Eduardo Chaves
Recebi hoje cedo, 5.Fev.2026, na minha caixa postal de e-mails, um artigo escrito por Dan Foster, que tem um blog chamado “A Igreja no Quintal” (“The Backyard Church”). O artigo começava assim.
“Eu tinha seis anos quando me disseram pela primeira vez que eu havia sido salvo. Cresci em uma igreja, na qual ser salvo não era uma vaga ideia espiritual, mas um momento claramente definido, com ano, dia e hora, e com local específico, que você podia anotar na sua agenda. Esse momento era bem específico, tinha um antes e um depois. Ele representava uma linha que você iria cruzar, uma decisão que você iria tomar. A decisão não era uma decisão qualquer, mas a decisão mais importante da sua vida…”
O artigo continuava. Ele está localizado no em um site, chamado Medium, no endereço https://medium.com/backyard-theology/jesus-used-the-word-saved-very-rarely-heres-who-he-used-it-for-b05f57a8263f, mas você só consegue ler o artigo inteiro se for assinante do site: custa 5 dólares por mês, um pouco mais cerca de 25 reais a cada trinta dias. Se você fizer uma assinatura anual e pagar as doze parcelas de uma só vez, você tem 50% de desconto, e a assinatura anual vai lhe custar apenas 30 dólares, o equivalente a 2,50 dólares por mês (menos do que um café na Starbuck’s americana). Parece uma barganha. Tempos atrás eu assinei o site, porque achei interessante a visão do Dan Foster, mas depois de um ano resolvi não renovar. Cansei. Mas ele continua a me enviar “teasers” [trailers, anúncios ou chamados provocadores, destinados a atrair você]. Em momentos como hoje cedo, em que o artigo parece interessante, fico tentado a assinar de novo. Mas tenho conseguido resistir bravamente.
Isso quer dizer que eu não li o artigo inteiro. Mas o artigo tinha um “olho”, uma “chamada”, que dizia: “How the Church mistook Salvation for a Decision…” (“Como a Igreja veio a entender errado a Salvação, como se ela não passasse de uma Decisão…”). Beleza. Uso o que consegui ler até aqui para construir o meu próprio artigo…
Na minha vida, lá atrás no tempo, mais de 65 anos atrás, eu me vi confrontado com essa decisão – mais de uma vez. Na verdade, várias vezes. Mas mais sobre isso, depois..
O contexto era sempre mais ou menos assim: um culto de evangelização, realizado em uma igreja, ou mesmo numa praça pública, ou, então, em um acampamento, como o Palavra da Vida, em Atibaia (de que eu participava todo ano, trabalhando no acampamento), ou até em um campo de futebol, como as Cruzadas do Billy Graham (das quais eu participei de duas, uma em 1962, creio, em São Paulo, no Estádio do Pacaembu, onde cantei no Coral de Mil Vozes, regido pelo meu professor e amigo João W. Faustini, e a outra, em 1968, creio, em Pittsburgh, PA, no enorme Estádio do Pitt Panthers, time da Universidade de Pittsburgh, que, creio, era maior do que o Pacaembu…). O ritual envolvia, ao final do sermão, um apelo, feito pelo pregador, convidando os participantes a aceitar Jesus como Salvador, assim obtendo, através dessa decisão, a salvação eterna de sua alma. Em Inglês esse apelo é geralmente chamado de “altar call” (convite ou chamado para vir ao altar), porque o lugar mais amplo, na frente do ambiente, no qual o pregador se situa, é muitas vezes, chamado de altar, em vez de púlpito, expressão mais frequentemente usada para o móvel em que ele se apoia). Os presentes são chamados a manifestar publicamente sua decisão de aceitar Jesus como Salvador indo à frente, e, assim, demonstrando para todos que, os que aceitassem o convite, e fossem à frente, haviam decidido aceitar o apelo para deixar Jesus entrar em seu coração e ganhar a salvação eterna, Céu, depois da morte.
