO aconteceria), e o Novo Testamento dá testemunho de que já aconteceu e descreve os detalhes de como aconteceu. Os apóstolos são as testemunhas oficiais.
Você disse: “O que eu esperava neste ponto era algo assim: ‘. . . então somos forçados a concluir que a Escritura completa já estava contida no Velho Testamento e o Novo Testamento não era nem necessário.'”
O Novo Testamento é necessário, não para introduzir novas doutrinas – novos artigos de fé (o Novo Testamento não introduz nenhum novo artigo de fé) – mas para dizer que o que foi profetizado já aconteceu.
É por isso que Paulo disse a Timóteo que o Velho Testamento já ensinava a salvação pela fé em Jesus Cristo (2Tm 3:15). Onde o Velho Testamento ensina isso? Em milhares de passagens diferentes. Uma delas é o Salmo 2: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (v. 12). É por isso que Paulo também disse que “toda a Escritura [do Velho Testamento] é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2Tm 3:16-17). A lei moral do Velho Testamento é a mesma do Novo. O Velho Testamento ensinava: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” (Dt 6:5), e o Novo também (Mt 22:37). O Velho Testamento ensinava: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19:18) e o Novo Testamento também (Mt 19:19; 22:39; Rm 13:9). Não há uma lei moral para o AT e outra para o NT. A lei moral é a mesma. Por isso, o Velho Testamento é perfeitamente suficiente para instruir em toda boa obra, como Paulo explica (2Tm 3:16-17). Por isso, João Calvino estava correto quando comentou esses versos:
“Aqui, porém, suscita-se uma pergunta. Ao falar da Escritura, Paulo tinha em mente o que chamamos Velho Testamento; como é possível dizer que ele pode fazer uma pessoa perfeita? Se esse é o caso, o que depois foi ascrescentado pelos apóstolos é aparentemente supérfluo. Minha resposta é que, no que tange à substância da Escritura, nada se acrescentou. Os escritos dos apóstolos nada contém além de simples e natural explicação da lei e dos profetas jutamente com uma clara descrição das coisas expressas neles. Paulo, pois estava certo ao celebrar os louvores da Escrituras nesses termos; e visto que hoje seu ensino é mais completo e mais claro pela adição do evangelho, devemos confiadamente esperar que a utilidade da qual Paulo fala se nos torne muito mais evidente, caso estejamos dispostos a fazer a prova e a recebê-la.” (João Calvino, Comentário de 2 Timóteo 3:17)
Um erro que muitos cometem é achar que Deus só nos dá o que é necessário. Deus nos dá muito mais do que o necessário. Deus criou a água. Para viver, água é o único líquido que é necessário beber. Mas além de nos dar água, Deus nos deu o vinho que alegra o coração (Sl 104:15). Ou seja, ele nos deu mais do que o necessário.
Se o Novo Testamento e a Bíblia terminasse em Mateus, já teríamos toda a doutrina de Cristo. Se terminasse em Malaquias, já teríamos toda a doutrina de Cristo. Se terminasse em Mateus, já teríamos o testemunho apostólico de que Cristo já veio. Não há nada que a Bíblia ensine depois de Mateus que não tenha sido ensinado até Mateus 28. Então, por que Deus deu o resto? Porque Deus não dá só o necessário. Porque Deus é gracioso e misericordioso. Como nós somos lentos, lerdos, de vagar, teimosos, rebeldes, Deus repete as mesmas coisas de muitas maneiras. A doutrina da concepção virginal estava no livro do profeta Isaías. O testemunho apostólico de que isso já se cumpriu está em Mateus. Isso já seria suficiente para conhecermos a doutrina e para sabermos que já se cumpriu. Deus é gracioso, então ele dá mais do que o suficiente. Por isso, ele nos deu Lucas, onde a doutrina da concepção virginal é ensinada mais uma vez. Quando ele quis nos ensinar que somos salvos pela graça, ele não disse isso uma única vez. Ele repetiu isso muitas vezes. Ele deu o Salmo 32, ele deu o Salmo 51, ele contou a parábola do filho pródigo, e ele mandou Paulo escrever Romanos. Se a Bíblia terminasse em Mateus, já teríamos tudo. Deus nos ama, é gracioso, é paciente, e por isso ele nos deu mais.
É por isso que, se uma comunidade cristã do ano de 57 d.C. não tivesse o cânon completo, isso não significa que eles não criam no Sola Scriptura. Sola Scriptura significa crer que todas as doutrinas estão na Bíblia. Se eles tivessem de Gênesis a Malaquias, eles já teriam todas as doutrinas de Cristo na Bíblia que eles tinham. Se eles tivessem de Gênesis a Mateus, eles já teriam todas as doutrinas de Cristo na Bíblia que eles tinham. Sola Scritprua não significa que se faltar um livro, então há doutrinas que não estão lá. Esse pensamento é falacioso, e é contrariado pelo Novo Testamento muitas vezes. Quando Pedro pregou no dia de Pentecostes, ele pregou sobre o Espírito Santo e sobre a morte, ressurreição, ascensão e reino de Cristo com base nos livros de Joel e dos Salmos. Portanto, os livros posteriores não eram necessários para que a Igreja pudesse dizer que essas doutrinas estavam na Bíblia. Deus repete as mesmas coisas muitas vezes. Se nós não tivéssemos Judas ou Apocalipse, nós teríamos todas as mesmas doutrinas nos outros 25 livros.
