Acabei de ver/ouvir uma discussão no Instagram em que uma mulher preta discute com um homem branco o que a seguir se expõe [1].
É lugar comum na “cultura” atual no Ocidente afirmar que alguém que biologicamente (será que há uma alternativa?) nasceu homem, com pênis, saco escrotal, e tudo o mais, pode, a partir de um dado momento de sua vida, decidir que não é mais homem, mas, sim, mulher, e tomar hormônios para que seus peitos cresçam e se tornem mamas, amputar cirurgicamente o seu pênis e o seu saco escrotal, construir, também cirurgicamente, uma vulva e uma vagina entre as pernas, remover, por hormônios e depilação os pelos de sua face e, se for o caso, de seu peito, etc., exigindo do governo e da sociedade que as pessoas e os documentos reconheçam sua nova identidade como feminina, etc. e que as entidades que controlam o esporte lhe permitam exercer a modalidade de esporte pela qual opte entre as mulheres [2]. (A operação no sentido oposto também ocorre o tempo todo.)
Parece lógico – na verdade, para mim (e para a mulher mencionada na Nota 1) é lógico, não apenas parece – que alguém que biologicamente nasceu mulher, e, além de mulher, de cor preta, e que veio a desenvolver cabelo bem crespo, lábios cheios, etc., sendo identificada ao nascer como de cor preta ou de raça negra, possa, a partir de um determinado momento de sua vida, decidir, mais ou menos como o fez Michael Jackson, “branquificar” a cor de sua pele, alisar seu cabelo, e alterar alguns traços de sua feição, para se “transificar” não só para a cor branca, mas para a raça branca. (Sei que usar o termo “raça”, em casos assim, está fora de moda, mas é difícil dizer a mesma coisa com outros termos.) A transracialidade (?) parece ser algo totalmente análogo à transsexualidade. (O homem mencionado na Nota 1 tenta discordar, mas não consegue apresentar fatos e argumentos convincentes). Se isso faz sentido, há mais de um tipo de “transificação”.
Mas passemos à segunda parte do título.
Imaginemos ainda que a mulher que é biologicamente negra do exemplo do terceiro parágrafo decida, simultaneamente ou em momento diferente, que não é mais mulher, mas, sim, homem, e toma providências, com drogas e medicamentos, ou por cirurgia, para remover os seios, fortalecer os músculos, remover o útero e os ovários, costurar a vulva e a vagina, e implantar um pênis artificial. Nesta hipótese, a originalmente mulher negra se transforma, através de duas “transificações”, uma racial e a outra sexual, em um homem branco. Por que a gente (ou melhor, a esquerda) não considera isso algo normal e plenamente aceitável, como no caso da transexualidade?
Será que, neste caso, seria lícito atribuir ao homem branco “bitrans” as características de machismo, paternalismo, etc. que são, não raramente, atribuídas a quem é homem branco de nascença?
Com a ajuda inestimável do debate mencionado na Nota 1, ficam colocados estes dois problemas… Primeiro, o da aparente inviabilidade de normalizar a transracialidade, pelo menos ao mesmo nível da transsexualidade (a despeito de Donald Trump). Segundo, o da raridade de múltiplas transificações em uma só pessoa.
[1] Vide https://www.instagram.com/reel/DREmZ3jjupG/?igsh=bmM0d3dvcnBoNDg5 .
[2] Nas últimas Olimpíadas houve várias controvérsias sobre o assunto. Fora do esporte, é oportuno lembrar- o caso do crítico de cinema Rubens Ewald Filho que, em Março de 2018, comentando o Oscar, disse algo como “essa pessoa que vocês vêem na tela não é uma moça, mas um rapaz”, perdeu seu emprego na Rede TNT exclusivamente em decorrência de sua observação, que refletiria “transfobia”. Vide, dentre as inúmeras referências na mídia, as seguintes: No Correio Braziliense, https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2018/03/05/interna_diversao_arte,663867/comentarista-do-oscar-na-tv-diz-que-mulher-trans-e-na-verdade-um-ra.shtml; e no Portal UOL, que pertence ao Grupo Folha da Manhã, https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2018/03/05/oscar-transfobia-e-critica-sexistas-de-rubens-ewald-filho-revoltam-a-web.html/
Eduardo CHAVES
Em Salto, 25 de Novembro de 2025 (25.11.25)
Categories: Liberalism
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