Uma Crônica Bem Antiga: O Engraxate

[Comecei escrever esta crônica no dia 1 de Abril de 2003, e acabei de escrevê-la, e a publiquei em um blog do Google que não existe mais, no dia 25 de Junho de 2003. Era o primeiro ano do governo Lula. Por isso, as alfinetadas aqui e ali. A crônica ficou quase três meses “cozinhando em fogo brando”… Eu às vezes faço isso: começo escrever algo, não fico muito satisfeito com o que produzi, deixo o produto “numa prateleira da estante” (para usar outra metáfora), só o retomando se tiver alguma inspiração que me leve a retomá-lo. Neste caso, devo ter tido alguma boa ideia que me fez retomar a crônica, mas não me lembro qual foi. Afinal de contas, já faz 17 anos!]

Zeca, Profissão: Engraxate

Enfim, retomo a minha rotina…

Hoje minha casa finalmente voltou ao normal, depois do casamento de minha filha mais nova, Patrícia, no sábado atrasado (22.03). Minha outra filha, Andrea, que mora fora, também voltou para casa com minha neta, Olivia, depois de 21 dias aqui no Brasil, e, assim, pude retomar controle do quarto que ela ocupou, que é o local onde fica a minha TV de tela grande, o meu aparelho de DVD, o meu VCR, a minha cadeira do papai e toda minha coleção de filmes em VHS e DVD.

Mas de manhã não queria ficar em casa. Queria andar, bater perna, jogar conversa fora, sem compromissos. Espraiar as ideias. Estava cheio de idas aos shoppings, de outros compromissos vários, etc., e resolvi ir passear no centro da cidade. Gosto do centro de Campinas: do largo da Catedral, do antigo largo do teatro, do Jardim Carlos Gomes (conhecido como Jardim das Palmeiras), e, naturalmente, do Largo do Rosário, na frente do Fórum, que talvez seja o “point” mais famoso da cidade. E quando vagabundeio por lá inevitavelmente decido ter os meus sapatos engraxados (ainda três reais), para poder ter um dedo de prosa com os famosos engraxates do Largo do Rosário — todos eles acima de 70 anos. Há cidades, como Londrina, em que todos os engraxates são todos adolescentes. Em Campinas, não: são todos anciãos – e é bem melhor assim. Não há comparação entre a prosa que se pode ter com uma pessoa com várias décadas de vida e de experiência e com um moleque que nem sabe direito onde fica o nariz (por mais petulante que possa ser a forma desse nasal).

Hoje, pela primeira, vez optei pelo Zeca (nome fictício, para preservar-lhe, tanto quanto possível, a anonimidade). Tem uma cadeira incrementada, com o nome dele escrito do lado através de percevejos coloridos. Dela se tem uma visão privilegiada do movimento de toda a praça. Além do mais, a cadeira tem um guarda-sol e é equipada com jornais e revistas para os clientes — até a revista Playboy. Mas eu queria é conversar com ele, e minha escolha foi acertada: o Zeca é bom de prosa.

Zeca tem 73 anos, dos quais 34 ali como engraxate no Largo do Rosário (onde está desde fevereiro de 1969). O Zeca tem mais tempo de vida ali no largo do que muito cara metido a besta que, tendo comido mortadela a vida inteira, resolve arrotar peito de peru. E está contente com seus quase 35 anos de engraxate ali naquele mesmíssimo lugar. A cidade mudou, mas ele é um ponto de referência. Ali no Largo do Rosário, segundo disse, já riu muito, já fez os outros rirem, mas também já chorou e quase morreu com uma bala perdida que atravessou o peito de um outro homem e se alojou em sua nuca.

Casou-se tarde. Durante esses 34 anos de Largo do Rosário teve e criou quatro filhas, todas mulheres. Teve também um filho homem que morreu aos 23 anos — eu não quis perguntar do que nem ele o disse voluntariamente. A privacidade deve ser respeitada. Embora possa parecer difícil, ao longo desses anos juntou dinheiro suficiente para comprar uma pequena chácara em Hortolândia, onde mora uma de suas filhas e que hoje vale, segundo disse, uns oitenta mil. As outras três filhas ainda moram com ele e a mulher, na cidade de Campinas, mas estão todas bem empregadas. Uma até trabalha no Palácio da Justiça, ali mesmo no largo.

O Zeca tem bom humor, é gozador. Contou-me que de uma árvore ali do largo, perto de sua cadeira, começou um dia cair uma gosma, que se acumulava no chão. Reuniu os engraxates ali de perto, mais o Júlio, dono da banca de revistas e livros usados, e resolveram enganar os vagabundos que todos os dias ficam sentados nos bancos da praça, sem fazer nada, esperando que alguma sorte caia do céu. Disseram a eles que aquela gosma curava tudo o que era dor ou doença. O pessoal começou a aparar a gosma que caía da árvore e passar nos ombros, nas costas, nas pernas, até na nuca… Segundo disse, alguns até comeram a substância pastosa, que, conforme a história já devidamente aumentada, era boa até para azia e úlcera do estômago… Depois de uns dias, ficaram com medo de a polícia descobrir a brincadeira e o Zeca pegou uma vara e cutucou o lugar da árvore de onde saía a gosma curativa: junto com um pedaço da casca da árvore, caíram no chão dezenas de baratas… Foi um fuá. Quase acompanharam dos enganados. Mas o prazer da brincadeira ainda se refletia no seu rosto de moleque maroto, apesar dos seus 73 anos… [Nota atual: em 2003 eu iria fazer 60 anos. Ele tinha 13 anos mais do que eu.]