Então, nós temos muitas passagens da Bíblia que ensinam o Sola Scriptura de maneira explícita, e eu acredito que demonstrei isso aqui.
Reply – Cont
Outra coisa importante de se entender é que Sola Scriptura não significa negar a tradição. Sola Scriptura significa que todas as doutrinas de Cristo estão na Bíblia. Essas doutrinas, que estão na Bíblia, também estão na tradição, pois as doutrinas bíblicas são ensinadas pela Igreja e transmitidas pela Igreja de geração em geração. As Igrejas da Reforma nunca rejeitaram a tradição. O que eles fizeram foi rejeitar que a tradição pode transmitir doutrinas que não estão na Bíblia. Todas as doutrinas de Cristo estão na Bíblia e, além de estar na Bíblia, estão também na tradição. Por outro lado, as que estão na tradição, mas não estão na Bíblia, são falsas doutrinas. Ou seja, o que a Reforma rejeitou foi falsas tradições, não toda a tradição.
A Bíblia ensina que Jesus é Deus. A tradição do Credo Niceno também. Por isso, a Reforma abraçou a tradição do Credo Niceno. Na verdade, a Reforma abraçou a tradição de todas as decisões dogmáticas dos concílios da Igreja Antiga. A Reforma não rejeitou a tradição, mas somente a maneira católica romana de enxergar a tradição.
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“Em outras palavras: Qual a mensagem nova que o Novo Testamento trouxe que quem tem apenas o Velho Testamento não tem?”
O Sermão do Monte está cheio de afirmações, atribuídas a Jesus, dizendo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos… […] Eu, PORÉM, vos digo…”. A ética de Jesus vai além da ética do Velho Testamento. (Sendo didático, como você gosta de ser, PORÉM é um termo de contraste, de oposição, chamado “Conjunção Adversativa”.
E não estou falando apenas da ética casuística dos Fariseus, mas da ética que o Velho Testamento atribui ao próprio Deus.
A visão de Deus apresentada por Jesus (entre outros lugares na parábola do Filho Pródigo), em que Deus é Pai Amoroso e Bondoso, disposto a perdoar, em vez de punir, sem exigir sacrifícios, é não só diferente da visão de um Deus Monarca, Soberano, Todo-Poderoso, Zeloso, Ciumento, Autoritário, e Arbitrário, que escolhe uns e rejeita outros sem nenhuma outra razão a não ser a sua vontade soberana (i.e., porque ele quer agir assim, punto y basta…), que manda matar mulheres e crianças, etc. — repito: essa visão de Deus apresentada por Jesus não só e diferente da visão de Deus apresentada no Velho Testamento, mas é oposta a ela e incrivelmente superior a ela.
Negligenciar esse fato e afirmar que tudo que está no Novo Testamento está no Velho, é jogar fora a essência, o aspecto mais importante, da mensagem de Jesus.
É verdade que, em relação a esse segundo ponto (visão de Deus), Paulo, cuja mensagem difere significativamente da de Jesus, tentou recuperar alguns pontos da visão de Deus do Velho Testamento, como o soberano arbítrio divino na predestinação, mas felizmente a mensagem de Jesus ficou preservada.
A expressão é bem posterior, mas o conceito está nas Escrituras. Deus sempre mandou seus servos escreverem as revelações. Desta forma, Jesus e os apóstolos citaram, com abundância, “As Escrituras”. Posto abaixo apenas alguns versículos que mostram como o método de Deus sempre foi a escrita:\
“Então, o SENHOR vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma. Então, vos anunciou ele a sua aliança, que vos prescreveu, os dez mandamentos, e os escreveu em duas tábuas de pedra. Também o SENHOR me ordenou, ao mesmo tempo, que vos ensinasse estatutos e juízos, para que os cumprísseis na terra a qual passais a possuir.” (Dt 4.12-14)
“Tomara sejam firmes os meus passos, para que eu observe os teus preceitos.” (Sl 119.5)
“A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples.” (Sl 119.130)
“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva.” (Is 8.20)
“Está escrito” disse Jesus por três vezes a Satanás, citando as Escrituras, para repelir o tentador (Mt 4.4,7,10)
“Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.” (Mt 5.18)
“… E, assim, invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição.” (Mt 15.6)
“Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.” (Mt 22.29)
”E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição.” (Mc 7.7-9)
“E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.” (Lc 24.27)
“Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim.” (Jo 5.39)
“Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (Jo 5.46,47)
“Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” (Jo 20.30,31)
“… expôs Simão como Deus, primeiramente, visitou os gentios, a fim de constituir dentre eles um povo para o seu nome. Conferem com isto as palavras dos profetas, como está escrito: Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei. Para que os demais homens busquem o Senhor, e também todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o meu nome, diz o Senhor, que faz estas coisas conhecidas desde séculos.” (At 15.14-18)
“Respondeu Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos. Mas ele insistiu: Não, pai Abraão; se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão. Abraão, porém, lhe respondeu: Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos.” (Lc 16.29-31)
“Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim. Com isso, muitos deles creram, mulheres gregas de alta posição e não poucos homens.” (At 17.11,12)
“… porque, com grande poder, convencia publicamente os judeus, provando, por meio das Escrituras, que o Cristo é Jesus.” (At 18.28)
“Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança.” (Rm 15.4)
“Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro.” (1Co 4.6)
“Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema.” (Gl 1.8,9)
“Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo.” (Gl 1.11,12)
“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2Tm 3.14-17)
“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hb 1.1,2)
“Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos. Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio de anjos, e toda transgressão ou desobediência recebeu justo castigo, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” (Hb 2.1-3)
“Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração, sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2Pe 1.19-21)
“e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.” (2Pe 3.15,16)
“Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho.” (2Jo 1.9)
“Eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro: Se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus lhe acrescentará as pragas que estão escritas neste livro; e se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida, e da cidade santa, que estão descritas neste livro.” (Ap 22.18,19)
Reply
Ageu Magalhães
Caro Ageu:
Eu estava, até certo ponto, brincando com o pessoal que frequenta regularmente o meu perfil, desafiando-o a pensar um pouco acerca de algumas coisas que quase todo mundo dá por estabelecidas, mas sua honrosa intervenção na conversa me fez lembrar de duas linhas de Camões, no Primeiro Canto, Estrofe Terceira, de Os Lusíadas: “Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta”. Vamos tentar dar, então, um upgrade na conversa.
