Decluttering & Desapego, Minimalismo & Essencialismo

Há algum tempo eu formulei uma teoria, que nunca me preocupei em testar formalmente, mas que me parece, além de intuitivamente verdadeira, corroborada por alguns fatos esparsos. Sou da opinião que as pessoas, em geral, se sentem atraídas por coisas (áreas de atuação, profissões, empregos, hobbies, atividades de lazer, etc.) com as quais têm significativa dificuldade – e, em decorrência disso, muitas vezes dedicam sua vida inteira a vencer essa dificuldade. Às vezes conseguem, como Nelson Gonçalves, o gago que se tornou o maior cantor do Brasil na sua época. Outras vezes não conseguem, ou não conseguem tão bem quanto desejavam e esperavam, e, por isso, se frustram. Ainda outras vezes, não conseguem alcançar de todo o seu objetivo, mas mesmo assim não frustram, derivando algum prazer de poder fazer o que lhes interessa, no nível de desempenho que lhes foi possível alcançar.

Que me desculpe, por favor, quem se sentir ofendido. Mas não estou falando apenas dos outros. Falo também de experiência própria. Isso já aconteceu comigo, mais de uma vez.

Nasci em um lar cristão, filho de um dedicado e zeloso pastor protestante (presbiteriano). Filho de pastor tem, em geral, um destino ingrato. Seu pai quer que ele seja um exemplo e um modelo para os demais jovens da igreja – e exige demais dele, mais do que ele consegue entregar, algumas vezes. Um bom número dos filhos de pastor, com a pressão, “espanam”, como parafusos que foram apertados demais. Saem da igreja, vão ser gerentes de banco, fiscais de rendas, gerentes de Recursos Humanos, etc. Os que não “espanam”, por sua vez, não raro decidem se tornar pastores, estudar teologia, para ver se entendem porque a religião exige tanto das pessoas, mais do que elas podem dar, o mais das vezes. Eu hesitei entre ser professor de alguma coisa inócua – línguas, por exemplo, eu era bom na língua materna e em Inglês e Francês – e ir para o Seminário. Resolvi ir para o Seminário. Muito cedo percebi que não ia dar certo, mas insisti. No fim, não deu certo e eu acabei me tornando professor mesmo – não de línguas, mas de algo mais complicado, filosofia. história, educação… e teologia! Mas, no processo, desenvolvi minha teoria, à qual fiz referência no início. Quem se sente atraído pela religião e pela teologia, e a elas, oportunamente, se dedica, normalmente tem problemas ou de crença religiosa (ausência de crença ou crença errada) ou, então, de adoção de conduta que a religião considera imprópria. De igual maneira, quem se sente atraído pela psicologia, e a ela, oportunamente, se dedica, provavelmente tem algum problema psicológico mais sério que quer resolver (os problemas psicológicos mais simples todos nós temos, e a maioria de nós os resolve sem precisar estudar psicologia, sem fazer terapia, e sem se tornar psicólogo). Dizem que Einstein, quando estudante, era péssimo em matemática. Talvez isso explique o que ele se tornou. Ele é um exemplo de desafio enfrentado e vencido, summa cum laude. Conheço alguém que se dedica a tocar o violino durante várias horas, todo dia, hoje a título de hobby, e quando você o ouve tocar, você entende por que ele não se tornou músico profissional (virou engenheiro): ele não tem dom para música, mas tem paixão pela coisa, e não se constrange de tocar mal. (São os amigos que se constrangem ao lhe fazer elogios falsos).  

E assim vai. Eu sei que exagero, mas não renego minha teoria. E ela tem tido aplicações mais simples – inclusive, mais uma vez, na minha vida.

Em 1990 eu tinha duas filhas minhas, um casal de enteados, trabalhava na UNICAMP, era sócio de  uma empresa de treinamento gerencial e consultor de outra empresa de treinamento (em informática). Comecei a ter sérios problemas com a administração do meu tempo. Solução? Resolvi estudar a administração do tempo (e, em 1992, publiquei um livrinho sobre o assunto). Por que fui estudar a administração do tempo? Porque eu era péssimo administrador do meu próprio tempo, simplesmente isso. O livrinho me ajudou muito e fez bastante sucesso, porque eu o escrevi sentindo e vivenciando o problema.

