Nesses tempos malignos que estamos vivendo no Brasil, vi-me tentado a acrescentar “A Desjuridicização do Direito”… E há muito tempo venho batalhando, nos bastidores, mas não secretamente, pela “A Desigrejação e Desclerização da Religião”…
Mas temos menos ideias sobre como fazer isso como Direito e a Religião do que nos dois casos que coloquei no título. Por isso, vou deixá-los de fora, nesta notinha. E vou me concentrar nos dois casos que coloquei no título, a Educação e a Saúde. Neles (mas também nos outros dois que vou deixar de fora, por ora), a mente criativa que nos mostrou como tirar a educação do cárcere da escola e a saúde do cárcere do consultório médico e do hospital foi o incomparável IVAN ILLICH. Os livros principais de Illich, no caso, são Deschooling Society (1971), razoavelmente bem conhecido no Brasil, onde foi traduzido como A Sociedade Sem Escolas, e Limits to Medicine: Medical Nemesis and the Expropriation of Health (1976), que, tanto quanto eu saiba, não foi traduzido para o Português.
Agradeço imensamente a meu grande amigo e colega na UNICAMP, já falecido, Augusto João Crema Novaski, por ter me introduzido ao pensamento de Illich. Éramos vizinhos de sala, desde que chegamos à UNICAMP, e quem nos aproximou mais ainda foi nosso amigo mútuo, Newton Aquiles von Zuben, também já falecido, este mais recentemente, que era orientador do Augusto em sua Dissertação de Mestrado, que veio a ter o título de Indivíduo e Instituição em Conflito: Análise Fenomenológica da Proposta de Desescolarização de Ivan Illich. Na página de Agradecimentos o Augusto teve a gentileza de me agradecer por tê-lo ajudado na revisão geral do trabalho, e, na primeira página, me escreveu, a mão, um comovente agradecimento, datado de13.11.1978. Quem é abençoado com uma idade vetusta, como eu tenho sido, é grato por isso, mas tem a infelicidade de ver os grandes amigos irem embora antes.
Enfim…
Já escrevi bastante sobre a Desescolarização da Educação. Tenho um blog, com o título de Deschooling Education (https://deschooling.education). Sobre a Desmedicalização da Saúde não escrevi quase nada, mas sempre trago a questão à baila quando sou chamado a corrigir certos interlocutores que presumem que estarei completando 83 anos este ano porque visito os consultórios médicos com frequência, faço checkups, faço exercícios físicos, ou pelo menos ando bastante, como de forma regrada, não bebo bebida alcoólica, durmo cedo e bastante, etc. Nada disso é verdade. É verdade que tive um infarto em 2002 que quase me levou, mas os cuidados competentes e sensatos de meu médico José Francisco Kerr Saraiva me salvaram. Até hoje, 24 anos depois, tomo cerca de 12 comprimidos por dia. A angioplastia, o stent e o os medicamentos providenciados pelo médico me salvaram.
No resto, sigo uma recomendação feita por um amigo meu, também colega na UNICAMP, o médico John Cook Lane, que um dia, em uma palestra que ele deu no Conselho Diretor da Universidade, disse: “A maioria das doenças e dos problemas de saúde vão embora por si próprios, se os médicos não interferirem e complicarem tudo…”. Sigo essa recomendação, que teria sido abençoada por Ivan Illich, tenho certeza.
Por isso, recomendo, neste início de 2026, que leiam Illich. E não só o que ele escreveu sobre a educação e a saúde, mas, também, o que ele escreveu sobre o direito e, como diria David Hume, o mais cético e irônico filósofo que já viveu, sobre o qual escrevi minha tese de Doutoramento, sobre “a nossa mui santíssima religião cristã”, que Deus a proteja dos papas, patriarcas, cardeais, bispos, pastores, e demais sacerdotes e nos ponha livres do alcance das basílicas, das catedrais, e mesmo das igrejinhas mais simples, para que aprendamos, de uma vez por todas, que onde dois ou três estiverem reunidos… ou mesmo na solidão do nosso quarto…
Em Salto, 1º de Janeiro de 2026
PS… Não aguentei e acabei falando, provavelmente mais do que devia, da religião e da igreja…
Categories: Liberalism
Leave a comment