Lamento dizer que todo o seu admirável esforço de amealhar 28 passagens bíblicas não tocou no problema que eu acreditava ter levantado. Concluí, por modéstia, que talvez não houvesse me expressado com suficientemente clareza. Tentarei fazer isso agora, revelando os spoilers do exercício.
Primeiro, meu objetivo não foi questionar as doutrinas da inspiração das Escrituras, da inerrância e infalibilidade do texto bíblico (nem o disponível para nós, nem, muito menos, os autógrafos), nem, menos ainda, da doutrina da revelação divina através do texto bíblico.
Segundo, meu objetivo foi levantar uma questão que, a meu ver, raramente é discutida hoje em dia (no meu tempo de estudante de Teologia, na década de 1960, era bem mais discutida), em relação a um dos Solas (ou Solae) defendidos pela Reforma Protestante (ou a partir dela): o Sola Scriptura. A questão hoje raramente discutida é: Quando os reformadores propuseram o princípio do Sola Scriptura, o que eles estavam procurando deixar fora? Eles poderiam ter proposto simplesmente o princípio de que toda doutrina (ou todo conhecimento de Deus e das coisas do reino espiritual) deve ter ancoragem nas Escrituras. Por que acrescentar o “Sola”? A meu ver, não foi apenas para ênfase, mas, para ressaltar que os Reformadores estavam deixando fora outras possíveis fontes de doutrina (e conhecimento de Deus, etc.). Quais? As fontes de doutrina (etc.) que a Igreja Católica utilizava além, e ao lado, das Escrituras, às quais eles, os Reformadores, decidiram não dar tanta importância quanto davam às Escrituras, e, em momentos de maior radicalidade, escolheram rejeitar (talvez não com um “Nein!” tão enérgico quanto o de Barth, contra Brunner), a saber:
• A Tradição: os Credos, os escritos dos Pais e dos Doutores da Igreja, os Cânones dos Concílios Ecumênicos, etc., ou seja, a História do Pensamento Cristão;
• O Magisterium: as Bulas e as Encíclicas Papais e outros pronunciamentos oficiais do Colégio de Cardeais e da Cúria da Igreja;
• A Reflexão sobre a Natureza, que leva à produção da Teologia Natural, tão importante na Igreja Católica do período anterior à Reforma, com o seu Escolasticismo, ancorado principal, mas não exclusivamente, na Summa Contra Gentiles, de Tomás de Aquino.
Ou seja: O Sola Scriptura tinha por objetivo deixar essas fontes de doutrina (etc.) de fora e concentrar toda a atenção nas Escrituras – não em todos os livros e passagens das Escrituras (Tota Scriptura), mas em um quase “cânon dentro do cânon” definido pelo que se acreditava então ser o corpus paulino (quatorze cartas).
Como você reconhece, em seu comentário, “a expressão [Sola Scriptura] é bem posterior” à data das Escrituras. É basicamente consenso hoje que, por volta do ano 100 aD, tudo que hoje se considera como as Escrituras Sagradas do Cristianismo já estava escrito. Essa admissão sua deixa claro que o a expressão “Sola Scriptura” não aparece nas Escrituras (nem, nessa forma em latim, na Vulgata, nem, no equivalente grego, na Septuaginta, nem no Novo Testamento, nem, em Hebraico, nas Escrituras Judaicas. Nisto estamos de pleno acordo.
Você afirma em seguida: “mas conceito está nas Escrituras”. E eu lhe pergunto: Que conceito? O conceito de Sola Scriptura dos Reformadores, que eu acabei de esboçar nos parágrafos anteriores? Li com cuidado as 28 passagens bíblicas que você transcreveu, e não encontrei, em nenhuma delas, nem sequer uma sombra do conceito de Sola Scriptura dos Reformadores, que eu didaticamente resumi.