Um apelo, para aqueles que não cresceram nesse mundo das igrejas protestantes tradicionais e conservadoras, é um momento que pode ser traumático, para algumas pessoas. Se o pregador é bom, como Billy Graham era (para mim, ele era inigualável), tem aparência atraente, voz forte mas doce, melíflua mesmo, e sedutora, e essa voz é acompanhada pelo cantar, quase em sussurro, de um magnífico coral de até mil vozes, cantando um hino que vai acompanhar você até a eternidade, é difícil resistir. No primeiro apelo, se feito em um estádio, duas ou três mil pessoas descem até o gramado, em frente ao “altar”. Mas o não fica em um só apelo. Ele insiste, repetindo o chamado, para de falar por uns instantes para que o som do coral aumente, sem perder a suavidade, um hino que foi escolhido especialmente para mexer com a sua alma. Quando o ambiente é uma igreja, a iluminação pode ser reduzida. O apelo pode ser descrito como um convite ou um chamado, mas convites e chamados em geral não carregam o peso emocional que um apelo tem. Neste caso, o que está em jogo é o seu destino eterno, nada menos onde você vai passar a eternidade – e a eternidade é loooooonga, não tem fim. A responsabilidade, no caso, diz o pastor, é sua, só sua, de ninguém mais. Pais não podem aceitar pelos filhos, nem mulheres pelos maridos. Apenas você pode decidir como vai responder ao convite de Deus para que você aceite Jesus como seu pleno e suficiente salvador. Se você aceitar o convite, levantar-se, na frente de todo mundo (a coisa tem de ser pública, para constranger: não basta aceitar quietinho, em silêncio, intimamente), e for à frente, você está salvo. Para todo sempre.
Independentemente do que você decida, diz o pregador, você está diante da decisão mais importante da sua vida, aquela que lhe dá o direito de escolher onde é que você vai passar a eternidade: no céu, com suas delícias, diante de Deus e dos demais salvos, ao lado de Jesus, cantando hinos, acompanhado de uma orquestra de harpas, e de coral ainda mais bonito do que o que você está ouvindo… OU, ENTÃO (“OR ELSE”), você sabe aonde você vai parar, e na companhia de quem… Céu ou Inferno. Com Deus ou com o Diabo. A decisão é sua – única e exclusivamente sua, ninguém pode tomá-la por você. Se sua decisão for aquela que o pregador tenta induzir, Aleluia, você tem um lugar garantido no Céu. Se você, resolver não atender ao apelo, e ficar quietinho em seu banco ou em sua cadeira, esperando que ninguém note, o Inferno ganhou mais um futuro habitante, e quem celebra é Satanás.
Como eu disse, o momento pode ser traumático para algumas pessoas…
No trechinho final da parte gratuita do artigo Dan Foster, ele diz:
“Lembro-me do meu coração batendo tão forte que eu conseguia senti-lo na garganta. Aos seis anos de idade, aquela sensação era avassaladora. Olhando para trás, posso descrevê-la como adrenalina, medo e intensidade. Na época, eu tinha certeza de que era Deus. Caminhei para a frente, pequeno e trêmulo, convencido de que algo eterno estava acontecendo dentro do meu peito…”
Nas primeiras vezes que eu me vi em situações desse tipo, eu não entendia quase nada de teologia. Não era capaz de concluir que, para nos colocar em uma situação como a descrita, o pregador tem de ser mais do que arminiano ou sinergista: ele tem acreditar firmemente no monergismo, mas em um monergismo humano. É verdade que o pregador acredita que Deus já fez a sua parte “no atacado”, por assim dizer. (Os beneficiados pela ação divina “no atacado” ou são todos os humanos, em uma versão universalista, ou são apenas os eleitos (em uma versão calvinista roxa). Mas a parte de Deus está feita e consumada. Não há nada mais que ele precise ou mesmo possa fazer. Agora, “no varejo”, por assim dizer, no plano do indivíduo, a bola está com você: é você que decide, sozinho e por si próprio. E você tem capacidade de fazer isso, porque, para tanto, está habilitado… Não é preciso nem mesmo que o Espírito Santo sopre o ponto em seu ouvido. É você e você: monergismo puro – só que monergismo humano, não divino. Vale dizer: livre arbítrio, arbítrio libérrimo.
