The Bridges of Madison County

Há filmes de que eu gosto porque defendem uma causa nobre. Scent of a Woman (Perfume de Mulher), por exemplo, detona o preconceito e o autoritarismo de escolas privadas de elite. Casablanca denuncia as dores e os sofrimentos que a guerra causa e mostra a nobreza de almas que não pareciam tão nobres.
 
Mas há filmes, como The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison), que simplesmente revelam a beleza do amor e o sofrimento que o amor às vezes causa por chegar, sem pedir licença, em contextos em que os relacionamentos, ainda que não muito satisfatórios, já estavam estabelecidos e acomodados.
 
Os que não têm sensibilidade vêem, em casos assim, como nesse filme, apenas mais um caso de traição. É o caso do filho de Francesca Johnson (Meryl Streep) na história, na primeira metade do filme. Ele não conseguia entender que sua mãe pudesse ter traído seu pai. Para ele, era só disso que se tratava.
 
O caso de amor (no meu modo de ver, infelizmente) não foi levado adiante em seus aspectos mais exteriores e explícitos. Mas sobreviveu nas sombras e foi vitorioso no final.
 
Que o caso de amor sobreviveu fica evidente, primeiro, no conteúdo do baú que ela deixou, que continha as heranças dela e dele: as cartas entre os dois, o diário que ela escreveu, a carta-relato que deixou para os filhos, as câmeras dele — Robert Kincaid (Clint Eastwoord) — enviadas para ela quando ele morreu, e, segundo, no fato de que as cinzas dele foram, segundo pedido dele, jogadas no rio que passava por debaixo da ponte coberta do Condado de Madison, ponte que simbolizava o amor dos dois.
 
Que o amor foi, ao final, vitorioso fica evidente no fato de que as cinzas dela, segundo instruções explícitas contidas no seu testamento, eram para ser juntadas às dele nas águas do mesmo rio, a partir do mesmo lugar.
 
O simbolismo sugere que a eternidade, eles a passariam juntos. Juntos, não apenas até que a morte os separasse, mas juntos, simplesmente por toda a eternidade. 
 
O casamento de Francesca com seu marido acabou com a morte: primeiro ele se foi, depois ela. Mas o amor entre Francesca Johnson e Robert Kincaid, não: ele permaneceu por toda a eternidade, vencendo a morte dos dois. Acho isso magnífico como proclamação de que o amor tudo vence – mesmo quando parece que foi derrotado. Clint Eastwood é meu diretor favorito por ter sido capaz de compreender isso e incorporar essa mensagem num belíssimo filme.
 
The End of the Affair (Fim de Caso), o belíssimo filme baseado no livro de Graham Greene, com o mesmo título, proclama a mesma mensagem. Ali também o amor vence ao final, depois de lutar contra o estigma da traição (no caso, agravado por ser em relação a um amigo), o tumulto e o sofrimento causado pela guerra, a agonia da desconfiança e da dúvida, e até o câncer que trouxe a ela uma morte prematura. Ao final marido dela os perdoou, compreendendo que o casamento dele com ela nunca alcançara a dimensão de profundidade que o amor entre ela e seu amigo chegou a atingir. Quando ela morre, os três estão morando juntos, sem qualquer ciúme e conflito. O marido reconheceu a superioridade do amor à realidade medíocre de um casamento tornado burocrático – ou, possivelmente, que nunca fora algo maior do que isso.
Em Salto, 2 de Setembro de 2016. Em celebração antecipada do dia 6 de Setembro.
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Categories: Filmes, Uncategorized

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