Quem é Dono de Minha Atenção?

Não comprei o livro que vou mencionar adiante porque minha auto-imposta cota de livros para Maio.2020 já foi alcançada. Mas provavelmente ainda vá comprar… A razão? Apesar de eu ser, na condição de um liberal radical, old-style, quase um libertário, no tocante à forma de organizar a sociedade, e, por conseguinte, um defensor do capitalismo, no tocante à forma de organizar a economia, eu sempre tirei disso, para a minha vida pessoal, uma conclusão diferente daquela da maioria das pessoas.

O binômio liberalismo-capitalismo gerou, na tocante à nossa vida pessoal, uma forma de ver as coisas que enfatiza ser eficiente ao máximo, ser produtivo até o limite, fazer o máximo de coisas possível, ser multitarefa, ler tudo que se encontra, ver todos os filmes que aparecem (sem convite), não perder um videozinho que circula no whatsapp ou facebook, etc.

Minha bronca é que o ESPÍRITO DO CAPITALISMO pode nos ajudar a construir uma sociedade produtiva e rica, MAS pode não ser, na vida pessoal, a melhor solução. Prefiro adotar, na vida pessoal, o ESPÍRITO DO LIBERALISMO, que é o seguinte: cada um, com base em seus interesses e talentos, define, elabora e executa um projeto de vida que, uma vez alcançado, represente plena realização pessoal e profissional.

Esse projeto de vida PODE SER um projeto de vida minimalista, MAS focado, concentrado, EM VEZ DE um projeto de vida rico, diversificado, abrangente, esparramado, dispersivo, diluído em inúmeras atividades que terminam por deixar a pessoa extenuada ao final dos dias, das semanas, dos meses, dos anos, da vida por se sentir incapaz de fazer tudo a que se propôs.

DOIS caveats (advertências, ressalvas):

PRIMEIRO: como liberal que leva a sério a sua postura, reconheço plenamente o direito de alguém escolher para si o segundo dos dois tipos de projeto de vida mencionados (o abrangente, esparramado, dispersivo, diluído em função de a pessoa se interessar basicamente sobre tudo o que existe ou acontece, na Terra, no Céu e embaixo da Terra).

SEGUNDO: a se levar em conta a possibilidade de que aqueles que hoje nascem possam facilmente vir a viver até 120 anos, ou mais, será possível que uma pessoa tenha, ao longo de sua vida, MÚLTIPLOS PROJETOS DE VIDA, em sequência (não em paralelo), e até mesmo que eles não sejam necessariamente coerentes uns com os outros, mais ou menos da forma que muitos de nós, hoje, já temos múltiplos casamentos, em série (não simultaneamente). (Nossa poligamia é em série, não em paralelo, como a dos árabes, por exemplo).

Aqui entra o livro que mencionei lá no início, pelo menos aquilo que eu apreendi dele, sem ler o livro por inteiro (a não ser alguns trechinhos iniciais), e lendo as resenhas na Amazon, sem comprar o livro. O título do livro é HOW TO DO NOTHING: RESISTING THE ATTENTION ECONOMY, e sua autora é Jenny Odell, de 2019. (Advirto aos leitores que o livro é meio anti-capitalista em geral, inclusive na forma de organizar a sociedade, e não só no tocante à vida pessoal. Alguns dos meus amigos podem não gostar dessa característica, como eu não gostei).

A autora considera que o espírito do capitalismo, aplicado à vida pessoal, implica uma tentativa desvairada de captar ou CONQUISTAR A SUA ATENÇÃO – ainda que para um comercial de 30 segundos, ou para um sound clip ou um videozinho de 3 minutos. Parece pouco, mas, somados todos os apelos à nossa atenção, believe me, não é.

Esse estilo de vida leva a uma vida extremamente ocupada mas, no fim do dia, nos deixa com a sensação de que fizemos um mundaréu de coisas, mas não o importante e essencial… aquilo que, no fundo, desejaríamos e precisaríamos ter feito.