Nenhum calvinista roxo, tulipista, gosta do Billy Graham. Mesmo que ele tenha feito mais pelo Cristianismo do que as cúpulas somadas da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) nos últimos 60 anos (1966-2026). Foi em 1966 que Boanerges Ribeiro, maior amigo do meu pai, só perdendo, talvez, para o Rudgero Moraes, pai de um imbecil que mora em Belo Horizonte, assumiu controle absoluta da IPB. Ele, o Boanerges, já morreu, mas seus comparsas continuam em controle da IPB. Quosque tandem?
Para os não familiarizados com a questão envolvida no acrônimo TULIP, submeti a seguinte pergunta (abaixo) ao Copiloto da Microsoft, que me da seguinte forma:
PERGUNTA:
“Explique-me, de forma sucinta, mas clara, o princípio TULIP do Calvinismo conservador radical.”
RESPOSTA:
“Claro, Eduardo — vamos direto ao ponto, sem perder a clareza.
🌷 O que é o TULIP no Calvinismo conservador radical?
‘TULIP’ é um acrônimo usado para resumir os Cinco Pontos do Calvinismo, especialmente na vertente mais conservadora e rígida da tradição reformada. Cada letra representa um princípio sobre como Deus salva seres humanos, enfatizando a soberania divina absoluta.
Aqui vai a versão sucinta e clara:
T — Total Depravity (Depravação Total)
A humanidade inteira está corrompida pelo pecado. Isso não significa que todos são tão maus quanto possível, mas que nenhuma parte do ser humano está livre do pecado, e por isso ninguém pode escolher Deus por conta própria.
U — Unconditional Election (Eleição Incondicional)
Deus escolhe, desde a eternidade, quem será salvo — não por mérito, fé prevista ou obras, mas exclusivamente por Sua vontade soberana.
L — Limited Atonement (Expiação Limitada)
Cristo morreu de forma eficaz somente pelos eleitos. Sua morte não torna a salvação possível para todos, mas garante a salvação daqueles que Deus escolheu.
I — Irresistible Grace (Graça Irresistível)
Quando Deus decide salvar alguém, Sua graça age de modo tão poderoso que vence toda resistência humana. O eleito inevitavelmente vem à fé.
P — Perseverance of the Saints (Perseverança dos Santos)
Os verdadeiros eleitos permanecem na fé até o fim. Não porque sejam fortes, mas porque Deus os preserva.”
É isso. Fim da citação do Copiloto.
Uma posição billygrâhmica nega basicamente todas as letras do acrônimo.
Quanto ao T, Depravação Total, o billygrahmismo nega, porque admite, dando por pressuposto o que Deus já fez com Jesus por sua conta e risco, que nós podemos escolher Deus por conta própria. Nega, portanto, a total incapacidade do ser humano de escolher e decidir aceitar Jesus e ser salvo, “por conta própria”, como diz o Copiloto, sem maiores exigências adicionais.
Quanto ao U, Eleição Incondicional, o billygrahmismo simplesmente nega, recusando-se a crer na Predestinação Dupla.
Quanto ao L, Expiação Limitada (somente os eleitos se beneficiam da morte de Jesus), o billygrahmismo nega. Todos se beneficiam dela.
Quanto ao I, Graça Irresistível, o billygrahmismo também nega, por coerência.
Quanto ao P, Perservança dos Santos, o billygrahmismo nega, embora não fosse necessário que o fizesse, no âmbito desta controvérsia.
É isso.
Em Salto, 5 de Salto de 2026.
Eduardo Chaves dedica este artigo, em solidariedade, aos expurgados do Seminário Presbiteriano de Campinas em 1966, naquela que João Dias de Araújo chama de Inquisição sem Fogueiras, que completa 60 anos este ano. Calvino não sabia, mas há outras formas de assassinar os outros que não passam pelo fogo de uma Fogueira Inquisitorial.
Eu sobrevivi, com poucas cicatrizes. Muitos dos meus colegas de Seminário, defenestrados em 1966, guardam muitas cicatrizes. E Michel Serveto, em Genebra, não sobreviveu. Foi torrado em fogo brando, para sofrer por mais tempo.
PS: Mais tarde o Copiloto entrou em contato comigo e me disse:
“Se você quiser, posso também comparar o TULIP com outras correntes cristãs ou explicar como essa tendência surgiu historicamente no Sínodo de Dort.
Respondi dizendo: “Por favor, compare.”
