A Questão do Termo Pátrio ou Gentílico “Americano” / “American”

“A ignorância não deve constituir obstáculo para a introdução da verdade”.
(Napoleão Mendes de Almeida, Dicionário de Questões Vernáculas, verbete “América”)

Diz o ditado que cada louco tem sua mania. Eu tenho várias. Mas as piores manias do louco nem de longe se comparam com as aparentemente inócuas manias do ignorante que se pretende culto e sábio.

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Uma de minhas manias mais antigas tem que ver com a resposta à questão enunciada no título deste artigo, a saber:

A pessoa que (por nascimento, adoção, ou qualquer outra maneira) tem cidadania do país conhecido no mundo inteiro como (nome por extenso) “Estados Unidos da América” (“United States of America“) é designada por que termo dentre os pátrios ou gentílicos?

Mais ou menos a mesma pergunta vale para músicas, filmes, livros, tecnologia, ou qualquer outro produto, material ou cultural, originado no referido país.

Sou, desde cedo apaixonado pelo estudo de línguas. Já estudei várias, algumas delas com certa profundidade. E acredito, com firme convicção, que há uma maneira “ótima” de escrever e falar uma língua. Reconheço, sem me envergonhar, que essa maneira de usar a língua se aplica mais à língua escrita do que à língua falada. No caso desta, em especial em suas versões cotidianas, perdoa-se muita variante ou alternativa que não seria admissível na língua escrita. Mas um discurso bem elaborado e bem apresentado, como “I Have a Dream”, de Martin Luther King, ou como os sermões de Billy Graham, provam que que existem padrões de altíssima qualidade que às vezes são alcançados no falar em público. Gostaria de ter ouvido Ruy Barbosa discursar.

Por isso, sempre gostei de aprender línguas novas. E, quando vou aprender uma nova língua, começo estudando as chamadas “gramáticas normativas” ou, pelo menos, as chamadas “gramáticas metódicas”, tendo um certo desprezo pelas chamadas “gramáticas descritivas”, que apenas descrevem como o povo, quer dizer, o povão mesmo, de fato fala (que o meu colega e amigo Ataliba Castilho, do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP, e especialista nas tais, me perdoe.)

Vou explicar esses termos e expressões para os não familiarizados com esse jargão meio técnico, ou meio inventado.

O que eu chamo de uma “maneira ‘ótima’ de escrever e falar uma língua” é aquilo que, em Português, se chama de “Norma Culta“, ou que, em Inglês, se chama de “The King´s /  Queen’s English” (O Inglês falado pelo Rei, ou pela Rainha, ou pela Realeza, ou, ainda, pela nobreza), ou que, em Alemão, se chama de “Hoch Deutsch” (O Alemão de Nível Elevado), ou que, em Francês, se chama de “Le Français de l’Académie” (O Francês “quase-oficial” definido pela Academia Francesa de Letras, que, no caso da França, tem autoridade formal sobre a língua, com o objetivo de mantê-la tão “pura” quanto for possível, restringindo ao máximo o ingresso na língua de estrangeirismos e gírias, por exemplo), etc.

Essas expressões não são, de modo algum, definições técnicas, mas, sim, símbolos culturais que evocam autoridades na área da linguagem (as Academias de Letras, os clássicos da língua, a alta tradição literária, etc.), ou que simplesmente refletem prestígio social ou político (o modo de falar da realeza ou da nobreza, quando esta existe, ou da classe culta, dos intelectuais de renome, etc.).

Sou da opinião que a qualidade da língua escrita e falada em um país (caso se trate de um país de língua única – a Suíça tem quatro línguas oficiais, mais o Inglês, falado, de forma generalizada, mas oficiosa, em todo lugar) degringola rapidamente se inexiste essa preocupação de preservá-la, naquela que é reconhecida como a sua melhor forma, de mantê-la tão “pura” quanto possível (sem violar a liberdade dos indivíduos). Não é necessário se tornar “afetado”, para conseguir isso, quando os parâmetros, embora elevados, são realistas.

Meu grande mestre nessas questões foi aquele que eu considero o maior gramático que o Brasil já teve, Napoleão Mendes de Almeida. Desde meu curso Ginasial (hoje Fundamental I), iniciado em 1956, tenho minha própria cópia pessoal de sua Gramática Metódica. O fato de Mendes de Almeida chamar sua gramática de “Metódica” e não “Normativa”, reflete, além do fato de que ele não tinha autoridade formal para escrever uma Gramática Normativa, o fato de que ele era suficientemente sensato para reconhecer a realidade de que a língua muda ao longo do tempo – mesmo que essa mudança não represente sempre uma evolução, não seja sempre para melhor. Na verdade, raramente representa e é.

Minha posição em relação à questão expressa no título deste artigo é basicamente a posição de Mendes de Almeida (embora, confesso, eu seja um pouquinho mais radical, inflexível e intolerante do que ele).