Você coletou uma série de passagens que, em alguns casos, afirmam que Deus falou (sem esclarecer de que forma, se usando linguagem natural, ou por fogo, ou por trovão, ou por um mensageiro celeste, ou através de sonhos), ou deixam claro que os autores dos livros que hoje compõem a Bíblia acreditavam que havia preceitos divinos que o povo reconhecia como tais (mesmo que nem sempre os cumprisse), que Paulo, em especial, acreditava que sua mensagem lhe havia sido transmitida diretamente por Jesus Cristo (a quem ele nunca encontrou em condições normais aqui na Terra), etc.
Nenhuma referência a Tradição, Magisterium, e Natureza. Na verdade, seria difícil que as Escrituras se referissem a essa tríade, pois, exceto pela Natureza, os outros dois elementos apareceram apenas no decorrer da evolução pós-apostólica da Igreja, quando as Escrituras do Novo Testamento já estavam escritas (mesmo que nem o cânone do Velho, nem o do Novo, estivessem totalmente fechados).
Especificamente, era minha intenção aferir se alguns dos interlocutores se davam conta de que o Sola Scriptura é, na forma em que eu o esbocei, um princípio teológico, ou da metodologia da teologia, que propõe que as Escrituras sejam a única (sola) regra de fé e prática, enquanto o próprio princípio não tem, nem pode ter (na forma em que eu o entendo), nenhuma base escritural. Na verdade, como eu o entendo, o Sola Scriptura da Reforma Protestante talvez seja o princípio metodológico mais importante da Tradição Reformada… Isso é, parece-me, é quase uma contradictio in adjecto.
É isso. Paro por aqui. O desafio original perdeu a graça, mas, quem sabe, a gente acabe por avançar um pouco no entendimento das coisas.
E, mais uma vez, obrigado por participar. Para mim é um honra descobrir que, de vez em quando, você lê alguma coisa que eu escrevo (embora eu suspeite que alguém o tenha chamado neste caso).
Em 14.1.2025 (já passa da meia-noite).
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Agradeço a resposta. De trás para frente, ninguém me chamou. Tuas postagens aparecem na minha timeline mesmo. E eu não estranho isso. Meu objetivo não foi fazer teu objetivo inicial ficar sem graça, de forma alguma. Eu achei que eram dúvidas sinceras, por isso dei uma resposta extensa, com o máximo de textos que lembrei. No mérito, creio que os reformadores escreveram em um contexto extremamente caótico, de erros colossais dentro da Igreja. Quando, por causa do renascimento, retornaram ad fontes, perceberam o que a igreja havia se tornado. A descoberta das Escrituras (até então acorrentada e aprisionada nos mosteiros) foi como uma explosão de luz no meio das trevas. Todavia, não creio que eles desconsideraram a revelação natural. Tradição e Magisterio sim, com certeza. E é compreensível, pois não tiveram inspiração como as Escrituras, e a história revelou (e continua revelando) no que se tornaram. A mariolatria, por exemplo, que não foi conhecida pelos reformadores, porque é bem mais recente, é prova do que é a Tradição e o Magistério. Sobre os pais da igreja, aqueles homens os conheciam, mais do que nós. Lutero os estudou no Seminário, e Calvino os cita com abundância nas suas obras, mostrando, inclusive, como divergiam, prova de não inspiração. Enfim, não quero tumultuar tua postagem. Não foi a intenção. Agradeço a interação e desejo que Deus continue abençoando tua vida. Um abraço.
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Agradeço a cortesia de uma resposta em primeira pessoa, e não apenas contendo citações bíblicas. E, por cima, em um tom gentil e respeitoso. E levando a sério a questão que levantei em minha resposta. A propósito, peço desculpas se dei a impressão, na minha resposta a você, de que estava brincando com coisa séria. Não estava e não estou. Mas às vezes faço isso (resquício de sete anos passados como interno dentro de três Seminários). Mas devo tomar cuidado. Isso às vezes ofende as pessoas ou, no mínimo, como no caso, as leva a entender errado a sua intenção em um texto ou em uma simples postagem de poucas linhas. Isso apesar do fato de que dúvidas sérias são algo que me acompanha durante mais de sessenta anos, desde que entrei no Seminário de Campinas no fatídico ano de 1964. Minha festa de calouros era para ter sido no dia Primeiro de Abril de 1964.
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Gostaria de conhecer melhor, se você estiver disposto a não considerar encerrada esta nossa conversa, duas coisas, relacionadas ao que você disse. Primeira, quais são as bases de sua afirmação de que os Reformadores não desconsideraram a chamada revelação natural. Segunda, se você realmente considera que divergência é “prova de não inspiração”, como você lida com as divergências entre os relatos dos Evangelhos Sinóticos (as genealogias de José, em Mateus e Lucas, para ficar em algo mais objetivo), ou entre Paulo e Pedro, ou, mesmo que não sejam divergências, mas apenas diferenças de ponto de vista, entre Paulo e Jesus de Nazaré.
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Mas, mesmo que você opte por não levar nossa conversa adiante, o que eu compreenderia, mais uma vez obrigado e um grande abraço. Também leio o que você escreve, e, mesmo que muitas vezes discorde, opto por não discutir.