Hoje, 30 anos depois, os meus problemas são outros. De um lado, minha mulher (não a mesma de 1990) acha que eu sou um procrastinador, empurro com a barriga uma série de problemas aqui do meu sítio que eu já deveria ter resolvido. Eu, no bom estilo acadêmico, já cogitei se deveria me dedicar ao estudo da procrastinação, e, quem sabe, até escrever um livrinho sobre o assunto, e resolver o meu problema… – mas, por enquanto, vou procrastinando. Por vamos deixar esse assunto fora da discussão, ok? De outro lado, minha mulher e, neste caso, com minha plena concordância, está convicta de que eu preciso urgentemente proceder ao que os americanos chamam de decluttering aqui em casa. To declutter, em Inglês, é remover, tirar de sua frente, objetos e outros itens considerados desnecessários e/ou ultrapassados, porque o ambiente em que você vive se tornou um lugar congestionado e bagunçado, como, por exemplo, a nossa casa tem se tornado (e isso apesar de, constantemente, arrumarmos um pouco mais de espaço de vivência e armazenamento de tralha aqui e ali – e de jogar fora uma ou outra coisinha simbólica que pouco contribui para a solução do problema).

Admito aqui, de público, diante de quem quiser ler, que tenho uma dificuldade seríssima para fazer isso — declutter, quero dizer… Tenho uma tendência implacável a preservar, guardar coisas, mesmo tralhas, coisas sem maior importância. Detesto jogar coisa fora ou doar coisas como roupas e sapatos velhos, meus cadernos e minhas cadernetas de escola, recibos e notas fiscais que recebi (ou, em cópia, que emiti), comprovantes de pagamento com cartão, cadernos e, mais recentemente, arquivos, com detalhamento de meus ganhos e gastos (contabilidade pessoal e familiar), agendas (físicas ou eletrônicas) com meus compromissos e com os aniversários de parentes e amigos, etc. – pra não falar em coisas importantes, como os meus discos, fitas, arquivos com músicas, filmes, fotografias, revistas, e especialmente, os MEUS LIVROS… Ah, meus livros! Freud provavelmente iria se divertir comigo a propósito de meus livros, embora, imagino, ele tivesse clientes com problemas bem mais atraentes… Se tenho um arquivo que considero importante no computador, faço várias cópias dele e as coloco em diferentes diretórios, pastas, ou mesmo discos externos, para que, se perder uma, eu possa recorrer às outras… Os meus backups preenchem um espaço considerável. Artigos que eu escrevo têm, por vezes, mais de 50 versões diferentes, uma para cada dia em que trabalhei nele, ou momento em que acrescentei ao texto algo mais importante, todas as versões devidamente numeradas e datadas. Além disso, como qualquer um que já leu algo que eu escrevi sabe, eu não sou de poupar palavras. Minha escrita é verbosa, redundante e repetitiva (só um desses termos bastaria, mas eu uso os três), cheia de orações subordinadas e intercaladas, com adjetivos em demasia, etc. E assim vai.

Diante disso, venho, há tempo, dedicando algum tempo e muita atenção ao tema de decluttering, Comprei livros à respeito. Li-os com cuidado. O problema é que, para resolver o problema de decluttering a gente tem de, antes, resolver um outro problema: o do apego irracional às coisas, inclusive às tralhas e quinquilharias… Assim, antes de fazer decluttering, tem de aprender a desapegar-se das coisas sem importância ou de importância menor que fazem parte de sua vida. E isso é mais complicado, porque o apego às coisas, em especial às sem valor intrínseco, está na raiz do “cluttering”. E, no meu caso, o problema é de família. Tenho tios e primos, do lado paterno e materno, que guardam revistas e jornais velhos, embalagens de presentes ganhos ou de coisas importantes compradas, etc. Meu pai, quando morreu, em 1991, deixou um monte de clutter. Fazer decluttering de coisa dos outros, ainda que do pai, é bem mais fácil. Em dois ou três dias limpamos tudo e doamos inúmeros livros, dezenas de camisas e gravatas, e mais de 20 ternos (ele era pastor, lembrem-se disso, e pastor da época dele usava terno e gravata, quando não colete – e não usava toga ou beca, que ele pejorativamente chamava de batina… Não usava nem colarinho clerical, que pouca gente hoje usa).