Minha posição é que a palavra – do tipo adjetivo pátrio ou gentílico – que corretamente designa a pessoa que é cidadã do país denominado Estados Unidos da América (United States of America) é “americano” (“american“, em Inglês) – não é norte-americano (North American), porque esse termo se aplica a quem nasce na América do Norte, que inclui, pelo menos, além dos Estados Unidos da América, o Canadá e o México; nem, muito menos, é estadunidense (“unitedstatian“?), que é um termo absolutamente sem sentido, que nem existe em Inglês, que é a língua falada exatamente pelos cidadãos daquele país.

Baseio-me, para adotar essa posição, em razões históricas e de bom senso.

1. Razões Históricas

Quando, bem no início do século 17, vários grupos protestantes (mas não anglicanos – em geral eram calvinistas, os chamados puritanos) oriundos das Ilhas Britânicas fugiram de lá, para evitar perseguição e morte, em decorrência de questões religiosas, eles se dirigiram para uma região na parte média superior da costa leste do continente americano que ficava ao Norte do Equador, região essa povoada, na época, apenas por indígenas. Seguindo a sugestão de Américo Vespúcio (e não a de Cristóvão Colombo, que, quando chegou à América, achou que havia chegado à Costa Ocidental da Índia!), eles definitivamente batizaram aquele lugar de América (“America”, sem acento, em Inglês). Não havia nenhum estado ali, muito menos vários estados, unidos ou desunidos.

Ali eles formaram, originalmente, colônias britânicas americanas (ou colônias britânico-americanas, ou colônias britânicas da/na América). Quando, ao se aproximar o último quarto do século 18, as treze colônias existentes, naquela época e naquela região, se tornaram independentes da Inglaterra, e, oportunamente, criaram para si mesmas um país autônomo, o nome que elas deram ao país foi America (sem acento, em Inglês – América, em Português), e os cidadãos daquele país passaram a se designar americanos (e não mais ingleses ou britânicos) – como, de resto, já vinham fazendo há algum tempo...

Como as antigas colônias britânicas na América desejavam dar a maior independência possível às colônias existentes, agora independentes, elas passaram a se designar como “estados”, que seriam unidades políticas independentes relativamente autônomas – não absoluta ou totalmente autônomas. A autonomia era limitada porque as ex-colônias, ao mesmo tempo que queriam ser livres, não queriam ser totalmente autônomas, cada uma delas tendo suas leis gerais (constituição), sua moeda, seu comércio, seu exército, sua política externa, etc. Por isso, optaram por criar uma federação (ou república federativa) de estados, com um governo central, que veio a ser chamado de Governo Federal ou, simplesmente, de União, e deram ao país o nome completo de Estados Unidos da América (“United States of America“).

O jeito de ler essa narrativa é este – e não há nenhum outro que faça sentido: o nome do país é América (“America“), e ele é constituído por ex-colônias que se tornaram independentes, isto é, que se tornaram livres, mas, abrindo mão de uma parte de sua autonomia, se uniram às demais, criando o país chamado Estados Unidos da América (“United States of America“). E os cidadãos desse país são americanos (“american“), que era como eles sempre se designaram, no Novo Mundo, desde que lá chegaram, no início do século 17.

Americanos” (“American“), portanto, é o termo pátrio ou gentílico que os ingleses ou britânicos que emigraram para a América adotaram para designá-los, desde quando vieram para a América, bem como depois, quando se tornaram independentes da Inglaterra, e até hoje.

Norte-americanos” eles nunca iriam se designar, quando chegaram à América, no início do século 17, porque não havia ainda consciência global de que aquilo que eles conheciam como América era mais de uma América (pelo menos a do Norte e a do Sul, a do lado de cima e a do lado de baixo do Equador – a Central não sendo reconhecida como um terceiro continente nem hoje). O que alguns chamam de América Central não é um terceiro continente americano: é apenas um conjunto de países localizados em um istmo da América do Norte. Os países que são ilhas que ficam no chamado Mar do Caribe, também fazem parte da América do Norte, pois elas estão todas acima do Equador.

Estadunidense” é um termo infeliz virtualmente impossível de formar em Inglês (“Unitedstatian“?). Você, brasileiro, gostaria de ser chamado hoje de “Repúblico-federativano”? Afinal de contas o nome do nosso país hoje é República Federativa do Brasil… Se a gente vai desconsiderar a parte básica, substantiva, do nome do país e chamar os americanos de estadounidenses ou estado-unidenses, nós deveríamos ser coerentes e nos designar de repúblico-federativanos…

Quando as treze colônias se rebelaram contra a Inglaterra e iniciaram uma revolução para alcançar a sua independência, a revolução se chamou (como se chama até hoje) American Revolution (que aconteceu antes da Revolução Francesa).

Alcançada a Independência, esta foi chamada de American Independence.

A guerra que permitiu que a independência fosse alcançada foi chamada de American Independence War (ou American Revolutionary War).

Quando, conquistada a independência, a nova nação, America, se organizou na forma de estados de uma federação, através de uma constituição, a famosa peça legislativa foi designada (como o é até hoje) de American Constitution.

Quando o famoso escritor francês do século 19 (1805-1859), Alexis de Tocqueville (Alexis Charles Henri Clérel, Comte de Tocqueville), escreveu seu mais famoso livro, nos anos 1835-1840, o título do livro, no original, foi Democratie en Amérique, e o livro foi imediatamente traduzido para o Inglês como Democracy in America – porque America era o nome do país, e todo mundo reconhecia esse fato.