Aos poucos entrou na conversa um outro personagem, desses que passam o dia inteiro ali no largo, esperando algum bico que milagrosamente aparecesse. O Zeca disse a ele: “Sabe aquele vagabundo do Toninho? Ontem de tarde, depois que eu te dei aquela graninha procê tomar uma Scariol (Schincariol), ele teve a cara de pau de vir me pedir dois real pra almoçar. Eu perguntei pra ele se ele achava que porque eu te dei dinheiro ia dar pra ele também. Falei pra ele que eu te dou dinheiro porque você me faz uns serviços, me quebra um monte de galho, mas que ele é um serve-pra-nada que fica lá parado o dia inteiro, sem tentar arrumar serviço. Ele me disse que ainda não saiu a aposentadoria dele. Eu disse pra ele que quando sair vê se ele guarda um pouco pra não ficar pedindo pros outros no fim do mês”. Comecei a perceber que a filosofia política do Zeca estava numa direção muito mais certa do que a do Presidente Lula, recém eleito e empossado…

O Zeca teve, segundo me disse, várias chances, nos últimos tempos, de arranjar a sua vida — mas não pode aproveitá-las, por culpa exclusiva da mulher. Mulher é bom, refletiu ele, mas às vezes atrapalha um bocado. As três oportunidades que teve envolviam vender a chacrinha que tinha para, em dois casos, abrir um negócio, e, no terceiro caso, comprar um lindo sítio (onze alqueires) perto de Araxá, com córrego e lago, que uma velha amiga, que ficara viúva, um antigo caso da juventude, lhe oferecera por quase nada (ainda se dispondo a esperar que ele vendesse a chacrinha para lhe pagar). Procurou e achou comprador para a chácara, a filha que mora na casa com ele concordou em mudar para Araxá, mas na hora de assinar a escritura… a sua velha empacou: recusou-se a assinar. Resultado: ele continua engraxate e culpa a mulher. Fiquei pensando: por que é que tem mulher que faz dessas coisas com a gente? Mas o interessante é que, pela sua sorte, o Zeca não culpou a globalização, nem os países capitalistas, nem mesmo o governo brasileiro… A responsabilidade foi alocada ali mesmo onde estava, em casa…

Há pequenas coincidências em nossas vidas. O avô dele nasceu na mesma cidade do Triângulo Mineiro em que nasceu meu pai, Patrocínio. Pensei até que pudéssemos ter algum parentesco, mas os sobrenomes não bateram. Era em homenagem ao seu avô que queria tanto poder retornar ao Triângulo Mineiro, com a compra do sítio perto de Araxá.

Entre nós dois mesmos, também há coincidências. Ele nasceu na região de Itápolis e eu em Lucélia, localidades que não ficam muito distantes uma da outra. Ele conhece Lucélia. Informou-me ainda que a gerente do prédio em que funciona o famoso Restaurante do Rosário (que estava bem atrás de nós no largo) também é de Lucélia. Coincidências em um mundo pequeno. Lembrei-me de que só vim encontrar alguém nascido, como eu, em Lucélia, em 1973, quando já tinha 30 anos e trabalhava em Hayward, na Califórnia. Era uma moça que fazia doutorado na Universidade de Berkeley. Não me lembro do nome dela. Deve ser hoje professora universitária em algum lugar. Quem sabe está em greve.

Perguntei ao meu amigo Zeca – a essas alturas já éramos amigos, embora ele, bom profissional, não houvesse perguntado nada acerca de mim – se era melhor morar aqui em Campinas hoje do que em 1970 – e a resposta veio com rapidez: em 1970. Nem se comparam as duas coisas, disse. Hoje Campinas é uma cidade perigosa, cheia de vagabundos, malandros, ladrões, assaltantes, não mais a cidade tranquila, pitoresca e agradável que era na época em que o Quércia era prefeito. Ele idolatrava o Quércia, com quem eu trabalhei no governo do Estado de 1987 a 1990. Ele ficou encantado de saber. Em 1970 os bondes acabavam de ser removidos da cidade. Diz a lenda que o Quércia usou os trilhos removidos das ruas para cercar a sua fazenda em Pedregulho, mas o Zeca acha que isso é pura calúnia dos inimigos do Quércia, que é odiado por muitos porque é muito competente e realizador. De qualquer maneira, a cidade era mais cidade então, e a Lagoa do Taquaral acabava de ganhar a sua caravela, que está lá até hoje — presente do mesmo Quércia.

Por fim, arrisquei-me a perguntar-lhe sobre a guerra. “E o que você está achando dessa guerra, Zeca?” “Guerra é um troço feio”, disse ele, “mas eu acho que o Bush deve dar uma lição nesse filho da puta do Saddam Hussein”. Amém.

Não sei porque, mas quando vi o Zeca pressenti que havia mais sabedoria ali naquele engraxate idoso, representante autêntico “do Brasil profundo” (se posso me apropriar de expressão usada pelos franceses em relação ao seu país), do que num bando inteiro de professores universitários e jornalistas formados. Sapiência se obtém, não na vida da escola, mas na dura escola da vida. Assim rezava uma quadrinha do poeta de Americano Antonio Zoppi, publicada num livrinho chamado Uma Vida que Nasce.

Em lugar dos três reais que me cobrou, paguei seis ao Zeca. Três pela graxa e três pela conversa. A prosa mais do que valeu a diferença. O professor que habita em mim, muitas vezes malgré moi-même, devia ter-lhe dado dez. Mas de vez em quando sou meio pão duro.

Hoje minha filha mais velha faz 30 anos, lá nos Estados Unidos.

Em Campinas, 25 de Junho de 2003. Publicado aqui neste blog em Salto, 25 de Maio de 2020.



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