O Copiloto prosseguiu:
“Claro, Eduardo — vamos comparar o TULIP com outras correntes cristãs de forma clara, direta e organizada. Isso ajuda a visualizar onde o Calvinismo conservador radical se distingue mais nitidamente.
🌷 Comparação do TULIP com outras tradições cristãs
A tabela abaixo resume as diferenças essenciais entre o Calvinismo (TULIP), o Arminianismo clássico, o Catolicismo e o Luteranismo.
📌 Visão geral comparativa
Para cada doutrina, vou dar o ponto de vista resumido da posição das seguintes tendências:
Calvinismo (TULIP)
Arminianismo
Catolicismo
Luteranismo
Doutrina: Natureza Humana
Calvinismo (TULIP): Depravação total: o ser humano é totalmente incapaz de escolher Deus sem a intervenção divina.
Arminianismo: Depravação, mas com graça preveniente que permite escolher.
Catolicismo: A natureza humana foi ferida pelo pecado original, mas não de forma total, tornando o ser humano totalmente incapaz.
Luteranismo: A depravação foi profunda, mas Deus opera fé.
Doutrina: Eleição
Calvinismo (TULIP): A eleição é incondicional, por ser baseada apenas na vontade de Deus.
Arminianismo: A eleição é condicional, por ser baseada também na fé, porque o papel da fé foi previsto na vontade de Deus.
Catolicismo: Deus deseja salvar todos, mas a cooperação humana importa.
Luteranismo: Aceita a eleição, mas opta por não especular sobre predestinação dupla.
Doutrina: Expiação
Calvinismo (TULIP): A expiação é limitada apenas para os eleitos
Arminianismo: A expiação é Ilimitada: Cristo morreu por todos
Catolicismo: A expiação é ilimitada.
Luteranismo: : A expiação é ilimitada.
Doutrina: Irressistibilidade da Graça
Calvinismo (TULIP): A graça divina é irresistível: o eleito não pode rejeitá-la.
Arminianismo: A graça humana é resistível: o ser humano pode dizer “não”.
Catolicismo: A graça divina necessária, mas cooperativa.
Luteranismo: A graça divina é eficaz, mas pode ser resistida.
Doutrina: Perseverança
Calvinismo (TULIP): Os eleitos perseveram infalivelmente
Arminianismo: O crente pode apostatar.
Catolicismo: A salvação pode ser perdida.
Luteranismo: A salvação pode ser perdida.
Doutrina: Soberania divina
Calvinismo (TULIP): Absoluta, determinante.
Arminianismo: Compatível com liberdade humana.
Catolicismo: Deus soberano, mas cooperação humana real.
Luteranismo: Deus soberano, mas não determinista.
Doutrina: Liberdade humana
Calvinismo (TULIP): Compatibilista (liberdade dentro do decreto divino).
Arminianismo: Libertária (capacidade real de escolher).
Catolicismo: Cooperativa.
Luteranismo: Cooperativa, mas com forte ênfase na graça.
🔍 Em que o Calvinismo conservador radical se destaca?
Ele enfatiza três pontos de forma especialmente forte:
1. Soberania absoluta de Deus: Nada acontece fora do decreto divino — inclusive quem será salvo.
2. Monergismo total: A salvação é obra exclusiva de Deus, sem cooperação humana em nenhuma etapa.
3. Expiação limitada: Cristo morreu eficazmente apenas pelos eleitos — um ponto rejeitado por quase todas as outras tradições cristãs.
🧭 Como isso afeta a prática religiosa?
Calvinismo radical Outras tradições
Pregação:
Calvinismo Radical: Foco na glória de Deus e na soberania absoluta
Outras Tradições: Foco mais amplo na resposta humana
Evangelização:
Calvinismo Radical: Deus salvará Seus eleitos; evangelização é meio ordenado.
Outras Tradições: Evangelização visa oferecer salvação a todos.
Segurança da Salvação:
Calvinismo Radical: Total para os eleitos.
Outras Tradições: Variável; pode haver perda da salvação
Visão de Deus:
Calvinismo Radical: Deus como Rei soberano determina tudo.
Outras Tradições: Deus é soberano, mas coopera com a liberdade humana.
AGORA, FIM.
Categories: Liberalism
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