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Caro irmão. Agradeço as gentis palavras. Sobre tua pergunta, João Calvino, por exemplo, no primeiro livro das Institutas trabalha um pouco a ideia da revelação natural como fonte do conhecimento de Deus, especialmente quando trata do semen religiones e sensus divinitatis. No comentário dele sobre Romanos, no capítulo 1, ele também aborda o tema. Certamente há mais, se pesquisamos melhor este recorte. Mas, de cabeça é o que me lembro. Sobre a segunda questão, prova de não inspiração, de fato, as aparentes divergências nos relatos dos Sinóticos podem ser explicadas pelas diferenças de visão mesmo. Óticas diferentes, mas sem contradição. Tudo guiado pela ação do Espírito Santo. Um forte abraço, meu irmão. Que Deus abençoe o sr.
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Obrigado. Irei de volta às Institutas… Em 1969, no Seminário de Pittsburgh, participei de um grupo de leitura das Institutas, de cabo a rabo, durante um ano, conduzido pelo Ford Lewis Battles, tradutor das Institutas na Library of Christian Classics, e meu professor de História da Igreja no Mestrado. Um mestre magnífico. Mas a gente esquece boa parte do que leu, principalmente passados 55 anos. (Isso não quer dizer que nunca mais tenha lido as Institutas, embora elas não estejam entre os meus livros de cabeceira.) O Comentário aos Romanos eu nunca li, mas tenho uma cópia. Vou consultar. Retribuo o abraço e o desejo que Deus continue a abençoá-lo.
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Eduardo Machado Chaves, que privilégio ter o Ford Lewis Battles como professor! Bênção de Deus.
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Uma vez, em um seminário sobre a Igreja Antiga, eu escolhi fazer um trabalho sobre Nestorianismo, e ele me disse: Tudo bem, mas escreva o seu trabalho em Português que eu quero ver se eu entendo. Entendeu tudo, sem dicionário e sem nenhum problema. Mas ele FALAVA Latim, não só lia… Realmente foi um privilégio tê-lo como professor e amigo durante os cinco anos e meio que fiquei em Pittsburgh, morando no campus do Seminário e trabalhando na Biblioteca (embora durante 2,5 anos eu estivesse fazendo o Doutorado na Universidade de Pittsburgh).
Não diz em lugar nenhum. No entanto, antes mesmo dos concílios de Roma e Cartago, que definiram o cânon do NT, já existia na igreja uma consideração muito grande pela tradição escrita, isto é, os quatro evangelhos, as cartas paulinas e outros textos menores. Em Irineu de Lyon já está presente a supremacia dos quatro evangelhos. Esses mesmos evangelhos já são citados por meio de passagens por figuras como Clemente romano, Justino, etc. E, ao que parece, tais livros eram as fontes dos argumentos desses pais apostólicos, pois eles os citam o tempo inteiro.
Porém antes da escrita dos evangelhos, o que guiava a igreja era a tradição oral que, como diz Richard Bauckham, emergiu à partir do testemunho de testemunhas oculares. Essa tradição foi preservada. Não totalmente pois, como atesta o próprio João , muita coisa que Jesus fez não foi registrada. Depois de preservada foi registrada por escrito nas cartas paulinas e nos evangelhos.
Minha conclusão é que os evangelhos são uma extensão da tradição oral e são inseparáveis. Como diz James Dunn, o que temos sobre Jesus é o Jesus recordado pelas tradições, sejam orais ou escritas. Sendo assim, o único norte que a igreja tem hoje deixado por Cristo e os apóstolos está contido nas escrituras. A escritura e a tradição oral se equivalem. A escritura é a tradição oral na sua forma escrita. Portanto, não faz sentido dizer: não existe somente a escritura, temos uma tradição oral também, como se uma coisa estivesse distante da outra. Ora, só sabemos dessa tradição oral porque ela foi preservada nas escrituras.
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Caro Álvaro:
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Quando falei em Tradição não me referi à tradição oral que precedeu a redação dos Evangelhos e de Atos (principalmente). Referi-me à Tradição Escrita da Igreja, posteriormente ao fechamento do texto bíblico (embora não do cânon), e que contém tudo aquilo que eu especifiquei na minha resposta à primeira postagem do Ageu. Não tenho muito problema em aceitar a sua tese de que há continuidade e ou mesmo compatibilidade entre a tradição oral existente antes da composição dos Evangelhos + Atos e esses livros. Certamente só sabemos da existência dessa tradição oral porque ela foi, eventualmente, colocada em forma escrita, por mais de uma pessoa. Isso posto, não devemos nos esquecer que entre a morte de Jesus e a escrita dos Evangelhos e de Atos decorreram cerca de 40 anos (segundo as datas mais comumente atribuídas ao Evangelho de Marcos, que seria o mais antigo dos Evangelhos). Um texto escrito pode permanecer relativamente intato por dezenas, quiçá centenas de anos. Mas uma tradição oral dificilmente permanece intata durante 40 anos. Talvez seja por isso que há diferenças / discrepâncias / contradições entre os três Evangelhos Sinóticos. Qual o nome do avô de Jesus por parte de pai (ou, se você prefere, por parte do marido de Maria)?
Obrigado por participar e contribuir. Um abraço.