Digamos que continuo a trabalhar nessa área. À medida que a idade avança a gente sente mais o problema. Ninguém gosta de deixar aos que vão sobrevivê-lo a ingrata tarefa de fazer o seu decluttering. E, hoje em dia, há o decluttering virtual que também precisa ser feito. O Facebook, talvez por causa de minha idade, que tem o mau hábito de avançar a cada ano, sempre me pergunta se eu já tomei providências acerca de quem se responsabilizará pelos meus bens virtuais e processará a “memorialização” das minhas contas e dos meus perfis online. Eu cuido melhor desse acervo de coisas do que do acervo material que continua a aumentar…

Ao longo do estudo e da reflexão sobre desapego e decluttering, eu travei conhecimento com dois outros conceitos que, como esses dois, estão irmanados: Minimalismo e Essencialismo.

Primeiro, o Minimalismo. Não é fácil ser minimalista. Quem primeiro chamou minha atenção para essa área de interesse foi meu amigo Wilson Azevedo. Ele tenta ser minimalista em várias áreas, e, até certo ponto, consegue. Na grafia, por exemplo: ele nao acentua as palavras, evita palavras longas se existem palavras curtas com o mesmo sentido, etc. (Não acentuei nada no período anterior). Na tecnologia (ele é especialista em Educação a Distância), ele não usa equipamentos caros, nem necessariamente os mais recentes, nem software sofisticado, faz tudo na base da simplicidade. Quase tudo que ele usa está disponível gratuitamente na Internet. Admiro isso. Já tentei imitá-lo, mas com muito pouco sucesso.

Há quem ache que Minimalismo é uma espécie de decluttering. E há um sentido em que isso é verdade. Depois de fazer um decluttering radical, se você não mudar sua filosofia de vida na direção minimalista, aprendendo a viver com menos coisas (menos bens e objetos, menos comida, menos espaço, menos luxo, menos diversidade de coisas e estilos, menos viagens, menos dinheiro, etc., logo, mas muito logo mesmo, você estará precisando fazer outro decluttering. Você tem de aprender a viver com menos quase tudo para poder ter mais tempo, mais tranquilidade, mais paz de espírito, e mais dinheiro no banco para uma eventualidade e para um passeio até São Petersburgo e Latvia. É assim que um minimalista vive a vida: não vai a Miami e Nova York gastar grana: vai a Latvia… e, de lá, dá um pulo até São Petersburgo,

Vou falar mais sobre esse tipo de minimalismo mais adiante. Aqui quero apontar para uma diferença muito significativa entre minimalismo e decluttering. O que a gente normalmente chama de clutter é basicamente coisa tangível e material: objeto, tralha, quinquilharia, papel. Minimalismo no plano material ajuda a promover declutter. Mas o minimalismo vai além das coisas materiais. Ele se aplica às realidades mentais e, por que não, religiosas.

Ultimamente tenho me aventurado por essa área perigosa – mas que pode render bons frutos: o Minimalismo Religioso e Teológico. Se conseguir ser bem sucedido, será a culminância de minha emancipação e libertação definitiva nessa área. Esse é um trabalho que eu reputo de grande importância e que alcança muito além do plano pessoal, e isso porque as Religiões e as Igrejas são instituições com tendências bastante invasivas e totalitárias: elas invadem sua vida e tentam controlar toda as suas dimensões, determinando o que você lê, pensa, acredita, como você age, o que veste (roupa muito espalhafatosa ou escandalosa ou, no caso das mulheres, transparente, não pode), se você usa brinco ou colar ou pinta os lábios ou os olhos, se você pode ter cabelo curto (se é mulher) ou longo (se é homem), o que você come e bebe, que tipo de linguagem você usa (palavrão e linguagem vulgar são proibidos), quantas vezes você faz sexo por semana (ou por trimestre, seja qual for o seu termo de referência), se você pode usar algum método anticoncepcional, e qual, etc. A Igreja Católica inventou sete sacramentos para controlar sua vida inteira, do momento em que você nasce até o momento em que você está morrendo: batismo, confirmação (profissão de fé), confissão, comunhão (Santa Ceia, Eucaristia), casamento e extrema unção (quando você está pronto para bater as botas). O sétimo sacramento só se aplica se resolver se tornar um religioso profissional: ordenação. A Reforma Protestante deu uma boa minimalizada: reduziu para dois. Eu até que não tenho tanto problema com as questões que afetam a conduta e o comportamento. Meu problema principal é a tentativa, do parte das Igrejas, e, neste caso, não só da Católica, de controlar e determinar aquilo em que devo acreditar e aquilo em que eu não devo acreditar. Se eu não acredito no que devo acreditar, ou acredito no que não devo acreditar, dentro de um referencial religioso e teológico qualquer, eu enfrento problemas — e problemas bastante sérios. Na Idade Média e começo da Idade Moderna o herege (que é quem não acredita certo ou que acredita errado) podia morrer – e muitos morreram na fogueira, bem passados. Tenho um respeito e uma simpatia incomensuráveis por com eles. Escravizar o corpo é fichinha perto da escravização da mente. E é isso que a Igreja tenta fazer. Todo mundo pensando, igualzinho, a mesma coisa.