RECONQUISTAR PARA NÓS MESMOS O DOMÍNIO DE NOSSA ATENÇÃO, não deixar que ela seja dominada pelas demandas dos outros, ser capaz de determinar que, HOJE, não vou fazer nada, e, NOS DIAS SEGUINTES, vou fazer apenas o que realmente importa para o MEU projeto fundamental de vida, vale dizer, para a ESSÊNCIA DA MINHA VIDA, reconhecer que o essencial e importante às vezes é invisível ao olhar, inaudível aos ouvidos, imperceptível ao olfato, ao paladar, ao tato, FIXAR PRIORIDADES, REDUZIR DISPERSÕES, GANHAR FOCO, ALOCAR O TEMPO PARA AQUILO QUE É IMPORTANTE, deixando um mínimo de tempo para as urgências ou encontrando formas de delegá-las. (Isso é quase of “Egoísmo Racional” de Aristóteles e Ayn Rand em sua mais fundamental essência).

Os pais, por vezes, procuram controlar, de forma até totalitária, a atenção de seus filhos. Além da escola regular, matriculam-nos em cursos de Inglês, Robótica, Natação, Judô, Futebol, Piano, etc., não deixando que um minuto sequer da atenção de seus filhos deixe de ser planejado – por eles, pais, naturalmente: nunca pelos próprios filhos. Como é que estes vão aprender a planejar?

Confesso que, apesar de ter escrito um livrinho em 1992 sobre a Administração do Tempo, e apesar de tê-lo resumido em um artigo que é o mais republicado de todos os meus escritos (de forma impressa ou na Internet, com ou sem autorização), “Administrar o Tempo é Planejar a Vida”, eu próprio tenho sido culpado de desenvolver e cultivar interesses demasiados e, talvez, até dispersivos. Agora, que minha vida vai caminhando para o fim, me dou conta de quantas coisas eu ainda gostaria de vir a fazer, mas claramente não vou conseguir (embora me comporte como se fosse), porque, antes, “gastei os minutos sem pena e fiz pouco caso das horas”, como diz um lindo poema de Olavo Bilac que eu decorei na minha infância, e já declamei muitas vezes depois, chamado “O Tempo”. Admito que nem sempre segui o que ele recomenda.

Advirto novamente: esta é minha leitura do livro How to Do Nothing: Resisting the Attention Economy – minha leitura, sem lê-lo por inteiro, tendo lido apenas algumas resenhas e uns trechos iniciais que a Amazon oferece como teaser.

Bom dia a todos.

(Atenção Especial: Paloma Epprecht Machado Campos Chaves, Bianca Epprecht Machado França, Priscilla Epprecht Machado França, Andrea Chaves Wolford).

[PS 1: Faço esses links porque muitas vezes, na loucura que é nossa vida dentro e fora da Internet, os membros de minha própria família não recebem notificações do que eu escrevo e gostaria que eles lessem, em meio da enormidade de coisas que eles lêem, ouvem e vêem.]

[PS 2: Notaram que minha família mais próxima – mulher e filhas – é feita só de mulheres? E ainda falta filha uma que teve o bom senso de sair do Facebook: Patricia Chaves.]

[PS 3: Não se preocupem os leitores com o fato de eu ter voltado a acentuar certas palavras como elas deveriam ser acentuadas antes das mais recentes reformas ortográficas.]

[PS 4: Faz mais de dois meses que, no interesse da minha qualidade de vida e mesmo de minha saúde e sanidade, não ligo a TV. Quando estou num cômodo e alguém liga, acho um jeito, que espero não seja ofensivo, de me remover dali rapidamente.]

[PS 5: Esqueci de colocar o link para o livro na Amazon US. Aqui vai.]

Salto, em O Canto da Coruja, 24 de Maio de 2020.



Categories: Life Projects, Livros, Mental Health, Philosophy, Sabedoria

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