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De fato a tradição oral não permaneceu totalmente preservada, mas nem de longe isso significa que ela está totalmente perdida. O Craig Blomberg fala de uma transmissão flexível isto é, que aspectos fundamentais da tradição se preservou, embora detalhes menos importantes tenham ficado pelo caminho. Estamos falando da cultura judaica, existem registros de pessoas que decoravam e recitavam oralmente o velho testamento quase todo. O cristianismo nasceu ambientado nesse contexto. A própria cultura antiga tinha uma grande consideração pela tradição oral.
Obrigado, pelo espaço irmão.
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Obrigado pelo complemento, Álvaro. Não discordo do que você diz. Há uma importante discussão da transição da tradição oral para a tradição escrita no contexto do Novo Testamento no livro The Birth of Christianity, de John Dominic Crossan, capítulo 3 a 9. O subtítulo do livro é Discovering What Happened In the Years Immediately After the Execution of Jesus. Abraço.
Acho que tá em Gênesis a Apocalipse
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E uma questão de fé, mais que de razao. O deísmo prisma pela razão, o teísmo pela fé na revelação …
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Meu caro Javan, que bom ver você aparecer por aqui. Já estava com saudade.
Mas, mesmo sendo uma questão de fé, estariam Anselmo e Barth errados quando um afirmou e o outro endossou que a tese de que mesmo a fé deve buscar entendimento?
Ou será que está valendo é um tertulianesco “credo quia absurdum” e não tenho que apresentar as razões de minha fé pra ninguém?
Um abraço.
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A fé é um dom de Deus cada um exercita a segundo a extensão de sua razão.
Saudades da época que isso era discutido com sabedoria e entendimento! Belo resgate!
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Obrigado, Max… Bom ver vc por aqui.
1d
Dando sequência às discussões do Ageu Magalhães, Frank Brito, e dos demais, e complementando o que eu próprio já disse, trago um texto que escrevi, em conversa com um amigo meu, que refere não participar da discussão aqui. Eis o texto, em duas partes, porque o Facebook não gosta de comentários muito longos.
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PARTE 1
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As principais tendências da Reforma Protestante insistem que as Escrituras são a única (“sola”) norma (vou usar esse termo em vez de regra) de fé e prática e a única fonte de conhecimento de Deus e das realidades espirituais dos fiéis. Essa norma/fonte é unária.
A Igreja Católica, por seu lado, insiste que, ao lado das Escrituras, há a Igreja (com o seu Magisterium). A norma de fé e prática e a fonte de conhecimento de Deus e das realidades espirituais dos fiéis é, para a Igreja Católica, binária.
É um caso simples de lógica. Não dá para as duas teses serem verdadeiras. Se uma tese é verdadeira, a outra é falsa. Pode ser, porém, que as duas sejam falsas – há várias possibilidades: ou não há nenhuma norma/fonte desse tipo, ou há uma norma/fonte ternária, ou quaternária, etc.
As principais justificativas da Igreja Católica para considerar a própria Igreja, em sua função Magisterial, uma norma de fé e prática e uma fonte de conhecimento de Deus tão valiosa quanto, se não mais, do que as Escrituras, são estas duas:
a. A Igreja, ou a Comunidade da Fé, com as suas lideranças [inicialmente o próprio Jesus, depois os seus apóstolos, depois as lideranças locais e regionais das igrejas, os presbíteros, bispos, arcebispos, patriarcas, o papa, etc.], existiu antes da Bíblia (no caso, do Novo Testamento). O Novo Testamento foi produto dela, ou fruto produzido dentro dela. Antes de virar livro, ele cultivado e preservado na forma de Tradição Oral que, no devido tempo, se tornou o conjunto de livros que veio a ser considerado as Escrituras Cristãs – sequência ou companhia das Escrituras Judaicas. Os livros contidos nas Escrituras Cristãs foram escritos, ou compilados, ou compostos, ou editados, por membros da Igreja. No devido momento foi a Igreja que decidiu quais livros seriam considerados canônicos (com autoridade apostólica), e quais ficariam de fora do cânon (apesar de úteis para a inspiração, reflexão, e orientação da conduta). Quando houve dúvidas sobre quais crenças acerca da pessoa e da natureza de Jesus eram aceitáveis (se ele era plenamente humano, se ele plenamente divino, se ele era as duas coisas, ou talvez nenhuma delas, etc.), ou sobre qual entendimento da natureza de Deus era correto (se era ele uno, ou biúno, ou triúno), ou sobre qual a melhor forma de interpretar o texto bíblico (se literalmente, se metaforicamente, e tipologicamente, etc.), foi a Igreja que decidiu o que seria considerado ortodoxia (mais do que aceitável, obrigatória) e o que seria considerado heresia (mais do que inaceitável, proibida). Sem a Igreja, as Escrituras Cristãs não teriam se estabelecido como norma de fé e prática e fonte de conhecimento de Deus e das realidades espirituais.