A lista de doutrinas que um presbiteriano deve endossar com sua crença, e que se encontram nos chamados Símbolos de Fé de Westminster (Confissão de Fé, Catecismos, Ordem de Culto) é quase infindável e, em alguns casos, no meu modesto jeito de ver as coisas, intragável. Se é inviável tornar o Presbiterianismo, talvez a mais confessional das Igrejas Protestantes, uma igreja não-confessional, é necessário, com urgência, promover a minimalização dessas crenças. Reduzi-las ao estritamente essencial. Transformar a Confissão de Fé de Westminster em algo que possa ser impresso em uma folha de papel sulfite… E é aqui que o Essencialismo entra, como parceiro indispensável do Minimalismo. Para fazer uma minimalização significativa é preciso ter enorme clareza sobre o que é essencial, de primária importância, e o que é secundário, terciário ou mesmo não é de nenhuma importância. O trabalho não será nem fácil, nem rápido. Mas ele é urgente.

Em 1903 a Igreja Presbiteriana do Brasil se dividiu (nascendo a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil) por causa de algo que sempre me pareceu uma não questão: se o presbiteriano pode também ser maçom. Isso é questão para dividir uma Igreja? E a Confissão de Fé de Westminster nem fala nada sobre maçonaria.

Em 1938-1940 foi a vez da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil se dividir. Sobre uma questão importante, você imagina, como a divindade de Cristo ou a Santíssima Trindade? Não. O que causou a divisão foi esta questão: depois da morte e do juízo final, o que acontece com aqueles que Deus rejeita e condena, ou aqueles que ele simplesmente não elegeu para si? Eles vão padecer no fogo eterno do Inferno para sempre agonias indescritíveis e sem fim, ou eles vão ser simplesmente aniquilados. Os mais conservadores (porque conservadores eram quase todos) defendiam a tese de que os não-eleitos deveriam padecer para sempre misérias e suplícios sem fim. Os menos conservadores achavam que essa punição eterna era exagerada, e que bastava que Deus os aniquilasse de uma vez. Mais ou menos como Calvino sugeriu em relação a Michel Serveto na Genebra de 1553: cortem a cabeça dele que é mais humano do que deixá-lo queimar em fogo lento… Que diferença faria para os crentes de 1940 o que Deus faria com os condenados, rejeitados e não-eleitos, se eles, os que se julgam eleitos, vão todos gozar as delícias do céu? Mas os mais e os menos conservadores resolveram dividir a Igreja por causa dessa questão. Isso deixou os liberais tão desgostosos que eles resolveram também sair: criaram uma terceira Igreja.

[Há um debate interessante no YouTube sobre esse assunto: Vide https://www.youtube.com/watch?v=tDzIucHoHdA .]

Se uma minimalização não for feita com urgência nas crenças da Igreja, nós, os mais velhos e experientes, dentro da Igreja, estaremos obrigando os membros da Igreja, e, o que é pior, os seus pastores, a fingir e a mentir – ou, no mínimo, a ocultar aquilo em que acreditam e, mais grave, aquilo em que não acreditam mas têm de fazer de conta que acreditam. Eu, por exemplo, não conheço ninguém que, em sã consciência, no mais recôndito de sua privacidade, acredite que um nenê que morreu algumas horas depois de nascer, e que não estava entre os eleitos, mas que, em sua curta vidinha, não fez absolutamente nada, muito menos algo pecaminoso, vai padecer para sempre no fogo do Inferno.

Para quem concorda comigo, essa é a única alternativa – além de deixar a igreja e, quem sabe, achar uma outra igreja que seja menos maximalista, mais flexível, e mais disposta a enfrentar a realidade.

