Gracias a la Vida – com um Pouco de Nostalgia…

Sempre fui muito grato por tudo que a vida me deu — ou pelas bênçãos recebidas, como muitos preferem expressar o fato. Ou, ainda, por ter tido muita sorte na loteria da vida (vida que, ao longo desses 82 anos já completados, faz três meses, me tem sido muito boa, em basicamente todos os aspectos: saúde, felicidade pessoal, sucesso profissional, segurança financeira suficiente).

Mas hoje estou meio nostálgico… Estava procurando umas coisinhas de valor insignificante e achei umas outras coisas extremamente importantes com as quais eu não me deparava há muito tempo: meu certificado de conclusão dos Cursos Primário, Ginasial e Colegial clássico (respectivamente de 1955, 1959 e 1963), meus diplomas de Bachelor of Divinity (B.D.), de 1970, de Master of Divinity (M.Div.), de 1972, e de Doctor of Philosophy (Ph.D.), também de 1972, estes três obtidos nos Estados Unidos, que considero minha segunda pátria, e, em alguns aspectos, a primeira… deixando de lado a “Patrie Hors Concours”, que é Portugal, país de meus antepassados de todos os lados. Os dois diplomas teológicos foram obtidos junto ao Pittsburgh Theological Seminary (PTS), de Pittsburgh, PA, USA, instituição mais antiga do que o mais famoso Princeton Theological Seminary. O Ph.D. foi obtido junto à University of Pittsburgh (Pitt), da mesma cidade. Em ambos os casos, as instituições são mais do que mais do que bicentenárias. O PTS é a encarnação mais recente de uma instituição fundada em 1794, em uma “log cabin” (uma casinha de madeira). Tem hoje 231 anos. A Pitt, que também passou por várias encarnações, foi fundada em 1787, 238 anos atrás, sete anos antes do Seminário. Para comparar, a Universidade de São Paulo tem 91 anos. A UNICAMP, apenas 56, por aí, dependendo de como se conte a fundação: no ano da criação no papel, no ano do primeiro tijolo no chão, ou no ano do funcionamento do primeiro curso no campus de Barão Geraldo (1969).

Em 1995 estive na celebração do Jubileu de Prata dos formandos de 1970. Completava então 25 anos de formado. Em 2020 pretendia estar na celebração do Jubileu de Ouro, para comemorar meus 50 anos de formado, mas a pandemia me impediu. Neste ano de 2025 poderia ter ido à celebração dos 55 Anos de Formatura, mas não tive ânimo, depois de perder o Jubileu de Ouro. Recebi, no entanto, os Certificados dos dois Jubileus – no caso do de Prata, em mãos, lá na festa, em 1995, na querida Pittsburgh. No caso do de Ouro, por courier, em São Paulo. Os americanos prezam muito essas efemérides. Aqui nem tanto. Aposentei-me da UNICAMP em 2007, depois de quase 33 anos de serviço, e não ganhei nem um pin — quem diria um relógio de ouro… Em 2024 comemorei sozinho, comigo mesmo, meus 50 anos de vínculo com a UNICAMP, onde comecei a trabalhar em 1974. Faltam aqui no Brasil as tradições nobres que engrandecem as principais universidades europeias e americanas. Lá, ex-professores e ex-alunos (alumni) são valorizados: suas carreiras são acompanhadas pela instituição, seu sucesso comemorado e compartilhado com os demais ex-professores e alumni. E estes retribuem o reconhecimento com carinho e dinheiro. Aqui não tem nada disso. Se eu viver mais cinco anos, e estiver bem de saúde, pretendo participar, no ano de 2030, daqui a quatro anos e meio, do encontro dos que vão completar 60 anos de formatura. Não serão muitos.

Mas mesmo que não chegue lá (em seus múltiplos sentidos), a consciência de estar formado há 55 anos já é bastante significativa, e o manuseio dos diplomas e dos demais papéis escolares e acadêmicos me deixou emocionado e, de certo modo, nostálgico. Lembrei-me da canção de Ataúlfo Alves: “Tempos de Criança”. Ele louvou na poesia “a professorinha que lhe ensinou o be-a-bá”. Eu aprendi esse tal de be-a-bá em casa, com a ajuda de minha mãe, que só tinha o Ginásio Comercial, quando eu tinha quatro ou cinco anos. Só vim a entrar na escola quando eu tinha oito anos e meio, já sabendo ler, escrever, contar, e tendo uma letra muito bonita, herança da letra do meu pai…

A lembrança dessas coisas mexe com a gente… Deixa-nos gratos mas, ao mesmo tempo, nostálgicos. “Eu daria tudo que eu tivesse para voltar aos dias de criança…”, dizia Ataúlfo. “Ah, meu Deus, por que é que a gente cresce, se não sai da mente essa lembrança…?”

Mas a gratidão é maior do que a nostalgia. Como disse Violeta Parra, devemos dar “gracias a la vida, que me ha dado tanto…” Amém.

Salto, 11 de Dezembro de 2025

Letra de “Gracias a la Vida” (de Violeta Parra, 1966)

“Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él, las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano
Y luz alumbrando la ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros”

(Que os fãs de Mercedes Sosa me desculpem, mas prefiro a interpretação de Joan Baez, a “ídola” dos protestos da contracultura nos Estados Unidos nos anos em que vivi lá, de 1967 a 1974. E lá vem mais gratidão e mais nostalgia… “Where have all the flowers gone?”)



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