b. Essa Igreja, ou Comunidade da Fé, existe até hoje e, com o passar do tempo, tem tido de enfrentar decisões difíceis acerca de ideias e condutas que não estão contempladas no texto das Escrituras. Quais são aceitáveis e quais não? Isso se tornou especialmente sério quando a Comunidade da Fé se tornou a Igreja Imperial, e seus membros tiveram de exercer funções de comando no Exército e na guerra, e outras atividades inerentes a uma instituição que, de um momento para o outro, passou a ser uma Repartição do Estado, um órgão público, que, entre outras coisas se ocupava de registros de nascimento, batismo, casamento, óbito, que até aquele momento eram funções estritamente do Estado. A Igreja também teve, depois de definir a Ortodoxia, que decidir como lidar com hereges… Como lidar com comunidades inteiras que se recusam a aceitar a Ortodoxia e optam por se separar da Igreja tido como Universal (Católica)? Como lidar com cismas (divisões)? Como sistematizar as questões de interpretação bíblica, o problema de desvio doutrinal ou moral, as decisões dos Concílios Ecumênicos, questões e decisões que envolviam crenças e condutas, que, em alguns casos, não estavam contempladas nas Escrituras, criando, no processo, um Código de Direito Canônico? Foi a Igreja, em sua função Magisterial, que decidiu e produziu tudo isso, servindo de ponte entre as Escrituras Sagradas do Cristianismo e as crenças, os usos e os costumes – enfim, a Cultura – dos diferentes contextos em que a Igreja teve de se fazer presente.
— Continua
Reply – cont
PARTE 2:
Em resumo: A Igreja, que exerce a função do Magisterium, existe desde a morte de Jesus ou o Pentecostes, e durante cerca de quarenta anos, as histórias acerca do que Jesus ensinou e fez circularam oralmente no seio dessa Comunidade da Fé. Aos poucos coleções dessas histórias foram escritas e disseminadas. Os apóstolos viajavam e se correspondiam, por carta com as novas comunidades que eles criavam, e essas cartas foram coletadas e distribuídas para outras igrejas – tudo isso antes de as histórias acerca do que Jesus ensinou e fez ficassem cristalizadas em quatro Evangelhos e antes de as principais movimentações dos apóstolos mais importantes e suas ideias fossem registradas no livro de Atos. Foram membros da Igreja que escreveram esses relatos, os quais, a partir do final do século 4, foram definitivamente consolidados em um cânon. Isso quer dizer que durante cerca de 350 anos a Igreja sobreviveu sem Escrituras Sagradas próprias consolidadas e (quase) universalmente aceitas. Não era sequer compreensível falar de Sola Scriptura em um contexto como esse, porque não havia Scriptura (além das Escrituras Judaicas, que se tornaram o Velho Testamento Cristão). Havia só a Igreja. Quando o Cânon foi universalizado, a Igreja precisou continuar a tomar decisões sobre questões novas, não tratadas nos livros canônicos, ou sobre a melhor interpretação das questões antigas e sobre as melhores respostas a elas.
Mas havia mais duas coisas.
De um lado, como apoio para a interpretação bíblica e para as decisões do Magisterium, havia a Tradição composta dos escritos dos grandes teólogos da Igreja Antiga, os chamados Pais da Igreja (Gregos e Latinos), e dos grandes teólogos da Idade Média, os chamados Doutores da Igreja (que escreveram basicamente em Latim, independentemente de onde vivessem). A obra desses gigantes era conhecida e muito citada – mas, em geral, como esclarecimento e apoio de teses derivadas das Escrituras Sagradas ou do Magisterium.
De outro lado, havia a chamada Revelação Natural, a reflexão teológica baseada na Razão Humana em contemplação da Natureza Material (Física, Química e Biológica) e em reflexão sobre a Natureza Humana (que envolve o Intelecto, as Emoções, e a Vontade). Essa Revelação Natural, como bem mostrou Tomás de Aquino em sua Summa Contra Gentiles, seria muito útil no processo de evangelização e catequização dos Muçulmanos, que muito cedo, logo depois das invasões do Norte (a dos “bárbaros”), começaram a invadir a Europa, agora vindos do Sul (a dos “mouros”)…
Para concluir, o Sola Scriptura dos Reformadores prescrevia a Bíblia como única norma de fé e prática e única fonte de conhecimento de Deus e de outras realidades espirituais, com duas, talvez três, modulações.
Em relação ao que a Igreja Católica considerava o Magisterium da Igreja, eles aceitavam, em princípio, os credos e os cânones dos primeiros quatro Concílios Ecumênicos (até Calcedônia, em 451), embora os termos e a expressões usados nesses credos e nesses cânones não fossem, muitas vezes, deriváveis do texto bíblico.
Em relação ao que a Igreja Católica chamava de Tradição (os escritos dos Pais e dos Doutores da Igreja), eles aceitavam interpretações do texto bíblico que eram compatíveis com suas (deles, Reformadores) teses básicas – em especial as interpretações propostas por Agostinho, um favorito tanto de Lutero como de Calvino. Mesmo quando Lutero e Calvino optavam por discordar de Agostinho e de outros importantes Pais e Doutores da igreja, eles, raramente decidiam bater de frente com eles (em especial com Agostinho). O que acontecia com mais frequência é que a interpretação do texto bíblico que os Reformadores favoreciam tivesse sido derivada originalmente desses Pais e Doutores da Igreja – em especial de Agostinho, e que essa interpretação discordasse da interpretação da Igreja Católica, através do seu Magisterium. Quase nunca eles concordavam plenamente com os Doutores da Igreja favoritos da Igreja Católica, como Anselmo de Cantuária, Pedro Abelardo, Pedro Lombardo, e, especialmente, Tomás de Aquino.
