Influências que Vêm e que Vão (Dando Lugar para Outras)

Quando comecei a estudar no Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1964, interessei-me por três autores que nunca havia lido até aquela época. Eu tinha 20 anos. Vou comentá-los, em sua ordem de importância para mim.

O primeiro foi John Stuart Mill (1806-1873), e meu livro favorito dele foi On Liberty (Sobre a Liberdade), de 1859, livro que havia completado um século cinco anos antes de eu entrar no Seminário. Mill fez de mim um liberal, embora eu, décadas mais tarde, tenha vindo a olhar com suspeitas para várias partes do Liberalismo dele. Ainda olho. Minhas suspeitas e desconfianças de parte do Liberalismo de Mill me foram apontadas por Ayn Rand, Ludwig von Mises e Sir Friedrich von Hayek.

O segundo foi Erich S. Fromm (1900-1980), e os meus três livros favoritos dele (mas comprei tudo que havia em Português na época) foram Escape from Freedom (Medo à Liberdade), de 1941, Man for Himself  (Análise do Homem), de 1947, e Beyond the Chains of Illusion (Meu Encontro com Marx e Freud [que, no original, era o subtítulo do livro]), de 1962.  Gostei muito desses livros, quando os li, e achei interessante o “casamento” de Marx e Freud que ele tentou fazer, mas hoje em dia Fromm não é uma fonte de que me alimento, e não sinto a menor simpatia por Marx e Freud, como ele sentia.  O envolvimento de Fromm com a chamada Escola de Frankfurt e seu endosso das teses e dos presidentes do Partido Democrata nos EUA terminaram por me desiludir dele — mas algumas teses suas permaneceram.

O terceiro foi James H. Robinson (1863-1936), e o meu livro favorito dele foi The Mind in the Making (A Formação da Mentalidade), de 1921. O objetivo fundamental do livro foi fundamentar a tese de que “temos disponíveis, hoje [1921], conhecimento, engenhosidade e recursos materiais para construir um mundo bem mais justo do que aquele que temos, mas vários obstáculos impedem que utilizemos esses recursos para esse fim”. A ideia de criar uma sociedade melhor e mais justa me parecia um nobre objetivo em 1964. Hoje tenho receio de projetos utópicos e abrangentes voltados para refazer a sociedade (ou recriar o homem). Eles facilmente se tornam totalitários e desrespeitam flagrantemente a liberdade dos indivíduos que discordam das utopias propostas. A ideias de Sir Karl R. Popper, de que devemos atuar, na área de mudança social, com objetivos bem delimitados e pouco abrangentes (“piecemeal social engineering“), para evitar o totalitarismo e poder reverter as mudanças, se e quando não derem certo, me parecem mais razoáveis.

Quando fui para os Estados Unidos, e comecei seriamente a estudar a História do Pensamento Cristão e Ocidental, me interessei por David Hume (1711-1776), filósofo escocês considerado o maior filósofo que já escreveu em língua inglesa — e, talvez, em qualquer língua. Hume é geralmente classificado entre os Empiristas Ingleses, mas a característica de seu pensamento que mais me chamou a atenção foi o seu Ceticismo — um Ceticismo moderado ou, como ele preferia designá-lo, mitigado, não abrangente e radical. Mas muitos autores têm reconhecido que o Ceticismo Humeano abalou os fundamentos (a) da Ciência Newtoniana, ao criticar e condenar a argumentação indutiva;  (b) de qualquer Ética Racional, como a de Aristóteles, ao negar que a razão seja capaz de definir fins para a conduta e de mover a vontade para alcançá-los (algo que, segundo ele, apenas as paixões, ou emoções, podem fazer), a razão se tornando, na área da ação humana, algo meramente instrumental, nada mais do que uma “escrava das paixões”; (c) da Teologia e da Religião, ao negar que a fé numa revelação divina ou a razão humana sejam capazes de justificar a veracidade de doutrinas religiosas e ao propor uma interpretação naturalística da origem da religião e da crença em deuses que dispensa a existência dos próprios. Com o tempo, vim a modular minha aceitação de algumas teses de Hume, mas ainda aceito seu ceticismo moderado, que sugere que nossa postura inicial (“default“) seja duvidar, não crer (de omnibus est dubitandum), seu instinto quase infalível para detectar lixo intelectual (aquilo que os americanos chulamente chamam de “crap detection instinct“), seu humor e, especialmente, sua fina ironia, e sua combinação (que muitos acham estranha), de um lado, de amor à vida e gosto de viver, e, de outro lado, de enfrentamento da morte com naturalidade e serenidade, mesmo não crendo em Deus e na existência de uma vida futura.

Aqui estão, pois, quatro autores que me influenciaram a partir de 1964 (Mill, Fromm e Robinson) e os autores que me ajudaram a ver problemas em teses e pontos de vista que, inicialmente, me pareceram bastante aceitáveis (Rand, von Mises, von Hayek e Popper). Mill e esses quatro são geralmente considerados Liberais Clássicos. Os outros dois, Fromm e Robinson, não. Eles estão muito mais próximos da Social Democracia e vêm várias teses de Marx (e mesmo do Marxismo), com considerável simpatia.

Por aí se veem alguns dos pilares que orientam meu posicionamento intelectual (basicamente epistemológico) nas áreas da filosofia da ciência, da filosofia política, e da filosofia da religião — e, como seria de esperar nas áreas da ciência, da política e da religião. Meu interesse pela filosofia da educação veio depois desses outros. E pela filosofia da psicologia (e pela psicologia), veio mais tarde ainda.

Em São Paulo, 3 de Novembro de 2019. (Publicado na mesma data também no meu blog Fellow Learnershttps://fellowlearners.com)



Categories: Influences

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