Ninguém imaginou que sendo o autor um francês, e, por cima, um conde, ele estivesse escrevendo um livro sobre as possessões francesas no continente, como as ilhas de Martinica e Guadalupe, ou a Guiana Francesa, ou a parte do Canada que fala Francês.

Assim, a despeito de haver importantes autoridades linguísticas que discordem de Napoleão Mendes de Almeida, nessa questão, (e de mim, aqui), concluo que, tendo em vista o fato de que o nome do país era America (América), e não ainda Estados Unidos da América, nem, muito menos, Estados Unidos da América do Norte, que nunca foi, o termo pátrio ou gentílico que designa a pessoa que nasce naquele país (ou é cidadã dele) é americano, e não norte-americano, nem, muito menos, estadounidense (estado-unidense, ou estadunidense).

2. Razões Sustentadas pelo Bom Senso

Como eu concluí na seção anterior, “americano” foi o termo que os cidadãos dos Estados Unidos da América escolheram para se designar –  e o termo “pegou”, dentro e fora do país.

Hoje se fala em Presidente Americano, Congresso Americano, Suprema Corte Americana, Exército Americano, Programa Espacial Americano, Companhias Aéreas Americanas, Tecnologia Americana, Filme Americano, Ator Americano, Atriz Americana, Música Americana, Cantor Americano, Cantora Americana, Escritor Americano, Cientista Americano, Intelectual Americano, Livro Americano, Futebol Americano, Comida Americana, Empresas Americanas, etc.

Você gostaria de embarcar em um programa político-ideológico  mudar tudo isso para “Estadunidense”? Só na mente deturpada de esquerdistas brasileiros anti-americanos isso poderia ser concebido. 

Ninguém, no mundo inteiro, exceto em algumas partes do Brasil, está preocupado com essa questão. No mundo inteiro, cidadãos dos Estados Unidos da América são americanos, punto y basta. Só alguns brasileiros, em todo o mundo, ou em todo o continente americano, em geral de esquerda, têm essa “frescura” de não querer usar “americano” como o termo pátrio ou gentílico dos cidadãos daquele país – porque, afinal de contas, nós também seríamos americanos…

Nós não somos americanos, apesar do fato de que nosso país faz parte de uma parte do continente americano, a América do Sul. Nós somos brasileiros. É esse o termo pátrio ou patronímico que nos designa.

Para os americanos, e para o mundo anglófono em geral, aquilo que eles chamam de “As Américas” (“The Americas“) é um conjunto composto de dois continentes: A América do Norte e a América do Sul. Elas são separadas basicamente pelo Equador. O que o mundo ibérico chama de América Central e Caribe faz parte da América do Norte, sendo um istmo daquele continente, porque fica claramente acima do Equador.

As pessoas nascidas na América do Norte, em geral, são norte-americanas. Canadenses, americanos, mexicanos, e os cidadãos de algum país que faz parte do istmo que forma o que muitos chamam de América Central ou de algum país que é uma ilha do Caribe, também são, norte-americanos (aplicando-se a eles, de forma mais específica, também o adjetivo pátrio ou patronímico correspondente ao país de que são cidadãos. Ninguém é cidadão norte-americano. O cidadão é cidadão de um país, não de um continente.

As pessoas nascidas na América do Sul são sul-americanas e/ou brasileiras, venezuelanas, colombianas, etc. Ninguém nascido aqui é cidadão sul-americano, pela mesma razão destacada no parágrafo anterior.

Não há como a decisão de chamar de americanos os cidadãos dos Estados Unidos da América possa criar confusão ou mal-entendido. E se pudesse ser criada, artificialmente, alguma confusão, a gente a resolveria, como resolveu facilmente em relação a quem nasce no estado de São Paulo, em geral, que é paulista, e a quem nasce, especificamente, na cidade de São Paulo, que, além de paulista, no tocante ao estado, é paulistano, no que diz respeito à cidade.

Os americanos sempre se designaram a foram chamados assim. O bom senso recomenda que possam continuar a fazê-lo sem amolação de gente de países, como o nosso, governada por corruptos, e que morre de inveja dos cidadãos do pujante do país de cima.

Conclusão

Para concluir, lembro ao leitor brasileiro que nosso próprio país, o Brasil, que antigamente tinha seu nome grafado como “Brazil” (com “z”), se chamava, originalmente, Estados Unidos do Brazil, para se diferenciar dos Estados Unidos da América, que proclamaram sua independência bem antes – na verdade, antes mesmo de o Brazil deixar de ser colônia e passar a ser um “Reino Unido” com Portugal e Algarves.

Naquela época, no século 19, em que o Brazil não tinha frescura, eles, os cidadãos dos Estados Unidos da América eram americanos e nós, cidadãos dos Estados Unidos do Brazil, éramos brasileiros – assim, com “z”. E foi assim até bem pouco tempo atrás, sem confusão alguma.

Em Salto, 9 de Abril de 2026



Categories: Liberalism

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