É isso…
De Salto, n’O Canto da Coruja, em 15.1.2024
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Muito bem, amigo! Estou com você mais uma vez. Que pena que não podemos estudar isso com a “igreja” protestante de hoje.
Reply
Muita gentileza a sua, meu irmão.
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Quando a “igreja” entrou de sola, deu no que deu: quase irrelevante para o tempo atual!
Complementando o que disse acima (ou atrás).
Alguns autores e alguns amigos meus (entre os autores, Olivier Riaudel, no seu artigo “The Bible Is Not an Image: Scriptures, Traditions, and Reasons”, no livro The Bible throughout the Ages: Its Nature, Interpretation, and Relevance for Today, editado por Lydia Jaeger and Craig Bartholomew, Zondervan, 2024) têm procurado me convencer de que Tomás de Aquino defende uma variante do Sola Scriptura, e que Calvino o cita favoravelmente nas Institutas e alguns comentários bíblicos (estando, portanto, possivelmente, a rejeitar uma visão mais rígida do Sola Scriptura)..
Fui atrás de um trabalho que escrevi, na área de Teologia Sistemática, sobre ” ‘Cognitio Dei’ in the Thought of Saint Thomas Aquinas “, no ano de 1969, enquanto eu fazia o Mestrado (M.Div.) no Pittsburgh Theological Seminary. São cerca de 120 páginas escritas há cerca de 55 anos atrás.
Tomás classifica as proposições, ou os enunciados que podem ser considerados verdadeiros ou falsos, em três tipos:
* Proposições “secundum rationem” — enunciados racionais;
* Proposições “contra rationem” — enunciados irracionais;
* Proposições “supra rationem” — enunciados suprarracionais, que transcendem a razão
A mesma tríade pode ser feita em relação às Escrituras:
* Enunciados que estão contidos nas Escrituras;
* Enunciados que contrariam as Escrituras;
* Enunciados que transcendem ou vão além das Escrituras, afirmando ou negando fatos ou teses que não estão nas Escrituras, mas não contradizem nada que é afirmado pelas Escrituras.
Assim, Tomás poderia perfeitamente criticar uma afirmação feita por um Pai da Igreja porque, na sua opinião, ela contradiz algo que está nas Escrituras, e aceitar uma afirmação de um Pai da Igreja (ou mesmo de um filóso pagão) que vai além das Escrituras, sem negá-la, evidenciando que ele, assim fazendo, não é um defensor do Sola Scriptura. Calvino, quando o cita favoravelmente, pode estar endossando uma crítica que ele faz a um Pai da Igreja que “derrapou” em algum ponto de doutrina, dando a impressão que ela acha que Tomás endossava o Sola Scriptura.
Estou elaborando uma hipótese, que precisa ser testada (não fui testá-la relendo Tomás e Calvino). Pode ser que o que estou ressaltando não seja corroborado por evidência textual. Mas é algo que devemos levar em conta em nossas leituras, análises e exegeses, tanto de Tomás como de Calvino.
Isso é importante porque a Igreja Católica persiste em considerar o Magisterium como algo que, de certo modo, se equipara às Escrituras, porque, desde que as Escrituras do Novo Testamento foram fechadas, por volta do ano 100, muita coisa nova apareceu no mundo, que as Escrituras nem de longe contemplavam discutir… mas que hoje são comuns e extremamente importantes. O que fazer?
Por exemplo…
Hoje em dia é comum acreditar na igualdade de oportunidades e direitos para mulheres, em relação aos homens, porque o sexo feminino não impede as mulheres de adquirir as mesmas competências e habilidades, bem como o mesmo preparo, que os homens, em qualquer área (exceto, talvez, em algumas áreas em que se exige grande força física e tamanho incompatível com o da maioria das mulheres). Isso não era comum na época do Novo Testamento — e pode explicar a presença nas Escrituras de afirmações de que a mulher deve ficar calada na Igreja, que ela não pode exercer ofícios na Igreja que a colocam em posição de autoridade, porque, segundo a Bíblia, em uma das narrativas da criação, ela foi criada depois do homem, quase que como um “afterthought”, e a partir de uma parte do corpo dele, e, por conseguinte, é inferior a ele… Em um contexto como o atual, faz todo sentido que a IPIB do Brasil, e outras igrejas, através de seu Magisterium (a Assembleia Geral, o Supremo Concílio, a Convenção Nacional), permitam a ordenação de mulheres e o pleno exercício do ministério por elas na Igreja. Isso é agir, não em áreas em que as Escrituras não se manifestam, mas agir de forma CONTRÁRIA à afirmação inequívoca da Bíblia. O mesmo é verdade quanto à obediência das mulheres aos seus maridos e muitos outros assuntos.
Esse exemplo mostra que há muita razoabilidade na declarada rejeição do Sola Scriptura pela Igreja Católica e de sua não-declarada, mas implícita, rejeição pela IPIB e outras igrejas reformadas.
(Fiquei sabendo que mesmo na IPIB há Presbitérios conservadores que se recusam a ordenar mulheres — o que eu, pessoalmente, acho uma lástima…)
Eduardo CHAVES
Salto, em 17 de Janeiro de 2025
Categories: Liberalism
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