Em outros artigos vou dar mais exemplos concretos. Aqui, para concluir este artigo, só vu dar um exemplo: o Cristianismo minimalizou o Judaísmo, e, por isso, foi um progresso. Ignorando todas as outras leis que regulamentam a conduta (o Pentateuco está cheio delas), os Judeus tinham o Decálogo: Dez mandamentos. Eis o que diz São Paulo em sua Carta aos Romanos:

“9 Os seguintes mandamentos: ‘Não cometa adultério, não mate, não roube, não cobice’ — esses e ainda outros mais são resumidos num mandamento só: ‘Ame os outros como você ama a você mesmo.’ 10 Quem ama os outros não faz mal a eles. Portanto, amar é obedecer a toda a lei. 11 Vocês precisam fazer todas essas coisas porque sabem em que tempo nós estamos vivendo; chegou a hora de vocês acordarem, pois o momento de sermos salvos está mais perto agora do que quando começamos a crer. 12 A noite está terminando, e o dia vem chegando. Por isso paremos de fazer o que pertence à escuridão e peguemos as armas espirituais para lutar na luz. 13 Vivamos decentemente, como pessoas que vivem na luz do dia.” (Romanos 13:9-13a – NTLH).

Minimalizada legal, essa, não? De dez para um. Santo Agostinho, que era fã de São Paulo, resumiu ainda melhor: “Ama e faz o que quiseres”.

A única alternativa real à minimalização da religião é ser cético, não acreditar em nada, não fazer parte de nenhuma igreja (nem mesmo secular ou atéia). Até ser ateu virou problemático. As pessoas vêm você fazendo alguma coisa, como lendo Santo Agostinho, ou indo na Festa de Natal da igreja, e lhe fustigam: : você não é ateu, o que você está fazendo lendo um santo ou indo à igreja?

Dizem que um dia perguntaram a Machado de Assis se a Capitu (em Dom Casmurro) era culpada ou inocente do adultério insinuado no livro (com o melhor amigo de seu marido Bentinho)… Só ele poderia tirar a dúvida de vez, posto que inventou a história e a Capitu. Ele teria respondido algo assim: “Talvez culpada… Mas sei lá, quem sabe inocente?” O cético consistente e consequente, se indagado se ele acredita em Deus, responde mais ou menos como Machado de Assis: “Talvez sim (tem hora que sim), quem sabe não (tem hora que não).” Ou: “Se eu estou em apuros, frequentemente sim; quando tudo vai bem, quase nunca…”. Então você é ateu, é a pergunta seguinte. A resposta deveria ser na mesma linha. David Hume, sobre quem escrevi minha tese de doutoramento, é considerado ateu por muitos dos seus intérpretes, mas ele próprio, em conversa como os philosophes franceses, disse que nunca havia encontrado um ateu na vida… Para ele, o ateu é tão crente quanto o fiel que frequenta a igreja com regularidade impecável e que só tem crenças e pensamentos religiosamente corretos no ambiente e no contexto em que vive. Só que o ateu tem sinal trocado. Quem não participa desse jogo é o cético.

Mas até os céticos são criticados e vilipendiados… O único remédio, parece-me, é ser minimalista em questões religiosas e teológicas: só fazer e acreditar no mínimo indispensável. Mesmo aqui, resta um problema: qual é esse mínimo? Ofender o mínimo possível, correr o mínimo de riscos.

Mas, ao estudar a questão, me defrontei com o fato de que o Minimalismo hoje está quase virando uma religião. Dei uma busca (minimalista) no Facebook e acabei encontrando dezenas de páginas e grupos defendendo o Minimalismo, como se fosse uma religião, como o Veganismo ou o Comunismo. Há muita gente defendendo algum tipo de Minimalismo. Uns defendem o Minimalismo escrevendo MINIMALISMO… Por que não minimalismo? Outros defendem o Minimalismo propondo Menos Coisas – mas, também, Mais Experiências. Por que não Menos Coisas E Menos Experiências? Não experimentar drogas não é algo bom? Outros propõem Minimalismo Financeiro, Minimalismo nas Compras (“Fique um ano sem comprar nada”), Minimalismo na Conduta (“Faça cada vez menos?”), Minimalismo  na Comida (“Coma cada vez menos [de qualquer coisa]?” Ou “Coma cada vez menos carne [ou carboidratos, ou doce, ou qualquer outra coisa considerada ruim para o seu organismo]”, Minimalismo na Educação e na Criação dos Filhos, e, inevitavelmente, Minimalismo na Religião.

É desse último que eu gosto mais.

E perdão por um artigo maximalista sobre o Minimalismo.

Em Salto, 30 de Dezembro de 2021 [Revisado em 31.12.2021 com um novo editor, “MarsEdit”]



Categories: Autobio, Autobiography, Minimalism

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